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VONTADE DE VIVER

Rgine Deforges

Traduo de
MARIA EUGNIA S DA BANDEIRA

EDITORA BESTSELLER

A BICICLETA AZUL-2

Ttulo original: 101, Avenue Henri-Martin
 Copyright - ditions Ramsay,
1985
Direitos exclusivos da edio em lngua portuguesa no Brasil
adquiridos por EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
que se reserva os direitos desta traduo.
EDITORA BESTSELLER
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So Paulo, SP.

A Minha Filha, Camilie


VONTADE DE VIVER

Resumo do volume anterior

PIERRE E ISABELLE DELMAS, naquele princpio de outubro de 1939,
vivem
felizes em suas terras das vinhas de Bordus, em Montillac,
rodeados
pelas trs filhas, Franoise, La e Laure, e por Ruth, a fiel
governanta. La tem dezessete anos. De grande beleza, herdou do pai
o
amor pela terra e pelas vinhas, onde cresceu junto a Mathias
Fayard, o
filho do administrador, seu companheiro de brincadeiras,
secretamente
apaixonado por ela.
1? de setembro de 1939. Em Roches-Bianches, propriedade dos
Argilat,
amigos dos Delmas, festeja-se o noivado de Laurent d'Argilat com a
prima, a doce Cainille. Renem-se os tios e a tia de La com os
filhos:
Luc Delmas, advogado, com Philippe, Corinne e Pierre; Bernadette
Bouchardeau e seu filho Lucien; Adrien Delmas, o dominicano, que 
tido
na famlia como revolucionrio. Tambm l esto os apaixonados de
La,
Jean e Raul Lefvre. S La no compartilha o regozijo desse dia;
est
apaixonada por Laurent, e no pode conformar-se com aquele noivado.
Conhece Franois Tavernier, elegante e cnico, um homem ambguo e
senhor
de si. La, por despeito, fica noiva de Claude d'Argilat, irmo de
Camille. No mesmo dia, eclode a guerra:  a mobilizao geral.
La assiste desesperada ao casamento de Camille e Laurent. Doente,
sob
os cuidados do mdico da famlia, o doutor Blanchard, adia a data
do
casamento. O noivo morre nos primeiros combates. La vai a Paris,
para a
casa de suas velhas tias, Lisa e Albertine de Montpleynet. Ali
volta a
encontrar Camille e Franois Tavemier, por quem sente um misto de
dio e
atrao. Tambm encontra Raphael Mahl, escritor homossexual,
oportunista, inquietante, e Sarah Mulstein, uma jovem judia alem
fugida
dos alemes.
Laurent parte para a frente e pede a La para cuidar de Camilie,
que
espera um filho e cuja sade  delicada. Apesar disso, ambas fogen
da ocupao, pelas estradas do xodo, sob bombardeios, em condies
dramticas. Em seu caminho, La, aflita, cruza-se por acaso com
Mathias
Fayard, que lhe d um momento de ternura, e Franois Tavernier, que
lhe
revela o prazer fsico. A assinatura do Armistcio permite s duas
jovens voltarem para sua terra, onde ir nascer o pequeno Charles,
com a
ajuda de um oficial alemo, Frederic Hanke.
O dia do regresso foi um dia de luto: Isabelle, a me querida de
La,
morrera num bombardeio. O pai lentamente mergulha na loucura,
enquanto a
propriedade  requisitada e se organiza uma vida precria, feita de
privaes e de dificuldades. La, Camille e o pequeno Charles
encontram
Laurent, que fugira da Alemanha, escondido em casa dos Debray: ele
passa
para a clandestinidade. No seio das vilas, das famlias, d-se a
diviso
entre os adeptos irredutveis de Ptain e os partidrios de uma
luta
pela liberdade. Instintivamente, La pertence a estes ltimos.
Inconsciente do perigo, serve de correio aos combatentes
clandestinos.
Quanto a Franoise, sua irm, ama um ocupante, o tenente Kramer.
Mathias
Fayard mantm com La uma ligao difcil, tanto mais que seu pai
cobia
a propriedade. Repelido por ela, parte para o Servio de Trabalho
Obrigatrio.
Esmagada sob o peso das responsabilidades, La volta a Paris, para
a
casa de Lisa e Albertine de Montpleynet. Partilha o seu tempo entre
a
transmisso de mensagens para a clandestinidade e a vida mundana da
Paris da ocupao. Com Franois Tavernier, tenta esquecer a guerra
no
Maxim's, no Ami Louis ou no pequeno restaurante clandestino de
Andrieu.
Encontra tambm Sarah Mulstein, que lhe abre os olhos sobre os
campos de
concentrao, e Raphael Mahl, que se dedica  mais abjeta
colaborao.
Nos braos de Franois Tavernier, sacia sua nsia de viver. Mas
Montillac precisa dela: a falta de dinheiro, a avidez do pai
Fayard, a
razo vacilante do pai, as ameaas que pesam sobre a famlia
d'Argilar,
so realidades que ela deve enfrentar sozinha. Nos subterrneos de
Toulouse, graas ao padre Adrien Delmas, volta a encontrar Laurent
e se
entrega a ele. De volta, o tenente Dohse e o comissrio Poinsot
interrogam-na. Ela passa a dever sua salvao  interveno do tio
Luc.
Como seu pai recusa a idia de um casamento com o tenente Kramer,
Franoise foge. E mais do que Pierre Delmas pode suportar, e ele 
encontrado morto. O padre Adrien, o tio Luc, Laurent e Franois
Tavernier renem-se brevemente para o enterro. Depois de um ltimo
abrao em comunho com a doura da terra de Montillac, La fica de
novo
s com Camille, Charles e a velha Ruth, diante de seu precrio
destino.

Prlogo

FOI NA noite de 20 para 21 de setembro de 1942 que, depois de muito
calor, comeou a chover, e um vento frio para a poca, comeou a
soprar
no esturio da Gironde, subindo ao longo da Garonne.
Durante todo o vero, violentas trovoadas, por vezes' acompanhadas
de
granizo, tinham preocupado os vinhateiros. O ano anunciava- se
medocre.
No relgio da catedral de Saint-Andr soaram horas.
Em sua cela do forte de H, Prosper Guillou e o filho Jean foram
despertados por fortes pancadas na porta. Na obscuridade, cada um
por
vez foi satisfazer suas necessidades, sentando-se depois nos catres

espera da luz e da poro de gua escura que lhes servia de caf.
Jean
pensava na mulher, Yvette, internada na caserna Boudet e da qual
no
tinha notcias desde aquele dia de julho em que, s cinco da manh,
a
Gestapo e a polcia tinham invadido sua propriedade de Violettes,
em
Thors. Revia a captura dos pais e daquele casal de militantes
comunistas, Albert e Elisabeth Dupeuron, que viera buscar as armas
destinadas ao grupo de resistentes F.T.P., de Bordus.
Gabriel Fleureau, marceneiro, deu um grito e acordou sobressaltado.
Assim acontecia todas as noites, desde os interrogatrios a que
aqueles
dois porcos da brigada do comissrio Poinsot o tinham sujeitado.
Com
sadismo, partiram-lhe todos os dedos da mo direita. Mas ele no
falou.
Buscando coragem no amor que sentia por Aurora, a jovem que
entregava
regularmente no cais da Salinire, na loja de mveis do senhor
Cadou,
panfletos que Bergua e ele prprio deviam distribuir. Ignorava que
a
amiga tambm tinha sido presa. Com precauo, tentou mover os dedos
doloridos.
No catre vizinho, Ren Antoine levantava-se resmungando. A
lembrana de
seu filhinho Michel, de dez anos, estendendo para ele os braos e
murmurando "Paizinho", levado e aprisionado com Hlene, sua me, na
caserna Boudet, perseguia-o. Com certeza tinham sido denunciados,
para
que os alemes descobrissem o estoque de armas escondido em Bgles,
no
fundo de seu jardim.
Tambm era essa a opinio de Ren Castera. O pai, a me e o irmo
Grabiel tinham sido presos em 8 de julho, e ele, no dia 14. H dois
anos
que a famlia escondia judeus e clandestinos, e levava sua ajuda s
famlias dos presos. Tal como Ren Antoine, estava sem notcias dos
seus.
Em outra cela do andar trreo, Albert Dupeyron tentava reconfortar
Camilie Perdriau, de apenas vinte anos. Isso evitava que pensasse
na
jovem esposa, Elisabeth, presa no mesmo dia que ele.
Alexandre Pateau cerrava os punhos ao recordar os maus-tratos
infugidos
a Yvonne, sua mulher, diante do pequeno Stphane, de quatro anos.
Ambos
pertencentes  Resistncia, tinham sido surpreendidos em sua casa
na rua
de SajntAndrde-Cognac e levados para Cognac e depois para o forte
de
H.
Quanto a Raymond Bierge, s se interrogava sobre quem teria sido o
sujo
que os denunciara, a Felicienne, sua mulher, e a ele, por
esconderem em
casa material de impresso. Deus permitisse que a av tratasse bem
o
pequeno!
Jean Vigneaux, de Langon, espantava-se por se lembrar to bem da
garota
por quem seus amigos Raul e Jean Lefvre estavam apaixonados, a
encantadora La Delmas. A ltima vez em que a vira, pedalava de
cabelos
ao vento, pela estrada que conduzia  propriedade de Montillac.
Nas celas acenderam-se as luzes uma a uma. Os prisioneiros piscaram
os
olhos e lentamente se levantaram. Desde a vspera que sabiam.
Durante toda a noite o vento tinha soprado em rajadas, infiltrando-
se
por baixo das portas e pelas tbuas toscas das barracas do campo de
Mrignac, trazendo um pouco de ar aos homens estendidos nos
desconfortveis colches metlicos mal cobertos por acolchoados
nojentos. Eram cinco da manh, os prisioneiros no dormiam.
Lucien Valina, de Cognac, pensava nos trs filhos, sobretudo no
pequeno
Serge, que acabava de completar sete anos, to mimado por Margot,
sua
mulher. Os alemes tinham-nos metido com brutalidade numa
camioneta!
Onde estariam eles agora?
Grabriel Castera pensava no pai, Albert, que abraara quando vieram
busc-lo, poucas horas antes, para o conduzirem quele campo um
tanto
afastado dos outros. A lembrana das lgrimas correndo pela face
do velhote era intolervel. Felizmente Ren, seu irmo mais velho,
estava l.
O corao de Jean Lapeyrade se comprimia quando ele olhava para
Ren de
Oliveria, esse jovem de quem ignorava o nome e que havia tocado
gaita
durante parte da noite para esconder o medo. Como era jovem!
''Berthe,
onde voc est?''
"No eduque o pequeno num esprito de dio ou de vingana",
escrevera
Franc Sanson  mulher.
No campo reinava um burburinho pouco habitual. Pela porta,
brutalmente
aberta, Raymond Rabeaux viu os caminhes da Wehrmacht rodeados por
dezenas de soldados de fardas verde-acinzentadas. O ar frio e mido
surpreendeu-o. Ainda estava muito escuro. As lanternas trazidas
pelos
guardas iluminavam grandes poas de gua. Os alemes colocavam
diante da
porta uma metralhadora pronta para funcionar. A gaita havia se
calado.
Eles sabiam desde a vspera.
O adjunto do diretor Rousseau, que conversava com um oficial
alemo,
dirigiu-se para a barraca.
V, saiam quando chamarem pelo vosso nome, no faam esperar estes
senhores, apressem-se. Espagnet, Jougourd, Castera, Noutari,
Portier,
Valina, Chardin, Meilier, Voignet, Eloi...
Um a um, os detidos saram empurrados pelos soldados, alinharam-
se,
levantaram as golas dos casacos e enfiaram os bons ou as boinas.
- Avancem, subam para os caminhes. Jonet, Brouillon, Meunier,
Puech,
Moulias...
Franc Sanson, com a ligeireza dos seus vinte e dois anos, foi o
primeiro
a saltar.
Do campo subia uma espcie de murmrio. Por detrs das janelas de
cada
barraca estavam os prisioneiros avisados misteriosamente. Um,
depois
dois, depois dez, depois cem, depois mil, comearam a cantarolar a
Internacional. Um bramido enorme fazia arfar os peitos e chegava
junto
dos que partiam, para lhes manter a coragem e a dignidade. A lama,
a
chuva, os apitos dos guardas e o prprio medo tinham-se esvado
pelo ar
magnfico, portador de esperana.
Eram sete da manh. Os caminhes que partiam de Boudet, do forte de
H e
do campo de Mrignac rodavam pela estrada de Souges. A passagem dos
carros, as mulheres faziam o sinal da cruz e os homens tiravam os
chapus. Na entrada do campo militar, os caminhes diminuram a
marcha.
No interior, os prisioneiros iam perdidos em seus pensamentos,
indiferentes aos quatro soldados que lhes apontavam as armas.
 Os solavancos do caminho cheio de buracos atiravam-lhes uns contra
os outros.
Os caminhes pararam. Os soldados afastaram os toldos, baixaram as
guardas e saltaram para a areia.
- Schnell... Schnell... Aussteigen...1
Os prisioneiros, agrupados a um canto, entreolhavam-se e
maquinalmente
contavam-se. Setenta. Eram setenta homens que desde a vspera
sabiam que
iam morrer.
Depois de um atentado cometido em Paris contra um oficial alemo,
Karl
Oberg, o chefe das S.S. e da polcia, e Helmut Knochen, tinham
exigido
do governo de Vichy uma lista de cento e vinte refns. Quarenta e
seis
prisioneiros dos campos de Compigne e de Ramainvilie preenchiam as
condies requeridas. Wilhelm Dohse, da Gestapo de Bordus,
completara a
lista.
- Gabriel!
- Ren!
Os dois irmos Castera caram nos braos um do outro.
Cada um tinha esperado ser o nico a morrer...
Um oficial rechonchudo colocou-se na frente dos refns e leu
qualquer
coisa; certamente a sentena. Que lhes importava? De repente, uma
voz
jovem ergueu-se acima da do alemo:
- Alions enfants de lapatrie...
le jour de gloire est arriv...
contre nous de la tyranie...
l'tendard sanglant est lev...
Tmido a princpio, o canto irrompe diante dos inimigos. Eles no
compreendem as terrveis palavras da primeira estrofe do hino
nacional
francs, mas sabem que, por causa delas, daquele frio rebanho nasce
uma
horda a gritar vingana.
.Entendez-vous dans nos campagnes, rugir ces froces soldats...
De cinco em cinco metros ergue-se um poste. Ao longo da rampa de
areia
h dez, diante dos quais vm por si mesmos colocar-se dez homens.
Atam-nos aos postes e eles recusam a venda nos olhos. Um velho
padre
trmulo abenoa-os. O peloto de execuo fica a postos. Uma ordem
soa.., a primeira salva foi disparada... com o impacto das balas,
os
corpos estremecem e lentamente tombam...
Vamos... Vamos... Desam...

As vozes fizeram uma pausa imperceptvel, depois ressoaram mais
fortes
ainda naquela manh chuvosa.
- Aux armes, citoyens...
Setenta vezes  dado o golpe de misericrdia.
Os corpos dos supliciados so jogados numa grande fossa cavada por
trs
da rampa.
A chuva parou. Um sol plido ilumina com seus raios a clareira. Um
odor
de cogumelos e de pinheiros mistura-se ao da plvora. Junto dos
postes,
o sangue brilha misturado com a gua das poas lentamente absorvida
pela
areia.
Misso cumprida, os soldados partem novamente. So nove da manh,
nas
dunas de Souges, perto de Bordus, em 21 de setembro de 1942.

Captulo 1

DEPOIS DA MORTE de Pierre Delmas, sua irm, Bernadette Bouchardeau,
tentara dirigir os negcios da casa. A vontade da boa mulher era
evidente, assim como sua incapacidade para gerir uma propriedade
como a
de Montillac.
Sentada no escritrio do irmo, espalhava os papis, gemendo para
Camille d'Argilat que se propusera a ajud-la.
- Meu Deus! Que vai ser de ns? No compreendo nada de nmeros. 
preciso consultar Fayard, o administrador.
- V descansar, minha senhora, vou tentar decifrar melhor.
- Obrigada, minha querida Camille,  bem valente - disse ela ao
levantar-se -... La devia fazer um esforo - continuou ela tirando
os
culos - para mim tambm  difcil, mas fao um esforo.
Camilie dissimulou um sorriso.
- A senhora  mais forte, com certeza.
- Com certeza - murmurou Bernadette Bouchardeau.
"Como  estpida esta mulher", pensou Camille.
- Boa-noite, minha filha. No se deite muito tarde.
A porta fechou-se sem barulho. Uns passos pesados na escada, o
ranger do
dcimo degrau, depois, de novo, o silncio, perturbado de vez em
quando
por uma rajada do vento frio de novembro, que fazia estremecer as
paredes e tremer as chamas na lareira. Camille, de p, no meio da
sala
quente, olhava para o fogo sem o ver. De repente uma acha quebrou e
caiu, lanando fagulhas de brasa no tapete. A jovem sobressaltou-se
e
correu para as recolher com uma pina. Aproveitou para jogar outra
cepa
no fogo, que provocou um crepitar mais intenso e alegre.
Apertou o cinto do roupo e voltou a sentar-se diante da secretria
de
Pierre Delmas.
Camille trabalhou durante toda uma parte da noite, s levantando a
cabea para esfregar a nuca dolorida.
No relgio soaram trs horas.
- Voc ainda no se deitou! - exclamou La ao entrar.
- Voc tambm no, ao que me parece disse Camille com um sorriso
terno.
- Vim procurar um livro, no consigo dormir.
- Tomou os comprimidos que o doutor Blanchard lhe deu?
- Sim, s servem para me entorpecer durante todo o dia.
- Diga-lhe, e ele poder lhe dar outros. Voc deve dormir.
- Eu bem que queria, mas ao mesmo tempo tenho medo. Logo que
adormeo o
homem de Orlans aparece com a cara coberta de sangue e avana para
mim... tenta me apanhar e diz: "Por que me matou, sua
prostitutazinha?
Anda, minha linda, anda, vou lhe mostrar como  bom fazer amor com
um
morto. Tenho certeza de que voc gosta disso. Hein?... Esterco,
gosta
disso, de carnia, voc:..''.
- Basta! - gritou Camille sacudindo-lhe os ombros. - Pare!
Com ar alucinado, La passou a mo pela testa, deu alguns passos,
deixando-se cair no velho sof de couro.
Voc no pode imaginar...  pavoroso, sobretudo quando ele me diz:
"Basta de brincadeira. Agora vamos encontrar seu pai, ele est 
nossa
espera em companhia de seus amigos, os vermes..
Cale-se...
- "...e da sua querida me". Ento eu o sigo chamando por minha
me.
Camille ajoelhou-se e abraou-a, acariciando-a como se adormecesse
seu
filho, o pequeno Charles, quando um pesadelo o precipita de sua
cama,
gritando.
- Venha, acalme-se. No pense nisso. Ns o matamos, ns duas.
Lembra-se?
Fui eu quem atirou primeiro. Julgava que j estava morto.
-  verdade, mas fui eu e s eu quem o matou.
- Voc no tinha escolha, era ele ou ns. Seu tio Adrien lhe disse
que
no seu lugar teria feito a mesma coisa.
- Ele s disse isso para me animar. Voc o v?... Um dominicano?...
Matar um homem?
- Se fosse preciso, sim.
- Foi o que Laurent e Franois Tavernier me disseram. Mas estou
convencida de que Adrien  incapaz de tal coisa.
Basta sobre isso. Acabei de me esclarecer sobre as contas de seu
pai. A
situao no  brilhante. No compreendo nada da maneira cono
Fayard
trabalha. Economizando poderamos nos sair dos apuros.
- Como voc quer que se restrinja mais? - exclamou La
levantando-se. -
S comemos carne uma vez por semana, e que carne! Se fossemos
menos,
talvez chegssemos l, mas assim...
Camille baixou a cabea.
- Eu bem sei que somos um encargo pesado para voc. Mais tarde, vou
lhe
reembolsar tudo o que gastou conosco.
- Est louca! No era isso que eu queria dizer!
- Bem sei - disse Camille tristemente.
- Oh! No faa essa cara. No se pode lhe dizer nada.
- Perdoe-me.
- No tenho nada a lhe perdoar. Voc faz a sua parte do trabalho...
e
at a minha neste momento.
La afastou os duplos cortinados. A luz da lua iluminava com sua
fria
claridade o cascalho do ptio, enquanto o vento tentava arrancar as
ltimas folhas da grande tlia.
- Voc acredita que a guerra ainda vai durar muito? - perguntou
ela. -
Toda a gente parece achar normal que o governo de Vichy colabore
com a
Alemanha...
- No, La. Nem toda a gente. Olhe  nossa volta. Conhece pelo
menos uma
dezena de pessoas que continuam a luta...
- E o que  uma dezena em face de centenas de milhares que gritam
todos
os dias: "Viva Ptain"?
- Dentro em breve seremos centenas, depois milhares a dizer no.
- J no acredito nisso... Todos pensam apenas em no passar fome
nem
frio.
- Como pode dizer semelhante coisa? Os franceses ainda esto sob o
choque da derrota, mas a sua confiana no Marechal desvanece. Mesmo
Fayard dizia-me outro dia: "Senhora Camilie, no acha que ele vai
longe
demais, o velho?", e, no entanto, Fayard...
- Ele queria lhe enganar. Bem o conheo.  um espertalho. Tenta
saber o
que voc pensa, para se servir disso quando lhe for necessrio.
Para
ele, TRABALHO, FAMILIA, PATRIA significam alguma coisa.
- Para mim tambm, mas no  bem o mesmo.
- Preste ateno. O seu nico intento  tomar-nos Montillac. No
recua
perante nada. Alm disso, est persuadido que o filho Mathias
partiu por
minha causa.
- E me parece que  isso, no acha?
- No  verdade - exclamou La, encolerizada. - Pelo contrrio,
tentei
det-lo. No  por minha culpa, se ele no quis saber e preferiu ir
para
a Alemanha ganhar dinheiro, em vez de trabalhar em Montillac.

- Minha querida, est exagerando, sabe bem por que foi que ele
partiu...
No!
Porque a amava.
E, ento, lindo negcio! Se gostasse de mim como voc diz, devia
ficar
aqui para me ajudar e impedir o pai de nos roubar.
- Ele tambm poderia ir ao encontro do general De Gaulie, mas
compreendo
que quisesse partir.
- Voc  indulgente demais.
- No acredite nisso. Compreendo, porque se trata de amor... No
sei o
que teria feito nas mesmas circunstncias que Mathias ou
Franoise...
Talvez tivesse agido como eles.
- Voc fala bobagens. Voc jamais se deixaria engravidar por um
alemo
como a pobre Franoise.
- No fale assim de sua irm.
- Deixou de ser minha irm. Foi por causa dela que meu pai morreu.
No 
verdade, o doutor Blanchard disse que seu corao estava
cansado h muitos anos, e que apesar das splicas de sua me, ele
sempre
se recusou a se cuidar.
No quero saber. Se ela no tivesse partido, ele ainda estaria vivo
-
exclamou La escondendo o rosto nas mos, os ombros sacudidos pelos
soluos.
Camilie conteve um movimento de ternura que a atraa para a amiga.
Como
 que La podia ignorar quele ponto os sentimentos dos outros?
" o que faz a sua fora - dizia Laurent. - Ela apenas quer ver o
imediato. Avana, e s depois faz as perguntas. No por falta de
inteligncia, mas por excesso de vitalidade.''
La reteve-se para no bater o p como quando era criana. Voltou-
se
para Camille.
- Pare de me olhar assim. V deitar, voc no viu com que cara
est?
- Tem razo, estou cansada, Voc tambm devia dormir. Boa-noite.
Camille aproximou-se para beij-la. La deixou-se beijar com
indiferena
e no lhe retribuiu o beijo. A moa no disse nada e saiu da sala.
Furiosa com Camilie e consigo mesma, La colocou mais uma acha na
lareira, pegou no armarinho da biblioteca o cobertor escocs com o
qual
seu pai gostava de se cobrir, apagou a luz e estendeu-se no div.
No ficou muito tempo contemplando as chamas. Logo seu movimento a
fez
adormecer.
Desde a morte do pai, muitas vezes La passara a noite naquele
lugar to
querido, o nico onde seus fantasmas familiares no a vinham
importunar.
O frio despertou La. "Preciso pegar meu edredon", pensou. E abriu
as
cortinas tendo a curiosa impresso de estar nas nuvens, de to
espesso
que era o nevoeiro. No entanto, por detrs daquela neblina,
adivinhava-se a luz. "Vai fazer bom tempo", pensou. Com gestos
precisos,
reanimou o fogo e ficou se aquecendo por um momento. Maquinalmente,
contou as horas que soavam no relgio. Onze! - Eram onze horas!...
Por
que a teriam deixado dormir tanto?
Na grande lareira da cozinha, um fogo alto de sarmentos iluminava
com
chamas ardentes o amplo aposento obscurecido pelo nevoeiro que no
se
levantava. Na mesa, coberta por uma toalha impermevel azul, estava
sua
xcara vazia e seu guardanapo, onde havia um brioche. Com gesto
guloso,
La cheirou deliciada o bolo apetitoso. "Isto foi Sidonie quem
fez",
pensou. Num canto do fogo estava a antiga cafeteira de esmalte
azul.
La serviu-se de caf, que de caf s tinha o nome. Felizmente, o
leite
disfarava-lhe o gosto.
Enquanto comia perguntava-se: "Em que dia estaremos, para haver
brioche?". A resposta lhe foi dada, quando ergueu os olhos e viu um
grande nmero 11. Onze de novembro... Sidonie tinha querido
festejar a
seu modo o fim da guerra de 14. Com um sorriso sem alegria, La
ergueu
os ombros. Quando se veria o fim daquela guerra? H mais de dois
anos
que ela durava!... Hoje, 11 de novembro de 1942, a Frana
continuava
cortada ao meio; cada vez mais numerosos, os jovens recusavam-se a
ir
trabalhar para a Alemanha e refugiavam-se nas montanhas ou nas
florestas, formando bandos em busca de um chefe, vivendo
freqentemente
da generosidade dos habitantes, e muitas vezes do roubo. Em seu
setor,
Laurent d'Argilat estava encarregado de reagrupar esses refratrios
e de
os incorporar nas foras de resistncia que se tinham constitudo.
Laurent... No tinha voltado a v-lo desde o enterro do pai. Uma
vez,
Camilie, sua mulher, tinha ido v-lo em Toulouse, deixando-a morta
de
cimes. E Tavernier, que seria feito dele? Teria podido pelo menos
querer saber notcias dela. No era ele o seu amante? Por causa
dele,
tivera o maior susto da sua vida: estar grvida. Esse falso alarme
tinha-lhe feito compreender melhor o desespero da irm, Franoise,
cujo
beb no tardaria a nascer. Franoise lhe escrevera uma carta,
suplicando-lhe que fosse para o nascimento do filho. Fechada em seu
desgosto e na raiva, La no respondera.
- Camille, Ruth, La, tia Bernadette! - gritava Laure entrando na
cozinha.
- Que aconteceu? - perguntou La, levantando-se.
- Laure,  voc quem est gritando assim? perguntou Ruth, entrando,
por
sua vez...
Esbaforida, a irm mais nova de La no conseguia falar.
Pela porta que dava para a rua, Fayard entrou seguido pela mulher.
- J ouviu?...
- Ouvi o qu? Fala! - disse Ruth.
- Os boches...
- O qu? Os boches! - exclamou La.
- Invadiram a zona livre - gritou Laure.
La deixou-se cair na cadeira. A sua frente, Camille, que ela no
vira
entrar, apertava contra si o filho, que, julgando tratar-se de uma
brincadeira, ria muito.
- Ouvimos isso na T.S.F. - disse Fayard.
- Na Rdio-Paris disseram que a indenizao diria de ocupao
estava
fixada em quinhentos milhes. Como se vai fazer para arranjar tanto
dinheiro? - acrescentou sua mulher.

Captulo 2

A CASA DAS SENHORAS Montpleynet havia mudado muito desde a ltima
estada
de La em Paris. Os dois apartamentos situados no mesmo andar e
ligados
por uma porta de comunicao, que outrora transbordavam de vida,
estavam
agora enregelados. As duas irms e a criada viviam em quatro peas;
as
nicas que conseguiam aquecer um pouco. Os trs quartos ao fundo do
corredor e o apartamento completo de Albertine estavam abandonados,
os
mveis cobertos, as persianas fechadas, e as lareiras geladas. As
senhoras haviam se decidido por essa restrio. Batizaram de "casa
fria"
tudo aquilo que no podiam aquecer e nunca punham os ps ali.
Uma carta esbaforida de Albertine - o que no lhe era habitual
tinha
feito La se precipitar no primeiro trem para Paris depois de uma
espera
de meio dia no aglomerado da estao de Saint-Jean de Bordus. A
sua
chegada  rua da Universidade, Estelle, a governanta e criada que
fazia
tudo para as irms Montpleynet, envolta em xales coloridos,
abraou- a
com evidente satisfao, repetindo, como para se convencer melhor:
- At que enfim, senhorita La, at que enfim...
- Que aconteceu, Estelle, onde esto minhas tias? Esto doentes?
- Senhorita La, se soubesse...
- La, enfim, voc aqui! - exclamou Lisa, com um casaco de peles
por
cima do roupo.
Pouco depois, Albertine apareceu, seguida por um homem que segurava
um
estojo de mdico. Sua tia o acompanhara at a porta, dizendo:
- Boa-tarde, doutor, at amanh.
La olhou com espanto para as trs mulheres.
- Mas, afinal, podem dizer-me quem est doente?
- Sua irm Franoise - respondeu Albertine.
Esta resposta deixou La sem fala. Depois, da surpresa passou 
clera.
A dureza de suas observaes fez Lisa desfazer-se em soluos.
- Compreenda-nos, no podamos deix-la sozinha e doente, nesse
hotel,
sua me no nos perdoaria nunca - disse Lisa de Montpleynet,
enxugando
os olhos com seu leno mido.
 intil insistir, cumprimos nosso dever de parentes e de crists
- rematou secamente sua irm Albertine.
Em p, no salo parisiense das tias, La mal conseguia conter a
raiva.
- La, La,  voc - disse uma voz fraca por detrs de uma porta
que se
abriu lentamente.
No umbral estava Franoise, com o ventre proeminente mal
dissimulado por
um cobertor.
Albertine precipitou-se.
- O que faz em p? O mdico proibiu que se levantasse.
Sem escutar a tia, Franoise avanou para a irm estendendo-lhe os
braos. O cobertor descaiu-lhe dos ombros e revelou a enormidade do
seu
ventre, acentuado pela camisola muito apertada, e pela magreza de
seu
rosto.
Caram nos braos uma da outra.
- Oh! La, obrigada por ter vindo.
La conduziu-a para o quarto, pouco mais quente que o salo.
Logo que se deitou, a jovem tomou a mo da irm, que levou aos
lbios
murmurando:
- Voc veio...
- Acalme-se, minha querida, no v ficar pior disse Albertine,
compondo-lhe as almofadas.
- No, minha tia, a felicidade nunca fez mal. La, conte-me tudo.
Tudo o
que aconteceu em Montillac.
Duas horas depois, as duas irms ainda conversavam.
La no se atrevia a sair da cama quente e fofa na qual se
espreguiava
desde que acordara. A idia de se levantar e de se vestir com tanto
frio, era insuportvel. Ah! ficar na cama, bem quente at o fim do
inverno... At o fim da guerra...
Lembrava-se surpreendida do prazer que sentira na noite anterior,
ao
evocar com Franoise os momentos felizes de sua infncia. Durante
alguns
instantes, tinham descoberto entre si uma cumplicidade que at ali
no
haviam notado. Deixaram-se com a impresso de terem se
reencontrado; no
entanto, evitavam cuidadosamente o assunto que preocupava a ambas:
o
nascimento da criana e o futuro de Franoise.
Bateram  porta. Era Esteile com uma bandeja do caf da manh.
- O qu? Acar de verdade! - exclamou La, levantando-se. - Como
conseguiu?
-  a primeira vez em trs meses. Em sua honra! Conseguimos
arranj-lo
graas a um amigo da senhora Muistein, um escritor, segundo parece.
- Raphael Mahl?...
- Sim,  isso mesmo. Um senhor de maus modos. Outro dia avistei- o
na
esplanada Deux Margots com um jovem oficial alemo, que ele
abraava
pela cintura e lhe falava ao ouvido. Todos se desviavam deles com
vergonha.
La dissimulou um sorriso que a velha criada no teria
compreendido.
- Eu contei a cena s senhoras, dizendo-lhes que nunca mais deviam
receber semelhante pessoa - continuou Esteile. - A senhora Lisa
respondeu-me que eu via o mal em toda parte, que o senhor Mahl era
um
perfeito cavalheiro e que graas a ele no se morria completamente
de
fome. Quanto  senhora Albertine, disse-me que no podamos confiar
nas
aparncias. O que a senhorita pensa disso?
- Conheo pouco o senhor Mahl, Esteile. Mas mesmo assim direi s
minhas
tias que tm de ser prudentes com tal personagem.
- Pus uma vasilha de gua quente no banheiro e acendi o radiador
eltrico. No aquece muito, mas sempre descongela a atmosfera.
- Obrigada, Esteile, eu tomaria um banho...
- Um banho! H meses que a banheira no se enche. As senhoras vo
ao
banho pblico uma vez por semana.
- Ah! Gostaria de v-las, no devem sequer despir-se para entrar na
gua.
- No  gentil zombar, senhorita La. A vida aqui  dura. Temos
frio,
temos fome. E tambm temos medo.
- De que vocs tm medo? No arriscam grande coisa.
- Quem sabe, senhorita? Lembra-se da senhora do primeiro andar com
quem
suas tias s vezes tomavam ch?...
- A senhora Lvy?
- Sim. Pois bem, os alemes vieram prend-la. Ela estava doente e
eles a
tiraram da cama e a levaram de camisola. Dona Albertine avisou o
senhor
Tavernier...
- Tavernier?..
- . . .para lhe pedir para averiguar.
- E ento?...
- Quando ele chegou, alguns dias depois, estava muito plido, com
um ar
que dava medo.
- E que disse ele?
- Que a tinham levado para Drancy, depois dali para um campo na
Alemanha
com mil outras pessoas, principalmente mulheres e crianas. Depois
da
partida da senhora Lvy, o apartamento est ocupado por uma atriz
que
leva boa vida e que recebe oficiais alemes. Fazem uma algazarra
dos
diabos. Ningum se atreve a reclamar, com medo das represlias.
- Quando  que o senhor Tavernier veio aqui pela ltima vez?
- H mais ou menos trs semanas. Foi ele quem insistiu com as suas
tias
para que recebessem Franoise aqui em casa.
La sentiu as pancadas do corao se acelerarem, Franois ocupava-
se
das tias e da irm...
- Vou deix-la, senhorita. Parece que na rua deBuci vai haver uma
chegada de peixe ao meio-dia. E preciso que eu no chegue tarde
demais
se no quiser s espinhas.
La vestiu-se, rpida, colocou sobre a camisola de l um casaco
preto e
uma saia, calou meias grossas e assim, ridiculamente trajada, foi
at o
qarto da irm.
Sentada na cama, enrolada em casacos e xales cor-de-rosa que
realavam
sua tez, Franoise, com um rosto mais calmo, cuidadosamente
penteada,
olhava para La, sorrindo.
- Bom-dia, dormiu bem? - perguntou. - Eu h muitos meses que no
dormia
to bem. Graas a voc.
Sem responder, La beijou-a.
- Ainda bem que voc est aqui. Vou me restabelecer depressa. No
quero
faltar  estria da pea de Henry de Montherlant: "A Rainha Morta".
- Quando ser?
- Em oito de dezembro, na Comdia Franaise.
- Oito de dezembro! Mas  depois de amanh!
E ento? O beb s chega daqui a um ms e eu me sinto muito bem.
Esperar
um beb no  uma doena. Ver quando chegar a sua vez.
- Nunca, espero.
- Por qu?  to maravilhoso esperar um filho do homem que se ama.
Diante do rosto fechado de La, Franoise compreendeu que tinha ido
longe demais. Corou, ao baixar a cabea. Depois, usando de toda a
coragem, ergueu o olhar e disse com uma voz trmula:
- Seio que pensa. Tentei convencer-me de que havia feito mal em
amar
Otto. Mas no consegui. Tudo nele me agrada: sua bondade, seu
amor pela msica, seu talento, sua coragem, mesmo sendo alemo. A
nica
coisa que desejo  que a guerra acabe. Compreende, no  verdade?
Tente
compreender.
La no conseguia pensar naquela situao com calma e coerncia.
Dentro
de si, qualquer coisa de profundo se revoltava contra aquele amor
que a
chocava. Ao mesmo tempo compreendia muito bem tudo o que Otto e
Franoise tinham de comum. Se no fosse alemo, teria sido um bom
cunhado, encantador.
- O que voc pretende fazer? perguntou.
- Casar com ele logo que chegue de Berlim e que obtenha autorizao
de
seus chefes. Promete-me assistir ao meu casamento? Eu te peo,
promete-me?
- Tudo depender da ocasio. Se for durante as vindimas ou na
primavera,
no poderei.
Vai arranjar tudo - disse Franoise, sorrindo, feliz por no ter
recebido uma recusa formal. - Otto  maravilhoso, escreve-me todos
os
dias, e tem tantos cuidados comigo e com o beb. Deixou-me aos
cuidados
de Frederic Hanke. Deve se lembrar dele, ajudou-a no parto de
Camilie.
- Sim, em caso de necessidade, ele sempre poder substituir a
parteira.
Isto foi dito com uma ironia to maldosa que Franoise no pde
conter
as lgrimas. La envergonhou-se de sua brutalidade. Talvez tivesse
pedido perdo  irm se naquele momento no tivesse entrado tia
Albertine.
- La, chamam-na ao telefone... Franoise?... Que tem?
- Nada, minha tia, um pouco de cansao.
- Al! Quem fala?
-  voc mesma, La Delmas?
- Sim, sou eu. Quem fala?
- No me reconhece realmente? No tem bom ouvido?
- No. Diga-me quem , ou eu desligo.
- Sempre desenvolta, estou vendo. Vamos, minha amiga, faa um
pequeno
esforo.
- No tenho vontade de fazer esforos, e acho este gnero de
brincadeira
muito estpido.
- No desligue. Lembra-se de Chapon Fin, das cerejas de Mandei, da
Petite Gironde, da igreja de Sainte-Eulalie, da rua de Saint
Gens...
- Raphael!
- Levou tempo!
26

- Desculpe-me, mas tenho horror a esses mistrios telefnicos. Como

que soube que eu estava em Paris?
- Estou sempre muito bem informado sobre tudo o que diz respeito
aos
amigos. Quando  que nos vemos?
- No sei, acabo de chegar.
- Passo a s cinco horas para o ch. No se incomode com nada,
levo
tudo o que for preciso. Contente-se em ferver a gua.
- Mas...
- Como est sua encantadora irm e as suas tias?... D-lhes os meus
cumprimentos. E at logo, minha amiga. Eu me alegro por voltar a
v-la.
Raphael Mahl desligou, deixando La espantadssima. Como teria ele
sabido? Estremeceu da cabea aos ps, sentindo um grande mal-estar.
- No fique a parada nesse saguo gelado, vai apanhar um
resfriado,
minha querida.
A voz de Lisa a fez sobressaltar-se.
- H quanto tempo viram Raphael Mahl?
- No me lembro. Talvez h uns quinze dias.
- Nessa ocasio ele viu Franoise?
- No, ela chegou no dia seguinte  sua visita e depois disso ainda
no
saiu daqui. Mas para que todas essas perguntas?
- Foi Raphael Mahl quem me telefonou, e eu me perguntava como ele
sabe
que estou em Paris.
- Foi por acaso.
Com algum como ele, no acredito no acaso. Lisa encolheu os ombros
num
gesto de indiferena.
- Ah! Esqueci-me, ele vem para o ch.
Mas no temos nada.
Ele disse que, excluindo a gua, trazia tudo.
Mal acabavam de soar cinco horas no relgio da sala quando a
campanhia
da porta retiniu. Esteile, que vestia sobre a blusa de sempre um
impecvel avental branco com babados, foi abrir a porta. Meio
escondido
por um monte de embrulhos cheios de fitas, Raphael Mahl entrou.
- Depressa, querida Estelle, ajude-me, seno todas as guloseimas
vo
cair no tapete.
Resmungando, a criada o ajudou.
- Raphael, est estupendo!
- La!
Antes de avanarem um para o outro, olharam-se longamente, como se
o
olhar quisesse abarcar, de uma s vez, todos os detalhes.
Tudo os opunha - sua concepo de vida, da amizade, do amor
-, mas uma atrao amigvel contra a qual no lutavam, os atraa um
para
o outro. Dos dois, era Raphael quem se levantava mais interrogaes
sobre aquilo que ele chamava "a parte de si mesmo no atingida pela
podrido". Ele, o trapaceiro, o mentiroso, o ladro, o informante
da
polcia, o colaborador da Gestapo, o judeu, o cronista ocasional de
Je
Suis Partout, de Gringoire, do Pilori e dos Nouveaux Temps! Seu
anti-semitismo quase chocava os eminentes diretores e redatores
dessas
publicaes, que apesar disso tinham por profisso, "troar do
judeu"...
Sentia-se, diante de La, como o irmo mais velho que quer proteger
a
irmzinha contra as imundcies da vida.
- Linda amiga, o que voc faz para me encantar os olhos e a alma
cada
vez que a vejo?
Ela riu, com aquele riso um tanto rouco que perturbava homens e
aborrecia as mulheres, e beijou-o no rosto.
- Tenho certeza de que estou errada, mas gosto de tornar a v-lo.
Por
que ser que na mesma frase diz uma coisa agradvel e outra
no? Vamos, sou um bom prncipe, s recordo o agradvel. Dizia, ao
ver-me entrar, que me achava estupendo? Estou numa elegncia, no 
verdade?... Mas do que mais me orgulho  dos meus sapatos. Nada
mal, no
acha? Custaram-me uma fortuna. Mandei-os fazer sob medida no
Herms.
- Onde foi buscar tanto dinheiro? Com certeza assaltou alguma
velhota,
ou vendeu o corpo a algum capito alemo, rosado e gordo, ou
prostituiu
algum de segunda classe, de pele tenra?
- No anda muito longe. Que quer, querida amiga, o homem cria uma
felicidade  sua medida, e o mais das vezes o dinheiro  sua
pequena
medida... Tendo constatado que sem dinheiro a felicidade, enfim, a
pobre
felicidade que sou susceptvel de encarar, me fugiria, decidi
arranj-lo. Nada mais fcil neste momento. Tudo est  venda: os
corpos
e as conscincias. Eu, segundo as circunstncias, vendo ora um ora
outro
ou ambas as coisas se o comprador  generoso.
- Voc  ignbil. -
- O bem  to imperfeito que deixou de me interessar.  um grande
erro,
minha querida amiga, considerar que o homem  um ser razovel. O
poder
de pensar no confere razo. Sempre tive a convico de que sentir
prazer por coisas razoveis era o princpio da mediocridade. 
preciso
que um dia escreva o "Elogio da Mediocridade". Isso far sensao
no
reino das letras. Enquanto espero a elaborao dessa obra- prima,
permita que v cumprimentar as suas tias e sua irm.
No quarto de Franoise, numa mesinha redonda, coberta com uma
toalha
bordada, estava posto o servio de ch dos grandes dias.
- Esvaziou todas as padarias e doceiras de Paris exclamou La ao
entrar
no quarto, diante dos pratos cheios de chocolates, de ''petits
fours''
de doces e frutas cristalizadas.
- No est longe da verdade, tive um trabalho para arranjar tudo
isso;
os "petits fours" cobertos de acar so de Lamoureux, na rua de
Saint-Sulpice, os de creme do Guerbois, na rua de Svres, o bolo de
chocolate, claro, foi de Bourdalouse, os salgados de Galpin, na rua
do
Bac, e o resto no Debauve, e no Galais, rua dos Saints-Pres,
"fornecedores dos antigos reis de Frana!''.
- Ns tambm, antes da guerra, nos abastecamos em todos eles
- suspirou Lisa, com um olhar de cobia para tanta guloseima.
- Quanto ao ch - continuou Raphael, tirando do bolso uma caixa -
foi-me
trazido da Rssia por um dos meus amigos.  delicioso, forte e
perfumado. Vocs me diro.
- Muito obrigada, senhor Mahl, est nos mimando. Como poderemos
agradecer-lhe tanta coisa boa?
- Comendo-as, minhas senhoras.
Durante alguns minutos s se ouvia o barulho do mastigar. Franoise
foi
a primeira a declarar que no podia comer mais nada, logo seguida
por
Albertine e Raphael. Apenas Lisa e La continuavam a se
empanturrar.
Suas mos iam da mesa  boca com uma rapidez prodigiosa. A tia e a
sobrinha eram como duas garotas mal-educadas cujos dedos e o rosto
lambuzados mostravam a sofreguido. A sonora gargalhada de Raphael
Mahl
sobressaltou-as. Inquietas, olharam em volta como se temessem que
lhes
levassem o resto dos doces.
- No tem vergonha, Lisa? disse Albertine num tom falsamente
severo.
Corando, baixou a cabea.
- Se deixassem, voc sequer pensaria na pobre Estelle - continuou a
irm
sem rodeios.
- Tinha fome. Perdoe-me. Voc tem razo, vou levar-lhe um prato.
No 
preciso que se zangue.  to bom - exclamou ela com um ar to
contrito
que todos desataram a rir, inclusive a prpria Albertine.
J tinha cado a noite quando Raphael Mahl se despediu. La
acompanhou-o
at  porta.
- Preciso v-la a ss. Podemos almoar amanh?
- No sei nada. Voc me d medo... No consigo acreditar que seja
to
mau como me diz e, no entanto, uma estranha repulsa me
diz que devo desconfiar de voc.
- Oh! Como tem razo, minha amiga. Nunca desconfiar
suficientemente de mim. Eu j lhe disse, creio, que s se trai aqueles
que
amamos. Sou um apaixonado pelas Sagradas Escrituras, e no a
surpreenderei se disser queJudas  meu personagem preferido, meu
amigo,
meu irmo, meu ssia. Aquele por quem todo o mal devia vir; aquele
que
no tinha escolha para que se realizasse o que estava escrito. Ele,
o
mais inteligente, o intelectual do grupo, devia trair aquele que
amava
com amor. E, por esse ato para o qual estava destinado desde toda a
eternidade, Judas, o discpulo, Judas, o traidor, est condenado
at o
fim dos tempos.  injusto, no acha?
- No sei. Judas nunca me apaixonou.
- Pois  pena.  o nico verdadeiramente interessante dentre os
doze,
com exceo daquele simptico Joo, com sua cara de anjo, o
companheiro
preferido de Jesus, o amiguinho vincou ele, diante do olhar
interrogativo de La. - Pois, como sabe, eles eram to maricas como
loucos.
- Voc  que  louco.
- E pederasta.
- Se minhas tias o ouvissem blasfemar assim, nunca mais o deixariam
entrar.
- Ento vou calar-me. Adoro a companhia das velhas senhoras. Da
espcie
feminina, so as nicas suportveis. A exceo de voc e de minha
amiga
Sarah Mulstein. A propsito, tem notcias dela? H dias e dias que
nada
sei a seu respeito.
Era ento a que queria chegar... La estremeceu, um gosto
nauseabundo
na boca. Foi seca e rapidamente que respondeu:
- Tambm no sei de nada.
- Mas est com frio! Sou um animal em ret-la neste saguo glacial.
V
aquecer-se junto de sua simptica irm. Conhece seu futuro esposo?
Um
homem de uma grande cultura, com grande futuro pela frente. Uma
aliana
dessas  o que h de mais til no momento. Seu tio dominicano ir
fazer
esse casamento?
Um pavor abjeto passou por La.
- Minha querida, est batendo os dentes... est to plida.., ser
minha
culpa se adoecer. Deve estar com febre.
Raphael com toda a solicitude tomou-lhe o punho.
- No me toque, sinto-me bem - exclamou ela, arrancando com
violncia a
mo daquele falador.
- At amanh, querida amiga, telefonarei ao fim da manh. At l
repouse
porque precisa, seno os seus nervos podem lhe pregar uma pea.

Captulo 3

No DIA SEGUINTE, La saiu muito cedo da rua da Universidade para
no
estar quando Raphael telefonasse.
Tinha passado mal a noite, relembrando incessantemente as palavras
de
Raphael, uma ameaa para os seus amigos e sua famlia. Tinha
absolutamente de prevenir Sarah Mulstein e o tio Adrien Delmas. O
desconhecimento do local onde se encontravam e o receio de cometer
uma
imprudncia causavam-lhe uma angstia delirante. Quem poderia saber
onde
Sarah e o dominicano estavam escondidos? Franois: Franois
Tavernier,
com certeza.
No dia do enterro de seu pai, ele a tinha feito decorar um endereo
onde
ela poderia encontr-lo ou deixar-lhe um recado, em caso de
urgncia.
Naquele momento, pensara que ele podia esperar que ela viesse
encontr-lo em Paris, e se apressou em esquecer o endereo. Que
dissera
ele?... Perto da Etoile. Avenida.., avenida.., parecia estar na
ponta da
lngua. Um general do Imprio ou um marechal: Hoche Klber,
Marceau,
Klber... Klber, era isso mesmo: avenida Klber... nmero 32,
avenida
Klber. Levantou-se para anot-lo com_medo de esquec-lo de novo e
adormeceu em seguida, pensando: " preciso que amanh mesmo queime
ste
endereo."
Estava um dia bonito mas frio. La caminhava na avenida Raspail com
um
passo rpido em direo ao cruzamento Svres Babylone,
confortavelrnente
aquecida no suntuoso casaco de vison que Franoise lhe emprestara,
os
cabelos escondidos sob uma boina da mesma pele, calada com botas
forradas, um pouco grandes para ela.
Os raros pedestres, o mais pobremente vestidos, fitavam aquela
jovem
elegante que parecia zombar das restries e do frio. Encantada por
encostar o rosto quele plo sedoso, La nem notava os olhares
hostis ou cheios de desprezo. Caminhou mais devagar diante da livraria
Gallimard. O jovem moreno que apreciava os romances de Marcel Aym,
arrumava os livros na vitrine. Seus olhares se cruzaram, ele
reconheceu-a e sorriu, enquanto lhe mostrava o livro que tinha na
mo:
o autor era Raphael Mahl. ''Gide'', leu ela na capa. Este
''encontro''
reavivou sua angstia. Apressou o passo. Ao passar em frente do
apartamento de Camilie e de Laurent, abandonado no pnico de junho
de
40, ela s teve um olhar indiferente.
As bandeirolas e insgnias nazis flutuavam na fachada do hotel
Lutcia,
ornamentos lgubres, chocantes naquele belo dia de sol. Nos degraus
da
entrada, muita gente discutia, rodeando dois oficiais alemes'.
Entre
eles.., no, no era possvel. Para se certificar, La atravessou e
forou-se a diminuir o passo diante do grupo. No se enganara. Era
mesmo
Franois Tavernier, que parecia muito bem, junto daqueles dois
alemes.
Com as pernas bambas, La sentiu-se mergulhar no desgosto. As
lgrimas
rolaram pelo seu rosto, sem que pudesse cont-las, O cmulo da
humilhao: chorar diante daquele malandro e seus sinistros
companheiros.
- Aqui est uma linda senhora que tem todo o ar de ter um grande
desgosto - disse um dos oficiais ao notar a moa.
Franois Tavernier seguiu o olhar do interlocutor. No era
possvel...
era mesmo ela: a nica mulher que conhecia capaz de ficar bonita
mesmo
chorando.
- Desculpem, meus senhores,  minha irmzinha. Perdeu seu cozinho,
comove-se com tudo.
- Grande farsante - disse um dos civis, batendo-lhe no ombro.
- Mais uma das suas conquistas. Bravo, meu caro, tem muito bom
gosto.
Que frescura. Deveria ter vergonha de guardar uma beleza destas s
para
si. Leve-a a um dos nossos jantares.
- No deixarei de faz-lo. Desculpem-me, meus senhores. At j.
Desceu rapidamente as escadas, agarrou o brao de La e levou-a
consigo.
- Por favor, faa um ar natural, esto nos observando.
Durante algum tempo caminharam em silncio, atravessaram a rua do
Cherche-Midi e subiram a rua Assas.
- Largue-me, posso andar sozinha.
Franois obedeceu.
- Sempre o mesmo jeito simptico. Estou feliz por ver que voc no
mudou
e constato, com prazer, que sua situao material parece ter
melhorado.
Esta suntuosa pele-lhe fica admiravelmente bem.
La encolheu os ombros sem responder.

- Mas no  toalete para uma moa decente. S as mulheres ou
amantes de
traficantes do mercado negro, algumas atrizes ou meretrizes dos
alemes
 que ousam vestir-se assim.
La corou e s encontrou uma triste sada de que logo se
arrependeu:
- No  meu. Pedi-o emprestado a minha irm.
Franois esboou um sorriso.
- Que faz em Paris?... Porque estava chorando?
- Que importncia tem isso?
Ele parou e, agarrando-a por um brao, obrigou-a a olh-lo.
- No sabe, minha tontinha, que tudo o que lhe diz respeito 
importante
para mim?
Por que aquelas palavras abrandaram seu desgosto? Docemente
afastou-se
e, na caminhada, chegaram diante das grades do Luxembourg.
- Venha, vamos entrar. Estaremos mais  vontade para conversarmos.
Junto do lago, garotos de bon e cachecol de l corriam com grande
gritaria, vigiados por senhoras que batiam com os ps e as mos
tentando
aquecer-se.
- Diga-me agora por que est em Paris.
- Por causa da minha irm Franoise. A sade dela no  boa...
-  normal, no estado em que est.
- Sem dvida. Mas a ansiedade de minhas tias era tanta, que tomei o
primeiro trem. Mas no penso em demorar-me. Assim que saio de
Montillac,
temo que acontea qualquer coisa.
- Tem tido notcias de Laurent d'Argilat?
- No, desde a execuo dos refns, em Sourges, dia 21 de setembro.
- Consegui v-lo pouco tempo depois. No se consolava por no ter
conseguido salv-los - disse Tavernier, retomando o brao de La.
- Que podia ele fazer?
- Ele conhecia perfeitamente o campo de Mrignac, onde os alemes
foram
buscar os refns.
- Como ele conhecia esse lugar?
- Pouco tempo depois do enterro do seu pai, ele foi apanhado numa
rede,
na rua de Saint-Catherine, em Bordus. Seus papis falsos estavam
em
ordem. Sem motivo, internaram-no no campo de Mrignac. Trs dias
depois
evadia-se e levava consigo um plano pormenorizado do campo, assim
como
alguns contatos que poderiam ser teis. Quando soube que setenta
pessoas
apanhadas ao acaso iam ser fuziladas em represlia pelos atentados
cometidos em Paris, tentou montar uma operao com o padre Lassere
e
alguns companheiros de seu grupo. Deviam interceptar os caminhes
que
transportavam os refns, abater os guardas e libertar os
prisioneiros. No ltimo momento, foi dada
ordem para no fazerem nada.
- E quem deu essa ordem?
- No sei. Talvez Londres.
-  absurdo.
- Em poltica, so muitas vezes as coisas que parecem absurdas que
tm
fora de lei.
Olhando-a bem nos olhos, disse repentinamente:
- Estou com vontade de beij-la.
- No, antes que eu saiba a verdade sobre as suas relaes com seus
"amigos" do hotel Lutcia.
- No quero falar nisso, so coisas que vale mais para voc e para
todos
ns ignorar.
- H pouco tive um choque quando o vi em sua companhia. Ia
justamente 
sua procura no endereo que me havia dado.
- Ao nmero 32 da avenida Klber?
- Sim.
- Agradea aos seus "amigos alemes'', como diz: sem este encontro,
teria ido lanar-se na boca do lobo. No estou muito convencido de
que
pudesse salvar-se apesar das minhas relaes e amizade com Otto
Abetz.
- O embaixador da Alemanha?
- Sim, recorda-se de que nos encontramos em casa dele, onde
danamos?
Esqueceu-se de nossa dana?
Tinham-se encostado  balaustrada que dava para os gramados
cultivados e
para o tanque, voltando as costas ao quiosque de msica. Na luz
invernal, o palcio do Senado, protegido por sacos de areia, tinha
todo
o ar de um castelo adormecido, guardado por rvores sombrias cujos
braos descarnados se elevavam para o cu, num movimento de ameaa
ou de
splica. Atrs deles, um jardineiro empurrava um carrinho cheio de
cenouras, rabanetes e nabos. O chiar da roda f-los se voltarem.
- Que faz ele aqui com todos estes legumes? - perguntou La,
espantada.
- No sabia que o jardim de Luxembourg foi transformado em horta?
- No  m idia - disse ela com um ar to srio que Franois caiu
na
risada.
- No, no  m idia, embora eu pergunte quem aproveita estas
culturas
hortcolas. Ainda no me disse por que'me procurava.
- Tudo isso  para mim to confuso. Quem  voc? Homem de
confiana dos alemes ou dos franceses? O amigo de Otto Abetz ou de
Sarah Mulstein?
- Ainda  cedo demais para responder. Apenas uma coisa: nunca, por
minha
culpa, lhe acontecer nada de mal. Pode me dizer tudo.
- Tem notcias de Sarah?
- Se souber alguma coisa diga-me. Ela est em perigo a toda hora.
O olhar de La tentava em vo perscrutar o segredo de Franois.
Apesar
do casaco de pele, tremia.
Ele puxou-a para si e percorreu com beijos suas faces geladas. La
teve
a impresso de que esperava por esse momento, desde que o avistara
na
escadaria do Lutcia. Quando por fim seus lbios se uniram, sentiu
um
calor de felicidade a invadir, e seu corpo foi ao encontro do seu
amigo.
- Meu bichinho, minha femeazinha, no mudou. Como podemos viver
tanto
tempo separados?
Aquela mo que deslizava sob seu pulver e tomava posse de seus
seios
era ao mesmo tempo fria e escaldante, e beliscava as pontas
rgidas.
- Philippe! Marianne! ... no olhem...  indecente... Diante das
crianas!... No tm vergonha? - exclamou uma mulher vestida de
enfermeira, empurrando um carrinho  sua frente e apressando dois
garotos de uns quatro ou cinco anos.
Quando por fim se aperceberam de sua presena, seus olhares que no
a
viam, seus sorrisos dirigidos um para o outro fizeram-nos baixar a
cabea e, voltando-se, apressaram o passo.
Esta senhora tem razo, este lugar no  conveniente. Vamos almoar
em
casa de minha amiga Marthe Andrieu,  perto daqui:
- Marthe Andrieu?
A dona do restaurante clandestino da rua Saint-Jacques.
Ao sarem do jardim, policiais franceses em trajes civis
pediram-lhes os
documentos. Controle de rotina, certamente. Deixaram-nos passar sem
lhes
fazer nenhuma pergunta.
- Que procuram eles? - perguntou La, enquanto atravessavam a
avenida
Saint-Michel.
- Terroristas, judeus, comunistas, gaullistas...
- Quando os prendem, que lhes fazem?
- Isso depende dos policiais, mas, em geral, preferem desembaraar-
se
deles. Entregam-nos  Gestapo, que segundo os casos, os tortura,
deporta ou os mata. -
- Se Sarah fosse presa, que lhe fariam?
- A ltima vez que a vi, pertencia a um grupo de resistncia que se
especializara na passagem de judeus para a zona livre.
- E agora?
- Agora, mais do que nunca, receio por ela. Se eles sabem que
pertence 
Resistncia, vo tortur-la. Tal como a conheo no falar,
portanto
morrer.
Cabea baixa, boca cerrada, Franois Tavernier apressou o passo.
Agarrada a seu brao, La teve de dar duas grandes passadas para
acompanhar seu ritmo. Adivinhava a tenso de seu amigo e estava
inquieta.
Diante deles, o Panteo erguia-se para o cu cada vez mais
ameaador,
enquanto rajadas de vento frio faziam levantar a poeira da rua
Souflot.
Um grupo de estudantes, com roupas curtas, a maioria delas com
saias
escocesas plissadas, canadenses ou impermeveis, de cabea e pernas
nuas, caladas com grossos sapatos e meias de l angor, de cores
vivas,
empurraram-nos rindo.
-  preciso encontr-la.
- Quem?
- Sarah. Tambm eu temo por ela. Ontem, Raphael Mahl foi  casa de
minhas tias. Perguntou-me se eu sabia dela.
- No vejo nisso nada de alarmante. Sarah e ele conhecem-se h
muito
tempo e sabe bem como ela  indulgente com ele.
- Tambm sou indulgente com ele. Apesar de tudo, ele me diverte e
me faz
rir._Mas aqui... agora, sinto-o,.., como explicar.., como
descontrolado.
E isso: ele j no controla a parte m que h nele. Sinto isso,
compreenda, sinto-o... No posso explicar de outra maneira.
- No houve mais nada que a tivesse alarmado?
La baixou a cabea, sentindo-se impotente para explicar sua
angstia.
Tinha a certeza de que por causa de Raphael Mahl iria acontecer a
Sarah
qualquer coisa de pavoroso.
- Perguntou-me se meu tio Adrien viria abenoar o casamento da
minha
irm e de... do...
Tavernier veio em seu socorro:
- Sturmbahnfuhrer Kramer. Em outras circunstncias esse casamento
seria
perfeito para sua irm. O que h de mais harmonioso do que um casal
de
melmanos? Infelizmente o comandante Kramer no  apenas msico,
mas um
oficial das S.S. Posso mesmo afirmar-lhe que ele  muito estimado
pelos
seus superiores, embora tenham suspeitado de se ter oferecido como
voluntrio apenas para satisfazer seu velho pai doente, grande
amigo do
chefe das S.S., Heinrich Himmler. Igualmente protegido por outro
amigo
do pai, o famoso Paul Hausser que criou a escola de oficiais da
S.S. e
pde, graas a ele, consagrar muitas horas por dia  msica. Fiquei
surpreendido, quando soube que ele esperava casar-se com sua irm.
Nunca
o velho Kramer lhe dar sua autorizao.

- Mas ento que vai ser de Franoise?
A chegada junto do edifcio da rua Saint-Jacque, onde se localizava
o
restaurante clandestino de Marthe Andrieu, dispensou uma resposta
imediata.

Como da ltima vez, o acolhimento foi caloroso, mas a dona do
restaurante tinha os olhos vermelhos.
- O que aconteceu, Marthe? Foram as cebolas que a fizeram chorar?
- No, senhor Franois - disse ela, limpando o rosto inundado de
lgrimas -,  por causa de Ren.
- Que lhe aconteceu? Parecia estar timo.
- Querem mand-lo para a Alemanha.
Ren aproximou-se com um prato na mo.
- Me, tenha calma. Os clientes vo perguntar o que acontece.
- Pouco me importa o que eles pensam. O que eu no quero  que

voc v.
Franois Tavernier levantou-se e tomou-a pelos ombros.
- Venha comigo  cozinha contar-me tudo isso. Desculpe-me, La.
- Venha comigo, senhorita, vou arranjar-lhe uma mesa - disse Ren,
levando-a consigo.

Enquanto bebia um copo de vinho branco, La olhava  sua volta,
perguntando-se onde haveria gente que pudesse oferecer-se o luxo de
comer em lugares como aquele. Desde que estivera ali, os preos
tinham
subido vertiginosamente. Os homens estavam cofortavelmente
vestidos, j
no muitos novos, com um ar mais ou menos saciado. As mulheres
usavam
chapus e mostravam aquele ar de vaidade satisfeita, completamente
insuportvel. Nas costas das cadeiras estavam pousados os seus
casacos
de peles. La reparou que, com o casaco da irm, se assemelhava a
elas.
Isso pareceu-lhe odioso. Talvez tivesse partido se nessa ocasio
Franois no tivesse voltado, com ar preocupado...
- Alguma coisa no corre bem?
- Ouviu o que era. Ren tem de partir para a S.T.O. Aconselhei-
o a ir.

- Fala a srio?
- Muito srio. Se no se apresentar, a polcia vir aqui, e os pais
dele
vo ter problemas.
- Mas vai fazer qualquer coisa por ele?
- Vou tentar. Mas isso torna-se cada vez mais difcil. Os alemes
reclamaram para este trimestre duzentos e cinqenta mil homens, e
pedem
outro tanto para o trimestre de 43.
Franois Tavernier lanou um rpido olhar  sua volta e continuou
num
tom mais baixo.
- Falemos de outra coisa. Como est Camilie?
- Bem, ela me ajuda muito a cuidar de Montillac.
- Fayard, o homem da adega, voltou  carga? Continua a ter
pretenses 
propriedade?
- No voltou a falar nisso, mas ando desconfiada; tenho a impresso
de
que ele espia todos os nossos gestos. Quando lhe pergunto se tem
notcias de Mathias, olha para mim com um ar esquisito e volta-me
as
costas, resmungando. No me perdoa a partida do filho para a
Alemanha.
Os ovos fritos com trufas que Marthe lhes trouxe estavam uma
maravilha.
Um casal estranho entrou na sala. Ele, de estatura mdia, vestindo
um
sobretudo com gola de peles, abotoado s avessas, com um ar
estpido,
desmentido por dois olhinhos duros e inteligentes; ela, muito
elegante,
vestindo um suntuoso casaco de pantera, tendo a cabea coberta com
um
grande turbante de veludo preto.
Marcel e Marthe dirigiram-se logo a eles e instalaram-nos com todas
as
deferncias. A mulher agradeceu com um maneio de cabea  exagerada
subservincia e deixou cair negligentemente a pele, mostrando os
impecveis saia e casaco preto e um colar de magnficas prolas.
La no
conseguia desviar o olhar daquela riqueza ostensiva.
- La, La...
- Sim - disse ela, despertando daquela contemplao.
- No fite tanto essa gente... Marthe!
A cozinheira, que passava junto deles, parou.
- Quer alguma coisa, senhor?
- Sim, rapidamente a conta.
- Mas ns ainda no acabamos - exclamou La.
- Alguma coisa no vai bem, senhor Franois?
- No, minha querida amiga, mas acabo de me lembrar que tenho um
encontro importante, que pode ser til para seu filho - acrescentou
ele,
baixando a voz diante de seu olhar contristado.
- Ento, vamos - disse ela, dirigindo-se para a cozinha.
- Enfim, Franois, pode me explicar?
- Tarde demais...
O homem que tinha chegado levantou-se e dirigiu-se de mo estendida
para
Franois.
- Logo me pareceu que era o senhor Tavernier. Hlne tinha razo.
Estou
vendo que tambm conhece os bons restaurantes. Tem de
acrescentar outro endereo em sua agenda: o meu. Tenho, sem querer
me
gabar, a melhor mesa de Paris. Todos os dias recebo uns vinte
amigos,
espero que seja dos nossos. Est claro que esta sua amiga ser
muito
bem-vinda.
Inclinou-se diante de La que lhe respondeu com um simples gesto de
cabea.
Marthe colocou a conta na mesa.
- J se vai embora, senhor Tavernier?
Um encontro importante - disse Franois ao tirar as notas da
carteira.
O homem procurou algo na carteira que tirou do casaco.
- Aqui tem o meu carto de visita. Fixe bem o endereo: nmero 19
da rua
de Presbourg. Todos os que atualmente se encontram em Paris
freqentam a
minha casa... Encontrar l o requinte da sociedade. Venha
cumprimentar
minha mulher antes de sair, seno ela nunca lhe perdoar e voc bem
sabe
como Hlne  quando se zanga.
- Como, querido amigo, voc poderia pensar um instante que no iria
depor minhas homenagens aos ps da mulher mais encantadora de
Paris? Vou
com voc.
Franois Tavernier pousou a mo no brao de La e disse-lhe com voz
baixa:
Espere-me,  apenas um minuto.
De m vontade, La voltou a sentar-se.
- Tome, enquanto espera coma isto - disse Marthe colocando  sua
frente
uma torta de ma.
Enquanto isso, Tavernier fazia salamaleques quela bela senhora.
Como
ele era ridculo com aqueles sorrisos e aqueles cumprimentos! Ela
nem
queria acreditar. Ele, que era normalmente discreto e distante,
ali,
parecia mesmo ter um ar obsequioso. Enfim, ele se decidiu a
deix-los e
lembrar-se de sua existncia.
- Vejo que no perdeu tempo - disse ele, designando as migalhas do
bolo.
- Foi Marthe!
- No a estou criticando.
- Era o que mais faltava! Se pudesse se ver, fazendo galanteios
quela
velha megera... -
- Nem tanto!  muito injusta com aquela senhora. Vamos.
Na entrada encontraran-se Marthe e Ren, que tentava consolar a
me.
- Ren, posso falar com voc um instante?
- Claro, senhor Franois.
Entraram no quarto onde o filhinho de Ren eJeanette dormia, no
meio de
chourios, presuntos, conservas e legumes, que se empilhavam at ao
teto.
- Quer levar uma mensagem s pessoas que esto na salinha que vocs
reservam aos amigos?
- Eu os mandei para l, porque vinham mandados pelo senhor.
- Fez bem. Perguntar pelo senhorJacques Martel. Um homem moreno,
com um
rosto comum, vai lhe responder. Diga-lhe que os negcios no correm
bem.
J mandou reparar a porta do quarto que d para a escada de
servio, e
j instalou o quadro chins parecido com os biombos?
- Sim, j fiz tudo isso sozinho, para que no me fizessem
perguntas.
- A escada estava tapada. Abriu o acesso para as caves?
- Tudo est correto, mesmo o p e a sujeira em que no toquei.
Nenhum
vizinho notou a menor mudana.
- Perfeito. Obrigado, Ren. Pela primeira vez, essa sada vai
servir.
So quatro, no  verdade?
- Sim.
- Que saiam com dois minutos de intervalo. Agora v. Sobretudo que
nenhum cliente o veja. Nisso est a segurana de ns todos. Ainda
mais
uma coisa: seja prudente na presena do senhor Michel e de seus
amigos.
Que ele nunca suponha o que se passa por vezes aqui.
- No receie nada, nem os meus pais esto ao corrente de coisa
nenhuma.
S Jeannette desconfia de qualquer coisa.
- Com ela no h o que temer. No entanto, por simples recauo,
devia
enviar o pequeno para o Lot.
- J tinha pensado nisso. Ir o mais depressa possvel.
- V depressa, Ren, e no se esquea: Jacques Martel. Deve ser o
segundo a sair.
- At parece que se trata do prprio general De Gaulle. Franois
Tavernier no disse nada, enquanto um fulgor de cumplicidade
divertida
passava em seu olhar...
Ren foi o primeiro a deixar o quarto do estoque. Franois, por sua
vez,
saiu do quarto depois de acariciar a cabea da criana adormecida,
sua
afilhada.
Enquanto esperavam na cozinha, Marthe e La davam-se coragem uma 
outra
com acar molhado em aguardente de ameixa, fabricado pela famlia
do
lado de Limoges. Ao avaliar pelos olhos brilhantes, deviam ter
molhado
muitos pedaos em vrios copinhos.
Tavernier parou no limiar da porta.
La falava com animao das "olhadelas escandalosas" de Hlne para
Franois.

Ele aproximou-se e puxou-a por um brao. Sem se importar com seus
protestos, levou-a pelo pequeno saguo e depois pelo patamar.
- Deixe-me, quero falar com aquela mulher. Reparou no olhar
descabido
com que o olhava? Era escandaloso. No entanto, ela viu bem que
estava
acompanhado. Que descaramento!..
Tinham chegado com certo esforo  entrada. Franois, a custo,
continha
o riso diante de La. De tal forma, seu rosto com a boina posta de
lado
era encantador em sua embriaguez encolerizada.
- Palavra, est fazendo uma cena! Est com cimes!
- Ciumenta? Eu? De quem? De qu?
- De mim, segundo me parece. -
- De voc? Est completamente louco! De voc!...  para rir! Toma
seus
desejos por realidade.., confunde-me com as mulheres com quem anda
habitualmente. Ciumenta!... Eu!... Voc me faz rir...
Bruscamente ele puxou-a para si.
Cale-se. Vai dizer tolices... Fala-se sempre demais. Que me importa
que
esteja ou no com cimes. Para falar verdade, preferia que no
estivesse.
Com ar rabugento, ela se apoiava ora num p ora no outro, sem
tentar
escapar-lhe. Passou a lngua pelos lbios secos. Este pequeno gesto
foi
um sinal, o sexo de Franois inchou e o ventre de La aproximou-se
dele.
Seus lbios uniram-se com aquela fome que um grande amor ou uma
grande
abstinncia provocam. Era o caso de La. Desde o dia do enterro de
seu
pai, nenhum homem, a no ser Franois, a tinha tocado.
Agarrada a ele, arquejava, pontuando seus beijos com gritinhos. Se
fosse
noite, Franois t-la-ia possudo nesse mesmo instante, contra a
parede
suja da entrada do prdio, cuja alta porta felizmente estava
fechada.
Mas ali, a todo momento, algum poderia entrar e os clientes do
restaurante clandestino descerem.
No sem custo, afastou-se do abrao da jovem.
- Ande, no fiquemos aqui. Vamos  minha casa.
- No agora...
Vozes vindas da escada deram-lhe um pouco de lucidez. Sem resistir
mais,
deixou-se levar.

La acordou e espreguiou-se longamente, resmungando. Sentia-se
maravilhosamente bem, apesar das dores de cabea que lhe martelavam
as
tmporas. Ergueu-se, e olhando em volta, escondeu os ombros nus no
cobertor de l do grande leito de lenis amarrotados. Deu uma
risadinha
diante da desordem.
Que lugar esquisito. Parecia um mansarda, uma gruta ou uma tenda
dos homens do deserto. Espessos cortinados de veludo de um vermelho
bonito e escuro, presos s vigas do teto, caam 
de cada lado da cama, a mais larga que ela j vira. Em frente deste
leito de sibarita, ardia, numa grande lareira de madeira 
esculpida, um belo fogo. Diante dele, um belo tapete, sobre o qual
estavam espalhadas almofadas e roupas. As chamas 
projetavam sombras movedias que se agarravam s vigas. Tudo era
escuro fora dessa zona luminosa. As paredes do quarto 
iam se_esbatendo at a mais negra escurido. 
-  como se estivesse suspensa no tempo e no espao - disse ela em
voz alta. 
No silncio, onde apenas se ouvia o crepitar do fogo, sua prpria
voz a trouxe  realidade. 
"Deve ser isto o pecado", pensou ela. Esta idia a fez rir, porque
sua noo de pecado era das mais vagas desde a sua 
infncia, apesar do catecismo que a me repetia todos os dias e dos
sermes do tio Adrien que ouvira na catedral de 
Bordus. 
- Como est bonita assim - disse uma voz sada da penumbra. 
- Franois, onde est escondido? No o vejo. 
A lmpada de um abajur de opalina verde acendeu. Atrs dele estava
sentado, diante de uma grande secretria cheia de 
livros e de papis, Franois Tavernier. Levantou-se e aproximou-se
da cama. Estava vestido com uma espcie de robe 
bordado, que acentuava a brutalidade de seus traos, dando-lhe um
ar de brbaro mongol. 
- Que faz assim disfarado? 
- Oh, La, ... eu pensava seduzi-la com esta veste decadente. 
Falhou. - 
- Onde arranjou isso?  bonito. 
- Trouxe-o h muitos anos de uma viagem a Kaboul. Foi presente de
um prncipe afgan.  um traje de cerimnia, usado 
antigamente pelos ministros. Esta vestimenta muito quente era feita
para enfrentar climas rigorosos. Desde que comeou a 
guerra, uso-o em casa durante o inverno. 
- Foi tambm para lutar contra o frio que mandou colocar  volta da
cama estes cortinados? 
- Sim. Quando terminei esta casa, percebi que reconstitu, na
escala de adulto, o universo favorito de minha infncia: a mesa 
da sala de jantar dos meus avs, que ento me parecia imensa, e seu
tapete vermelho estendido no cho, onde eu gostava de 
me imaginar beduno, huno, senhor da guerra ou mercador de
escravos. 
La olhava para ele com tal espanto que o fez rir. 
- Mas fui um menino como os outros.
- Sim - disse ela, rindo tambm. - Mas tenho certa dificuldade em
imagin-lo criana. 
- Ainda uma coisa que nos diferencia; no me custa nada imaginar a
garotinha que foi, ainda no h muito tempo, e que 
continua a ser em muitos aspectos. 
Sentou-se junto dela, olhando-a com uma ternura que a comoveu.
Espontaneamente, ela abraou-se a ele, esfregando o nariz 
em seu pescoo. 
- - Gosto do seu cheiro. 
Ele apertou-a ternamente, saboreando a primeira palavra amvel, que
para ele valia o mesmo que uma palavra de amor. 
Naquele "gosto do seu cheiro" de uma mulher sensual, soava o
"amo-te" de uma mulher apaixonada. Ele ali estava. Lcido, 
no tinha nem mesmo vontade de zombar de si mesmo. Sabendo da
fragilidade daquele momento e conhecendo a 
versatilidade de La, gozava aquele instante de felicidade e
calava-se com receio de quebrar o encanto que os unia. 
Soou o telefone. 
La sobressaltou-se, levantando-se: 
- Meu Deus! J  noite!... Minhas tias vo ficar preocupadas. 
- No, eu as avisei de que estava comigo. 
- Ah! Bem! - disse ela levantando-se, indiferente  sua nudez. 
- No responde? 
- No, hoje no estou para ningum. 
- Pode ser importante. Responda, peo-lhe. 
Ele obedeceu devido ao tom receoso de La. Mas quando atendeu j
no havia ningum do outro lado. 
Como est plida, no pode afligir-se dessa maneira. 
- Sim, tem razo, sou estpida. 
- Vou lhe preparar um banho, isso vai recomp-la. 
- Um banho!... 
- Sim,  raro poder prpr aos amigos tomar um banho. No pense que
 sempre assim. Mas julgo que haver gua quente 
no depsito. Tome cuidado ou vai ficar resfriada. 
La pegou o xale de l que ele lhe estendia. 
- Fique perto do fogo, que vou abrir a gua e acender o radiador. 
Quando ele voltou, La estava sentada, com os braos ao redor das
pernas dobradas. Franois sentou-se  sua frente, 
encostado numa das paredes de borda da lareira. 
- No tem um cigarro? 
Ele procurou no fundo das algibeiras e tirou um belo estojo. 
- So ingleses, no se importa? 
Sem responder, La pegou o cigarro e acendeu-o numa brasa
incandescente que ele lhe apresentou numa pina. 
- Obrigada - disse ela, engolindo o fumo, de olhos fechados. 
Ele tambm acendeu um. Durante um instante ficaram em silncio. 
- Quem era o homem que veio cumpriment-lo em casa de Marthe? 
Franois levou certo tempo para responder. 
 um crpula, terrivelmente perigoso. 
- No entanto, parece ter com ele as melhores relaes. 
- Na aparncia,  verdade. No posso fazer de outra maneira. Sou
obrigado a freqentar gente dessa ordem. 
- No compreendo. 
-  prefervel que no compreenda. Mas posso dizer-lhe quem ele .
Chama-se Mandel Szkolnikoff, ou Sekolnikow, 
aptrida de origem russa, de uma famlia de comerciantes de
tecidos, de Riga. Fornecedor do exrcito tzarista, depois 
revolucionrio, deixou a Rssia pela Alemanha antes de fugir da
Holanda com a famlia, para escapar  sorte que os nazis 
reservam aos judeus. Depois, o encontramos em Bruxelas onde logo
foi perseguido por um desfalque fraudulento. Omito os 
detalhes. Depois de uma ligeira condenao, instalou-se na Frana.
Separado da mulher, criou, em 1934, com um irmo, 
julgo eu, uma sociedade de compra e venda de tecidos na rua de
Aboukir. Os negcios no foram bons e ele foi perseguido 
por fraude. Quando comeou a guerra, era conhecido no meio dos
negcios escusos pelo nome de Michel. Em 40, inquieto, 
julgando a situao de judeu e de aptrida perigosa, tomou como
scio o inspetor da polcia, encarregado de vigi-lo e teve 
contatos com as autoridades alems para fazer negcios com elas.
Desde o ms de novembro, os negcios comearam e logo 
se tornaram excelentes. Os seus novos clientes mostraram-se muito
satisfeitos com ele... 
- Palavra!  um autntico relatrio que est me fazendo. 
- Se a aborreo! 
- No, continue. Estou me instruindo. 
- Graas s suas novas relaes, escapa aos servios de "Controle
dos Preos" e  polcia francesa, mas, em maio de 41, um 
duro golpe, classificam sua sociedade como negcio judeu. Preferiu
dissolv-la. O que no o impede de continuar suas 
negociatas... Venha, seu banho deve estar pronto. 
La levantou-se e foi com ele at o banheiro. 
Ela atirou o xale e enfiou-se na banheira com gua quase fervendo. 
- Ah! Que bom!... 
Franois sentou-se na borda da banheira e, sem deixar de a olhar,
continuou seu relato. 
- Na mesma poca, encontrou um fornecedor dos escritrios de compra
alemo e faz negcios com ele. E uma mulher alem, 
Elfrieda, chamada Hlne, casada com um comerciante judeu. Desta
unio ir nascer um formidvel negcio de vigarices e de 
trfico de toda a espcie. Compram tudo o que h para vender:
batatas, tecidos, medicamentos, perfumes, livros, peles, 
enfim, tudo o que lhes vm propor, que revendem ao ocupante ou
queles que podem pagar. Tornam-se deste modo um 
dos principais fornecedores da Kriegsmarine. Nesse momento, a
chegada a Paris do Hauptsturmfuhrer da S.S., Fritz 
Engelke, do Servio Central da administrao da S.S., vai permitir
quele casal lanar-se em negcios fenomenais. O recm-
chegado instala-se na rua General Appert e na avenida Marceau.
Enfim, o 
s. S. no seu escritrio de compras vai, por sua 
vez, participar na pilhagem das mercadorias francesas. Szkolnikoff
pede a Otto, personagem de que talvez um dia venha a 
lhe falar, para o apresentar a Engelke. Depois dos primeiros
negcios, de alguns bons jantares, os dois homens tornaram-se 
amigos inseparveis.   assim que Szkolnikoff se tornou o
comprador oficial da S.S. Aqui tem a personagem. Interessante, 
no acha?... 
La tinha os olhos fechados. Franois no se cansava de a olhar.
Julgou-a adormecida. Estendeu a mo para tirar uma mecha 
de cabelos que lhe caa na testa. Abriu os olhos. 
- No me olhe dessa maneira. Lave-me. Lembra-se em Orleans, quando
me lavou, debaixo dos bombardeios? 
- Fique quieta. 
- Por qu? Eu pensei muitas vezes nessa primeira vez. No incio
estava furiosa... 
- E agora?... 
- Isso depende dos dias. Tem sabo? 
- Vou sacrificar o ltimo sabonete, de Guerlain. 
Tirou de uma gaveta o precioso sabonete que desembrulhou. 
- Deixe-me cheirar. Hum... como cheira bem... O que ? No  nada
msculo como perfume - disse ela ao lhe devolver. 
- Na verdade,  Shalimar. 
Franois esfregou o sabonete numa grande esponja e comeou a lavar-
lhe os lindos ombros. 
- E decerto o perfume de uma de suas belas amigas - disse ela, num
tom mais irritado do que desejava. 
- Meu Deus! Ciumenta como , lastimo o homem que vir a ser seu
marido. 
- Fique feliz! No vai ser voc... 
- Isso, minha querida,  que no sabe... 
- Ficaria muito admirada. No gosto de voc o bastante para isso. 
Era idiota, mas o que aquela depravadinha o fazia sofrer! 
- Ai! Tome cuidado, arranca-me a pele... 
- Perdoe, estava pensando em outra coisa. 
- Muito agradvel! Estou aqui nas suas mos e est pensando em
outra coisa. 
Amuada, voltou-lhe as costas, e afundou novamente na banheira. 
Sem se importar em se molhar, ele agarrou-a, e retirou-a da gua,
saiu com ela do banheiro e a deps brutalmente sobre as 
almofadas diante do fogo. 
- Est louco? Vou me resfriar... D-me uma toalha... 
No se dignando a lhe responder, Franois retirou o robe com um
gesto rpido. Nu, com o sexo hirto, de pernas abertas, 
dominou-a com todo o seu corpo. La no pde reprimir um frmito
voluptuoso. Ele parecia o salteador que ela sonhava 
encontrar no meio do bosque das florestas das Landes, quando era
pequena. 
Levou a mo para o meio das pernas; Franois caiu de joelhos diante
daquela mo crispada, abriu-lhe os dedos e pousou os 
lbios em seu lugar. Sob essa lngua que a percorria, ela se
arqueou para se oferecer melhor, O prazer surpreendeu-a com tal 
violncia que a fez gritar e agarrar-se aos cabelos de seu amante.
A custo, ele ergueu a cabea, contemplando, com uma 
felicidade que se estampava em seu rosto, o resultado perturbador
de suas carcias. Depois, estendendo-se sobre ela, 
penetrou-a suavemente. 
O frio despertou-os. Correram para se encolher sob o cobertor de
vainha e tornaram a adormecer at a manh seguinte.

Captulo 4

ERA UMA GRANDE felicidade para La receber carta. Quando chegava
uma, recostava-se no grande sof da entrada, com 
as pernas encolhidas, os ombros cheios de xales e tomava muito
cuidado para abrir o envelope. E se deliciava... 
"Querida La 
Estou sentada  escrivaninha do grande salo que voc conhece to
bem. Ns a aproximamos da lareira para aproveitar o 
calor. Os cepos da vinha l fora esto negros, o cu sombrio, quase
se pode dizer que vai nevar. A propriedade est como 
que adormecida h algumas semanas. Ns tentamos, a senhora
Bouchardeau e eu, pr as contas em ordem, mas em muita 
coisa tivemos que desistir por falta de informaes. Fayard aceita
tomar conta de tudo. Lamentamos que voc no esteja 
aqui. 
Ficamos um pouco inquietas ao saber por sua ltima carta do estado
de Franoise. Esperamos que o beb seja lindo e que 
no demore a vir ao nosso encontro neste mundo sinistro. No h
melhor presente e maior esperana que uma criancinha. 
Charles, que aqui brinca no tapete, est maravilhoso. Cada dia nos
encanta com suas descobertas e seus progressos. Eu lhe 
falo constantemente do pai e de voc, para que ele no os esquea e
aprenda a conheclos. O Natal est prximo. Logo que 
adormece, Ruth e eu fabricamos para ele uns brinquedos as
escondidas, com madeira compensada e pedaos de tecido. Que 
pena no podermos nos reunir todos... Tivemos algumas notcias de
L. Continuamos sem o menor indcio de onde ele se 
encontra, mais sabemos que a tarefa que decidiu empreender faz
progressos dirios, e que  cada vez maior o nmero dos 
que vm trabalhar com ele. 
Diga-me logo como est Franoise. Charles e eu a beijamos
ternamente 
Camilie'' 
La ficava sempre um tanto agastada com a doura de Camilie, por
aquela esperana que ela queria a todo o custo 
conservar, por aquela paixo pelo filho que lhe parecia
misteriosa... Laurent estava bem. Ela tinha de se contentar com 
vagas notcias suas. Sabia que ele continuava a manter o seu dirio
e que sempre que podia fazia chegar alguns fragmentos a 
Camille, mas o risco era grande demais para os fazer circular.
Contentava-se, ento, com essas vagas informaes e 
esmiuava os jornais do sudoeste que chegavam a Paris. Por detrs
de cada ato de "terrorismo" via a mo de Laurent. Uma 
patrulha que era atacada, uma ponte que ia pelos ares, era Laurent;
alguns prisioneiros libertos, sempre Laurent... 
Dobrou a carta cuidadosamente, saltou do sof e dirigiu-se,
cantarolando, para a sala. 
De manh  noite 
Ver os Fridolins 
Estou farta 
De ouvir o rdio 
De ler os seus jornais 
Estou farta... 
Ligou o rdio e tentou captar a B.B.C. 
- Senhorita La, no cante essa cano, olhe que se os vizinhos a
ouvem vamos ter contratempos. 
- Estelle, cale-se, no me deixa ouvir Londres. 
- Bem sabe que  proibido. 
- Tudo agora  proibido, abafa-se o pas. Escuta, aqui esto; vai
avisar as tias. 
Estelie saiu resmungando, embandeirando-se em seus inmeros xales,
como uma esttua da reprovao. 
"Hoje, 857? dia da Resistncia Francesa  opresso. Honra e Ptria.
Franceses falam a franceses. 
Mas o que esto fazendo Albertine e Lisa? Com certeza vo perder 
o comeo. H oitocentos e cinqenta e sete dias que aquilo durava! 
O que  pavoroso  que toda a gente se acomodava. Acaba-se por se 
habituar ao frio, a fazer fila durante horas para ter um bocado de
po, 
a lavar-se s uma vez por semana, a comprar manteiga e carne no
mercado 
negro, a encontrar os alemes na rua e a aceitar seja o que for
como rao suplementar. Mesmo assim, de tempos em 
tempos, as pessoas revoltavam-se como aquelas mulheres da rua de
Buci que quebraram a vitrine duma loja ECCO com 
latas de conserva. Esteile, que estava l, nunca teve tanto medo na
sua vida. "Se os tivesse visto, esses brutos policiais, 
batendo naquelas pobres mulheres! Embarcaram centenas nos carros
dos legumes, algumas com os filhinhos agarrados as 
saias. Ah! Era triste ver isso! Felizmente que eu tinha uma amiga
na rua de Saine e me escondi em sua casa. Parece que 
mataram uma mulher e outra foi levada para a Alemanha. Senhorita
La, acredita serem possveis tais coisas?" Que podia 
ela responder? 
"Os soviticos continuam ganhando terreno no setor sul. A retirada
do VII Exrcito italiano, sem equipamento para 
enfrentar os rigores do inverno russo, transforma-se em debandada."
"Eis uma boa dotcia", pensou La. Mas onde estaro elas? Nunca
faltam a uma emisso. 
- Oh! Meu Deus, meu Deus, que desgraa... - disse Lisa, entrando no
salo. 
Sem flego, deixou-se cair numa cadeira que rangeu com seu peso. 
- O qu voc tem? 
Lisa apontou para a porta, articulando com dificuldade... 
- Sua irm... 
- O qu? Minha irm... 
- O beb! 
- E tudo recomea, e  ainda sobre mim que isso cai.., depois de
Camille... agora  Franoise. No h qualquer razo para 
que isso pare... Tenho vocao, encontrei-a, sou parteira... 
- Minha querida, desligue esse rdio, di-me a cabea. 
Avisaram o mdico? 
- Vai chegar. Por favor, v ver sua irm, ela a est chamando. 
Pobre Franoise, desde a visita do capito Frederic Hanke, o amigo
de Otto Kramer, o "noivo", como o chamava 
pudicamente Lisa, no parava de chorar e de se agitar. La soubera
por Frederic Hanke as razes daquele desgosto: os 
chefes do comandante Kramer tinham-lhe recusado autorizao para se
casar com uma francesa e, diante de sua insistncia, 
tinham-no enviado para a frente Leste. Antes da partida, ele
conseguira fazer chegar por Frederic uma carta a Franoise, 
onde lhe afirmava o seu amor, e lhe pedia para se comportar
corajosamente como mulher de um soldado, e de nada fazer 
que pudesse comprometer a
 vida de seu filho. De resto, suplicava ao pai para que interviesse
junto de seu amigo Himmler. Frederic Hanke no 
escondera a La que o pai, tambm ele, tinha se oposto ao
casamento. 
- Que vai ser de Franoise? - ele perguntara. 
- Materialmente, no ter nenhum problema. Prometi a Otto que
cuidaria para que nada lhe faltasse nem  criana. 
- No era a isso que me referia, mas  sua situao; a criana ter
de ser filha de "pai desconhecido". 
- Bem sei, mas o que fazer? 
La, apresse-se. Sua irm est chamando - disse Albertine ao
entrar. O quarto cheirava a suor, a ar viciado e a vmito. 
Franoise, com os olhos esgazeados, jazia na cama em desordem. La
sentou-se a seu lado. O qu? Aquela era sua irm, 
com quem passeava at Believue, com quem se escondia nas capelas do
calvrio de Verdelais, que partilhava os seus 
mergulhos na Garonne, em Langon: e nas vindimas onde se
bombardeavam com cachos de uvas, fazendo ndoas nos 
vestidos, as noites quentes de Natal em que comparavam entre si
pelo canto do olho os respectivos presentes, achando 
sempre melhores os da outra; e as suas primeiras bicicletas de
gente grande, a dela azul e a de Franoise vermelha; e suas 
discusses... 
Franoise olhou-a com uns olhos tristes que se assemelhavam aos do
pai. Isso foi to insuportvel que La baixou o olhar. 
- Otto no est aqui. Se voc soubesse como tenho medo... Ele havia
me prometido que estaria aqui... Por que me 
abandonou?... 
Ela se levantara e agarrara La nervosamente. 
- Seu filho no  mais importante do que seu Fhrer?... 
- No entanto Otto no gosta de Hitler... disse-me... Ento... por
que no est aqui para o nascimento do filho? 
- Acalme-se. No  por culpa dele.  a guerra e ele tem de
obedecer. 
- Ele me havia dito... 
- No pense mais nisso. 
O grito dado por Franoise fez La estremecer. 
- Que no pense nisso?... Como quer que eu esquea que meu filho
no ter pai?... Que toda a famlia me apontar o dedo... 
a me solteira.., a amante do boche... a sem-vergonha.., a puta... 
- Cale-se... No  agora que deve pensar nisso... Ah! Aqui est o
doutor! 
- Ora, vamos, querida senhora, o grande momento est prximo? 
Com o mdico, entraram Albertine e Estelle. Covardemente, La
aproveitou para sair. 
Na entrada, o telefone tocava e ela atendeu. 
- Al, La?... 
-Sim. 
-  Raphael Mahl. Preciso v-la imediatamente. 
Mas isso  impossvel. Minha irm est prestes a dar  luz. 
- Deixe isso com a natureza, dar  luz sem voc. Tenho de v-la. 
-  grave? 
- Muitssimo. 
- Bem. Ento venha. 
No posso. 
- Mas por qu? 
 perigoso demais explicar por telefone. Estarei dentro de meia
hora na rua Dauphine, no nmero 16,  um restaurante .que 
no tem l muito bom aspecto, mas as trs irms Raymond fazem um
petisco caramelizado sem igual. Suplico-lhe que 
venha. 
Irei. 
Desligou. Ele conseguira comunicar-lhe seu receio. 
- Quem era? - perguntou Lisa ao sair do salo. 
- Um amigo. Tenho de sair. 
- Tem de sa... 
- Sim, deixe-me passar,  muito importante... 
- Mas e sua irm?... 
Ela no precisa de mim, h bastante gente  sua volta. Se Franois
Tavernier telefonar diga-lhe que estou na rua Dauphine, 
nmero 16, num restaurante, com Raphael Mahl. 
- Raph... 
- Sim, no se esquea, nmero 16, da rua Dauphine. No se preocupe,
vou tentar voltar logo. 
- O que Albertine vai dizer? 
- Voc lhe explica. 
La tirou do armrio da entrada as suas botas forradas com solas de
madeira, compradas graas aos negcios de Raphael. 
- Leve o casaco de sua irm, sentir menos frio. 
Desde que Franois lhe dissera que s certas mulheres saam com
casaco de pele, La nunca mais usara o de Franoise. Para 
no contrariar tanto a tia, vestiu-o sem comentrios e ps na
cabea a boina igual. 
- Volte depressa disse-lhe a velha tia, beijando-a. 
Na rua da Universidade soprava um vento gelado. Era preciso ser
louco para sair com tanto frio. Na rua escura e deserta, o 
eco das solas de La retinia na calada gelada. 
Chegou sem flego e nadando em suor  rua Dauphine, tentando fugir
de imaginrios perseguidores. Nenhuma luz indicava 
o restaurante das senhoras Raymond. La empurrou uma porta sem que
nenhuma campainha soasse... Seria mesmo ali? Um 
cheiro bom de sopa trouxe-lhe a resposta. 
A sala era pequena e parcamente iluminada. No balco  direita da
entrada um gato gordo dormia; outro gato roou as 
pernas de La. Uma escada em caracol levava at o primeiro andar.
Uma mulher envolta num avental branco muito 
comprido para ela, gorda e alta como um tonel de pele esverdeada,
de cabelos grisalhos presos num coque, avanou para 
ela. 
- Bom-dia, senhorita. Procura algum? 
Sim, o senhor Mahl. 
- O senhor Mahl ainda no chegou, mas a mesa est pronta. Faa o
favor de me seguir. 
Atravessou a sala seguida por La e instalou-a numa mesinha coberta
por uma toalha branca, perto da porta da cozinha. 
Uma outra mulher, parecida com a primeira, aproximou-se e perguntou
com sotaque de Auvergne, ainda mais pronunciado 
que a primeira. 
Enquanto espera, quer beber alguma coisa? 
Diante do ar indeciso de La, acrescentou com satisfao: 
Ainda temos quase todos os aperitivos. 
- Ento, d-me um Porto. 
- Tem razo,  excelente. 
La olhou  sua volta. 
Todas as mesas estavam ocupadas por uma clientela de aspecto
pacato, falando baixo, com gestos simples, com roupas 
sbrias, mas de boa qualidade, a quem as irms Raymond se dirigiam
com a familiaridade que os donos de restaurante 
reservam aos clientes habituais. Tudo tinha um ar de familiaridade
que a tranqilizava. 
- Aqui est o Porto, senhorita. 
- Obrigada. 
La bebeu lentamente, um tanto inquieta, temendo se perguntar o que
poderia ser a causa da demora de Raphael. 
Cada vez que se abria a porta da cozinha, ouvia-se uma voz. 
-  um dos filhos da patroa, que  aprendiz de pera disse Raphael
Mahl, que ela no vira entrar. - Um rapaz encantador. 
- Por que est atrasado? Mas... est ferido? 
De fato, um pouco de sangue escorria do arco da sobrancelha e do
canto da boca de Raphael. 
- No foi nada, uma briga com uns soldados - disse ele, limpando-se
com um leno ensangentado. 
Uma das irms percebeu. 
- Oh! Senhor Mahl... 
- Cale-se, peo-lhe. Vai fazer com que nos observem. 
O que no impediu a boa mulher de voltar com uma tigela de gua
quente e um guardanapo. 
- No valia a pena... 
Diante do olhar insistente da patroa, resignou-se a umedecer o
guardanapo e a passar o pano molhado sobre o rosto. La 
via-o fazer isto um tanto aborrecida. 
Outra irm, se no era a mesma, veio saber o que queriam comer. 
- Hoje, sopa de Auvergne, de couves, chourios, fricass de vitela
e guisado de lebre. 
Que quer, La? 
- Uma sopa. 
- E o senhor Mahl? 
- A mesma coisa. Vocs ainda tm aquele Borgonha? 
- Claro que sim. 
- Traga-me uma garrafa na temperatura da adega. 
- Eu sei, senhor. J conheo o gosto dos meus clientes. Um prato de
carnes frias, para comear. Acha bom? 
- Muito bom. Enquanto esperamos, d-me uma Suze. 
No voltaram a trocar palavra at a chegada da Suze. 
- Ir agora dizer-me por que me fez vir at aqui? 
Raphael no respondeu, bebendo o vinho em pequenos goles. Seu rosto
estava plido e os traos contrados. 
Ele olhou-a como se s aquele momento se tivesse dado conta da sua
presena. 
- La, sou um malandro imundo. 
- Isso eu j sei. 
- No, voc no sabe, realmente. Outra Suze - disse ele quando por
ali passava uma das irms. 
- Por que queria me ver? 
- A Gestapo vai prender Sarah Mulstein. 
La ficou por um breve momento sem compreender; depois, pouco a
pouco, uma expresso de horror cobriu-lhe o rosto, 
enquanto um gosto de blis espalhava-se por sua boca. 
- Que fez?... No foi voc?... Diga-me que no foi voc... 
Triturando o copo, Raphael tinha o ar de uma criana apanhada em
falta, sem saber como iria se sair. 
- No  por minha culpa... No podia fazer de outra maneira. Pouco
a pouco La passava do desgosto ao horror. 
- No podia fazer de outra maneira!... Explique-se. 
-  um pouco longo e complicado. Em resumo, fui preso pela Gestapo
por trfico de ouro. Eles disseram que passariam 
uma esponja sobre o caso se aceitasse colaborar com eles,
dando-lhes alguns esclarecimentos sobre o meio da impresso e 
das edies... 
Seno... 
- Eles iriam me entregar  polcia francesa por certos pecadilhos,
ou ento iriam mandar-me fazer companhia aos da minha 
raa num campo de concentrao. 
- E ento preferiu enviar Sarah! 
- No  verdade. No foi assim que as coisas se passaram. No incio
apenas lhes disse o que se passava nos corredores da 
N.R.F. e nos cafs freqentados pelos intelectuais. Em troca, eles
fechariam os olhos sobre o meu pequeno negcio. Sabe, 
nesse momento pode ganhar-se muito dinheiro quando se  esperto... 
- E quando se  malandro. 
- No fale antes do tempo. 
H muito tempo que trabalha para eles? 
- Um pouco mais de um ano... mas de forma intermitente. Desde a
ocupao da zona nono, tornaram-se mais exigentes. H 
um ms, convocaram-me para me dizer que devia descobrir quem  que
passava os judeus para Espanha. "Isso deve ser fcil 
para voc, que  judeu, infiltrar-se em algum desses grupos.
Encontre-os e esqueceremos quem ''. Estava bem claro. Que 
queria que eu fizesse? 
- Fugir. - 
Fugir?... Para onde?... No os conhece.  uma raa sem piedade,
feita para dominar o mundo, enquanto que o judeu, como 
diz Moiss,  uma raa perversa e mentirosa... 
- ... da que voc  o exemplo perfeito. 
- E talvez a maneira de lhes ser fiel. Muito poucos homens tm
coragem de se admitir at as ltimas conseqncias. Ns, 
judeus, somos pessoas sem grandeza, enquanto a grandeza, no alemo,
 natural; compreende-a e admira-a sem esforo. E 
isso que faz deles um povo heri. Assim era tambm a Frana em
outros tempos. 
- Pouco me importa que os alemes tenham o sentido da grandeza,
para mim, so inimigos que ocupam nosso pas e sonho 
apenas com o momento em que forem banidos da Frana e de toda a
parte. Na Rssia tambm tudo vai mal para os seus 
amigos. Devia pensar em mudar a espingarda de ombro. 
- Fale mais baixo. Sonharei como isso no momento oportuno. Enquanto
esperamos, so eles os vencedores. Sem eles, j 
estaria na priso. 
-  seu lugar. Voltemos a Sarah. Que fez? Julguei que no sabia seu
endereo. 
- E  verdade. Mas ao fazer meu pequeno papel, ca dentro de sua
rede. No foi difcil entrar em contato com eles. Dizia 
por toda a parte que deveria deixar a Frana no mais curto prazo.
Um dia em que almoava, muito mal, num pequeno 
restaurante judeu de Belleville, um garoto veio dizer-me para ir ao
Select, em Champs-Elyses, e para perguntar por Boby. 
Esse nome dizia-me qualquer coisa. Esse Boby devia ser um dos
criados daquele local. Vou freqentemente ao Select, 
sobretudo ao sbado, pelas sete horas. Que barulho! Que algazarra!
Que burburinho! Encontram-se malucos de todas as 
idades, pintados que  um desaforo, abanando as ancas, fazendo
mmicas, flertando sem pudor com gigols encantadores, 
discutindo a tarifa de suas relaes. A casa tem to m reputao
que a entrada est proibida  tropa de ocupao. E, 
portanto, um lugar ideal para deixar recados. O garoto tinha me
dado uma senha do gnero: "Deitei-me cedo durante muito 
tempo", e eu fui ao Select onde perguntei por Boby. Imagine a
criatura mais bonita que pode haver; rolio, gordo, com uma 
voz de criana... 
Deixe os detalhes. 
- ... duma frescura, um encanto! Logo que pronunciei a senha
disse-me para o seguir. Fomos para a adega. No disse muita 
coisa. Minhas respostas pareciam deix-lo satisfeito. Disse-me que
era apenas um dos elos da corrente e que no conhecia 
os outros. Ordenou-me que me apresentasse no dia seguinte ao
meio-dia no Fouquet's com um cravo vermelho na lapela e 
um mapa de Paris na mo. E foi o que fiz. Ali, um homem muito
elegante veio ter comigo e disse-me, depois de me oferecer 
um copo, que nos esperavam para almoar em casa de uma amiga.
Pegamos uma bicicleta-txi e fomos  rua de la Tour, a 
um apartamento magnifco. Sarah estava l. Camos nos braos um do
outro. Esperava tudo menos encontr-la. Sabia que a 
Gestapo a procurava, foi at por isso que lhe perguntei se sabia
onde ela estava, para preveni-la. 
- No compreendo nada... 
- No entanto no  difcil. Eu queria contar algumas besteiras sem
grandes conseqncias aos alemes, mas no tinha 
vontade de denunciar pessoas, ao menos por nada. 
- Isso me surpreenderia tambm! Voc  vil! 
- Mas no, nem tanto. A Sarah podia dizer tudo, e confessei-lhe por
que estava ali. Ela no pareceu admirada,  na verdade 
uma mulher extraordinria. Apesar disso, eu estava um pouco
surpreso quando ela me beijou e disse: "Meu caro Raphael, 
voc no mudar nunca".
Decidimos que eu esperaria quarenta e oito horas para avisar a
Gestapo sobre minha descoberta. 
E ento? Est tudo bem, ela teve tempo de se esconder. 
- No!  a que tudo desanda. Os alemes, desconfiados, mandaram me
seguir. Esperavam por mim na entrada da casa. Ah, 
minha querida amiga, foi preciso todo meu sangue frio para no
trocar os ps pelas mos. 
- No come? 
As trs irms Raymond estavam ali, olhando-os com desaprovao.
Desculpem, estvamos conversando. 
- Ns vimos - disse uma delas com um tom severo. 
- V, La, sirva-se. 
No tenho fome. 
- Faa um esforo. Iria preocup-las se no comesse, e depois disso
recusariam nos servir. E eu tenho necessidade de voltar 
aqui. 
Raphael deu o exemplo engolindo duma s vez duas rodelas de
chourio. 
- Que disseram os alemes? 
- Perguntaram-me o nome da pessoa que eu tinha ido visitar naquele
apartamento. 
- Voc lhes deu? 
Fui tomado de surpresa... 
- Pobre tipo! 
- Pode me injuriar, isso  fcil demais. Que teria feito em meu
lugar? 
- Subiram para prender Sarah? 
- No, porque eu lhes disse que ela devia dar-me dentro de dois
dias a lista das prximas pessoas que desejavam passar 
para a Espanha. 
- Acreditaram nisso? 
- Naquele momento, tive essa impresso; fizeram-me subir para o
carro e levaram-me para a avenida Flandrin. Senti-me 
totalmente tranqilo quando vi detrs da escrivaninha um de meus
amigos, Rudy de Mrode. Tnhamos realizado juntos, 
desde o princpio da guerra, belos negcios.  um homem muito
importante. 
- Que lhe disse ele? 
- Que seus chefes esperavam de mim uma prova de fidelidade para com
eles, e que contavam comigo para obter todos os 
nomes dos membros da organizao, em quarenta e oito horas. 
- Ento, conseguiu prevenir Sarah? 
- No, desde ontem estou sendo continuamente vigiado e seguido,
tentei despist-los, sem resultado. Foram eles que me 
partiram a cara na estao Svres-Babylone. Foi por causa disso que
a chamei e pedi para vir aqui.  preciso que v avis-la. 
- Mas como? A rua de la Tour  muito longe! 
- No  na rua de la Tour que  preciso ir, mas  rua Gungaud,
nmero 31. 
- J no compreendo nada. 
- Ontem, disse-me que ia deixar a rua de la Tour porque se tornara
perigosa para seus camaradas e que iria desaparecer por 
algum tempo. Uma das suas amigas, emigrante nos Estados Unidos,
havia lhe deixado as chaves de sua casa, e  l que se 
refugia desde h um ms, quando teve a impresso de que estava
sendo seguida ao voltar  rua de la Tour. 
- E ela contou-lhe tudo isso? H a qualquer coisa que no
compreendo. Quem me diz que voc no deu esse endereo aos 
alemes? 
Teria podido faz-lo, na verdade. Nem sei bem explicar por que no
o fiz. Gosto de Sarah, ou melhor, a recordao de 
certas bebedeiras nos bares de Montparnasse. Lembra-se daquelas
palavras dejulesRenard: "J no h amigos, h 
momentos de amizade". Nada mais exato entre Sarah e eu. 
Aqui tm a sopa, depois me diro se gostam - disse uma das senhoras
Raymond pousando na mesa um prato fumegante. 
Eles esperaram que ela voltasse para a cozinha, para retomar a
conversa. 
No se mexa... Dois homens que me seguiram acabam de entrar. Ainda
no me avistaram. Levante-se e v para a cozinha. 
No fundo h uma porta que d para o ptio. Atravesse-a e passe por
baixo de um portal. H um segundo ptio e,  direita, 
uma porta muito velha. Depois, um corredor e uma outra porta que d
para a rua de Nevers. Siga  direita em direo ao 
cais, depois, logo em seguida,  esquerda,  a rua de Gungaud.
Olhe para ver se no h nada de suspeito. Ande 
normalmente. Se no vir ningum, v ao nmero 31, suba ao terceiro
andar e toque trs vezes, Sarah vir abrir. Diga-lhe 
para partir imediatamente. Boa sorte. 
Raphael Mahl no baixou os olhos diante do olhar de La que dizia
claramente: "Poderei ter confiana em voc?''. 
Naturalmente, levantou-se, ps nos ombros o casaco de peles e
aproximou-se do vestbulo onde os dois homens de 
impermevel estavam de costas. Perguntou a meia voz a uma das
irms: 
- Onde  o banheiro, por favor? 
La no escutou a resposta e dirigiu-se para a cozinha. Ao passar
diante da cozinheira e do cantor de pera, ps um dedo 
no lbio e saiu para o ptio. 
No pequeno restaurante da rua Dauphine tudo estava calmo, os dois
homens no haviam se movido e Raphael atacava a 
sopa. 
Na rua de Nevers, estava escuro. Grandes ratazanas fugiram diante
de La, que quase gritou. Um vento glacial varria o cais. 
Nenhum barulho. Tudo parecia deserto. Tentando atenuar o barulho de
suas solas de madeira, os punhos cerrados enfiados 
nos bolsos do casaco, de ouvido atento, com medo nas entranhas,
avanou para a rua Gungaud. 
De repente, do Pont-Neuf, surgiu um carro, com os faris apagados,
que seguia em grande velocidade e entrou na rua 
Dauphine. Uma brecada violenta e La, esquecendo os conselhos de
Raphael, ps-se a correr, O carro deu marcha-r. 
Voltou  rua Gungaud, ultrapassou a jovem que fugia e parou
alguns metros adiante. A porta do carro abriu-se e um 
homem surgiu, atravessando-se em seu caminho. La gritou. 
Algum tocou seus ombros. 
- No tenha medo, sou eu. Suba no carro. 
Sem reao, ela deixou-se conduzir por Franois Tavernier. Seguiram
at o cais, passando pela rua do Seine e pararam 
diante de uma galeria de pintura no ngulo do cais. 
Onde ia, correndo dessa maneira? 
- Ao ouvir seu carro tive medo. 
- Que foi fazer com o Mahl? 
- Ele sabe onde est Sarah. A Gestapo est no seu encalo e eu ia
avis-la. 
- Por que no o fez ele mesmo? 
- Dois homens vigiavam o restaurante. Eu sa pelos fundos. 
- Sinto em tudo isso qualquer coisa de suspeito. E voc tambm,
seno, no me teria deixado este recado. 
- Talvez, mas devemos tentar avisar Sarah. 
Onde ela est? 
- Na rua Gungaud. 
- Foi Mahl quem lhe deu esse endereo? 
Sim. 
Ento, seja o que Deus quiser. Fique a e se vir algum
aproximar-se, arranque. Se no voltar dentro de vinte minutos, v 
embora. 
No, vou com voc. 
- Nem pense nis... 
Cale-se, estamos perdendo tempo. 
Franois puxou-a para si. Ela murmurou: 
Tenho medo. 
Depois, afastou-se e partiu para a rua Mazarine. 
- No, no passemos por a. Vamos pegar a rua de Seine e
deJacques-Callot. Da, teremos uma viso geral da rua 
Gungaud. 
Franois tirou da algibeira do sobretudo um revlver, que
destravou. La sentiu-se um pouco mais segura. 
Caminharam depressa no silncio daquela noite de inverno. Havia,
naquela ausncia de barulho e de luz, qualquer coisa de 
irreal, um pouco semelhante  calma que precede a tempestade.
Pararam  entrada da antiga passagem do Pont-Neuf,  sua 
frente, no cruzamento, a rua estava deserta. Deram mais uns
passos... Tudo se passou rapidamente. Um carro, depois dois, 
depois trs, surgiram dos dois lados da rua Mazarine e da rua
Gungaud, vindos do cais. Franois empurrou La para a 
entrada de uma porta. As portas bateram, homens a paisana, de
pistolas em punho, empurraram a porta do nmero 31, 
outros ficaram na entrada da rua, de metralhadora no quadril. 
Um grito. Chamamentos. Uma sombra feminina projetada na rua,
estrebucha, levanta-se e corre. Gritos. Dirige-se para eles. 
Soa um tiro. Ela estrebucha sobre si mesma... e, lentamente, cai...
Franois reteve La a custo. 
Os homens avanam correndo. Ela se ergue. A noite esconde o sangue
do passeio. Uma coronhada, outra, derrubam-na. A 
mo branca, to fina, ergue-se num gesto intil de proteo.
Franois abafa os genmidos de La. 
Uma outra pancada. A mo baixa e cai. Erguem o corpo ferido. Um
levanta-o pelos ombros, outro pelos tornozelos. Jogam-
no na traseira de uma camioneta. V-se a luz de um cigarro que se
acende depois do esforo. As portas do carro voltam a 
bater. O barulho dos motores. E o silncio. Ningum reagiu. Ningum
ouviu que se assassinava uma mulher.

Captulo 5

O CHORO DE UM recm-nascido atravessou os sonhos de La.
Ela passeava com Laurent, ternamente enlaados, no terrao de
Montillac. Nada mais existia, a guerra tinha vencido todos 
os obstculos que se erguiam diante de seu amor, deixando-os sem
memria, face quela vasta propriedade onde no se 
ouvia nenhum rudo. 
La acordou, chamando pela me, com as faces banhadas pelas
lgrimas. 
No quarto ao lado, os gritos de beb pararam. Estelle entrou,
trazendo a bandeja do caf da manh. 
- Bom-dia, senhorita La. 
- Bom-dia, Estelle. Que horas so? 
- Quase dez horas. No se esquea de que esta noite tem festa aqui
em casa. 
- Festa? 
- Estamos em 31 de dezembro, ser o batizado do pequeno Pierre e a
senhorita  a madrinha. 
- Pierre?...  verdade que agora existe um Pierre. Como est
Franoise esta manh? 
- Muito melhor. Ontem j deu alguns passos. Vou deix-la porque
tenho de comear a preparar o meu bolo. 
La levantou-se e enfiou, por cima do pulver que vestia sobre a
camisola, um velho roupo muito quente, de l dos 
Pirineus, que pertencera a seu pai, e calou as meias de l. O
espelho do armrio refletiu sua figura. Assim vestida no 
merecia nenhum prmio de elegncia, mas, pelo menos, no sentia
frio. Depois de escovar os dentes e pentear os cabelos no 
banheiro, atacou seu caf da manh. 
La mordeu a fatia de po escuro e duro como madeira. Depois, as 
imagens do seu sono voltaram... Em seguida, aquelas, horrveis, da
noite da priso de Sarah Mulstein. 
Franois Tavernier no teve muita dificuldade para obter notcias
da moa pelo prprio Helmut Knochen. Tinha sido 
levada  rua de Saussaiez na espera de ser interrogada. Tinham-lhe
tratado dos ferimentos que, segundo parece, eram sem 
gravidade; posta em isolamento, ningum podia v-la. Knochen
tinha-lhe afirmado que ela estava sendo bem tratada. Com 
certeza Franois Tavernier no tinha feito um ar muito convencido,
pois o oficial alemo havia declarado: 
- Desde que Danneker partiu, o brao direito de Eichmann, os
interrogatrios dos judeus terroristas so conduzidos com 
menos brutalidade. 
Helmut Knochen dirigia o "Sonderkommando" desde sua chegada a
Paris, em 14 de junho de 1940. Aquele intelectual de 
trinta e dois anos, filho de um modesto professor, doutor em
filosofia, sonhara tornar-se professor de letras, antes de entrar 
como redator na agncia oficial da imprensa alem, onde foi
encarregado do estudo da imprensa francesa, belga e holandesa. 
Tinha aderido  S.S. em 1933. Era um homem mais para o magro e
alto, de testa larga, cabelos castanhos, que raramente 
sorria. Em menos de um ano conseguira introduzir-se na alta
sociedade parisiense e logo se tornara a coqueluche dos sales, 
graas a seu esprito e cultura. Foi num desses sales que
Tavernier o conhecera. Os dois homens no demoraram a se 
reencontrar por razes diametralmente opostas. Sem hesitar, Helmut
Knochen lhe dissera para procurar, nesses meios, 
agentes capazes de lhe fornecer informaes sobre homens polticos
do regime de Vichk, sobre industriais e, bem 
entendido, sobre a Resistncia e seus chefes. Aparentemente
interessado, Franois Tavernier o havia revisto e sabido por 
ele, em detalhes, sobre o funcionamento da formidvel organizao
da Gestapo, pelo territrio francs. Curiosamente, 
obtivera a confiana de Knochen por causa da oposio que reinava
entre a Gestapo e a embaixada da Alemanha. Tavernier, 
freqentemente recebido por Otto Abetz, o embaixador, contava-lhe
tudo o que se dizia - verdadeiro ou falso - com 
respeito aos servios, nos corredores ou nos sales da embaixada.
Ele acolhia com aparente calma esses mexericos, 
enquanto, com uma ligeira ruga, inclinava para a esquerda sua boca
um pouco grande. 
Era desse homem - que, no decorrer de alguns meses, havia erguido
uma organizao que o prprio exrcito alemo temia - 
que dependia a sorte de Sarah Mulstein. 
- No se aflija, eu controlo pessoalmente esse assunto. 
Franois sentira-se muito inquieto, mas no tinha insistido com
medo de dar ao "acaso" uma importncia que Helmut 
Knochen no deixaria de notar. 
H dez dias Sarah estava na rua Saussaies. 
Bateram  porta de La. 
- Entre. 
Era Franoise com uma cara radiosa e repousada, trazendo seu
recm-nascido. 
- Seu afilhado faz questo de v-la disse ela, estendendo-lhe a
criana. 
Desajeitada, La pegou-o, mas rapidamente o devolveu  me. 
-  um amor, mas eu tenho medo de deix-lo cair.  to pequenino. 
- No to pequeno! Pesava 3 quilos e duzentos ao nascer.  o mais
lindo dos bebs. No acha que se parece com o pai? 
Esta observao aborreceu La. 
- Sabe, eu nunca olhei para ele. 
Encolhendo os ombros, Franoise baixou a cabea, enternecida com
seu pequeno nos braos. 
- Desculpe-me - disse La -, no queria ser desagradvel. Deixe eu
me vestir se quiser que esteja pronta para o batizado. Que 
horas so? 
Trs horas. 
La ficou um instante imvel diante da porta que acabava de se
fechar. Depois, levantando os ombros, jogou o roupo 
sobre a cama, tirou as meias, prendeu sob a camisola uma
cinta-ligas e meias de l, vestiu a calcinha e, tremendo, retirou a 
blusa de malha e a camisola. Nunca se habituaria quele frio! 
Que teria pensado sua me daquilo tudo? Que teria feito a sensata
Isabelle Delmas naquelas circunstncias? Aceitaria ser 
''comadre'' de um soldado alemo com o pretexto de que o futuro
cristo era seu sobrinho? Porque Frederic Hanke, como 
o melhor amigo do pai, devia ser o padrinho... 
La ainda se encontrava sob o choque da priso de Sarah para reagir
quando Franoise lhe pedira para ser madrinha do 
garoto. Teria boa aparncia na igreja de So Tomas de Aquino, ao
pegar na criana sobre a pia batismal, juntamente com um 
soldado alemo. Ela havia contado a Franois seu desejo de recusar,
mas ele a dissuadira. 
Eles haviam voltado a se ver quase todos os dias depois daquela
noite trgica. Noite que ele passara com ela na rua da 
Universidade na "casa fria". Escondido das senhoras Montpleynet,
cheias de trabalho 
depois do parto de Franoise - parto que felizmente havia terminado
pouco antes de seu regresso. 
Franois mostrara-se o mais doce, o mais paciente e o mais terno
dos amigos, fazendo com que La quase esquecesse os 
aspectos inquietantes de sua vida. Cada dia ela se dizia: ''Preciso
lhe falar sobre certo nmero de coisas" e, cada dia, 
contentava-se em lev-lo para seu quarto e de se aconchegar em seus
braos. Sem que tivesse necessidade de lhe dizer, ele 
compreendera que ela no desejava fazer amor, mas simplesmente
encostar-se nele. Ela teria ficado assim durante horas, 
impregnando-se de seu calor e de seu perfume, tranqilizada pelas
batidas regulares de seu corao e pelas palavras 
apaziguadoras que ele lhe murmurava. Sentia-se to bem, finalmente
sem medo, que lhe custava estragar estes frgeis 
momentos com perguntas s quais ele no responderia. Ela tinha-lhe
dito no dia seguinte ao drama todo o horror que 
Raphael Mahl agora lhe inspirava. 
Neste caso em particular, voc est errada. No teve nada a ver com
a priso de Sarah. 
La recusava-se a acreditar. Desde o jantar da rua Dauphine, estava
sem notcias dele. 
La, entocada na "sua" cadeira da entrada, lia uma carta de Camille
em voz alta s tias, plantadas muito eretas  sua frente. 
"Querida La. 
Pode imaginar a que ponto lamentamos todos aqui no poder assistir
ao batizado do beb de Franoise! Ficamos um tanto 
decepcionadas porque no nos deu mais detalhes sobre ele, em sua
ltima carta. Diga a Franoise que pensamos nela com 
ternura. Amanh pretendo escrever-lhe. 
Charles ficou louco de alegria com seus presentes. Veste um pulver
que as senhoras Montpleynet lhe tricotaram e no 
quer mais tir-lo. Faa-me a gentileza de lhes dizer isto. 
O marceneiro refez a porta do barraco que ameaava ruir. Logo que
se tenha um pouco de dinheiro ser prudente renovar 
algumas telhas; no celeiro faltam coisas. 
Est chovendo e h dez dias que no tenho notcias de L. Aperto-a
em meus braos. 
Camille" 
O batizado foi melhor do que se esperava. Em primeiro lugar, as
moradoras da rua da Universidade tiveram a agradvel 
surpresa de ver 
chegar o padrinho, Frederic Hanke, a paisana, os braos carregados
de presentes, que, depois de feita a distribuio, levou-
as para almoar num pequeno restaurante da rua Verneuil. A refeio
fora agradvel, quase alegre, de to simptico que era 
o padrinho. Tinha falado com muita gentileza de Camille d'Argilat e
da emoo que sentira ao ajud-la a trazer ao mundo o 
filho. Tinha dito igualmente como se sentia atrado por Montillac e
a sua regio e que, no fim da guerra, gostaria de viver ali. 
Talvez pela ausncia do uniforme, La teve a impresso de que o via
pela primeira vez... Surpreendia-se ao pensar que se 
ele no fosse alemo o incluiria entre seus apaixonados. Esta idia
f-la sorrir. As duas horas e meia tinham ido buscar o 
pequeno Pierre e Estelie. As trs horas, em So Toms de Aquino, o
padre dissera, ao fazer correr a gua na fronte do beb: 
- Eu te batizo, Pierre, Otto, Frederic, em nome do Pai, do Filho e
do Esprito Santo. 
Franois Tavernier chegara  rua da Universidade s seis horas e
encontrou toda a famlia bebendo champanhe em volta do 
bero. No teve remdio seno beber em honra do recm-nascido, mas
recusou participar no "festim" previsto para celebrar 
o nascimento e o fim do ano. 
Tavernier e Hanke no se conheciam e Franoise apresentou-os um ao
outro. Apertaram-se as mos. Depois de umas 
banalidades, Franois conduziu La at o quarto. 
- Poder me dar a chave do prdio e do apartamento da frente? 
Para fazer o que? 
- Pode ser que tenha necessidade de vir esta noite repentinamente. 
- Por que no vai para sua casa? 
Esta noite tenho o que fazer aqui no bairro. Preciso de um refgio
prximo. 
- No me quer dizer por qu? 
-  irritante. Com voc no posso saber nada. Voc me deixa supor
as piores coisas a seu respeito. Quem me diz que no 
foi voc quem denunciou Sarah Mulstein? 
Era de tal modo inesperado, que Franois ficou por um momento sem
reao; depois, seu rosto se crispou, empalideceu, 
enquanto a clera lhe invadia o rosto. Diante dessa metamorfose,
La recuou, mas no to depressa que pudesse evitar a 
maior bofetada que jamais recebera. Sob a violncia do golpe,
tropeou e sua cabea bateu num dos espaldares da cama, 
enquanto um pouco de sangue lhe escorria pelo nariz. Num salto, ele
aproximou-se dela, agarrou-a pelos braos com tanta 
fora que a forou a gritar. 
- Nunca mais diga coisas semelhantes, La. 
Debruado sobre ela, estava to ameaador, que ela levantou um
brao para se proteger. Aquele gesto infantil descontraiu 
um pouco Franois. 
- Estou fazendo tudo o que me  possvel para arrancar Sarah das
mos da Gestapo. Irei at mesmo ao ponto de tentar 
faz-la fugir. 
La exclamou: 
- Quando? 
Tavernier olhou-a com uma expresso de dvida. 
- Voc  verdadeiramente estranha, manifesta que no tem nenhuma
confiana em mim e acredita-me quando falo em fazer 
Sarah fugir. 
- Porque acredito que  capaz disso.  bem preciso que suas
relaes com o ocupante sirvam para alguma coisa. 
- Deste negcio no tenho na verdade a mnima inteno de p- los
ao corrente, e antes recorrer aos membros do grupo de 
Sarah. 
- Conhece-os? 
- Alguns. No entanto ser aqui que nos reuniremos. Previna suas
tias para que fiquem em seus quartos e no faam 
perguntas. 
- Mas por que aqui? 
- Este apartamento acolhe a "noiva" e o filho de um oficial do
Reich e, no primeiro andar, vive a amante do general Von 
Rippen. Este prdio , ento, conhecido pelas autoridades ocupantes
como sendo habitado por alemes. Portanto  menos 
vigiado. 
- Compreendo. Posso tratar disso com minhas tias, mas com
Franoise?... 
- No deve saber de nada, disso depende as nossas vidas. Continua
decidida a ajudar Sarah? 
- Mais do que nunca. 
- Muito bem. A sua misso vai consistir, a partir de amanh, em
encontrar trs ou quatro pessoas e a lhes entregar uma 
mensagem. Eis o que tem a fazer e a dizer. 
Durante uma hora fez La decorar as mensagens, os nomes de guerra,
dos locais e os sinais de reconhecimento. 
- No esquea nada. Encontramo-nos aqui amanh  noite. Tem uma
bicicleta? 
- Aqui, no. 
- Vou tentar roubar uma e ser o meu presente de fim de ano. Tem
preferncia quanto  cor? 
-  indiferente. A minha  azul. 
- Pois ser azul;  uma excelente cor para esconjurar o azar. Na
sua bicicleta azul, vai ser a mensageira da esperana. 
-  engraado que me diga isso. O meu tio Adrien disse-me
exatamente a mesma coisa. 
- Est vendo, seu tio e eu temos vrios pontos em comum. 
Franois apertou-a nos braos e levou-a at a cama. 
- Agora, venha, para que a perdoe por me julgar um traidor. 
- Deixe-me, fiquei morta desde a outra noite. 
Ele no a ouviu. Seus lbios, seus dedos, procuravam-na. 
La no se debateu mas, quando ele a beijou, seus lbios
encontraram lgrimas. 
- No, antes que salve Sarah. 
Ele levantou-se e recomps sua roupa. 
- Vai me dar as chaves? 
- Vou busc-las. 
- Sobretudo, no faa barulho - disse ela, estendendo-lhe as
chaves. 
- No tenho certeza de voltar esta noite. Encontrar  entrada a
bicicleta e um salvo-conduto. Amanh, no se esquea: 
Trindade convoca para 3 de janeiro, s dez horas da noite, no
terceiro andar, nmero 29, da rua da Universidade para uma 
deciso grave que diz respeito a Simone Mingot, os camaradas
Vautrin, Homais, La Rochelle e Bataille; a cada um deles 
entregar metade de um bilhete de metr de primeira classe, e eles
mostrar-lhe-o a outra metade. Seja prudente, pequena, 
ao mnimo alerta. A menor suspeita, desligue. Enquanto espera,
volte para sua festa. Amanh, um novo ano. Espero muito 
pass-lo em sua companhia. 
Abraou-a com toda ternura. 
La voltou para junto da famlia, triste com a partida de Franois.
L fora, a neve comeava a cair. 
No dia seguinte, La encontrou  entrada do apartamento uma soberba
bicicleta azul, com sacolas de couro falso. Como as 
tias se espantaram por no terem ouvido ningum entreg-la, La
declarou que era um presente de Papai Noel, que tivera 
ainda a delicadeza de deix-la ali com pacotes de leite e de
chocolate. 
A neve se derretera. Estava um dia lindo e frio. La anunciou sua
inteno de experimentar a bicicleta e de no voltar para o 
almoo, querendo assim, dizia, aproveitar o bom tempo. Foi vestir
uma roupa mais quente, calas e dois grandes pulveres. 
Calou as botas forradas, envolveu os cabelos num turbante de l e,
assim equipada, vestiu o quente casaco forrado de pele 
oferecido por Franois. Completou o traje com grossas luvas
forradas de coelho.
A irm e as tias desejaram-lhe um bom passeio.

Captulo 6

NUNCA PARIS PARECEU to bonita a La como naquela manh. O ar,
branco e frio, era to leve que dava s velhas 
pedras das casas do cais Voltaire, banhadas pelo sol picante, uma
alegria frgil. A moa parou na Ponte Royal para ver 
brilhar o Sena cinzento e malcheiroso que corria docemente para
Alma, balanando  sua passagem as barcaas escuras. 
Diante desse panorama que tantos apaixonados de Paris tinham
contemplado, sentiu no final daquela manh de 1? de 
janeiro de 1943, uma paz que lhe envolveu o corao e lhe trouxe
aos lbios uma orao esquecida de sua infncia: 
"Meu Deus, ofereo-vos o meu dia, feliz ou infeliz ser vosso, para
Vs, fazei o que for da vossa vontade, mas fazei que, 
ao aproximar-se a minha eternidade, eu me aproxime de Vs". 
Cheia de confiana, voltou a subir na bicicleta. Tudo estava to
deserto que tinha o sentimento de estar numa cidade 
abandonada. Nenhum barulho humano vinha perturbar esta impresso.
La alegrou-se com essa solido, que lhe permitiu 
criar um vazio dentro de si e preparar- se para a misso confiada
por Franois Tavernier. Apesar de tudo o que havia de 
incompreensvel no comportamento daquele homem, e embora lhe
tivesse dito, no conseguia desconfiar dele. Estava 
convencida de que, se houvesse a menor oportunidade, ele seria o
nico que poderia salvar Sarah. 
No Largo de Saint-Opportune, La prendeu a bicicleta na grade do
metr e dirigiu-se para a rua da Ferronnerie. 
Empurrou a porta de um caf srdido, com as vidraas respingadas de
azul. Um odor frio e enjoativo de serragem molhada, 
de vinhaa, de mau tabaco e de um simulacro de caf, enjoou-a. Teve
a sensao de entrar num universo glauco e pantanoso, 
onde se moviam seres com faces esverdeadas. Por detrs de um zinco,
no meio de garrafas poerentas
 e vazias, um aparelho de rdio grande e brilhante difundia uma
canoneta da moda, O patro, um homem gordo com 
as mangas arregaadas, os raros cabelos em desordem, olhar
remeloso, uma bituca apagada no canto da boca e barba por 
fazer, interrogou-a: 
- No h nada para beber, hoje  dia sem lcool. 
- Eu s queria qualquer coisa quente, um caf, por exemplo - disse
ela, aproximando-se do balco. 
- Caf?... Vocs esto ouvindo?... Com um pouco de leite, e por que
no com acar?... 
Os quatro ou cinco fregueses troaram servilmente. La corou.
Comeava bem! - 
- Porque  simptica, posso servir-lhe um viandox... E a senhorita
que viria aqui com metade do bilhete do metr? - 
murmurou ele rapidamente. 
Surpreendida, La recuou. 
- No  preciso fugir, linda senhorita, o viandox, hoje, no  pior
que qualquer outra coisa. 
Enquanto falava pousou  sua frente uma caneca fumegante. La
aproximou-se. 
- No fique aqui - continuou ele, em voz baixa -, prenderam uma das
pessoas que a senhorita procura... Tome, beba isto... 
Beba, por favor, esto nos olhando. 
La molhou os lbios, estava terrivelmente quente, mas menos mau do
que ela esperava. O patro desatou a rir. 
- Esto vendo... Nem sabe beber... V  igreja de Saint-Eustache, 
missa, ningum notar... Ento, senhor Ren, que vou lhe 
servir para festejar o Ano-novo? 
- Como habitualmente, a reserva do patro. Bom ano, senhorita, quer
beber comigo? 
-Mas... 
- Ateno, olhe que me zango, uma linda senhora nunca nega nada ao
grande Ren, no  verdade, Juju? 
- Deve acreditar, senhorita, olhe que quem lhe resistir no 
amanh a vspera de o encontrar. 
- Bem dito, Juju, voc  um verdadeiro pote. O teu telefone j est
consertado? 
-J, h dois dias. 
- Conserve a pequena aquecida, que preciso fazer uma ligao. At
j, queridinha. 
La esquivou-se da mo atrevida. E o pretensioso riu, dando de
ombros. 
- Tem de partir depressa, ele trabalha para eles. Em
Saint-Eustache, na capela de Nossa Senhora, est um homem que tem 
na mo a Petite Gironde, e ele vai lhe dizer o que  preciso fazer.
No deve nada,  presente da casa. V, e mesmo assim, 
um bom ano. 
- Bom ano para o senhor tambm - disse ela empurrando a porta o
mais calmamente possvel. 
Como conseguiu desamarrar a bicicleta? Como encontrou o caminho
atravs das ruelas dos Halles e como se encontrou 
dentro da igreja em poucos minutos? Isso La no poderia dizer. 
O edifcio religioso estava cheio de fiis, sobretudo mulheres, que
cantavam com fervor, enquanto uma pequena nuvem de 
fumo escapava- lhes da boca. Um lugar no genuflexrio estava
desocupado diante do altar da Virgem; com o corao 
batendo, ajoelhou-se, incapaz de pensar. 
Era o momento da comunho, a maioria dos assistentes dirigiam-se 
santa mesa. Perto dela, um homem ajoelhou-se e ps a 
cabea entre as mos. Do bolso do seu velho casaco saa um jornal. 
Num relance, La reviu aquela tarde em Bordus onde, seguida pelos
policiais do comissrio Poinsot, procurava um lugar 
onde se esconder e onde, na vitrina do vendedor de jornais da praa
do Grand Thatre, ela vira a Petite Gironde e soubera, 
naquele momento, para onde devia se dirigir. Voltou a cabea. O
homem era jovem e usava uma barba que no chegava a 
envelhec-lo. Parecia-se um pouco com... No, no era possvel,
estava tendo vises... 
- La... 
Algum dissera seu nome! Deveria voltar-se?... Mas no, era o jovem
da Petite Gironde! Ento?... 
- No se mexa. Vou sair primeiro. Encontro-a em sua casa, na rua da
Universidade. 
- Em minha casa?... 
-  o nico local um pouco mais seguro. 
Depois que ele partiu, La contou at vinte, e saiu por sua vez. 
Na rua da Universidade todos faziam festas ajean Lefvre, o
companheiro de brincadeira de La, aquele que com o seu 
irmo Raul fingia estar doido de amores por ela. 
Caram nos braos um do outro. 
A famlia ainda se encontrava  mesa. Abriu-se uma garrafa de
champanhe para saudar aquele reencontro, o fim da guerra e 
o Ano-novo; passaram-se ao menos vinte minutos antes que pudessem
se isolar no quarto de La. 
- Depressa, no temos muito tempo. Gostaria mais que fosse outra
pessoa e no voc - disse Jean, apertando-a contra o 
peito. 
- Eu no, e estou feliz. Sem isto no teria voltado a v-lo. 
- Isso  verdade, mas  tudo muito perigoso. 
- Eu sei. Que devo fazer agora? Devo ir aos outros encontros? 
- No. Depois da priso de Simone Mingot... 
- Simone Mingot?... 
- Sim,  com esse nome que a maior parte de ns a conhece. Depois
de sua priso, os membros dessa rede dispersaram-se, 
como estava previsto. Cada um por sua vez, deveria rondar nossa
antiga caixa do correio. Foi a que encontrei Trinit. 
- Franois?... 
- Disse-me para tentar fazer Simone fugir e perguntou-me se eu
estava de acordo. Aceitei imediatamente. Uma jovem 
deveria trazer- me novidades na manh do dia 1 de janeiro. Tudo
corria bem, quando, de madrugada, vim a saber da priso 
de um camarada que conhecia meu endereo. Tive apenas tempo de me
vestir e de fugir pelos telhados. Os homens da 
Gestapo j estavam na escada. Felizmente no havia neve. Tive
apenas uma idia: prevenir Trinit. Ele no estava nos dois 
endereos que me havia dado. Mesmo assim, fui ao encontro da rua
Ferronnerie. Na avenida Sbastopol, uma bicicleta-txi 
chegou-se a mim. 
- Vautrin! ... - disse o passageiro. 
- Ento, Vautrin  voc?... 
Jean ignorou a pergunta. 
- ... Continue a pedalar, como se nada estivesse acontecendo. V
aonde sabe,  rua Ferronnerie, pergunte ao patro onde  a 
igreja de Trinit, ele vai lhe dizer que voc se enganou de bairro,
que por ali  Saint-Eustache ou Saint-Leu, ou Saint-Merri. 
E voc dir: "Ah! Bom, poder me indicar o caminho para SaintMerri?
Homem bom, ele sair para lhe indicar a direo. 
Depressa, voc lhe dir que uma moa muito bonita, de cabelos
ruivo-escuros e olhos cor de violeta, dever ir at l. 
- At me parece o retrato de uma amiga - disse-lhe eu. 
-  ela. 
- Quase ca da bicicleta. Trinit, porque era ele, prosseguiu com
voz calma 
- No  momento para perder a cabea. Ela ir encontr-lo sem
demora na igreja de Saint-Eustache, diante da capela da 
Virgem. Dali voc ir para a casa das senhoras Montpleynet.
Compreendeu bem? 
- Sim - respondi completamente abobalhado. 
Os dois amigos ficaram algum tempo calados. 
- E agora, que fazemos? - perguntou La. 
- Sem novas instrues, esperamos. 
- Vamos encontrar os outros, vai lhes parecer estranho ficarmos
juntos tanto tempo. 
Enquanto estiveram  parte, o padrinho do pequeno Pierre viera
fazer uma visita  me de seu afilhado, a quem havia 
entregue, junto com uma grande caixa de chocolates, uma carta de
Otto Kramer na qual lhe anunciava que em breve iria se 
beneficiar de uma licena. Essa feliz novidade fez a jovem
resplandecer. 
Ao ver Frederic Hanke, La empalideceu. J no havia possibilidade
de recuar e era preciso fazer as apresentaes. 
Apertando o brao de Jean, aproximou-se, sorridente, do alemo,
sempre vestido a paisana, e disse, estendendo a mo: 
- Bom ano, Frederic. Posso lhe apresentar um amigo de infncia, de
passagem por Paris? Jean Lefevre. Jean, apresento-lhe o 
padrinho do filho de Franoise, o capito Frederic Hanke. 
Sem o belisco de La, teria certamente cado. Incapaz de dizer uma
palavra, plido, estendeu ao outro uma mo trmula. 
Sem parecer reparar em nada de anormal, Frederic apertou-a. 
- Bom-dia, caro senhor. Fico feliz por encontrar um amigo de
Franoise e de La. Desejo-lhe um bom ano. Obrigado pelo 
seus votos, La. Espero que este ano seja para voc melhor que o
anterior. 
- Obrigada, Frederic. Jean, quer um caf? 
- Sim - murmurou Jean sem saber o que fazer. 
O capito Hanke, muito  vontade, aproximou-se dele. 
-  vizinho prximo da famlia Delmas? 
Bastante prximo, sim, a propriedade da minha me  em Cadillac. 
- Sem dvida a ajuda a explor-la? 
- Sim. 
- Voc tem a sorte de viver numa bela regio. Espero voltar a v-lo
quando a guerra acabar e nossos dois povos formarem 
apenas um. 
Jean ia replicar, quando La interrompeu: 
- O capito ficou apaixonado pelas nossas vinhas, quando esteve em
nossa casa, em Montillac. 
Por fim, Frederic Hanke despediu-se. 
- Desculpe-me ter interrompido o final do vosso almoo. Mas era o
nico momento em que poderia vir apresentar-lhe as 
Boas-Festas. Volto ao servio s quinze horas. Franoise, se
precisar de mim, sabe 
onde me encontrar. At logo, minhas senhoras, at logo, La, at
logo, caro senhor. 
Todos o viram partir com alvio. 
- Um! Julguei que nunca mais ia embora! - exclamou La, deixando-se
cair numa cadeira. Por que no nos vieram avisar que 
ele estava c? 
No pensei nisso - disse Franoise cabisbaixa. - Estava to feliz
por ter notcias de Otto. 
- Isso no tem importncia, minha filha. Este rapaz  realmente
encantador. Muito bem-educado, absolutamente correto! - 
exclamou Lisa, com voz satisfeita. 
- Absolutamente correto,  o que se diz por toda a parte  nossa
volta. "Calcule, senhora Dupont, aquele oficial segurou a 
porta do metr para eu entrar! Que homem bem-educado! Hum! ... No
 como os franceses jovens de agora, que nos 
empurram sem sequer pedirem desculpas. Comunistas... Uns devassos,
e ainda se admira termos perdido a guerra... O 
contrrio  que teria sido para admirar. Bem que eu digo, senhora,
quando um povo se afasta de Deus  justo que Deus se 
afaste dele e o castigue... Temos de espiar e denunciar os maus
franceses que escutam a rdio de Londres e desobedecem ao 
marechal Ptain, um santo homem, que tomou conta da Frana para a
salvar..." 
- Chega, La gritou Franoise. 
- "...senhora Durand, tem toda razo. Calcule que outro dia
encontrei uma antiga vizinha, uma judia... Pois imagine, nem  
de acreditar, nem usava a estrela amarela. Pode acreditar que no
deixei de avis-la e toda a gente  minha volta me aprovou. 
Corada de vergonha, ela foi embora..." 
- Chega! 
- Est bem, est bem, tia Albertine. Desculpe-me, sou da sua
opinio, os alemes so muito corretos! 
- Exatamente, mesmo que isso a desagrade. Voc parece se esquecer
de que so eles os vencedores e que podiam fazer de 
ns o que quisessem. Enquanto que, apesar dos atentados, continuam
a mostrar-se corretos e pacientes... 
- Que fuzilam os refns por toda a parte, que deportam no se sabe
para onde mulheres e crianas... 
- So terroristas... 
- As crianas...? 
- Cale-se, no fale de crianas - disse Franoise, desfeita em
lgrimas. 
Um silncio suspeito seguiu-se a esta discusso. 
- Venha, Jean, vamos para o meu quarto. 
- No me parece decente - disse Lisa, com uma voz to aguda que, em
outra circunstncia, todos teriam achado cmica. 
La encolheu os ombros e saiu arrastando o amigo. Mal tinham
passado o umbral da porta quando a campainha tocou. 
Com o corao palpitando, os dois amigos entreolharam-se. Com um
gesto, La indicou o quarto. Esperou que a porta se 
fechasse para abrir a do patamar. 
- Graas a Deus, est aqui! - disse Franois Tavernier, apertando-a
contra o peito. 
O alvio que sentiu quando ele a abraou chegou perto da volpia. 
- Tive tanto medo... quando soube que um dos companheiros de Sarah
nos tinha trado, eu a vi presa... e nunca me 
perdoaria... Lefvre est com voc? 
- Est. Por que no me disse que se tratava dele? 
Porque s o soube no ltimo instante. Onde est ele? 
- Em meu quarto. Vamos l antes que tia Lisa venha aqui saber quem
tocou. 
- Sigo-a, mas primeiro d-me um beijo. 
Pela primeira vez, La respondeu a esse pedido com verdadeira
simplicidade. 
No quarto, sentado no canto da cama, com a cabea entre as mos,
Jean Lefvre esperava. Quando ergueu a cabea tinha os 
olhos midos. Franois Tavernier olhou para ele atentamente. 
- La, deixe-nos a ss. 
Quando se encontraram a ss, ele perguntou: 
- No tem nenhuma notcia dos outros membros do grupo? 
O rapaz acenou negativamente. 
- Tem de sair de Paris imediatamente. Aqui esto seus novos
documentos. Seu novo nome Jol Lemaire, nascido em 
Tranche-su-Mer, na Vende, no dia 10 de outubro de 1920, filho
deJean Lemaire, agricultor, e de Thrse Peyon, sem 
profisso.  filho nico e os seus pais morreram h dois anos, em
Sables-Olonne, durante uma tempestade que fez 
naufragar o barco em que se encontravam. Trabalha como pescador em
Aiguillon. Tudo isso e mais explicaes esto aqui 
consignadas. Aprenda-as de cor antes de partir, depois as destrua.
Apanhar o trem esta noite para Poitiers, e a ter uma 
correspondncia para a Rochelle. Seja muito prudente, nessa zona
so freqentes as inspees. Na Rochelle tente encontrar 
um carro em direo a Luchon e a Aiguillon. Em Aiguillon, ir ao
"Rendez-Vous dos Marinheiros Pescadores". 
Pergunte por jean Marie, do Vailiante. Quando estiver junto dele,
diga- lhe que o ar daqui  melhor que o do metr 
parisiense. E ele responder: "Isso  bem verdade, sobretudo na
Trinit". Siga todas estas instrues. Compreendeu bem? 
- Sim. 
- Muito bem. Vou deix-lo dez minutos para aprender tudo isso. Tem
dinheiro? 
- Praticamente, no. 
- Tome, aqui tem mil francos. 
Jean teve um gesto de recusa. 
- Pode aceitar.  dinheiro que vem de Londres. Assine este recibo,
 a regra. 
Jean guardou o dinheiro e assinou. 
- Posso dizer-lhe uma coisa? 
- Sim. Sem dvida, O que ? 
- Eu no queria que La estivesse ligada a nada disto. 
A forma como Franois Tavernier o olhou fez o rapaz corar. 
- Eu tambm no quero. Mas agora j  um pouco tarde para voltar
atrs. 
- No me parece. Diga-lhe para voltar para casa. 
- Farei o possvel, mas ela quer ajudar a nossa amiga... 
A porta entreabriu-se e La espreitou: 
- Que demora, j acabaram? Posso entrar?... Franois, eu no
compreendo nada do que se passa. Que vamos fazer por 
Sarah? 
Tavernier olhou-a bem nos olhos, sem responder. Depois de um longo
silncio disse uma voz monocrdica: 
- Sarah foi torturada. 
La precipitou-se para Franois e bateu-lhe com fora no peito. 
- Voc me mentiu! Voc me mentiu! - berrou ela. - Tinha dito que
ela estava sendo bem tratada... que, graas s suas boas 
relaes com os boches, ela seria bem tratada... e eles a
torturaram!... A culpa  sua... Nunca o perdoarei... Foi por sua 
causa que a prenderam...  miservel... Um miservel... 
- Cale-se... J basta! - exclamou jean, afastando-a dele. - Deixe-o
lhe explicar. 
- Ele no tem nada a explicar... Ele trabalha para eles. Eu o vi
rindo diante do hotel Lut'cia - gritou ela, desprendendo-se. 
Plido, de olhar sombrio, Franois Tavernier limpava um pequeno
arranho no rosto. 
- Mentiram-me. No foi para a rua de Saussaies que levaram Sarah,
mas para a avenida Henri-Martin. S esta manh  que 
vim a saber 
mas era tarde demais. Depois de sua priso, levaram mais dois
membros do grupo. Um deles falou, o que explica o que 
aconteceu. 
- Quem lhe disse isso de Sarah? 
- Um de seus amigos, Raphael Mahl... 
- Raphael! Ento, est vendo... 
- ... que foi ele quem a denunciou. No, tenho certeza de que no
foi ele. No que no fosse capaz, mas porque sabia que eu 
protegia Sarah e que poderia prend-lo ali mesmo. 
- Ento, como  que ele soube que ela no estava na rua de
Saussaies mas na rua Henri-Martin? 
- Por um crpula ainda maior do que ele, para quem trabalha de vez
em quando. Frederic Martin, isto , Rudy Mrode ou 
Rudy de Mrode. 
- Que disse esse tal Rudy? 
- Quer realmente saber? 
- Sim. 
- Mrode contou a Mahl, rindo, como  que, junto a um de seus
companheiros, ele havia forado uma bela judia a tomar 
banho. 
- A tomar banho? 
- Sim,  assim que eles chamam ao suplcio da banheira. Foi,
segundo parece, um belga que inventou esse tipo de tortura... 
Quando se trata de um homem, contentam-se em mergulhar sua cabea
numa bacia ou num tanque de lavar, cheio de gua 
gelada, at os limites da asfixia, tiram-no e voltam a mergulh-lo
at que ele fale ou desmaie. 
-  horrvel. 
- Quanto s mulheres... 
- Pare! - gritou Jean Lefevre. 
Franois Tavernier envolveu os dois jovens num olhar irnico e ao
mesmo tempo cheio de comiserao. 
- Vocs lanam-se numa aventura de que s vem o lado romntico,
mas h outro, aquele onde existe a tortura, em que se 
mata, se viola, ou em que se mandam as crianas morrer em campos de
extermnio. Devia ter lido Mein Kampf, rapaz, o 
chanceler Hitler j havia exposto a claramente a soluo do
problema judeu. Se La quer continuar a brincar de herona, 
deve saber o que por vezes lhes fazem quando so presas. No caso de
Sarah, que sabia o que arriscava, eles ataram- na na 
"enfermaria" onde se "curam" as feridas. Da rua Saussaies
levaram-na para a avenida Henri-Martin. Primeiro interrogaram-
na corretamente, depois, como era hora do jantar, fecharam-na num
armrio metlico.., vocs sabem, aqueles que servem de 
guarda-roupa ao pessoal dos escritrios ou das fbricas, que so
pequenos demais para se estar em p e muito estreitos 
para que se possa sentar. O jantar durou 
trs horas... Depois, voltaram, repletos e ligeiramente alegres e
brincalhes. Quando abriram o armrio, tiveram de ajudar a 
Sarah a sair, porque suas pernas estavam anquilosadas e no se
mantinha em p. Eles levaram-na. Conduziram-na at o 
banheiro... Estava to fraca que tiveram de ajud-la a despir-se.
Mrode, com um copo de champanhe na mo, apreciava 
como bom conhecedor sua beleza... 
La sentara-se na cama. Sem compaixo, Franois Tavernier
continuou: 
- ... Depois, pediu ao dono da casa, Christian Masuy, para os
deixar a ss por uns instantes. Masuy acedeu, rindo, e saiu 
com seus acompanhantes. Sarah no se mexia e um pouco de sangue
havia atravessado o curativo. Rudy acariciou-lhe os 
seios e disse-lhe que era bonita e que podia intervir em seu favor.
Parece que esta amvel proposta fez Sarah dar uma 
gargalhada que foi muito mal recebida pelo nosso Don Juan, porque,
segundo suas declaraes, deu-lhe uma bofetada e 
voltou a esbofete-la sem resultado, visto que ela continuava a
rir. Furioso, chamou os camaradas e, ali, ataram-lhe as mos 
atrs das costas com umas algemas e cada um, por sua vez, violou-a.
Depois, concederam- se uns instantes de descanso 
enquanto fumavam. Depois, ataram-lhe os tornozelos e assim amarrada
atiravam-na e voltavam a atir-la de uns para os 
outros, como uma bola, enquanto iam dizendo: "Voc vai falar,
porca, fala ou no fala? Cmo ela continuasse calada, 
cansaram- se da brincadeira e atiraram-na  banheira. A gua gelada
arrancou-lhe o primeiro grito. Para no ouvi-la, talvez, 
Masuy enfiou-lhe a cabea na gua. Por causa da ferida, a gua de
banheira ficou logo ensangentada. Durante duas horas 
encarniaram-se com ela. "Que coragem a desta mulher". Foi o que
disse no dia seguinte Rudy de Mrode a Raphael Mahl, 
que me contou isto com uma emoo que no era fingida... Eis o que
 o suplcio da banheira. E ainda por cima estes 
senhores contam isto com volpia... 
Calou-se por momentos e depois continuou: 
- La, olhe bem para mim, pode imaginar que eu possa ser cmplice
de gente dessa espcie? 
O ar intenso e desamparado com que ela o olhou, sua boca trmula,
faziam-na parecer a criana de oito anos que fora 
testemunha de uma injustia ou de uma maldade que no compreendia.
Como a garota queria se atirar nos braos daquele que 
a fazia chorar! 
- La, responda-me. Apesar de certas aparncias, acredita que possa
estar do lado desses sujos? 
Ela atirou-se para ele. 
T-la nos braos, respirar o perfume de seus cabelos, de seu
pescoo,
 sentir seus lbios com gosto de sal. De tanta felicidade, Franois
fechou os olhos. 
Quando os reabriu, cruzaram-se com os dejean, desesperados. "Pobre
rapazinho, tambm ele est apaixonado por esta 
insuportvel garota", pensou ele. Com suavidade, afastou-a. 
- Amanh Sarah vai voltar para a rua de Saussaies. Durante a noite
saberei a hora da transferncia. J conhecemos o 
itinerrio e trs dos nossos estaro nos pontos estratgicos. 
- Tambm quero estar - disse Jean. 
- No, meu caro, est queimado e parte esta noite. Despea-se de
La. Vou deix-los. Vou desejar Boas-Festas s suas tias. 
Ao verem-se sozinhos, os dois amigos de infncia sentiram-se
intimidados. 
- Nem sequer cheguei a lhe perguntar notcias de Raul. Como vai
ele? Onde est? 
S sei por um amigo comum que fugiu da Alemanha no ano passado,
depois disso estamos sem notcias. 
- Pobre Raul. Ns nos dvamos to bem, os trs. Lembra-se dos
nossos mergulhos no Garonne? Dos nossos passeios de 
bicicleta pelas colinas?... 
- Naquela poca voc ainda gostava de ns... Montillac sem voc no
 o mesmo. Parece que a propriedade se encolheu. As 
janelas ficam fechadas. Quando Ruth e Camilie saem, tem-se a
impresso de que andam na ponta dos ps. Parecem passar a 
vida  espera. Desde que Mathias partiu para a Alemanha, Fayard no
diz nada. De tempos em tempos o vemos nas 
vinhas, dando ordens rspidas. Est com mania de trabalhar  noite
e de fazer umas rondas, com uma lmpada na mo. E 
trata a mulher como a um co. 
- E Laurent? 
- Faz muito tempo que no o vejo, mas sua rede  ativa, uma das
mais ativas do Sudoeste. Eles participam de tudo o que  
perigoso.  melhor que ele no se deixe agarrar, porque os alemes
no morrem de amor por ele. Parece que vem em pleno 
dia visitar a mulher e o filho, sem nenhuma proteo. Bem que
gostaria de trabalhar com ele, mas Trinit precisava de mim 
aqui em Paris... Lembra-se de quando amos para a floresta? 
- Tudo isso agora  o passado e eu me sinto to velha! E tenho
tanto medo, se voc soubesse como tenho medo! 
- Mas no se percebe - disse ele, puxando-a para si. - Voc no
mudou nada, a no ser que est cada vez mais bonita. O seu 
olhar, 
talvez.., sim, o seu olhar mudou muito, um pouco mais duro, um
tanto mais inquieto. Voc devia voltar para Montillac e 
deixar por aqui tudo isto. Esperar tranqilamente que a guerra
acabe. 
- Esperar tranqilamente' Mas voc se julga em outra poca, meu
pobre amigo. Esperar o qu? Que eles continuem a roubar 
o pas, a torturar os nossos amigos, a perseguir Laurent e tio
Adrien? Se no se fizer nada, ento  que eles nunca mais iro 
embora. No quero esperar, quero viver, percebe, viver, no quero
mais v-los aqui. Depois que partiram de Montillac, 
com Ruth e Sidonie, fizemos uma grande faxina. Ah! Se tivssemos
podido purificar a casa com fogo! Franoise no 
compreendia e s dizia: "Mas as grandes faxinas da primavera j
foram feitas!...". No princpio eu me dizia:  preciso 
habituar-me  sua presena.  normal, visto que se perdeu a guerra.
Depois, pouco a pouco, falando com Camilie, 
escutando a rdio de Londres e, sobretudo, ao ver que a maioria dos
nossos parentes, dos nossos vizinhos, vergavam a 
espinha, tive vergonha. E agora, quando penso no que fizeram a
Sarah, gostaria de pegar um fuzil e lutar. 
- No  lugar para uma mulher. 
- Como voc  antiquado! No seria a primeira vez que mulheres
participariam da guerra. 
- Eu no queria que lhe acontecesse nada... 
Bateram  porta. Era Franoise. 
- Tia Albertine mandou-me cham-la. 
Saiu sem esperar resposta. 
- Tenho de ir embora. Cumprimente as senhoras Montpleynet por mim.
Agora deixe-me. Tenho de decorar as 
recomendaes de Trinit. 
- D-me um beijo e procure me dar notcias de vez em quando. 
Aquele beijo recordou-lhes o vero de 39, no terrao de Montillac,
quando sua principal frase era: "Que vamos fazer de 
interessante hoje?". Abraados e recordando o passado, no viram a
porta abrir-se e Franois Tavernier entrar. Ele sorriu ao 
ver os jovens abraados. Sem barulho, retirou-se. 
- Amo-aLa! 
- Eu bem sei, queira-me bem, preciso disso. 
- Tal como a conheo no lhe faltaro apaixonados, a comear por
Franois Tavernier. 
- No vai ficar ciumento. No  hora para isso. 
- Tem razo, sou como Raul. No posso ver outro homem lhe fazendo a
corte. 
- Voc e seu irmo foram sempre dois patetas - disse ela com
ternura. 
- At logo, La. Seja prudente. 
- At logo, Jeannot, voc tambm, seja prudente. 
Depois de um ltimo beijo, La reuniu-se  famlia. Dez minutos
depois, Jean Lefvre deixava a rua da Universidade. 
Na salinha onde a famlia fazia as refeies por medida de economia
com o aquecimento, Albertine e Lisa, enquanto 
esperavam pelo jantar, ouviam mensagens pessoais vindas de Londres.
O caranguejo vai encontrar as serpentes. 
Segui com um passo sonhador o caminho solitrio. 
Ns dizemos,' segui com um passo sonhador o caminho solitrio. 
Maurice passou um bom Natal com seu amigo e pensa nas duas mimosas
que vo florir. 
- Ficamos contentes por ele - comentou Lisa com um sorriso.

Captulo 7

LA COMEAVA a se impacientar. H oito dias estava sem notcias de
Franois Tavernier. Sarah ainda estaria 
prisioneira? Teria Jean conseguido chegar a Vende? At o silncio
de Raphael a inquietava. Sem se conter 
mais, resolveu ir  rua de Saussaies. 
Sua juventude, sua beleza e a aparente timidez que demonstrou,
anularam toda a desconfiana e curiosidad 
do oficial alemo que a recebeu. "Sarah Mulstein? , aquele nome
dizia-lhe alguma coisa... "Ah!, sim, aquela judia 
que lhe haviam trazido ferida. No, j no estava ali. Que fosse
procur-la no nmero 101 da avenida Henri-
Martin: 
a talvez lhe pudessem dar mais informaes, seno que voltasse
ali, talvez ele pudesse fazer alguma coisa...  
normal ajudar uma moa to bonita..." La agradeceu. 
Na rua, subiu em sua bicicleta e dirigiu-se para a avenida Marigny
e depois  Champs-Elyses. Na rotunda, um 
agente sobre o alto estrado, rodeado por uma proteo de pesados
painis de sinalizao alem, controlava 
uma circulao inexistente: algumas bicicletas, raros carros,
pedestres apressados, apertando friorentamente 
seus casacos finos demais. Um chuvisco tornava a calada
escorregadia. No alto da avenida, o Arco do 
Triunfo da Etoile erguia-se, smbolo irrisrio no cu cinzento.
Abatida, La no quis seguir por aquele caminho 
e voltou para a avenida Montaigne. Em Alma, a chuva recrudesceu. Na
avenida HenriMartin, prendeu a 
bicicleta junto s grades do jardinzinho do prdio, sob o olhar
indiferente de um pedestre. A entrada, tirou a 
boina, arranjou o cabelo e limpou com o leno o rosto e as pernas. 
Surpresa, olhou  sua volta. Como tudo estava calmo, burgus, nada
que indicasse uma presena alem. No 
podia ser ali que se praticavam os horrores descritos por
Tavernier. Depois da saleta da zeladora, uma grande 
porta envidraada conduzia ao interior do prdio. La parou 
indecisa, no meio da entrada de mrmore.  sua direita uma bela 
escadaria de madeira escura com corrimo de grade conduzia aos
andares superiores. Para sustent-la, uma caritide de rosto 
altivo e seios proeminentes cuja madeira luzidia mostrava a que
ponto as mos dos locatrios e suas visitas tinham passado 
por eles. A frente, a grade trabalhada do elevador estava iluminada
pelos vitrais de uma janela alta. Dois 
grandes degraus de madeira com ngulos arredondados conduziam a 
uma porta de batente duplo, onde se fixava uma pequena placa de
cobre La aproximou-se e leu: ''Servio Econmico 
Francs''. ''Escritri de Vendas". Que significaria aquilo? Julgara
compreender que fora para o trreo que haviam levado 
Sarah. Aquelas duas palavras, porm diziam-lhe qualquer coisa.
Franois falara sobre o escritrio de ven das Mas o que 
havia dito? Cansada e transida, sentou-se nos primeiros 
degraus e apoiou a cabea na da caritide. Um dos batentes da porta
abriu-se bruscamente e um homem apareceu atirado por mos invisveis. O
infeliz perdeu 
o equilbrio e foi 
estatelar-se nos ladrilhos da entrada. Apesar da penumbra daquele
lugar La notou que suas mos estavam atadas nas 
costas e de seu rosto 
inchado corria sangue, que manchava o mrmore branco e dourado. 
Quase ao mesmo tempo, saram dois homens. Riam enquanto abotoavam
os casacos, O mais novo deu um pontap no corpo 
estendido, agitado por tremores. 
Ande, malandro, levante-se. Agora que j nos contou tudo, no
precisamos de voc. Vamos lev-lo a Fresnes. 
Vocs tinham prometido - disse o prisioneiro, erguendo-se. 
- Prometido o qu? 
Que deixariam minha mulher e minha filha em paz. 
- Promessas, promessas, no se pra de fazer promessas aqui, mesmo
que o chefe nos repreenda. 
- Oh! No! No  verdade! berrou ele, reabrindo uma ferida mal
fechada em sua boca. 
V, ande, levante-se... O chefe no tem certeza se voc nos disse
tudo. 
O pobre tipo arrastou-se aos ps de seus carrascos irritados. Juro
que lhes disse tudo, dei os nomes, os cdigos, tudo! - 
gritou ele, soluando. 
- Basta! O carro est  nossa espera... Acabe com esse choro de
mulher que est chamando a ateno. As lgrimas num 
homem me enjoam. Em p... 
- Levante-se, estrume - disse o outro -, voc no est pensando
mesmo assim que vamos levar uma amiguinha. 
Os soluos cessaram de repente. La, agachada atrs da esttua viu
aquele ser, que parecia ter perdido toda a dignidade, 
levantar-se, primeiro de joelhos, depois numa perna e a seguir na
outra, vacilante mas em p, horrvel, miservel, com os 
olhos meio fechados pelas pancadas, o lbio inferior rasgado e
pendente, o pescoo com um sinal de estrangulamento; das 
mos atadas faltavam-lhe as unhas. Passou lentamente diante dos
torturadores e, ao parar diante do mais velho, escarrou-
lhe na cara. 
Logo surgiu uma arma na mo do companheiro. 
- Deixe, Bernard, ele ficaria muito contente se voc o liquidasse. 
Com pontaps e murros saram do prdio. 
Foi o barulho do elevador que despertou La de seu entorpecimento.
Levantou-se de um salto. J era tempo. Duas 
mulheres elegantes saram rindo. Ao mesmo tempo, uns senhores bem
postos tocaram  porta do escritrio de vendas. 
Nenhum deles reparou no sangue que estava no cho. 
La, como que fascinada, continuava em p, diante daquela porta. 
''Tenho de ir embora'', dizia para si mesma, incapaz de se mexer,
como esperando qualquer acontecimento que lhe 
permitisse compreender, no o que acabava de ver, mas o porqu do
que vira. Sentia que no devia continuar ali. Ningum 
notou sua presena. Devia fugir o mais depressa possvel, seno
iriam apanh-la e faz-la sofrer o mesmo que Sarah e 
aquele desgraado que havia cado a seus ps. 
Sempre imvel, nem ouviu a porta envidraada abrir-se. Quando se
voltou para partir, um homem muito bem-vestido, no 
muito alto, magro, de cabelos escuros, meticulosamente penteados,
fumava nervosamente um grande charuto, pousando 
nela seus olhos verdes acinzentados. 
- Sem dvida procura algum, senhorita, poderei ajudla? 
O tom era corts, mas a angstia travava-lhe a garganta. 
- Parece que lhe fao medo. Tenho um ar assim to mau? 
No, ela fez com a cabea, tentando restabelecer as idias e dizer
qualquer coisa. Seus olhos encontraram a placa de cobre: 
"Escritrio de Vendas". O que Franois Tavernier lhe contara
veio-lhe  memria. 
- Disseram-me que aqui se compravam metais preciosos. 
-  verdade. Tem alguma jia para vender? 
- Sim,  isso, jias de famlia. 
- Compreendo, senhorita, os tempos esto difceis neste momento e,
as vezes, somos obrigados a nos separarmos das jias 
de que mais gostamos: Entre, e verei o que posso fazer por voc. 
Abriu a porta com a prpria chave e afastou-se para deix-la
passar. 
Havia muita gente na grande entrada: os tais senhores
bem-apessoados de h pouco, homens com palets deformados por 
uma arma, trs mulheres vestidas de preto, chorando, sentadas a um
canto. Em frente a elas, um rapaz, de ps e mos 
atados, estendido no cho, com uma bandagem suja na testa, parecia
dormir. Uma mulher de casaco de peles com uma 
espcie de coque de cabelos untados ria muito alto. Uma jovem em
lgrimas, com as vestes rasgadas, foi trazida de um 
quarto e arrastada para outro, apesar de seus protestos. Cada uma
das pessoas presentes fingiram no perceber nada. 
La voltou-se repentinamente. 
- O que se passa aqui? Quem  esta gente? O que esto fazendo com
aquela moa? E quem  o senhor? 
-  verdade, desculpe-me, esqueci-me de me apresentar: Christian
Masuy, diretor do Servio Econmico Francs. Aqui est 
meu carto. Quanto s pessoas que esto ali,  porque tm qualquer
coisa para vender, tal como voc. Se quiser seguir-me 
at meu gabinete, chamarei meu secretrio. 
O gabinete de Masuy era uma grande sala cheia de luz. Uma varanda
dava para o jardim que bordeava a avenida Henri-
Martin. As madeiras eram belas, assim como a imponente lareira de
mrmore; uma enorme secretria macia, onde havia o 
retrato de uma mulher e duas crianas, pesadas poltronas de couro e
um canap Chesterfield compunham o mobilirio. A 
temperatura era agradvel. 
- Sente-se, por favor. Quer beber alguma coisa?... Talvez um pouco
de champanhe far-lhe- bem... Fique  vontade. Tire 
esse casaco molhado, serto vai fazer mal. Aqui tambm no est
muito quente. Mas que quer,  a guerra! Vou acender a 
lareira. 
- Obrigada, no vale a pena, no tenho frio. 
- Vamos, seja razovel e retire o casaco. 
O tom mudara. La obedeceu. Naquele instante, um bigodudo de uns
cinqenta anos, meio careca, com sobrancelhas 
carregadas sombreando os olhos claros, entrou. 
Bom-dia, senhor. Chamou-me? 
- Entre. Apresento-lhe a senhorita... De fato, como se chama? 
Apanhada de imprevisto, La balbuciou: 
- Delmas. 
- Senhorita Delmas. muito bem. A senhorita Delmas teria algumas
jias para nos propor... Veremos isso com ela. Enquanto 
esperamos, acenda a lareira, porque gelamos aqui. 
- Mas, senhor, os aquecedores esto escaldando. 
- No discuta, faa o que lhe digo. 
Enquanto Humbert ocupava-se da lareira, Mansuy abriu a grande
varanda, debruou-se e trouxe uma garrafa de champanhe. 
No encontrei nada melhor como geladeira nesta estao disse ele,
com ar triunfante. 
De uma gaveta da secretria retirou duas taas. 
- No, obrigada, para mim no - disse La. 
- Se no aceita beber comigo, vou considerar isso como uma ofensa.
Os melhores negcios concluem-se em volta de uma 
mesa, com um copo na mo. 
Resignada, La viu-o derramar o lquido borbulhante. Sua mo j no
tremia quando segurou o copo que ele lhe estendia. 
- A sua sade; que este novo ano 43 lhe seja propcio. Ver, no
negcio que vamos fazer juntos, ganharemos muito 
dinheiro. 
- A sua, senhor. Eu no quero me lanar nos negcios, sou muito
ignorante. Apenas desejo desfazer-me de algumas jias e 
peas de prata para poder ajudar minha famlia. 
- Traz consigo os objetos em questo? 
- No, porque no sabia o que devia fazer, nem se o endereo era
este. 
- A propsito do endereo, quem lhe deu este? 
Ah! Era a pergunta que ela temia desde o princpio. Bebeu uns
goles, tentando encontrar uma resposta. 
- Ouvi uma de minhas amigas mencionar o escritrio da avenida
Henri-Martin, mas no me lembro em que circunstncia. 
- Humbert? Acabou de acender o fogo? Pode ir embora. 
- Est bem, senhor. 
Quando ia sair, algum entrou, empurrando-o. O secretrio s teve
tempo de esboar um gesto. 
O reflexo de Masuy tinha sido mais rpido do que o de Humbert.
Quando o intruso chegou diante da escrivaninha, ele j se 
encontrava com uma pistola em punho. 
- Eh! Ento, Christian, j no se conhecem os amigos? 
- Os meus amigos, em geral, no entram aqui dessa maneira. Teve
muita sorte de no receber uma bala no meio dos olhos. 
Sou bom atirador, j sabe. 
- Desculpe-me... 
- De resto, creio j ter dito que no queria mais trabalhar com
voc. 
- Mas no se trata de mim, mas de minha amiga aqui presente. 
- Que est dizendo? Esta moa  sua amiga? 
La nem acreditava... Raphael Mahl!... T-la-ia seguido?... 
- Tinha um encontro marcado com ela. 
Senhorita Delmas,  verdade? 
- Sim, e como no o vi, nem sabia o que fazer. 
Os olhos verde-acinzentados olhavam um e outro, desconfiados. 
- Eu a tomei por uma moa decente e afinal  amiga de Raphael
Mahl!... No quero acreditar. 
Apesar da tenso que reinava, La esteve prestes a cair na risada;
era quase palavra por palavra o que lhe dissera Richard 
Chapon a propsito do escritor. Decididamente, fosse em que meio
fosse, seu amigo Raphael no tinha boa reputao. 
- Conhecemo-nos h muitos anos. Ele aconselha-me nos negcios. 
- E continuaram a ter boas relaes?... 
O espanto do homenzinho era to sincero que Raphael e La desataram
a rir. Aquela alegria exasperou Masuy que deu um 
murro na mesa. Isso s teve um resultado, La ria a valer. 
- Meu pobre Raphael, mesmo aqui, desconfiam de voc,  muito
engraado! 
- Eles tm razo para isso! Conhecem-me bem... No  verdade, meu
caro?... J no posso mais, deixe-me sentar... 
- Vai acabar com isso,  grotesco! 
- J h muito que sei... Esta gente aqui aborrece-me tanto como eu
mesmo... Portanto, vale mais rir, no acha?... Que caras 
est fazendo!... No faz nem um minuto estava todo corado, agora
est verde... Devia rir mais vezes,  bom para o tom de 
pele. Olhe para nossa bela amiga,  o humor que a torna to
fresca... Vamos, basta de gracejos, viemos para discutir 
negcios. Sabe que eu sou perseguido pela polcia francesa e por
seus companheiros da Gestapo, e j no me posso 
dedicar ao meu frutuoso comrcio. Mas voc me conhece, os meus
amigos so sagrados, se lhes posso ser til, no hesito. 
Portanto, quando a senhorita Delmas me pediu para lhe vender um
diadema de diamantes, pensei logo em voc. 
La fechou os olhos  evocao dos pretensos diamantes. 
- Diamantes? - disse Masuy, voltando a sentar-se. -Julguei que se
tratava de simples fantasias. T-las-ia comprado para 
ser til a uma moa to encantadora. Mas diamantes! ... Quando os
poderei admirar? 
- Primeiro tenho de convencer minha famlia de me confi-los. 
Masuy deitou-lhe um olhar cmplice. 
- Compreendo perfeitamente, senhorita. Volte a me procurar
rapidamente. Mas venha sozinha, sem este escroque. 
- Meu caro Christian, que roncoroso que !... No so uns pequenos
mal-entendidos que vo continuar a aborrec-lo! 
- O que voc chama "pequenos mal-entendidos", mesmo assim,
custou-me mais de um milho de francos. 
- No tive sorte. Fui enganado! Voc vai ver, depois do negcio com
a senhorita Delmas, vai me agradecer. 
La tinha-se levantado pronta para sair. Amvel, Masuy ajudou-a a
vestir a japona. 
- At breve, senhorita, fico esperando sua visita. Adeus. Mahl.
Lembre-se de que quanto menos eu o vir, melhor para voc. 
Sou um grande desconhecido - disse ele num tom dramtico ao sair da
sala. 
A entrada agora estava cheia de gente, a maioria em p. 
Alguns precipitaram-se: 
- Senhor Masuy, tnhamos marcado um encontro!... 
-J pensei, senhor Masuy, dou-lhe pela metade do preo... 
- Suplico-lhe, senhor, tem notcias de meu marido?... 
- Que vai ser de mim, prenderam meu filho! 
- O senhor tinha-me dito para voltar aqui se visse qualquer coisa
de suspeito nos meus vizinhos. Ouvi falar ingls em casa 
deles,  duvidoso, no acha? 
- Tenham pacincia, meus amigos, todos sero recebidos. Uma
tristeza receosa apoderou-se de La. 
Por que seria que Raphael Mahl lhe apertava a mo com tanta fora?
At a machucava... La o olhou, quase protestando. O 
que ele olhava? No aquela mulher de cara inchada, com os longos
cabelos negros molhados... no era... 
- Distraia a ateno de Masuy e de seus homens - murmurou Raphael
entre os dentes. 
A bolsa de La rolou pelo cho, espalhando tudo o que continha. 
- No faz mal - disse Masuy, abaixando-se - vamos ajud-la a
recuperar todas essas bugigangas. 
Nunca pensara que sua bolsa tivesse tanta coisa. Quando aqueles
amveis cavalheiros se levantaram, estavam todos 
vermelhos. 
- Muito obrigada, meus senhores. 
- Tome, La, aqui tem o seu batom. 
- Mas... 
- Custou-me muito peg-lo, estava escondido debaixo do banco. 
Compreendendo de repente, enfiou na bolsa aquele batom que sabia
no lhe pertencer. 
A chuva tinha parado, La desviou a bicicleta da grade e partiu sem
se preocupar com Raphael Mahl. 
- Ei! Espere por mim... 
Depressa chegou junto dela, montado numa bicicleta. 
- No fuja assim, temos muita coisa a nos dizer. 
- Deixe-me em paz, no tenho nada a ver com voc. 
- Est enganada. Primeiro, deve-me agradecimentos. Sem a minha
interveno, talvez tivesse conhecido os mtodos de meu 
amigo Masuy. 
- No duvido que conhecesse bem os seus mtodos, talvez mesmo lhe
tivesse dado uma ajuda de vez em quando. 
- Pense o que quiser. Em todo o caso,  preciso ser completamente
doida para vir se lanar na boca do lobo. Mas, afinal, o 
que veio fazer ali?  verdade essa histria das jias? 
-  to verdade como a dos diamantes. Que lhe deu para inventar
semelhante histria? Agora ele vai querer me ver. 
- Eu o conheo bem. Os diamantes so a sua paixo. Era o nico meio
dele no lhe fazer perguntas concretas. La, peo-lhe, 
no v to depressa, j no tenho vinte anos, e no posso
acompanh-la. 
- Isso vai fazer-lhe bem, come muito e est muito gordo, como um
porco antes da guerra. 
 cruel. No entanto  preciso que lhe fale tranqilamente. 
- De bicicleta, no meio da avenida Henri-Martin no  o lugar ideal
para estarmos ao abrigo de ouvidos indiscretos? 
- Tem razo, mas estou cansado. Antes de pararmos, responda-me: 
o que ia fazer naquele local? 
- A mesma coisa que voc, segundo me parece: saber notcias de
Sarah. 
Durante alguns instantes, pedalaram em silncio. Chegaram ao largo
do Trocadro. A chuva voltava a cair. Amarraram as 
bicicletas juntas, junto a uma rvore, depois correram at o caf
mais prximo. Instalaram-se na sala do fundo, ainda quase 
vazia. 
Tenho fome - disse La. 
Tem senhas? 
- Tenho algumas, por qu? 
 a nica maneira de nos darem de comer. E no se pode queixar,
porque aqui ainda  tragvel. Garom, por favor! 
Um criado idoso, com corpo envolto num grande avental branco,
chegou arrastando os ps. 
- Ao senhor e  senhora, o que posso servir? 
- A senhora tem fome, poder recomendar-nos o prato do dia? 
- Isso depende!... 
- Mas ns temos senhas. 
- No duvido.., porque aqui, sem senhas, no se come. 
- Quer isso dizer que com senhas e mais qualquer coisa, pode-se
obter uma refeio melhor? 
- O senhor compreendeu perfeitamente e o "mais qualquer coisa" 
importante, pode-se arranjar uma refeio melhor, e 
mais abundante. 
- Isto  uma vergonha! - disse La. 
- Cale-se, vai vex-lo - disse Raphael em voz baixa. - Tem algum
dinheiro? Porque, neste momento, as minhas finanas esto 
em baixa. 
La remexeu nos bolsos da japona e retirou umas notas amarfanhadas
que lhe estendeu. 
- Ser o suficiente? 
- Com o que me resta talvez possa chegar. - Raphael entregou uma
nota ao criado que ele se apressou a esconder no bolso, 
levando para a caixa as senhas de alimentao. Da cozinha eles
ouviram-no gritar: 
- Dois pratos do dia, como para doentes. 
La levantou-se aproximando-se do fogo de cobre no centro da sala.
Retirou a japona mida e a colocou no espaldar de 
uma cadeira, perto do fogo. Nesse momento receou que Raphael Mahl
se aproximasse, mas ele ficou sentado, fumando, 
perdido nos prprios pensamentos. 
La pensava: se Raphael no  inocente na priso de Sarah, como me
afirmou Franois, o que ele estava fazendo ali? Eu 
bem vi, quando apanhava minhas coisas, que ele se aproximou dela e
lhe falou, enquanto ela lhe entregava qualquer coisa.., 
o batom, com certeza. Visivelmente, em nenhuma ocasio ela sups
que ele a teria denunciado... 
- A senhorita est servida! 
- Obrigada. 
Sobre a mesa, fumegava uma pequena caarola com menos da metade
daquilo a que se pode chamar um guisado. Mas 
cheirava bem. 
E lebre de contrabando - murmurou o criado, enquanto os servia. 
Lebre ou no, aquilo comia-se, tal como se bebia a reserva do
patro. 
- Talvez eu tenha um meio para tirar Sarah dali... 
- Ento como? 
Raphael olhou  sua volta, a sala enchia-se pouco a pouco com os
empregados dos escritrios do bairro. 
- H muita gente. Coma depressa. Eu lhe direi num lugar mais
tranqilo. '. 
A sua volta, as pessoas empurravam-se rindo e gracej ando. Perto de
sua mesa vieram instalar-se quatro moas com 
capuzes de l de cor viva, combinando com as luvas e as meias, que
as faziam parecer alegres duendes. Retiraram seus 
casacos e capas pesadas de chuva. Apesar das restries de tecidos
e de seu salrio, que devia ser mnimo, seus vestidos 
eram bonitos e ficavam-lhes bem. La lhes lanou um olhar de
inveja, comparando com sua roupa cinzenta que pertencera  
me. Aquele olhar no escapou a Raphael. 
- Est muito elegante assim, isso lhe d um ar de ratinho ajuizado,
o que no  habitual. Com os seus cabelos, as cores 
berrantes lhe dariam mau aspecto. 
- Eu preferia ter mau aspecto, como diz, a ter o arde uma boa
freira sem hbito. Devia ter posto a minha camisola de angor 
cor-de-rosa. 
- O que eu gosto em vocs, mulheres,  que, nas piores situaes,
pensam em combinar cores, em usar a bolsa e os sapatos 
condizentes. So como as crianas: choram sobre a sorte de um
amigo, dois minutos depois falam de trapos. 
Acabaram o guisado de lebre. 
A sala agora estava cheia, o barulho era ensurdecedor. Raphael
chamou o garom e pagou a conta. 
Acabara de chover. Um sol frio tentava perfurar as nuvens, dando um
ligeiro brilho s gotas que caam das rvores. La 
dirigiu-se para a bicicleta. 
- No, deixe-as, agora no temos necessidade delas. 
- Por qu? 
Vou lev-la a um lugar onde poderemos falar tranqilamente. 
O bairro est infestado de espies dos diferentes servios da
polcia alem e francesa. Nada nos assegura de que no fomos 
seguidos. Num cemitrio, ser mais fcil perceber. 
- Num cemitrio?... - 
- Sim. V aquela grande parede ali em frente?  a do cemitrio de
Passy. A esta hora e com este tempo, est quase deserto. 
Venha, no percamos tempo, a vida de Sarah depende disso. 
Foi o argumento que fez La decidir a segui-lo. 
Raphael parou na loja do florista, situada  entrada do cemitrio e
comprou um ramo de violetas. 
-  para parecer mais verdico - disse ele. 
-  a primeira vez que entro num cemitrio parisiense - disse La,
ao passar sob a entrada. 
Olhou  sua volta: o ptio pavimentado, os jazigos brancos em
volta. Um jovem guarda com cara de menina, saiu do porto 
e os olhou. Raphael deu o brao  sua amiga. 
- No tenha medo,  um dos meus jovens amantes. Est simplesmente
surpreendido por me ver com uma mulher. 
Enquanto falavam, subiram  direita a pequena ladeira. La,
espantada, contemplava a necrpole. 
- Como estas capelas so pretensiosas! Olhe esta,  incrvel. Quem
estar ali enterrado? 
- Uma moa estranha, Marie Bashkirtseff, morreu tuberculosa aos
vinte e quatro anos. Era pintora, da escola de Manet. 
Depois de sua morte publicaram seu dirio e os seus cadernos
ntimos; voc deveria ler... 
Contornando as poas de gua, chegaram ao fundo do cemitrio.
Vrias vezes, ao mostrar um jazigo a La, Raphael se 
voltara para ter certeza de que ningum os seguia. 
Deixou-se cair sobre um banco de pedra,  beira do caminho, retirou
o chapu dando um grande suspiro de alvio. 
- Uf! Entregue-me o batom. Contm as indicaes sobre o local onde
Sarah fica presa durante a noite, e o nome da pessoa 
que a guarda. 
- Que a guarda? - disse ela, remexendo na bolsa. 
- Evidentemente, no vai pensar que podemos tir-la dali, das patas
de Masuy, sem cumplicidade no interior. 
- Eu no sei de nada, pensei que se pudesse atacar o escritrio com
toda a gente do grupo. 
- Eles foram todos presos. 
- Todos? 
- Todos com exceo de dois. Isso lhe interessa? Voc os conhecia? 
- No, no! 
Tanto melhor. Sarah, no fui eu quem a denunciou, foi ela sozinha,
com suas imprudncias. Em contrapartida, o resto do 
grupo foi preso graas s minhas denncias. 
Embora no se admirasse realmente com o que Raphael dizia, recebeu
a confirmao de sua denncia como um choque. 
Empalideceu tanto que julgou que ia desmaiar. Ele avanou a mo
para ampar-la. Ela, porm, recuou: 
- No me toque, seno eu grito. Voc me causa horror... 
- Depressa, finja que vai passar batom... 
-Mas... 
Um casal de luto passou, olhando-os. 
- Perdoe-me, mas desconfio de toda a gente neste momento. D- me o
tubo. 
- Quem me diz que no vai servir-se dele contra Sarah? 
- Minha pobre pequena... D-me. Vigie  sua volta. 
De costas diante de uma rvore, retirou a pasta vermelha, depois
com a ajuda de um fsforo, desembrulhou nervosamente 
um papelzinho. 
Com o nariz metido no ramo de violetas, La estava de vigia. Quando
terminou sua leitura, Raphael parecia pensativo. 
- Ento? 
- Ento?... Se isto resultar, no dou muito pela minha pele... Se
falhar, tambm no... Uf! Sejamos jogadores at ao fim... De 
qualquer maneira,
 o cerco se fecha. Franceses ou alemes, acabaro por me apanhar...
- Se pensava isso, por que foi que denunciou os outros? 
- Venha, caminhemos e no fique a parada. Bem sabe, minha amiga,
que os da minha espcie e raa passam por no ser 
muito corajosos, sobretudo se os interrogam mostrando-lhes um
instrumento cortante, muito brilhante e afiado, tirado dum 
estojo de cirurgio. A vista de um escalpelo sempre me provoca
intensa emoo, particularmente se me descrevem o que ele 
pode fazer. Acreditando no terem sido bastante convincentes,
levaram-me a um poro, no bairro de Lannes, onde jaz um 
infeliz a quem cortaram as plpebras... Como ele ainda no falara,
eles propunham-se cortar-lhe o nariz e depois a cara. 
Quanto s orelhas, julgo que j o tinham feito... 
- Por que me conta todos esses horrores, sados diretamente de sua
imaginao de escritor medocre?... 
- Minha querida, pode dizer-me tudo, tratar-me de velho maricas, de
judeu porco, de colaborador, indicador, ladro, mas 
escritor medocre, nunca. O meu talento  a nica coisa que h de
bom em mim, no o difame. 
- Pouco me importa o seu talento, isso no o autoriza a contar-me
as hipotticas torturas cometidas pelos alemes. 
- E quem lhe diz que so cometidas s pelos alemes? 
De espanto, La parou e deixou cair o ramo de violetas na lama.
Raphael apanhou-o e lhe estendeu, dizendo: 
- Pobre garota... Mas, enfim, o que pensa? Este pas est ocupado
h dois anos, Ptain, Lavai e consortes recomendam a 
colaborao. Alguns colaboram, realmente, nem sempre de boa
vontade, isso  verdade, mas esses so por vezes os mais 
ferozes. 
- O que diz? 
- H pouco, ao deixar a avenida Henri-Martin no reparou num belo
rapaz, alto, que entrava? 
- No, no estava com disposio para reparar nos rapazes bonitos. 
- Foi pena, talvez lhe viesse a ser til. Veja se se lembra, ele
afastou- se para deix-la passar. 
- Ah! Sim, talvez... Sim, j me lembro. Achei que ele se parecia
com Mathias, um amigo de infncia. 
- Bem! Consegue lembrar-se de seu rosto? Simptico, com uns belos
olhos e uma boca... 
- Onde quer chegar? 
- Esse rapaz simptico era bombeiro da cidade de Paris. Sem ser da
resistncia, era, no entanto, simpatizante e, nos bares, 
no se privava de
 dizer o que pensava da guerra, da ocupao, e at de Londres. Um
dia, num balco, um homem meteu-se na conversa. 
Rapidamente, ambos, acabaram trocando umas palavras bastante
antialems. Esse homem, que dizia chamar-se Lescalier, 
confiou-lhe que pertencia a um grupo de resistncia belga, que
procurava armas e que estava pronto a pag-las caro. O belo 
rapaz aceitou receb-lo na semana seguinte. Pontual ao encontro,
trouxe-lhe cinco revlveres, no muito novos, mas que 
serviam perfeitamente. 
- Como  que ele os arranjou? 
- Por um camarada de caserna de Saint-Quen. Lescalier deu-lhe
duzentos francos e pediu-lhe se lhe poderia fornecer mais. 
Deixou-lhe o nmero de seu telefone, dizendo-lhe que telefonasse,
se os conseguisse. Alguns dias mais tarde, o nosso 
bombeiro encontrou-se com ele na Praa da Bastilha, com dois dos
seus companheiros que deviam trazer- lhe as armas. 
Logo que chegaram, os trs jovens foram presos e levados para o
hotel Eduardo VII, onde existem os escritrios da 
Abwehr, o servio de informaes alemo. Nesse gabinete, encontrou
Lescalier, ou Masuy, se assim prefere. Desde 1940, 
Masuy  o grande agente da Abwehr. Ele tem uma grande qualidade:
sabe logo julgar as pessoas. Ao nosso homem, 
props-lhe logo um negcio: ou aceitava trabalhar para os servios
alemes, ou seria deportado. O outro no hesitou: nessa 
mesma noite foi solto. 
- E preveniu seus chefes? 
- No, voltou para a caserna como se nada se tivesse acontecido.
Seus superiores tiveram dvidas e interrogaram-no. Ele 
contou tudo menos a razo por que tinha sido solto. Isso lhe valeu
um ms de priso, durante o qual Masuy lhe fazia 
visitas, trazendo-lhe cigarros. Logo que foi solto, como homem
bem-educado, foi pagar-lhe a visita. Voltando  caserna, 
trabalhou para Masuy com um salrio de dois mil francos por ms.
Depois, em 42, desertou, no sem ter conseguido a 
priso de um oficial francs dos servios especiais, para quem ele
havia igualmente "trabalhado", e de mais umas vinte 
pessoas. Depois, ficou um homem de confiana de Masuy, o seu brao
direito. Nos interrogatrios,  ele quem o ajuda 
ativamente. Lembre-se do nome dele: Bernad Fallot. 
-  o homem do bisturi? 
- Eu no disse isso. J est me pedindo demais. J sabe demais,
para a sua tranqilidade. Ainda acrescento que ele cedeu 
facilmente  chantagem, sem grandes ameaas. 
- Como isso  possvel? 
- Julgo que o medo que sentiu f-lo perder, depois de uma queda de
cavalo - como dizia Jules Renard -, todo o sentido 
moral... 
- Como no se envergonha ao gracejar com tais coisas? 
- Que quer, minha amiga, no sou o nico a preferir perder um amigo
a perder um gracejo. 
La abandonou a discusso. 
Ainda no me disse o que tencionava fazer para salvar Sarah. 
- Quer realmente saber? 
- Quero. 
- No lhe posso dizer. Se fosse apanhada falaria... 
- Mas... 
- Com certeza falaria,  uma questo de tempo, de meios, de
dosagem. Tudo o que lhe posso dizer  o que depende de voc. 
Olhe, chegamos diante do tmulo ao qual se destinam estas flores. 
- Quem est enterrado aqui? - 
- Pauline Tarn. Esse nome no lhe diz nada,  claro...  uma
poetisa lsbica a quem Maurras chamava "a irmzinha de 
Baudelaire" e de quem a grande Colette falou to bem no Ces
Plaisirs... Morreu ainda jovem, minada pelo lcool e pela 
droga. Foi com o nome de Rene Vivien que ela publicou, por conta
prpria, a maioria das vezes, seus poemas, alguns 
belos e comoventes, como ela. 
D-me os teus beijos amargos como lgrimas 
A noite, quando as aves se atrasam nos seus vos 
A nossa unio sem amor tem o encanto 
Das rapinas, o atrativo esquivo das violaes. 
- Tal como eu. Essa mulher, que s amou mulheres, fala como eu falo
dos homens. Escute estes versos: 
Tenho a emoo do ladro perante uma presa rara, 
Durante a noite, a febre na qual o teu sorriso empalidece... 
A alma dos conquistadores, brilhante e brbara, 
Canta no meu triunfo ao sair do teu leito! 
- Nada mal! Que acha? 
La sacudiu a cabea e disse com um sorriso desolado: 
- Tenho certeza de que no seu leito de morte ainda falar de
literatura. 
- Que o cu a oua,  a nica coisa por que vale a pena viver. 
Atirou o ramo de violetas atravs das grades sobre as quais apoiou
a cabea. 
- Reze por mim, irmzinha esquecida... - Depois, sem mudar 
de atitude - . . .La, escute-me com ateno. Se tudo correr bem,
daqui a dois dias, Sarah estar livre, mas muito maltratada. 
Depois de amanh, as trs e meia, esteja junto do florista 
entrada do cemitrio. Uma bicicleta-txi, de capota cinzenta e 
amarela, vai parar ali. Voc sair da loja e ir ajudar uma senhora
de luto pesado a descer.  Sarah. Pagar o txi. D-lhe o 
brao e entrem no cemitrio. O jovem guarda, que viu ali h pouco,
caminhar at vocs, oferecendo ajuda. Ambos ajudaro 
Sarah a subir a escada que conduz diretamente ao tmulo de Renne
Vivien... 
- Para que faz-la subir a escada? 
-  mais perto do que passar pelo caminho, e foi o ltimo jazigo em
que descobri aberta a porta da capela. Depois de 
averiguaes descobri que ningum vem aqui rezar h muitos anos. O
guarda as conduzir at ali e depois ir embora. No 
fronto est escrito: Famlia Maubuisson. Empurre a porta. Eu pus
leo no ferrolho e mandei fazer uma chave, aqui est. 
D-lhe. 
La pegou na chave e a deslizou para o bolso. 
- Debaixo do minsculo altar encontraro comida, medicamentos e um
cobertor. Instale Sarah o mais confortavelmente 
possvel. 
- Foi s isto que encontrou para escond-la? No tem outro local? 
Raphael Mahl teve um gesto de impotncia. 
- Tambm pensei num bordel de rapazes onde vou, mas no  seguro,
os alemes o freqentam as escondidas. Por agora, no 
tenho nada melhor a propor. 
La suspirou de raiva. 
- O seu plano de evaso da avenida Henri-Martin est, pelo menos,
em ordem? 
- No completamente. 
- Como no completamente? 
- O nome que ela me rabiscou  o de um miservel tocador de pfaro.
No sei bem o que se poder obter dele, mesmo com 
dinheiro. 
Ento para que prever este cenrio macabro, sem saber ao certo se
ir resultar? 
Ele fez uma cara desolada. 
- No me leve a mal, no tenho nenhum senso prtico. Mas este
refgio organizei-o bem. Prometo-lhe que a tirarei de l. 
Tenho j outra idia. De qualquer modo, salvo aviso em contrrio da
minha parte, dentro de dois dias ela estar neste 
jazigo. 
- Morta... 
- No, viva! Quando a instalar, d-lhe a chave e diga-lhe para se
trancar. Explique-lhe que, pela meia-noite, viro arranhar na 
porta e 
algum dir: "S calma, oh, minha dor, e fica mais tranqila . E
ela ter de responder: ''Os mortos, os pobres mortos, sentem 
dores estranhas...". 
- Sempre a literatura! 
- Poesia, minha senhora, poesia. Nesse momento ela abrir a porta e
seguir essa pessoa. 
- Mas ela vai morrer de medo enfiada ali uma parte da noite! 
- Sarah no  mulher para ter medo, mesmo num jazigo, mesmo que
haja fantasmas. 
- Cale-se, s de pensar nisso... 
- Talvez preferisse Masuy e sua banheira? 
- Parece-me que preferiria os fantasmas da famlia Maubuisson. 
- Gosto de v-la sensata! 
- Pare de zombar de mim. 
- Compreendeu tudo bem? 
- Sim. No entanto, mais uma coisa. Se, por azar, acontecer de Sarah
no sair ou que, tendo sado, seja de novo apanhada, 
consider-loei inteiramente responsvel e mato-o. A no ser que por
minha vez... o denuncie... 
Com que ternura ele a olhou. 
- No duvido um instante da qualidade de sua vingana.

Captulo 8

QUANDO LA VOLTOU  rua da Universidade, reinava no apartamento uma
agitao excepcional. 
Sem lhe dar tempo de despir a japona, Franoise tomou-lhe as mos e
a fez girar, rindo, como costumava fazer quando 
eram pequenas. 
Primeiro, La tentou afastar-se, mas a irm conseguiu agarr-la com
fora. 
- Gire, eu te peo, gire... 
Ento, La deixou-se ir: com os braos estendidos, os ps juntos,
puseram-se a girar cada vez mais depressa, com aqueles 
gritinhos alegres da infncia. 
Na velocidade das voltas esqueceram-se de tudo. Desapareceu a
parede do saguo! O frio do inverno parisiense! O tempo 
chuvoso! Com as plpebras semicerradas, relembraram o sol de
Langon, o calor que vinha do terrao, o campo que se 
estendia at o infinito. Era a voz alegre da me que lhes gritava: 
- Franoise, La, parem, vo ficar tontas! 
Oh! Sim, como a cabea gira, que grande inebriamento apague as
imagens e receios daqueles ltimos dias! ... No voltar a 
ouvir a rdio de Vichy, a voz melosa de Tino Rossi, que de manh 
noite vocaliza sobre o trabalho, a famlia, a lista dos 
refns fuzilados. Nunca mais cruzar com crianas e velhos com o
distintivo da cruz amarela. Nunca mais imaginar os gritos 
de Sarah, violada e torturada. Nunca mais se sentir desamparada...
e to s, to s... Laurent... que aquele turbilho nunca 
mais parasse. Que os seus dedos crispados no a largassem. Que o
esprito se esvaziasse, depressa, ainda mais depressa... 
- Cuidado, vocs vo cair!... 
Franoise e La deixaram-se cair, rindo e chorando, cada uma para
um lado. 
Lisa correu para Franoise, enquanto Albertine se debruava sobre
La. 
- Estas crianas so loucas, podiam ter-se machucado choramingava
Lisa, contemplando a sobrinha, sempre rindo, que 
tentava levantar-se. 
- Oh! L, l! Que rodopio!... Nunca foi to rpido. Oh! La, onde
est voc? No vejo nada, tudo est girando... No pra 
de rodar. Voc conseguiu se levantar?... 
La no se mexia. Ficou deitada de lado, com o rosto escondido nos
cabelos. Inquieta, Albertine pegou-a pelos ombros e 
voltou-a. Plida, as narinas arquejantes, com a face inundada de
lgrimas, de olhos fechados, parecia desmaiada. 
- Depressa, Lisa, vai buscar os seus sais. 
- Mas por qu? Sinto-me bem. 
- No sejas boba, no  para voc,  para La. 
A velha senhora ergueu-se com custo e precipitou-se o mais depressa
que pde. Caiu de joelhos junto da jovem estendida, 
ergueu-lhe a cabea com precauo e a fez respirar os sais.
Depressa as suas narinas palpitaram e franziu o nariz, enjoada. 
Por sua vez, Franoise conseguira por-se de p, mas teve de se
agarrar  cmoda para no cair. Pouco a pouco a tontura 
passou. 
- Ah! Pela primeira vez ganhei eu, levantei-me primeiro. Ande, faa
um esforo! 
Mas, ao contrrio, La concentrava seus esforos para se manter no
estado de tontura e de nevoeiro em que se encontrava. 
Franoise veio agachar-se diante dela e agarrou-lhe as mos. 
La, oua o que lhe digo: Otto chega amanh e vamos nos casar. 
Um enorme desgosto apertou o corao de La. Mas Franoise tinha um
ar to radiante, to feliz, que ela escondeu a 
repulsa e conseguiu dizer quase que naturalmente: 
- Sinto-me feliz por voc. 
- Foi Frederic quem me anunciou. Obteve uma licena por sua boa
conduta na frente. Vai ficar feliz ao ver o filho. 
Toda entregue  sua felicidade, a moa nem notara os sorrisos
contrafeitos de quem a rodeava. 
Que belo dia! 
La mordia a lngua. 
- Oh! Meu Deus, j me esquecia,  hora da mamada. 
Com a saia esvoaante, Franoise, radiosa, saiu. 
- Sente-se melhor? - perguntou Lisa. 
- Que turbilho! 
La levantou-se e apoiou-se por um instante ao umbral da porta. 
- Como a sua irm est feliz! 
La olhou-a de maneira que no deixava qualquer dvida quanto a
Franoise. 
A senhora interrompeu. 
- Olhe, voc recebeu uma carta. Vem da Alemanha... 
- Por qu no me disse antes? 
La arrancou-lhe a carta das mos e precipitou-se para a "sua"
cadeira. Olhou para o verso do envelope. Mathias chegava-
lhe como os perfumes: os do bosque no outono, dos cachos das
vinhas, da gua da Garonne, quando estava quente e 
"cheirava a peixe", da umidade das grutas de Saint-Macaire, do
musgo do calvrio de Verdelais, do feno do celeiro, do suor 
depois de brincadeiras de amor... 
Rasgou o envelope. Tinha uma caligrafia miudinha e irregular. 
"Minha bela La, 
Soube pelo meu pai que estava em Paris e  para a que escrevo,
para lhe dizer que brevemente terei uma licena. Gostaria 
muito que j estivesse em Montillac quando eu chegasse. 
Estou contente por ter escolhido a Alemanha, contra a vontade de
todos.  um povo corajoso, unido em volta de seu chefe, 
seguro da vitria. Todos os alemes se batem nas cidades e nas
vilas e j no h homens desde os dezoito ao sessenta anos, 
todos esto espalhados pela Europa e Africa. So estrangeiros como
eu, que trabalham nas fbricas e no campo. 
Com a primavera, o exrcito do Leste vai retomar o comando das
operaes e, antes do vero, a bandeira alem flutuar em 
Moscou e nas grandes cidades russas. Os alemes so os melhores
soldados do mundo. Nada os poder vencer, so a nossa 
proteo contra os comunistas. Sem o seu sacrifcio seria o fim da
nossa civilizao. Perdemos a guerra por no termos 
sabido ver de ONDE VINHA o perigo... Eu fao o que tenho a fazer o
melhor que posso, porque sei que trabalho para a 
paz do mundo. As pessoas daqui suportam privaes que voc nem pode
imaginar. A alimentao e o vesturio so 
racionados e ningum protesta. Morro de vontade de poder lhe contar
tudo isto. 
Sei, por meu pai, que as vindimas no foram boas. Parece que por
falta de mo-de-obra, as vinhas esto maltratadas. 
Durante a minha licena, darei uma ajuda. Mas ser de pouca
durao... No tenho vontade de me encontrar NUM 
CAMPO de represlias com prisioneiros russos. Morrem dezenas de
milhares de fome e de doena. 
Gostaria de apert-la em meus braos, mas voc no perder nada em
esperar! 
Agora, at breve, 
Mathias" 
"Que imbecil" pensou La. 
De raiva, amarrotou a carta numa bola minscula e jogou-a para o
outro lado do saguo. 
Como  que Mathias podia trair daquela maneira? Que fora o atraa?
La ficou mais admirada que indignada. O que teria 
acontecido? Com todas as foras gostaria de compreender... 
O telefone j tocava h muito quando, por fim, Franoise, com o
beb nos braos, atendeu. 
- Est... Ouve-se mal, quem est ao telefone?... Quem!...
Fayard!... Fayard,  voc?... No compreendo bem. Apresse-se, 
que vo desligar... O qu? No  possvel, repita... Oh! No!...
La, La, venha depressa, em vez de ficar nessa cadeira, 
venha ajudar-me. 
Albertine e Lisa vieram dos quartos. 
O que acontece? O que voc tem, para gritar assim? - perguntou
Albertine. 
- Senhorita, peo-lhe... No desligue... Al, al... Fayard, ainda
est a? Al! Mas para onde as levaram?... Para Bordus? 
Avisou o senhor Delmas? Ento avise... Al... Al, no desligue. 
- Pare de chorar. O que aconteceu? gritou La. 
Os soluos impediram Franoise de responder. Com a mesma
brutalidade de sua infncia, La agarrou-a pelos cabelos e 
sacudiu-a com fora. 
Fale! 
- Laure!... 
Laure o qu? 
Laure... Camille... presas... 
- Presas?.., presas porqu? Por quem? 
Pela Gestapo. Foram a Montillac esta manh para prend-la, a
Camille e a voc. Como no estava.., levaram Laure... 
Os gritos simultneos de Albertine e de Lisa soaram longo tempo ao
ouvido de La. Com raiva, empurrou Franoise, que se 
agarrava a seu brao. Tentava dominar-se, e  onda de injrias que
lhe vinha  cabea. Para o conseguir, voltou-lhe as costas, 
abriu a porta do salo, que estava fechado por causa do frio e, na
semi-obscuridade daquele fim de tarde chuvoso, encostou 
a cabea contra a vidraa da janela alta que dava para a rua. Pouco
a pouco sentiu seu furor se acalmar, cedendo
 lugar a um desnimo que a entorpecia. Maquinalmente, notou que um
homem escondido no umbral de uma porta olhava 
naquela direo. Com indiferena pensou: "Agora, talvez seja a
minha vez". 
Que quereriam eles da pequena Laure, que gostava tanto do Marechal,
que havia at querido pr seu retrato em cima do 
piano, na sala. E Camille, to calma! Camilie! Teria sido
denunciada por Fayard? Ter- se-ia deixado apanhar quando 
distribua panfletos ou jornais clandestinos? A no ser que
tivessem prendido Laurent. Laurent! 
Sem se dar por isso, encolheu-se no cho, diante da janela, na
madeira fria. Quanto tempo teria ficado ali? 
Dois braos a ergueram e a levaram para a luz... 
Uma vez mais seu pai a encontrara adormecida no celeiro e,
apertando-a contra si, a levado at a me, murmurando: 
- Que beb gordo! 
Como se sentia bem o beb gordo. Que felicidade! Tinha, enfim,
voltado para casa. Ali se encontravam todos! Como 
receara no voltar a encontr-los! Mas por que seria que tudo lhe
parecia pequeno... to pequeno... Por que seria que aquela 
nvoa os escondia pouco a pouco?... No!... No iriam
desaparecer!... Agora no... Restava Laure! Camille e Sarah! 
Sarah!... 
Com um salto, levantou-se. 
- Voc nos assustou!... 
- Est melhor, minha querida? 
- Deite-se, precisa descansar. 
- Temos de chamar um mdico. 
- Tia Lisa, no estou doente, isto no  nada. Franoise, o que foi
que Fayard lhe disse, exatamente? 
- Eu j falei. 
- Mas eles no fizeram nada? 
- Eles todos protestaram. Ruth no quis separar-se de Laure. Tambm
a levaram. 
E o pequeno Charles? 
- Camilie confiou-o  senhora Fayard e  senhora Bouchardeau. 
- Para onde as levaram? 
- Para Bordus. No se aflija, talvez seja um mal-entendido, vamos
tir-las de l... 
- No se trata de um mal-entendido, voc sabe muito bem. Voc
sempre soube que Camille e eu servamos de correio, que 
entregvamos a correspondncia e distribuamos os panfletos. 
- Nada importante. 
- Fuzilam as pessoas por menos. 
- Ser que tio Luc continua em boas relaes com os alemes? 
- Julgo que sim, nossa prima casou-se com um deles. Temos de
procur-lo. Ele vai conseguir libert-las. 
- Eu vou. 
No - gritou Franoise. - No quero, seria muito perigoso para
voc. 
- Como voc os conhece bem, irmzinha, para me dar tal conselho! 
- No me humilhe. Otto no  como eles. Amanh, ele estar aqui e
vai ajudar-nos, tenho certeza. 
Na seqncia de um atentado contra um carro alemo que, na vspera,
tinha causado um morto e dois feridos, o toque de 
recolher fora antecipado em duas horas. O sero foi longo e sofrido
para todos: Franoise e La tinham tentado em vo 
chamar tio Luc Delmas. A telefonista respondia-lhes que as linhas
estavam cortadas at uma hora indeterminada. Na T.S.F. 
era impossvel captar Londres, era tal o barulho que a voz do
locutor era inaudvel. E, para coroar aquele dia, houve, pouco 
depois da meia-noite, um alerta que precipitou aquelas mulheres
cansadas e angustiadas para o poro do prdio, 
transformado em abrigo. Ali encontraram os vizinhos, vestidos s
pressas, com os cobertores nas costas. Estelle havia 
levado a garrafa trmica cheia de uma infuso de tlia que nunca
tirava da sua mesinha de cabeceira, para o caso de uma crise 
de nervos ou do frio mido que lentamente as entorpecia. A boa
mulher no chegou a servir-se disso, porque cada um ficou 
prostrado no seu canto. Apenas o beb de Franoise manifestou seu
mau humor. Felizmente o alerta foi curto.

Captulo 9

CEDO, NA MANH seguinte, La partiu em sua bicicleta  procura de
Franois Tavernier. No estava em 
casa. Na rua Saint-Jacques, no restaurante clandestino dos Andrieu,
Marthe lhe disse que no o tinha visto 
desde a ltima vez em que ali estivera com ela. Achando-a de mau
aspecto, forou-a a engolir um prato de sopa 
e a aceitar um chourio de que ''depois lhe daria a conta''. A
amvel cozinheira beijou-a nas duas faces, 
prometendo-lhe que se visse o senhor Tavernier lhe diria que sua
jovem amiga o procurava. 
Um tanto reconfortada pela sopa e pelo acolhimento, La partiu
novamente, pedalando ao acaso pelas ruas, 
que um belo sol de inverno no conseguia animar, depois dos longos
dias de chuva... 
Depois do alarme da noite passada, no tinha conseguido voltar a
dormir, remoendo e tornando a remoer os 
acontecimentos do dia, tentando pr seus pensamentos em ordem.
Nunca sua impotncia lhe havia parecido 
to total. De seu esprito nasciam imagens intolerveis; Laure
violada. Sarah mergulhada na banheira, Camilie 
torturada, Laurent e Adrien fuzilados, a velha Sidonie decapitada,
Ruth estrangulada, Charles assassinado e 
Montillac a arder sob o olhar de Mathias e de Fayard. Em vo tentou
ler; as linhas danavam diante de seus 
olhos num bal macabro. No podendo mais, levantara-se e errara at
o amanhecer, pelo quarto gelado. Logo 
que amanheceu havia tentado novamente contatar Bordus sem mais
sucesso do que na vspera. 
Atravessando a ponte, La subiu aos ziguezagues a grande avenida do
Trocadro. Do outro lado da praa, o 
alto muro que mantinha prisioneiros os mortos do cemitrio de
Passy, erguia suas paredes cinzentas. Que 
estava fazendo ali? Cansada pelo esforo, parou diante de uma
cervejaria onde havia almoado com Raphael 
Mahl. Havia um grupo de jovens dos liceus, pelas suas pastas,
fazendo algazarra e ocupando 
todo o passeio. Empurraram sem querer trs soldados alemes. Um
deles teve um gesto colrico, que os seus companheiros 
acalmaram. Atrs de suas costas, os rapazes riam, fazendo o V da
vitria. 
Aquele gesto irrisrio e proibido, aliviou de repente a angstia de
La, que entrou no caf com um sorriso radioso. 
No balco, dois operrios assobiaram  entrada daquela bela moa,
que sorria de olhos brilhantes, faces coradas pelo frio. 
Com um gesto simples tirou a boina escocesa que lhe prendia os
cabelos. 
- Ouah! ... - disse um dos estudantes que entrara atrs dela - Eu
Tarzan, voc Jane. 
O Tarzan se gabava porque era um magricela com culos de mope. Ao
contrrio, La, assim despenteada, tinha na verdade 
um ar selvagem. 
- Est louca em chamar a ateno assim, saia! 
De onde surgiu ele? Por que viria estragar um dos raros momentos de
prazer? 
- Mas, Raphael... 
Sem a escutar, agarrando-a por um brao, arrastou-a para a escada
da estao do metr. Na plataforma, depois de estar 
seguro de que ningum os via, sentou-se sem flego. 
- Que foi que lhe deu? Faz o favor de me explicar? - perguntou La,
furiosa. 
- Ia estragando tudo... Tenho um encontro para a evaso de Sarah.
Felizmente ele no a viu. 
- Por qu, ele me conhece? 
- Um pouco. Voc lhe deu mesmo nas vistas. 
- No compreendo. De quem se trata? 
- De Masuy. 
-De Masuy?... 
- Sim, depois de refletir muito conclu que  ele quem vai nos
ajudar. 
Descaramento no lhe falta. 
A palavra impossvel no  francesa, minha amiga. 
- Como  que fez? 
- Falei-lhe dos diamantes. 
- Dos meus?... 
- No, dos outros, no queria compromet-la nesta histria. La mal
pde dissimular um sorriso. 
- Isso pega? 
- Tenho agora um encontro com ele para ver uma amostra, e, se
estiver de acordo, deix-la em troca. 
- E se no estiver de acordo? 
- Eu o conheo, no resistir a um diamante de oito quilates,
sobretudo se lhe prometer um igual aps a fuga. 
- Como  que os arranjou? 
- Isto  uma histria muito comprida. Mas depois deste golpe, tenho
imperativamente de desaparecer. 
- Para amanh, no h mudanas? 
- Talvez. Se houver um problema ou uma mudana, o rapaz do
cemitrio, lembra-se dele?... 
- Sim, claro. 
.vir entregar-lhe isto disse ele, arrancando a pgina do ltimo
romance de Montherlant e estendendo-lhe o livro. - Ele dir-
lhe- o que  preciso fazer. 
- Mas a minha bicicleta? 
- D-me as chaves e o cadeado e eu a deixo em frente da livraria
Gallimard. 
- Se pensa que  melhor assim... 
- Sim, penso. Olhe, a vem o metr. No se esquea de trocar em
Motte-Picquet-Grenelle. 
La no gostava de andar de metr, sempre cheio a qualquer hora.
Sua natureza campestre se perturbava com os cheiros da 
promiscuidade e sobretudo com essa impresso de estar enterrada
viva. No vago, alguns soldados alemes tentavam 
passar despercebidos, ajudados nisso pela multido parisiense que
os ignorava com superioridade. Em Svres-Babylone, 
um homem distribuindo panfletos do partido comunista acabava de ser
apanhado pela polcia francesa. Um oficial alemo 
apertava a mo do comissrio. 
L fora, o sol brilhava suavemente, as crianas brincavam no bairro
da senhora Bocicaut, as bandeiras do hotel Lutcia 
continuavam ali. 
- Voc nunca est em casa quando  preciso. Onde esteve? - disse
Franoise, com mau humor. 
- H notcias de Laure e de Camille? 
- Sim, tio Luc telefonou. Conseguiu que o comissrio Poinsot lhe
entregasse Laure. Fica responsvel por ela at nova 
ordem. Poinsot disse- lhe que seria melhor para voc se voltasse, e
ele lhe faria um interrogatrio para despistar. 
- E Ruth? E Camille? 
- Quanto a Ruth no houve problema, eles nada tinham a lhe
censurar. Tambm est em casa do tio Luc. 
- E Camille? 
Franoise baixou a cabea, pouco  vontade. 
- Levaram-na para o forte H. O interrogatrio ter lugar esta
noite ou talvez amanh. 
Camille no resistir ao interrogatrio... No h notcias de
Laurent e de tio Adrien? 
Nada. A polcia de Bordus procura os dois. 
- Eu sei. 
O que quer fazer? Ir a Bordus? 
- No sei de nada, seno daqui a uns dias, em todo caso. Tambm no
se sabe de Franois Tavernier? 
- No. Mas houve algum que telefonou para voc. Uma mulher,
Marthe, penso. 
- Marthe!... 
-  sua amiga? 
- No, uma comerciante... Olhe, j me esquecia, ela me deu um
chourio. 
- Deus! - exclamou Franoise, com olhos espantados. Vendeu, quero
dizer. 
- Isso tambm me espanta. Deixe-me ver. 
La tirou de sua bolsa o chourio embalado em papel de jornal e
estendeu-o  irm que o desembrulhou com cobia. 
- Que bonito! J h muito tempo que no via um chourio to grosso.
Estelle, olha oque La nos trouxe! 
- Meu Jesus! E magnfico... Minhas senhoras, venham ver. 
Albertine e Lisa correram extasiando-se tambm. Desde a refeio de
31 de dezembro que no havia carne na mesa da 
famlia, exceto por duas vezes carne de vaca e uma galinha magra. 
Que lhe disse? 
Quem? 
- Marthe! 
Que estaria esta tarde s quatro horas no mercado da rua de
Mouffetard. 
Em que lugar? 
- Creio que j sabe, perto da igreja de Saint-Mrard... 
- Tem cada uma, a Marthe! A igreja de Saint-Mrard... 
La nunca tinha posto os ps ali! ... Ela a encontraria, o
principal era Franois estar avisado. Ele era a nica pessoa que 
poderia dar a Marthe o nmero de seu telefone. 
- Fico bem contente, parece que isso a alegrou - disse Franoise. 
- E depois, daqui a instantes, vou rever Otto. 
Naquele momento, La, reparou na roupa de l elegante da irm, 
que voltara a ter o mesmo corpo de antes. Ela j havia se
esquecido. 
- Ele vem aqui? 
- Evidentemente disse Franoise, na defensiva. Tem bem o direito de
ver o filho. 
- Sim, e eu o direito de no ter prazer em v-lo. Vou-me embora. 
- La, voc no  gentil. Otto gosta de voc e vai lastimar se no
estiver aqui. 
- Isso, francamente, me  completamente indiferente. Os
compatriotas do teu amante... 
Vamos casar! 
.prendem Camille, procuram tio Adrien e Laurent, procuram a mim,
fazem torturar os meus amigos, obrigando-os a trair, a 
trabalhar para eles nessa porcaria! E tudo o que voc tem a me
dizer  que teu boche ficar triste... No acha que lhe falta o 
mnimo de vergonha? 
No tem o direito de falar de Otto dessa maneira. Ele no aprova,
tal como voc, o que os outros fazem... 
Minhas filhas, acalmem-se, no gritem assim, os vizinhos podem
ouvir-nos. 
Eu me lixo para os vizinhos, tia Lisa, tenho at vontade de gritar
quando a ouo dizer que o seu Otto no  como os 
outros!...  exatamente a mesma coisa: capaz de tudo pelo seu
Fhrer... 
- No  verdade... 
- Sim,  verdade, ou ento nunca o ouviu falar. Mas o que mais
reprovo em seus amigos alemes, no  terem ganho a 
guerra,  o de nos demonstrarem que ramos um povo de covardes, que
o medo lanou pelas estradas, como gado imbecil e 
que agora voltou para o pato ajuizadamente curvado sobre si mesmo,
depois de acreditar no que lhes sussurrava um velho 
caqutico, que deixa deportar famlias inteiras, fuzilar os refns,
alguns com a idade de Laure, que encoraja as denncias, 
que faz com que bons rapazes como Mathias percam a cabea e homens
como tio Luc se desonrem... 
La, no fale assim de seu tio! 
- Tia Albertine, ns aceitamos coisas demais... 
A campainha da porta interrompeu La. 
- Meu Deus! Por sua causa vou aparecer com uma cara horrvel
exclamou Franoise, fugindo para o quarto. 
La fechou-se no seu, deixando Albertine e Lisa. Covardemente, elas
foram chamar Estelle na cozinha para mandar entrar 
aquele que j comeava a se impacientar. Diante dela, estava uma
espcie de gigante com farda de oficial alemo, que se 
exprimiu em sua lngua, perguntando: 
- Madame Delmas est? 
106 
Com o olhar espantado, de cabea levantada, a velha criada olhava-
o balanando a cabea. O homem repetiu: 
Madame Delmas, da parte do comandante Kramer. 
- Senhorita Franoise, senhorita Franoise, deve ser para voc! 
Franoise, depois de consertar a desordem de seu rosto, consentiu
em aparecer com um sorriso radioso. 
Otto! 
Ficou parada diante do gigante que a saudava muito civicamente,
batendo os calcanhares. 
Madame Delmas? 
Sim... 
O comandante Kramer encarregou-me de uma mensagem para 
a senhora. Vai enviar um carro para peg-la s cinco horas. Pede
que 
a senhora esteja em vestido de noite. No nicio da tarde, viro
costureiras lhe apresentar seus modelos. At logo, Madame. 
Novo bater de calcanhares. Franoise continuou imvel, com um
sorriso idiota. Estelle fechou a porta.

Captulo 10

LA CHEGOU um pouco antes das quatro em frente da igreja de
SaintMrard, transida e com mau humor. 
Embora estivesse farta de percorrer Paris de bicicleta, com frio,
preferia isso ao metr que havia tomado. 
Raphael no havia mantido sua promessa e no trouxera a bicicleta.
Tinha descido na estao Monge e 
andado debaixo da chuva que voltava a cair. 
Olhou em volta; nada que se assemelhasse a uma cara conhecida.
Figuras de velhas friorentas mantinham-se 
em longas filas diante de uma padaria e de uma outra loja. A
multido compacta, resignada, esperava batendo 
os ps, mal abrigada por velhos guarda-chuvas. 
Soaram as quatro horas. Um homem gordo saiu da igreja e fechou a
porta atrs de si. No sabendo que fazer, 
La seguiu para a rua Mouffetard. Na esquina da rua Arbalete, duas
mulheres brigavam pelo ltimo quilo de 
batatas de um vendedor de legumes. Perto da rua Epede-Bois, deu
meia-volta e quase esbarrou numa mulher 
que subia. 
- Desculpe, minha senhora... oh! 
Por baixo do leno atado no queixo, acabava de reconhecer Marthe
Andrieu. 
Encontramo-nos um pouco mais abaixo  direita, no caf que tem
madeira e carvo,  de um primo meu. Diga-
lhe que  de Montcuq, ele saber que se trata de uma amiga. 
Estava bom no caf do primo. No fundo da salinha ardia um fogo de
cobre verde no qual uma grande cafeteira 
fumegava e soprava. Todas as mesas estavam ocupadas por homens
velhos que jogavam cartas e domin. A 
serragem amontoava-se nos azulejos de arabescos azuis. Atrs do
balco, um bigode impressionante, grisalho, 
com um barrete na cabea, com uma roupa escura dos carvoeiros,
limpava o 
balco defronte de dois jovens. Quando acabou de servi-los,
aproximou-se de La. 
- Bom-dia, senhorita, em que posso servi-la? 
- Eu sou de Montcuq - disse ela, espirrando. 
Um raio de desconfiana passou em seus olhos. No entanto, respondeu
jovial: 
- Todos os da minha terra so bem-vindos. O ar de Paris no vale
nada, veja como est resfriada. Vou lhe preparar uma 
bebida quente, como antes. 
- Ento sirva duas, meu primo. 
- Prima Marthe! Que bons ventos a trazem aqui? O que h de novo
desde ontem? 
- Pouca coisa, primo Jules. Resfriei-me quando estava numa dessas
filas malditas. Disse-me, ento: vamos nos aquecer em 
casa do primo e pedir-lhe um traguinho. 
- Maldita Marthe! Sempre bom copo! 
- Ora, nos tempos que correm, precisamos de nos regalar de vez em
quando. No acha, senhorita? 
- Sim, senhora. 
Jules tirou de baixo do balco uma garrafa sem etiqueta, pousou
trs copos no balco enchendo-os quase at o meio com 
um lquido cor de mbar, ao qual acrescentou sub-repticiamente trs
pedaos de acar e uma rodela de limo. 
- Isto  bom contra o resfriado. Ei!, prima, passe-me a cafeteira.
Cuidado para no se queimar - disse ele estendendo-lhe um 
pano. 
Marthe voltou com o recipiente na mo. 
Ei!,  de chumbo esta marmita - exclamou ela, ao pous-la. 
-  coisa slida - respondeu ele, pondo a gua para ferver. Cada um
mexia sua colher em silncio. 
- A vossa, senhoras - disse o taberneiro. 
- A sua, Jules. 
- A vossa - disse La, repondo o copo precipitadamente. 
- Est quente! Mas  assim que faz bem. 
- Vou esperar um pouquinho, se me permitem. 
Por fim, o primo afastou-se. 
- Tem notcias de Franois? 
- Sim, por meu filho. Ele pede para no cometer nenhuma
imprudncia. Por agora no pode vir v-la. Se tiver algum recado 
para ele, posso encarregar-me disso. Meu filho, que vai v-lo, est
em casa  minha espera... 
No cometer imprudncias... Como  fcil dizer assim de longe...
  amanh que Sarah precisar de mim, se Raphael no nos trair s
duas... Que devo fazer?... Que devo dizer 
- Pode encarregar-se de uma carta? 
- Claro que sim. 
- No tenho nada com que escrever. 
- Vou pedir aoJules. Beba esse grogue, seno ele ficar
descontente. 
La obedeceu. Ainda muito quente, mas suportvel. Era forte e bom. 
A meio copo sentiu pelo corpo um calor agradvel. Quando Marthe
voltou com uma folha de papel e um envelope, uma 
caneta e um frasco de tinta, La sentiu-se quase eufrica. Abriu o
tinteiro, molhou a pena de sargento-mor. 
"Caro amigo, Camille est na mesma situao que S. Meu tio Luc, que
conhece, aconselha-me a voltar, que devo fazer? 
Raphael ocupa-se de S. O noivo da minha irm est de volta. Posso
ter confiana nele? D-me notcias logo, porque me 
sinto muito s. Um beijo. 
La" 
Dobrou a folha, colocou-a no envelope que estendeu a Marthe. 
Esqueceu-se de fechar - disse a cozinheira, passando a lngua pela
goma. - Logo que puder, aviso-a. 
Diga-lhe que  muito importante, que preciso v-lo. 
- Minha querida filha, vou fazer o possvel. Acabe o seu grogue e
v-se embora, seno vai ser apanhada pelo toque de 
recolher. Veio de metr? 
- Sim. 
- Faria melhor se voltasse a p. Na sua idade, leva-se menos tempo,
menos de uma hora. Tome a rua Epe-de-Bois: chega  
Monge, volte  esquerda e ande at o Sena. A, j conhece o
caminho. Adeus. 
Adeus, Marthe, adeus, senhorJules, obrigada pela bebida, sinto
calor em todo o corpo e parece que tenho asas. 
 o que  preciso. 
O frio substitura a chuva, mas graas ao grogue nem o sentia.
Estava quase anoitecendo, nenhuma luz e pouca gente pelas 
ruas. Era sinistro, La partiu correndo. 
Sem flego, parou no bairro de Saint-Julien-le-Pauvre. Do outro
lado do Sena erguia-se a fachada sombria de Notre-Dame. 
Depois de alguns instantes, voltou a partir sem correr. A idia de
estar na presena de Otto e de Franoise era-lhe 
insuportvel. 
J haviam passado vinte e cinco minutos depois da hora de recolher
quando ela chegou  rua da Universidade... Presa na 
porta estava sua bicicleta. Era bom sinal, Raphael tinha acabado
por cumprir sua palavra. Desprendeu-a, empurrou a porta 
e entrou com ela. Atrs da porta, algum agarrou-lhe o brao, e La
conteve o grito. 
- Sou amigo do senhor Raphael, no tenha medo, tenho um recado para
voc: no v amanh ao cemitrio. 
- No tem nada para me dar? 
Ah!  verdade, a pgina do livro, tome, aqui a tem. Acendeu um
fsforo para que ela pudesse verificar. 
- No saia de casa,  importante. Ter notcias da pessoa que sabe.
Tem qualquer coisa para eu dizer ao senhor Raphael? 
- No, no tenho nada. Tudo est correndo bem. 
No sei nada. S fao isto para agradar ao senhor Raphael e porque
 mais divertido do que ser guarda de um cemitrio. 
Como se chama? - 
- Para voc, sou Violeta.  bonito, no acha? Foi o senhor Raphael
quem me deu. Gosta? 
- Muito disse La, contendo o riso. 
Em casa tudo estava calmo. As senhoras Montpleynet escutavam um
concerto no rdio. A salinha estava quente. 
- No h notcias de Camille? 
- No, nenhuma, em compensao ouvimos Laure e a Ruth ao telefone.
Dentro de dois dias voltam para Montillac. 
La foi ao seu quarto mudar de roupa. Pouco tempo depois voltou
vestindo uma blusa branca muito grossa, uma saia 
comprida escocesa, que tinha sido da me, Os ps estavam enfiados
em grossas meias no muito elegantes, mas quentes, os 
cabelos escovados enfeitavam-na maravilhosamente. 
Como est bela, minha querida! - exclamou Lisa. - A juventude  uma
bela coisa. Aproveite-a bem, pequena, porque  
passageira. 
- Se pensa que  agradvel ser jovem neste momento!... 
 bem verdade que a sua gerao no tem muita sorte - disse a velha
senhora, retomando o seu tric. 
Franoise saiu? 
- Sim, vai jantar no Maxim's, onde o noivo deve apresent-la aos
superiores - disse Albertine com um tom de fingida 
desenvoltura. 
- Esta situao no as choca? 
Lisa levantou-se para pr uma p de carvo no fogo, deixando 
irm a tarefa de responder. 
Quando Albertine levantou o rosto de traos severos, amenizados
pela bondade do olhar, seus olhos, outrora de um lindo 
azul, estavam cheios de lgrimas. Era uma coisa to rara que La
ficou constrangida. A velha senhora retirou os culos e 
desajeitadamente tentou limp-los. 
- Isso faz-nos pior do que chocar. Eu passo por cima da vergonha
que  isso, voc imagina, para s pensar no futuro infeliz 
que evidentemente espera por sua pobre irm. 
- Foi ela quem o procurou. 
-  maldade o que voc acaba de dizer. Isso tambm poderia ter lhe
acontecido... 
- Nunca! Nunca me apaixonaria por um inimigo! 
- Fala como uma criana romntica. Isso talvez no tivesse
acontecido se sua me estivesse conosco... 
No fale de minha me, eu lhe peo. 
- Por que no hei de falar? Acredita que nosso sofrimento  menor
do que o seu? Perdendo-a, foi a uma filha que perdemos, 
sua tia e eu. Constantemente nos lastimamos de no termos olhado
por Franoise. De ter, por egosmo, talvez, precipitado 
as coisas. Se tivssemos ficado em Montillac... 
Isso no mudaria nada. 
-  possvel, mas se tivesse havido uma chance para que isso fosse
diferente, somos imperdoveis por no ter sabido 
proteger de si mesma a filha de nossa filha. 
Agora, grandes lgrimas deslizavam pelo rosto de Albertine. 
- Minha tiazinha, perdoe-me, sou eu a culpada e no quero v-la
chorar. Lisa, venha ajudar-me a consol-la. 
Mas Lisa, desolada pelo desgosto da irm, no estava em estado de
consolar quem quer que fosse. Nem a prpria La que, 
por sua vez, se ps a chorar. Foi assim que Estelle as encontrou
quando veio pr a mesa. 
- Senhoras!... Pelo amor de Deus! O que acontece aqui? 
- No  nada - disseram as trs em coro, assoando-se ruidosamente. 
Julgando que lhe escondiam qualquer coisa, a boa Esteile ps a mesa
resmungando. 
A frugal refeio foi triste. No se ouvia a rdio Londres. La
deitou-se cedo. 
O dia seguinte pareceu-lhe interminvel. Ia do telefone s janelas
que davam para a rua, das janelas  porta de servio. 
Nada, nada a no ser o silncio entrecortado por vezes pelos gritos
do beb confiado a Estelie. Franoise no voltara. 
Depois do jantar, La instalou-se na cadeira do saguo, tentando em
vo ler os jornais. 
Tinha cado a noite h muito tempo quando bateram  porta da
entrada. La, que se encontrava mesmo por detrs, 
estremeceu: 
Quem est a? 
-  Raphael, abra depressa. 
Com uma angstia que a fazia tremer, obedeceu. 
Raphael no vinha sozinho. Agarrava uma mulher de luto, com um vu
no rosto. 
Est s? 
- Sim, o recolher foi retardado; minhas tias foram ao teatro e
Estelie est com o pequeno. 
- Perfeito. 
La olhou para a mulher. 
- Sarah? - arriscou ela. 
Sim, depressa respondeu Raphael. Vamos para o apartamento do fundo,
ela vai desmaiar. - 
Mas por que a trouxe para c?  muito perigoso. 
- Fui apanhado de imprevisto, depois lhe explico, O essencial 
estar viva... 
La, com uma lanterna eltrica na mo, guiou-os pelo corredor
escuro e abriu-lhes a porta do quarto. Com gestos de grande 
ternura, Raphael estendeu Sarah na cama e retirou-lhe o vu. 
Oh! No! - gemeu La, pondo a mo na boca. 
Uma atadura suja rodeava-lhe a cabea, um dos olhos estava fechado,
os lbios estavam arrebentados e tinham o dobro do 
volume. Mas o que mais a horrizava eram trs buracos purulentos que
se viam em suas faces plidas. 
Queimaduras de charuto - disse Raphael, com voz sem expresso. A
moa aproximou os olhos secos e olhou atentamente 
para sua amiga. Sem uma palavra, retirou-lhe o chapu de viva,
desabotoou-lhe o casaco e o retirou ajudada por Raphael. 
Acenda a lenha que est na lareira e v buscar o aquecedor eltrico
que est no banheiro. Depois, v aquecer gua na 
cozinha. 
As chamas elevavam-se altas e brilhantes. De braos cruzados, La
caminhava de um lado para outro, seguida pelo olhar de 
Sarah. No tinham trocado uma nica palavra. Raphael voltou com uma
cafeteira de gua quente e toalhas que pousou na 
cama. Em silncio, com precauo, despiram-na completamente. Ela
tremia. 
- H gua quente na cozinha, traga a bacia e a esponja que esto no
banheiro. 
Quando Raphael encheu de gua a bacia, segurou-a em frente a La. A
esponja percorreu levemente o belo corpo 
supliciado, contornando as queimaduras dos seios, batendo de leve
no ferimento da rua Gungaud, tirando a sujeira do 
ventre, das coxas e das pernas. Quando a voltaram de barriga para
baixo, ela no pode conter o gemido. As costas eram uma 
chaga. Tinham-se empenhado longamente para conseguir tal coisa. 
- Veja no armrio da farmcia o que h para curativos. 
Apesar do calor do radiador, Sarah tremia. La cobriu-a com o
edredon vermelho. 
-  tudo o que encontrei. 
Tintura de iodo e compressas, era tudo o que havia. 
Depois de beber ch e tomar um dos calmantes de Lisa, Sarah vestida
com uma camisola de Albertine e coberta com trs 
edredons, tinha adormecido. Raphael e La, sentados no tapete
diante da lareira, falavam em voz baixa, fumando cigarros 
ingleses trazidos por Raphael. 
- O que aconteceu? 
Mahl aspirou uma longa baforada antes de responder. 
- Como prometido, em troca do segundo diamante, Masuy libertou
Sarah, mas em que estado! O malandro deve ter tentado 
faz-la falar at o fim. Queria ganhar seu dinheiro. Tinha
concebido um outro plano porque o do cemitrio era complicado e 
perigoso... 
- No compreendo nada: por que havia de se esconder Sarah, pelo
menos por agora, visto que tinha sido o prprio Masuy a 
libert-la? 
- Porque no demorar muito a constatar que o segundo diamante 
falso. 
- Evidentemente. 
- Tinha deixado na bicicleta-txi este disfarce de viva. Eu o
vesti. Lembra-se de meu apartamento da rua Rivoli? 
- Muito bem. 
- Eu no entreguei as chaves ao proprietrio. Como ele foi enviado
de frias para a Alemanha, pensei em utiliz-lo. 
- E ento? 
- Ento? Quando ali chegamos havia um carro estacionado  porta.
Era o de Masuy. Dei meia-volta com Sarah desmaiada. 
Devido ao seu estado, era impossvel utilizar o cemitrio. No
sabia para onde ir. Ento, pensei em voc. 
- Tivemos muita sorte, poderia ter encontrado Franoise e o noivo.
Que teramos dito a esse brilhante oficial se nos 
encontrasse com uma mulher torturada? 
- Teria arranjado qualquer desculpa. Ele volta esta noite? 
- Penso que no. Parece que minha irm fica com ele e o filho num
grande hotel. Mas ele pode, mesmo assim, vir a qualquer 
momento. Alm disso, a presena de Sarah ir fazer minhas tias
correrem grandes riscos. 
- Eu sei disso, mas, neste momento, o que mais podemos fazer? Sarah
no est em estado de poder andar durante uns dias... 
- Antes de muitos dias... Mas voc se esquece de que Masuy sabe que
ns nos conhecemos. No ser preciso muito tempo 
para saber onde eu moro. E se vier aqui seremos todos presos. 
J pensei nisso. Se descobrir seu endereo, descobrir tambm que
sua irm recebe oficiais alemes. Eu o conheo. Vai ser 
prudente. 
Espero que tenha razo, porque eu nunca suportaria o que Sarah
suportou, no teria coragem. Voc tambm no, no  
verdade? 
- Como j lhe disse, as pessoas da minha espcie so covardes
perante o sofrimento fsico. 
- Psiu! Estou ouvindo minhas tias. Quando elas forem para o quarto
pode ir embora. 
- Mas no vou embora! Para onde iria eu? No tenho mais nenhum
lugar para ir. Deixe-me passar a noite aqui. Amanh, 
Violeta vai trazer- me alguma roupa para trocar. 
- Como ele sabe que voc est aqui? 
- Ele deveria esperar-me em frente ao prdio da rua Rivoli. Viu-me
voltar para o lado do Pyramides e tomar a direo do 
Pont-Royal. Correu atrs de mim. Parei na esquina do cais e ele
veio ao meu encontro. Eu disse-lhe que vinha para a rua da 
Universidade. Amanh traz-me a roupa. 
Tinha ento certeza de ficar aqui? 
Raphael Mahl levantou-se penosamente. 
- No estava certo de nada. 
Pela primeira vez desde o incio da noite, La olhou-o com ateno.
Com que mau aspecto estava!... A gordura tornava 
pesados os seus movimentos, o cabelo ia rareando, um tique nervoso
levantava de vez em quando um canto de sua boca, e 
as mos, que eram belas, embora um tanto rolias, tremiam cada vez
mais. 
Notou isso e ergueu seu pesado corpo, dizendo: 
- Est bem, vou-me embora. 
- No seja idiota. Fique aqui esta noite. Amanh veremos. No se
mexa que eu vou buscar um cobertor. 
La no conseguira dormir um s instante. Ia constantemente ver
Sarah. Seu sono agitado, a testa escaldante e as palavras 
incoerentes da 
amiga preocupavam-na. Por vrias vezes quase acordou Raphael. Mas
ele dormia a sono solto no cho, enrolado no 
cobertor. 
No se contendo, s seis horas levantou-se, enfiou o roupo e foi 
cozinha aquecer gua. Ainda tinha ficado um pouco do 
caf oferecido por Frederic Hanke para o Ano-novo. Egoistamente,
La pensou que iria se oferecer um bom cafezinho, 
porque bem o merecia. Pegou o moinho e derramou alguns dos
preciosos gros, sentou-se no banco e com o moinho entre 
as pernas, resolveu mo-lo. Depressa o cheirinho a levou at 
cozinha de Montillac, quando a cozinheira, em troca de uns 
caramelos ou de suas no menos famosas massas com marmelos, lhe
pedia para "moer" o caf. 
Essa pobre lembrana dos tempos felizes veio-lhe graas  calma que
demonstrara na vspera. Sentiu um peso abater-se no 
peito, uma angstia subindo at a garganta, enquanto as lgrimas
lhe caam pelo rosto. Curvada sobre o moinho, soluava, 
como soluam as crianas abandonadas diante da me morta nos
bombardeios de Orlans. Todo o corpo sacudido de 
soluos lhe causava mal-estar. Balanava-se para a frente e para
trs, como por vezes fazem as crianas. O toque do relgio 
da cozinha f-la estremecer. Tentou levantar-se. 
Uma sombra escura delineou-se no limiar da porta. Ela abafou um
grito. O moinho de caf caiu com um estrondo que 
ressoou pela casa silenciosa. A gaveta abriu-se, o p e o gro
espalharam-se pela cozinha. 
A sombra avanava. 
Franois! 
De p, frente a frente, ficaram imveis,  espreita. Nada se ouvia.
As duas mos de Franois desviaram levemente os cabelos de La. Com
os dedos fez-lhe festas no rosto... Ela fechou os 
olhos e se acalmou um pouco. 
Desculpe-me. 
Raphael Mahl entrou, embrulhado no cobertor, com a cara balofa e os
cabelos em desordem. Instantaneamente, Franois 
largou La e ps a mo no bolso. 
- Que faz aqui? 
Raphael ia responder, mas La interveio. 
- Dei-lhe hospitalidade por esta noite. Ele no sabia para onde ir.
Julgo que no tinha outra escolha. E Sarah? 
- Est no quarto do fundo. 
Franois lhe lanou um olhar admirado. 
- Desde quando? 
Desde ontem  noite. Foi Raphael quem a trouxe. 
Obrigado, meu velho. Como est ela? 
- Mal - respondeu Raphael. -  preciso chamar um mdico. 
impossvel - respondeu La. - Ele nos denunciaria. 
Precisamos correr esse risco. Eu vou v-la - disse Franois. -
Enquanto esperam, veja se recupera o pouco de caf que resta. 
Eu tomaria uma xcara. 
- Espere um instante... Como  que entrou? 
- Tinha-me dado a chave! 
- Sim,  verdade, desculpe. 
- Vim, logo que soube que me chamava. Era por causa de Sarah? Sim,
e tambm de... 
- Dir o resto daqui a pouco. Vou ver Sarah. No esquea o caf. 
- Raphael, ajude-me a apanhar tudo isto. Depressa, porque Estelie
deve levantar-se daqui a pouco. 
Durante uns minutos, trabalharam em silncio, colocando os gros de
novo no moinho. 
- Tem uma vassoura para eu limpar o resto? perguntou Raphael. 
- Ali no armrio, creio. 
Ao passar, Raphael apagou o gs porque a gua fervia, encontrou a
vassoura, enquanto La estava moendo, depois de lavar 
o rosto. Sorridente, ela olhou para o escritor trabalhando. 
- Parece que fez isso a vida toda. 
- Minha querida, sou uma verdadeira criada de casa, pergunte aos
meus amigos - brincou ele. 
No  hora para brincar. 
Minha querida,  sempre tempo de rirmos e gracejarmos, sobretudo
nesta triste ocasio. Porque nem voc nem eu sabemos 
o que ser de ns amanh, nem se estaremos vivos. 
- No diga essas coisas! 
Estar com medo, linda criana? No entanto o valente cavaleiro
acorreu ao seu apelo... Como  bela sorrindo assim. Nunca 
lhe tinha visto um sorriso to doce. Ah! O amor... juventude, como
vos invejo! 
Sem deixar de sorrir, La encolheu os ombros e derramou o contedo
do moinho no filtro da cafeteria. 
- Ainda no  bastante, vou moer mais um pouco. Deixe-me faz-lo,
adoro isso. V ver Sarah, estou preocupado. 
No quarto, sentado na cama, Franois tinha entre suas mos as da
jovem. 
- Como est ela? - murmurou, aproximando-se. Ele sacudiu a cabea
sem responder. 
Ela ajoelhou-se ao lado dele e olhou para a amiga. Grandes gotas 
de suor brilhavam-lhe na testa, as feridas do rosto sobressaam na
pele escura. 
Franois! ... Sarah no vai morrer? 
Oh! As lgrimas tremiam nos olhos daquele homem! Por que ela estava
admirada? J tinha visto homens chorar: seu pai, 
Laurent, Mathias, isso a tinha comovido mas no espantado.
Levantou-se. 
- Vou chamar o doutor Dubois. 
- Quem  o doutor Dubois? Tem confiana nele? 
- Conhece-o. Foi o mdico que cuidou de Camille. Talvez ainda
esteja em Paris. 
Eu me lembro,  um excelente homem. Chame-o. La se ausentou por um
instante. 
Temos muita sorte. Ele acabou de chegar depois de uma noite no
hospital. Custou-me faz-lo compreender, sem falar 
demais, o que se passava. Vai chegar. Lembrava-se muito bem de
Camille e de mim. 
- Que horas so? 
- Seis e meia. 
- Meu Deus! Estelle deve estar levantando. Se encontrar Raphael na
cozinha, vai ser um drama. 
Tudo estava consumado! 
Esteile e Raphael, sentados defronte um do outro, com uma chvena
de caf na mo, discutiam como velhos conhecidos. 
- Ah! Aqui est a senhorita La. Julguei que ia morrer de medo ao
ver este senhor com o meu avental, preparando a bandeja 
do caf da manh. Felizmente ele me explicou do que se tratava. 
- J expliquei  senhorita Estelie que tinha perdido o ltimo metr
e que, por bondade, voc permitiu que eu dormisse na 
sala. 
- Sim, podia ter morrido de frio - resmungou a criada. 
Esteile - perguntou La, sorrindo -, sabe se Franoise volta hoje? 
- Com certeza, o noivo da senhorita Franoise deve vir cumprimentar
suas tias. 
La e Raphael olharam-se inquietos. 
- No sabe quando? 
- Julgo que dona Albertine disse que era  tarde. Senhorita La,
devia ter sido mais econmica com o caf e misturar-lhe 
chicria. Alm de ser menos indigesto... Embora menos bom - disse
ela, ao acabar de beber avidamente. 
Depois, com um sorriso feliz, levantou-se. 
Mas deixemos disto, estou aqui falando quando devia ir para fila de
carne da rua do Sena. Hoje o senhor Mulot recebe 
carneiro. 
Vou me vestir. As senhoras no gostam que eu passeie de roupo e
com bigudis. 
Quando por fim saiu, La preparou uma bandeja onde ps as xcaras e
a cafeteria. Bisbilhoteiro, Raphael tinha descoberto 
um embrulho de biscoito ainda por abrir, que mostrou triunfante. 
Sem barulho, entraram no quarto de Sarah. 
Beberam os trs, em silncio, o caf, sem deixar de fitar a infeliz
que, inconsciente, gemia. 
A campainha f-los estremecer. Um revlver surgiu na mo de
Tavernier. 
La, v abrir. Apresse-se. 
A jovem obedeceu. 
Quem ? perguntou ela atrs da porta. 
- O doutor Dubois. 
Como tinha mudado! Agora parecia um velho. 
- Bom-dia, senhorita Delmas. Quase no me reconheceu. Eu tambm.
Cada dia, diante do espelho, digo para mim: "Quem  
este velhote?". Tambm voc mudou muito. Est mais bonita ainda.
Ento, chega de conversas. Por que me chamou com 
tanto mistrio? Tem por aqui alguma quadrilha inglesa? 
Venha, doutor. Por favor, no fale muito alto, minhas tias ainda
dormem. 
Como esto elas? 
- Bem - disse La, abrindo a porta do quarto. 
- Meu Deus! - exclamou o mdico ao ver Sarah. - Quem fez isto? 
- Gente que nem o senhor nem eu apreciamos, doutor disse Franois
Tavernier, aproximando-se. 
- Senhor?... Ah! J sei, o senhor dos croissants! 
Enquanto falava examinava as queimaduras do rosto. 
- Com que eles fizeram isto? 
Com charutos disse Raphael. 
- Que malandros!... H muito tempo que ela est nas mos deles? H
uns dez dias. 
- Pobre senhora. Senhores, faam o favor de sair. 
- Ns preferamos ficar. As senhoras Montpleynet no sabem que
estamos aqui. Ignoram mesmo a presena de nossa 
amiga. 
- Muito bem. Ento voltem-se para l. Senhorita Delmas, ajudeme a
sent-la... Assim, est bem... Segure-a nesta posio... 
No perderam tempo! Senhorita, meu estojo est a a seu lado, d-me
a caixa grande metlica... Obrigado. 
Tirou um creme que aplicou nas costas de Sarah, cobrindo-a de
compressas.
 Depois procedeu a um exame mais ntimo. No interior das coxas, as
crostas de queimaduras de cigarros eram j 
mais antigas. 
- Ela pode falar? 
- No - respondeu La. - Reconheceu-me, mas s disse palavras sem
nexo. 
- Ela tem muita febre devido ao choque emocional da tortura. Vou
dar-lhe uma injeo agora e outra logo  noite. Dever 
melhorar  tarde. Quanto ao resto, s o tempo dir. 
- E levar muito tempo? - perguntou La. 
- Tudo depende de seu estado geral. Uma semana ou duas. 
- Uma semana ou duas!.. Mas isso  impossvel; nem minhas tias
sabem de nada, e a Gestapo logo desconfiar. 
- Minha filha, nada posso fazer. Ela no est em condies de ser
transportada, pelo menos nestes dois ou trs dias. Devia 
avisar suas tias. 
Aterrada, La deixou-se cair numa cadeira. 
- E daqui a trs dias? perguntou Tavernier. 
- Poderei escond-la no hospital, no meu servio, at que ela seja
capaz de andar... Eis aqui o remdio para lhe acalmar as 
dores. Dez gotas de trs em trs horas. Ao fim do dia passarei por
aqui. Coragem 
continuou ele, virando-se para La -, tudo vai sair bem. J est
habituada a ser enfermeira. Lembre-se da senhora d'Argilat. 
No  a mesma coisa. A Gestapo ainda no estava por aqui. 
-  verdade, mas, como hoje, arriscava sua vida para salvar
algum... At logo  noite. At mais ver, meus senhores. 
Devagar, La fechou a porta da entrada e apoiou-se a ela com ar de
desnimo. 
- Bom-dia, minha querida, julguei ouvir a porta fechar-se. Algum
esteve aqui a esta hora? 
Albertine de Montpleynet ali estava de roupo, coberta com um
grande xale de l dos Pirineus, de um azul plido. As 
mechas de cabelos grisalhos desapareciam por baixo de um leno de
seda branca. Com suas luvas e as meias grossas, era a 
imagem da Frana friorenta, tentando, pela fora da superposio de
roupas, suportar o frio que reinava nos apartamentos. 
Ao contrrio da irm Lisa, Albertine nunca se queixara das
mltiplas privaes que a ocupao lhes impunha. Dizia, s 
vezes, que elas eram umas privilegiadas em comparao com tanta
gente, e, que isso, nunca deviam esquecer. Lisa havia 
ralhado quando ela levara aos refugiados do ltimo andar uma parte
dos vveres oferecidos por ocasio do batizado do 
pequeno Charles. 
Sem que nunca tivesse dito nada, La adivinhava que a tia no
aceitava sem repugnncia os "presentes" que a situao de 
Franoise lhe 
trazia. Temia a visita de Otto Kramer para oficializar a ligao.
Pensou que iria morrer de humilhao quando, na farmcia 
da rua do Bac, duas clientes tinham falado em colaborao,
olhando-a com insistncia. Impressionada, sara sem comprar o 
que queria. Sabia o que se dizia dos colaboradores. Desde ento
repetia aquelas palavras em seu pensamento. Grande 
admiradora do marechal Ptain, como a maioria dos franceses no
incio da guerra, as medidas tomadas por Vichy contra os 
judeus, mas, sobretudo, a priso da sua velha amiga, a senhora
Lvy, que nascera naquela casa, afastaram-na 
definitivamente do Marechal. Se Lisa e Estelle continuavam a ter
confiana nele, era para serem como certas senhoras do 
clube de bridge que a irm e ela freqentavam duas vezes por
semana, na avenida Saint-Germain. H muito tempo que se 
sentia s. 
Vamos, La, responda-me, veio algum aqui? O que voc tem, minha
pequena? Est com jeito de um passarinho cado do 
ninho. 
- Minha tia, preciso lhe falar. Vamos para o meu quarto,  muito
longo o que tenho a lhe explicar. 
Vinte minutos depois, Albertine de Montpleynet abria a porta do
quarto e aproximou-se da cama onde Sarah estava. 
Um tanto inquietos, Franois Tavernier e Raphael Mahl a olhavam. 
- Tudo se acertou murmurou La. Minha tia aceita que Sarah fique
aqui at que o doutor Dubois possa transport-la. 
A velha senhora contemplava em silncio o que fora o rosto de uma
bela mulher. Com horror e espanto, ficou pregada no 
cho, tornando- se cada vez mais plida. Quando, por fim, tirou os
olhos da face da torturada, Albertine perguntou a 
Franois Tavernier com uma curiosa voz de menina: 
Senhor, como  possvel? 
Sem responder  pergunta, Franois avanou at ela e tomou-a pelos
ombros, levando-a at o fundo do quarto. 
Agradeo-lhe, senhorita, o que faz pela senhora Mulstein. Tenho, no
entanto, de lhe dizer que esta mulher  procurada pela 
Gestapo e que todos os habitantes desta casa se arriscam a ser
presos. 
- Eu sei, caro senhor, mas faltaria a todos os meus deveres de
crist e de francesa se lhe recusasse este asilo. Por agora, nada 
direi a minha irm nem a Franoise e a Estelle. Com La, velaremos
pela senhora Mulstem, cada uma por sua vez, quando 
tivermos a visita do Comandante Kramer. 
- Se me permite, estarei presente quando vier essa visita. Minhas
relaes com certos membros do alto comando desviaro 
a ateno de tudo o que puder parecer suspeito... 
- O senhor tem relaes com o alto comando alemo?
- Sim, mas nada mais posso lhe dizer a no ser que cumpro ordens
- disse ele, em voz baixa.
- Ordens? No compreendo.
-  melhor assim. No se esquea de uma coisa: para a senhora, sou
apenas um homem de negcios que faz a corte a La. 
isso que  preciso absolutamente fazer crer, esta tarde, ao
Comandante Kramer.
Albertine de Montpleynet olhou atentamente aquele homem com traos
enrgicos, com o rosto por barbear, de boca muito
grande, mas cujos olhos exprimiam coragem e sinceridade. Com um
gesto espontneo, estendeu-lhe a mo.
Farei o que me disser. Tenho confiana no senhor.
Com um suspiro cmplice, Franois inclinou-se e beijou-lhe
respeitosamente a mo.
- Vamos, senhor, beija-se a mo das senhoras casadas, mas no das
solteironas.
- Minha tiazinha, voc  maravilhosa! Voc, uma solteirona! Me faz
rir!  a mais jovem de todas ns! - exclamou La,
atirando-se ao pescoo da tia.
- Vai me derrubar, deixe-me, devo me vestir.
No momento em que ela saa do quarto, bateram  porta da entrada,
primeiro uma pancada, depois mais trs. Todos se
imobilizaram, com exceo de Raphael que, calmamente, anunciou:
-  o Violeta que me traz roupas. Tnhamos combinado este sinal.
Posso abrir, minha senhora?
- Faa como melhor lhe parecer, senhor, no compreendo nada do que
se passa. Prefiro deix-los.
Antes de abrir, Raphael perguntou a La:
- Posso ir para outro quarto mudar de roupa? No queria que ele
visse Sarah. -
V para o quarto de Franoise.  a terceira porta  direita...
Cuidado, a vem Estelie.
La precipitou-se para ela e puxou-a para a cozinha. apesar de seus
protestos.
Finalmente abriram a porta quele a quem Raphael chamava Violeta.
Entrou trazendo uma mala pesada.
- Bom-dia, senhores e senhoras, bom-dia, senhor Raphael. Trouxe
tudo o que pude. J era tempo, porque os patifes
chegaram, mal eu tinha virado a esquina.
- No se esqueceu do estojo de maquilagem?
- Nada receie, est tudo aqui.
Obrigado, meu querido. No foi seguido?
Est brincando! ... Ainda esto para nascer aqueles que Violeta no
sabe despistar.
- Encontrou o esconderijo?
Sim, na rua...
- Voc me dir mais tarde. Agora venha me ajudar a me vestir.
-  a primeira vez que o senhor Raphael quer que o vista - brincou
Violeta.
Mahl empurrou a porta do quarto de Franoise e ambos entraram,
fechando-a em seguida.
La e Franois ficaram a ss, com expresso vida nos rostos. Quero
voc.
- Eu tambm, mas.., como fazer?
- Vamos para a "casa fria".
- Mas l est muito frio!
- Eu te aquecerei.
- No podemos abandonar Sarah.
Ela est dormindo. Venha.
Abraados, entraram no aposento sombrio e gelado. As apalpadelas,
La acendeu uma pequena lmpada posta numa mesa
baixa perto de um dos canaps cobertos com uma capa branca como,
alis, todos os mveis daquele quarto, onde haviam
enrolado os tapetes. Assim, a sala tinha o ar de ser um lugar de
encontro de mveis fantasmas. O frio era total.
Os braos de Franois enlaaram La. Agarrados um ao outro,
oscilando em cima do sof, no qual caram, levantando um
pouco de poeira, misturando beijos e palavras.
Tive tanto medo quando Marthe disse que me procurava...
- Julguei que nunca mais voltaria...
Voc me fez falta, minha putinha... Estava sempre pensando em voc,
e no conseguia trabalhar...
- Fique quieto e abrae-me...
Os dedos de Franois no se cansavam de explorar o corpo de La, nu
sob a grossa e deselegante camisola, tremendo de frio
e de prazer. Seu ventre impaciente chegava-se ao do amante. O medo
da Gestapo, a tortura, a morte de Sarah, Camilie,
Laurent, nada mais existia, se no aquele desejo vital para ela de
ser possuda por aquele homem, do qual cada carcia era a
sua felicidade.
Quando ele deslizou sobre ela, suas pernas enlaaram-no em torno
dos rins como para melhor assegurar uma tomada que
mais parecia uma captura.
No fim daquele espasmo, sentiram-se prisioneiros um do outro. Mas
estavam cansados e felizes demais para se libertarem.
O frio venceu o seu bem-estar. Recompuseram-se e deixaram aquele
local onde, numa cobertura branca, ficara o sinal de
seus corpos.
Sem barulho, entraram no quarto de Sarah. A sua tez tinha perdido
um pouco aquela cor esverdeada e a respirao era
regular: ela dormia.
De mos dadas, os dois amantes olhavam-na com ternura.
- Ela foi sua amante? perguntou La, baixinho.
Isso no lhe interessa, meu anjo, e hoje no tem nenhuma
importncia. Considero-a como minha maior amiga, a pessoa no
mundo que mais estimo.
Ento, e eu?
- Voc? No  a mesma coisa, voc  uma criana. Mesmo a guerra e
isto - disse ele, mostrando o rosto destrudo de Sarah -
no conseguiro fazer com que se torne adulta.
- Julgo que se engana. E conveniente para voc s ver em mim uma
criana irresponsvel, um pequeno animalzinho de que
se serve o grande adulto, o grande homem que julga ser, quando tem
necessidade de um corpo fcil e amvel. Eu sou uma
mulher, tenho vinte anos e voc no  velho. Eu nem sequer sei a
sua idade. Que idade tem?
Ele olhou-a sorrindo.
- Decididamente, mesmo nessa figura pouco ertica, d vontade de
lhe saltar em cima.
Oh! Meu Deus! Esqueci-me deste horrvel roupo. Vou trocar- me e
no perder por esperar...
Quando La voltou vestida com um pulver e um casaco de l angor
vermelho escuro, tricotado por Lisa, e com uma saia
curta preta plissada, destacando as pernas caladas com suas
melhores meias de l preta, Franois, sentado na cama, falava
com Sarah. Temendo aborreclos, parou no meio do quarto.
- Avane, querida - disse Sarah, com uma voz que mal se ouvia.
La hesitou um instante.
- Venha, foi a primeira pessoa que ela chamou.
Sarah estendeu-lhe a mo.
- Venha para perto de mim.
La obedeceu e sentou-se por sua vez perto da doente.
- Estou to feliz por v-la melhor. Ainda sofre muito?
- Franois deu-me as gotas. Agradeo-lhe por tudo o que fez.
- No foi nada, no se canse em falar.
-  preciso. Franois vai fazer de um modo que a Gestapo no venha
aqui.
- Mas como?
- No importa. Faa tudo o que ele lhe disser.
-Mas...
- Prometa-me.
Malgrado seu, La conformou-se.
- Quando  que ter confiana em mim? - perguntou ele.
- Quando me tratar como adulta.
- No discutam. Aqui s h uma pessoa perigosa,  Raphael.
- Mas foi ele quem a salvou!
Sarah no respondeu, havia abusado demais de suas foras e acabava
de desmaiar.
Franois precipitou-se para o banheiro e voltou com uma toalha
mida que pousou na testa da doente. A frescura
reanimou-a. Com um sorriso cansado, agradeceu-lhe, murmurando:
- Calo-me para recuperar as foras.
E voltou a adormecer quase imediatamente.
- Precisamos impedir que Raphael nos prejudique - disse Franois.
- Quer dizer mat-lo? - perguntou La, abrindo muito os olhos.
- Sem ir to longe,  preciso neutraliz-lo durante alguns dias,
dando tempo a que Sarah e voc estejam em segurana.
- Que pensa fazer?
- Tenho uma idia. Vou propor-lhe uma estada de sibarita com
Violeta.
- O que isso quer dizer?
- Isso quer dizer, minha bela ignorante, que durante algum tempo
ele viver em indolncia e voluptuosidade com seu macho,
evitando- lhe assim de ser delator ou denunciante, se assim
prefere.
- E se ele no aceitar?
- No ter escolha. Meus homens o esperam l embaixo para os
conduzirem, a ele e ao amigo, para um lugar de sonho.
Bateram suavemente  porta do quarto.
Uma grande mulher, bastante forte, muito pintada, com um turbante
muito bem colocado, vestida com saia e casaco
cinzento e uma blusa cor-de-rosa, com uma bela raposa, entrou
vacilante nos seus saltos altos com solas duplas.
- Raphael!...
- No estou nada mal, no acham? Voc quase no me reconheceu.
Infelizmente, engordei um pouco desde a ltima vez em
que pus esta roupa. Preciso de uma cinta nova. O que acham?
La encolheu os ombros.
- Meu pobre Raphael, est ridculo, assim.
- Foi o nico meio que encontrei para escapar daqueles senhores.
Franois Tavernier dirigiu-se para a porta.
Desculpem-me um instante. Est muito bem no seu disfarce, meu caro,
muito bem.
- Onde ele vai? - perguntou Raphael, desconfiado.
- No sei. Ver tia Albertine, talvez. Onde est Violeta?
Est  minha espera no quarto de sua irm. Amanh mandarei saber
notcias de Sarah. Vou ver como farei para sair de Paris.
Eu os deixarei a par...
Franois Tavernier entrou.
At a vista, La. Deixo-a e a Sarah em boas mos disse ele,
designando Tavernier.
Logo que possa, d-nos notcias disse-lhe este.
Contem comigo. Cuidem bem de minha amiga. Quando acordar, dem-lhe
um beijo por mim...
La acompanhou-o at a porta, onde estava Violeta e uma grande
mala.
Pela ltima vez, Raphael abraou-a e disse:
- Tenha cuidado, seja prudente e no volte  avenida Henri-Martin.
No patamar da entrada estavam quatro homens  espera.
Quando viram surgir aquela dupla, agarraram-na, levaram-na para a
rua e enfiaram-na numa camioneta parada junto  porta.
Nem uma palavra foi trocada. Os dois amigos no ofereceram a menor
resistncia.
Por sua vez, Franois Tavernier deixou a rua da Universidade
prometendo voltar perto das trs horas para estar presente
quando da visita do tenente Kramer. Juntamente quando ia sair,
estendeu a La um envelope de papel escuro, com um
sorriso zombeteiro.
- Toma - disse ele. - Nesta confuso, esqueci-me de que tambm sou
correio.
Depois, tornando-se srio, acrescentou:
- Aconselho-a a ler e a queimar logo a carta. Ela chegou por
caminho seguro, mas, agora que est em suas mos, voc corre
perigo.
E desapareceu na escada sem mais comentrios.
"La,
Seja prudente. No quero que lhe acontea nenhum mal por minha
causa. Os sofrimentos de Camille me so dolorosos e
sab-la
em liberdade  meu nico consolo. Pese maduramente cada um de seus
gestos e no tome nenhuma deciso
sem falar com F.T.
Tenho medo. No temo pela minha vida, j renunciei a ela h muito
tempo, mas tenho medo das conseqncias
catastrficas que pode engendrar cada um dos meus atos. A idia de
que torturam Camille neste mesmo
momento, para lhe arrancar informaes que ela no tem, pe-me
doido. E preciso toda a fora de convico
dos meus companheiros para que no caia em alguma cilada que me
armaram. Nada posso fazer por ela. Seria
preciso atacar o forte de H!... Procuro a todo preo afogar-me na
ao. A priso de Camille mergulha-me numa
angstia que me torna um adversrio perigoso. Aprendi a matar. Sei
dar meus golpes onde  preciso. At aqui
matei porque era preciso faz-lo, mas hoje no estou convencido de
no o fazer por prazer.
Cada dia somos mais numerosos. Muitos daqueles que fogem do S.T.O.
vm nos encontrar e tornamo-nos
cada vez mais eficazes, cada vez mais mveis, mas cada novo recruta
aumenta o risco de infiltraes. Nossas
operaes multiplicam-se. Tudo isto  to duro e to intenso que
nos perguntamos todos como poderemos
retomar o curso da vida. E, no entanto, cada um de nossos gestos 
destinado a que a vida recomece, calma,
mais calma ainda do que antes, se isso for possvel...
Camille, prove-me a imensido de seu amor pelo seu silncio,
prove-me sua afeio com sua prudncia.
Laurent
P.S. Renunciei a acrescentar meu dirio a esta carta. Prefiro que
no seja queimado. Voc deve fazer
desaparecer TUDO o que tem de mim."
Ela amassou a carta como uma mecha e aproximou-a do fogo da
lareira. Olhou as chamas destrurem o papel e
no o largou seno quando sentiu o fogo perto dos dedos. Estava to
mergulhada na angstia que no podia
refletir ou mesmo perceber distintamente o que quer que fosse. A
nica coisa que teria podido, talvez, ajud-la
naquele momento era refugiar-se nos braos de Franois.

Captulo 11

Otto KRAMER no percebeu em nenhum momento que La e Albertine
nunca estiveram juntas no pequeno
salo onde as senhoras Montpleynet, com sua amabilidade habitual,
receberam o noivo da sua sobrinha.
Franoise, muito feliz por ter reencontrado seu amante, tambm nada
notou. Sem dvida isso se deveu em
parte  presena e  conversa ora divertida ora provocante de
Franois Tavernier, que havia retomado, para a
circunstncia, seu ar de cosmopolita mundano. Em alemo falou
naquela guerra que nunca mais acabava, das
restries, do mercado negro que lhes permitia sobreviver, dos
Voyageurs de Impenale, o ltimo romance
de Aragon, de La, por quem estava apaixonado (sem sucesso, a!), e
sobretudo do pequeno Pierre que dormia
nos braos da me, e que ele achava o beb mais bonito do mundo.
Concordo inteiramente - havia declarado o pai. Franoise falava com
entusiasmo do soberbo apartamento
mobiliado que haviam descoberto no Bois, da bab, da cozinheira e
do camareiro que haviam contratado.
Irritada com aquela conversa, La perguntara peffidamente num tom
inocente:
- Para quando  o casamento?
Interrompida na descrio de suas alegrias domsticas Franoise
corou e respondeu com aspereza:
Logo que Otto receba a autorizao do Fhrer, o que no deve
demorar, visto que seu pai j consentiu.
- Fico contente por voc, minha querida, e por voc tambm, Otto.
Mas pensava que o casamento entre
alemes e franceses estava proibido.
O ar constrangido do comandante Kramer no escapou a ningum.
- Nem sempre...
- Tanto melhor, nesse caso, teremos brevemente umas bodas.
La voltara-se para o oficial alemo.
- Espero que graas s suas relaes, os seus amigos de Bordus
soltem Camille d'Argilat.
Franoise j me falou nisso. Mandei telefonar ao chefe da Gestapo e
ele deve responder-me esta noite.
Como? A senhora d'Argilat foi presa e vocs ainda no me haviam
dito nada? - exclamou Franois Tavernier, fingindo-se
inocente.
- Caro amigo, eu o tenho visto to pouco nestes ltimos tempos. Foi
h muito tempo?
- Ns soubemos no dia dez de janeiro. De que a acusavam?
- Eles querem saber onde se encontra o seu marido.
Naquele momento, Albertine entrou trazendo um bule e disse, num tom
despreocupado:
- Trago ch quente, o outro j deve estar frio.
Era o sinal combinado. La, por sua vez, deveria substituir a tia
junto de Sarah.
Franois, quer vir comigo? Quero lhe mostrar uma coisa - disse
 ela a Tavernier, quando saiu.
Foi no quarto, junto de Sarah adormecida, que lhe contou o que
sabia da interveno de seu tio Luc em relao a Camille.
Diante do ar preocupado, La murmurara:
-  grave?
Muito. Na sua opinio, a senhora d'Argilat sabe onde est o
marido?
- Bem, evidentemente que no, se no teria me dito.
- Isso muito me espantaria.
La ficara sem respirao.
Como  que ousa? Julga-me capaz de denunciar Laurent?...
- Que impetuosidade! No, claro. Mas, sob tortura, nunca se sabe
como as pessoas se comportam.
Preferia morrer a dizer qualquer coisa que pudesse prejudicar
Laurent.
Com uma pontinha de ironia maldosa, ele continuou:
- Eu no duvido da sua coragem, mas conhece os mtodos desses
senhores. E mais fcil aceitar morrer do que suportar certas
torturas.
Todos temos em ns uma falha que nos pode fazer capazes de
denunciar os seres a quem mais queremos. Ao carrasco
compete descobrir.
Para alguns,  a violao, para outros a castrao, a enucleao, o
estri pamento a ausncia de sono, as serpentes, os
insetos, as ameaas sobre
um filho. Bem entendido, eu falo de autnticos heris capazes de
suportar as mais severas sevcias...
- No acredito. Tenho certeza de que h gente que nunca fala.
- Isso acontece, mas  muito raro. Os mais corajosos preferem
matar- se, como o seu compatriota de Bordus, o professor
Auriac, depois do primeiro interrogatrio, dirigido pelo famoso
comissrio Poinsot, com quem j travou conhecimento.
Sarah no falou?
- O que sabe disso?
De novo La ficara de boca aberta.
Seu olhar fixava ora Sarah ora Franois. De olhos midos cuspiu-lhe
no rosto:
- Como ousa dizer isso daquela, cuja opinio, segundo diz, est
acima de tudo?  imundo!
- No, realista.
- Ele tem razo - disse uma vozinha vinda da cama.
Num mesmo mpeto, La e Franois encontraram-se junto da amiga.
- Ele tem razo - continuou Sarah. - Mais um dia sofrendo as
ignbeis carcias daqueles sujos e eu teria falado. Sabe, La, ao
sofrimento podemos nos habituar, mas  humilhao de estar
amarrada, presa pelas mos e sexos cobertos do sangue de
outras vtimas, a boca forada por um membro sujo dos seus prprios
excrementos... A promessa de ser lanada a um co
de guarda se nos obstinarmos em calar..,  horrvel. Se Raphael no
tivesse conseguido tirar-me das patas de Masuy e de
seus cmplices, eu teria contado tudo o que eles quisessem...
- No fale mais nisso, Sarah. Eu nunca duvidei um s instante da
sua coragem. Sou um imbecil por ter pretendido duvidar
para dar uma lio a La... Tenho que ir. Voltarei para a visita do
doutor Dubois, Sarah... Peo-lhe, no chore. Eu no queria
mago-la.
- No me magoou...  a recordao de tudo aquilo. V agora e volte
logo. Quando voltar, dar notcias de Raphael.
- No se preocupe, est num lugar seguro e bem tratado... At logo.
Depois da partida de Franois, Sarah quis ir ao banheiro amparada
por La. Dera um grande grito ao ver-se no espelho, por
cima do lavatrio.
- Fizeram de mim um monstro!
La tentara dizer qualquer coisa. Sentira, retrospectivamente, de
ter por momentos tido inveja da beleza de Sarah. Era
horrvel ver aquelas lgrimas contornarem as crateras
sanguinolentas.
- Deixe-me s, um instante - ela pedira.
La obedeceu. Nesse exato momento, bateram  porta. No era o sinal
de Albertine.
- Quem ?
- Vamos embora - gritou Franoise, atravs da porta. - Queramos
lhe dizer adeus...
Rapidamente La comps a desordem da cama e correu a dar a volta 
chave.
- Agora voc se fecha a chave no quarto?
- Devo ter feito isso sem perceber, estava com muita dor de cabea.
- Agora est melhor? - perguntou delicadamente o noivo de
Franoise.
- Sim, estou, obrigada. Deitei-me por um momento - disse ela,
fechando a porta com o ar natural.
Graas a Deus as despedidas no se eternizaram, mas La teve de
prometer que iria qualquer dia almoar l.
Quando voltou para o quarto, Sarah voltara a deitar-se e parecia
dormir. Numa das cadeiras, La adormeceu tambm.
Foi despertada pela voz do doutor Dubois, de Albertine e de
Tavernier. Envergonhada, levantou-se, esfregando os olhos.
- Desculpem-me, deixei-me adormecer. -
- J vimos isso - disse, em tom divertido, o mdico. -  muito feio
para uma enfermeira.
- Estou desolada. Como est agora a senhora Mulstein?
- O melhor possvel. Felizmente  de forte constituio. Daqui a
dois dias estar em p. Previ uma ambulncia para depois
de amanh. Oficialmente, vir para a sua tia, que se sentiu mal,
necessitando hospitalizao. Tudo correr bem. Um dos
meus amigos, resistente e especialista de grandes queimaduras,
tomar conta dela.
- Obrigada, doutor. Depois trataremos de fazer passar a senhora
Mulstein para a Sua ou para Espanha. Quanto tempo
pensa que ela deva ficar no hospital? - perguntou Franois
Tavernier.
- O mximo cinco dias para sua segurana e a de meus colegas.
- Ser em 18 de janeiro?
- Sim, uma ambulncia a transportar no dia 18 pela manh,  o mais
normal para as sadas, e ir conduzi-la onde quiserem.
Depois, a senhorita Delmas poder ir buscar a tia.
- Eu terei de ficar todo esse tempo no hospital? - perguntou
Albertine.
-  condio para o xito do nosso plano.
Nesse momento, Sarah ergueu-se e murmurou:
- Sinto-me envergonhada por lhes causar tantos contratempos.
No pareceu compreender as razes porque todos se puseram a rir.
No se inquiete com nada, minha filha disse a velha senhora -,
pense s em ficar curada, O mais difcil ser mentir a Lisa e
inquiet-la...
-  muito importante que sua irm seja a primeira a acreditar na
sua doena disse o mdico.
Eu sei, doutor, mas desde a nossa mais tenra infncia, ns nunca
tivemos nenhum segredo uma para com a outra...
Agarrada ao brao de Franois, La tremia no frio desagradvel e
mido que cobria Paris. Em frente das lojas, as donas-de-
casa faziam interminveis filas, batendo com os ps para tentarem
em vo se aquecer.
Tudo se passara como o previsto. Sarah havia recobrado as foras e
partido para um destino ignorado, e La teve de cuidar
de Lisa, que cara realmente doente com a idia de que a irm
estava no hospital... Mathias escrevera para dizer que estava
em Bordus, e Franoise havia telefonado. As notcias eram boas:
Camille seria solta e La podia livremente voltar para
Montillac. O comandante Kramer dava sua garantia. La voltara a
encontrar parte de sua alegria de viver e sua boa
disposio e, para festejar isso, Franois decidiu lev-la ao
Chataignier para almoar, na rua Cherche-Midi. Ao passarem
pela livraria Gallimard, no bairro Raspail, maquinalmente, tinham
atrasado o passo e deitado um olhar para a vitrine onde
Les Dcombres, de Rebatet, pareciam esmagar todos os outros livros.
- Aqui est a obra mais imunda publicada este ano - disse Franois
Tavernier. - Embora cheia de talento, no meio de um
dio incontido e de porcarias sobre os judeus e outros
estrangeiros...
Saindo da livraria, como um diabo de uma caixa, Raphael Mahl
acercou-se deles:
- La, Franois!
Que faz em Paris? disse secamente Franois. - Eu julgava que
tnhamos combinado que partiria para o Midi imediatamente
depois do nosso ltimo encontro.
- No me leve a mal, caro amigo, essa viagem ficou adiada por uns
dias.
- Mas eu julgava que Masuy o procurava.., disse La.
Agora no mais. Graas a mim, consegui um fornecimento de ouro
muito importante. Estamos novamente fazendo
negcios.
Depois do que ele fez a Sarah?...
- Minha querida La, ele teve a bondade de esquecer a minha
participao no desaparecimento da sua amiga e a maneira
como o enganei. Em troca, eu esqueo as sevcias sofridas pela
nossa pobre Sarah.
- Pode esquecer?!...
Raphael pegou a mo da moa, que se levantava contra ele.
No tenho escolha. E assim ou uma boa bala na barriga - disse ele,
energicamente. Isso di, bela criana, uma bala na barriga
- continuou ele, retomando um tom prazenteiro... - Esteja
descansada, no tem nada a temer. Ele j sabe das relaes alems
da sua famlia e  prudente demais para atacar uma amiga do senhor
Franois Tavernier, familiar do hotel Lutcia e da
Embaixada da Alemanha.
Plida e glida, La percebera as ameaas escondidas na evocao
daqueles lugares. E no se enganava.
- Caro Franois, se no nos tivesse tratado to bem, Violeta e eu,
nunca lhe perdoaramos o nosso seqestro e no duvido
que seus amigos da Abwehr ou seu amvel embaixador, sua excelncia
Otto Abetz, no se tivessem interessado por suas
atividades, um tanto contraditrias. Mas voc agiu como um homem
civilizado e prudente, cumulando-nos, ao meu amigo e
a mim, com uma mesa bem servida, com vinhos excelentes num local de
sonho, onde nem faltava msica nem literatura.
Mostrei-me, portanto, reconhecido, esquecendo-me de falar em
voc...
Julgo que devo agradecer-lhe - respondeu secamente Franois. No
peo tanto.
Sabe, no entanto que, mais cedo ou mais tarde, ser preso e talvez
assassinado.
Talvez... Sabe,  preciso pensar; a morte nunca  acidental. 
completamente louco, d vontade de rir.
Raphael Mahl abandonou os gracejos e em seu olhar passou uma sbita
expresso de sofrimento.
Se pensa que  divertido ser quem sou! Vocs ainda podem rir das
minhas loucuras, mas eu,  bem preciso que sofra!
Atravs da vidraa, Mahl fez um sinal amigo ao jovem vendedor que
arrumava os livros. La reconheceu-o e lhe fez
tambm um aceno com a mo.
- Que rapaz encantador! Conhece a ltima palavra de Cocteau? Foi
ele quem me repetiu. O poeta estava jantando no caf
da senhorita Valentin com Auric. Este lhe contava que um judeu se
queixava por ter de usar a estrela amarela. ''Console-se
respondeu o amigo -, depois da guerra iro fazer-nos usar um nariz
postio." Sempre engraada, aquela querida, no est de
acordo?
Franois Tavernier absteve-se de responder, mas custou-lhe a
reprimir um sorriso. Quanto a La, deu uma gargalhada,
depois quase logo
arrependeu-se de ter rido. -
- Ria, minha jovem, ria, o riso fica-lhe bem...  preciso rir em
vez de chorar. At logo, linda menina. Deus a guarde. Adeus,
meu caro
senhor, espero no ter de voltar a encontr-lo disse ele, fechando
a porta da livraria.
Antes de entrar, voltou-se e disse, olhando-os:
- Obrigado por tudo o que fizeram por Sarah.
At a rua Cherche-Midi, La e Franois no trocaram nenhuma
palavra. Ao chegarem ao Chataignier a sala estava cheia. O
garom conduziu-os ao seu lugar perto de uma longa mesa de doze
lugares.
- Espero que os nossos vizinhos no sejam muito barulhentos - disse
Tavernier.
- Embora seja gulosa, no gosto destes lugares disse La, olhando
em volta.
- Eu tambm no, mas que isso no lhe tire o apetite. Hoje, quero
fazla esquecer tudo o que no seja ns. Quero-a
egoisticamente s para mim.
- Bebemos uma garrafa de Bordus. Estou com vontade de sentir o
perfume do meu pas.
Momentos mais tarde, o encarregado dos vinhos trazia, com todas as
precaues costumeiras, uma garrafa sublime.
A cozinha estava  altura do vinho.
Cumpriam fielmente seu programa, no falando seno de coisas ternas
e simples: das saias que se usavam mais curtas, dos
penteados que haviam mudado, das botes clandestinas, dos
excntricos que impunham a moda a toda a juventude, das
viagens que fariam juntos quando acabasse a guerra... Por baixo da
mesa tinham entrelaado as pernas.
Vrias pessoas passaram por eles: homens com uma expresso
satisfeita, falando alto, lindas mulheres com trajes vistosos
e rindo alegremente. Instalavam-se na mesa grande, onde chegou um
homem de aspecto pesado, com olhar vivo e inteligente
por entre os culos grossos, com um corpo de atleta.
- Quem ? - perguntou La.
- Um homem notvel que se perde: Jacques Doriot, o fundador do
P.P.F., Partido Popular Francs. Estamos j longe das
campanhas do "Grito do Povo" contra o mercado negro e os
restaurantes a quinhentos francos por pessoa!
- Mas nesses restaurantes voc se sente bem.
 verdade.
A harmonia do incio se rompera. A refeio terminou em silncio.
Na rua, apesar de sua reticncia, ele deu-lhe o brao.
- No fique agastada, meu amor, resta-nos to pouco tempo para
estarmos juntos!
- Que quer dizer com isso?
Parto amanh, logo cedo.
- Para onde?
No posso lhe dizer.
- Por muito tempo?
- No sei.
- No pode deixar-me sozinha!
-  preciso, j tem tamanho para se defender.
- Sarah tambm tinha tamanho para se defender. E veja o que lhe
fizeram.
Uma leve crispao passou pelo rosto de Tavernier. Ele no podia,
mesmo assim, dizer-lhe que o desesperava ter de deix-la a merc de
Masuy e companhia! Maldizia a hora em que se deixara apaixonar por
aquela garota. No que devia fazer, todo o sentimento tinha de ser
ba nido Era correr riscos inteis e sobretudo faz-los
correr. Desde seus
breves encontros em Montillac, consciente do perigo, tinha evitado
pensar nela. Sem muita dificuldade, tinha de reconhec-lo.
 Desde o princpio da guerra, as moas, mesmo as mais ajuizadas,
eram menos esquivas A urgncia de viver era tal
que elas esqueciam as convenincias e entregavam-se com tanta
simplicidade como La. Mas por t-la
reencontrado s vezes mais forte, s vezes mais frgil, reavivara
esse sentimento pelo qual no sentia gosto e que s servia,
segundo o que julgava para lhe complicar a vida.
Por que no diz nada?
- Que quer que eu diga? Mahl tem razo: as relaes de sua irm
iro proteg-la, pelo menos enquanto o comandante Kramer estiver em
Paris. Se fosse voc, iria para Montillac, pelo menos por trs
razes.
A primeira  que o seu tio dominicano e o seu querido d ' Argilat
no
esto longe...
- Como sabe disso?
- Sei... A segunda  que a senhora d'Argilat precisa de voc, e a
terceira  que no pode deixar a propriedade nas mos de seu
vinhateiro.
- Se Laurent e tio Adrien esto perto como diz, por que no fizera
nada por Camille?
- Fazer qualquer coisa por ela seria arriscar, agravar o seu caso e
no se foge do forte de H. Ao contrrio,  mais fcil sair do
campo
de Mrignac.
- Mas eu pensei que ela seria solta!
- Isso foi adiado.
- Por qu?
- No sei... Talvez para levar Laurent a cometer alguma
imprudncia.
 Eles manobram muitas vezes assim, na esperana de fazer rebentar o
adversrio. Est bem claro que no tiraram
nada de Camilie. Ou porque ela nada sabe, ou por ter dado prova de
verdadeira coragem.
Ela  bem capaz disso. Por baixo daquele ar doce e tmido,  a
pessoa mais teimosa que conheo.
Felizmente para o marido.
Aborrecida, La encolheu os ombros.
Tenho certeza de que ela nada sabe. Acho que vou seguir seu
conselho. Vou voltar para Montillac.
Enquanto falavam, chegaram  casa de La.
- Quer subir? perguntou ela.
No posso, tenho um encontro. Vou tentar passar por aqui antes do
toque de recolher. Se no me vir, no me queira mal...
- Esteja descansado, no lhe quero mal.
Ficou com impresso de que o ferira, e sentiu uma alegria maldosa,
seguida da sensao de um grande vazio. Puxou-o para o
saguo do prdio e ali, ao abrigo dos olhares dos que passavam,
atirou-se em seus braos.
- Franois...
Com a mo ele fechou-lhe os lbios.
- No diga nada. Fique aqui colada a mim sem se mexer. Beije-me.
Naquela noite, La o esperou em vo.

Captulo 12

"QUERIDA LA,
Saio do inferno. Depois de meu ltimo interrogatrio com Dohse na
casa da Gestapo, nmero 197, da estrada
Medoc, jogaram-me num dos calabouos do poro. Era to baixo que
no podia ficar em p. No cho, terra
mida e palha, e por toda a parte, excrementos e vmitos: um
horror. Das outras celas vinham os gritos dos
outros. Um homem, a quem tinham arrancado os testculos, e que
berrava. Uma mulher que no cessava de
gemer. Eu deixei-me cair de cansao e de terror. No sei mesmo
quantos dias ali passei, meio sonolenta,
tremendo de febre, sem comer, fazendo as minhas necessidades no
cho, como um animal.
Quando compreendeu que, mesmo que eu quisesse no podia falar,
Dohse mandou-me levar para o forte de
H. Passei trs dias com quarenta de febre na enfermaria e agora
estou numa cela com trs outras mulheres.
Quase um luxo. Podemos ficar em p, podemos lavar-nos, podemos
mesmo usar p contra os piolhos. Ao subir
para uma das camas, podemos ver atravs das grades, tetos da
cidade. Um "caf" da manh, duzentos gramas
de po, uma sopa s dez horas, outra s quatro e, de tempos em
tempos, uma boquinha da Cruz Vermelha com
biscoitos que cheiram a azeite ranoso. E, depois, a vida da
priso: as mensagens entre muros, as novidades
que se ouvem na missa do domingo, a alegria de conseguir um
bocadinho de papel, a felicidade de arranjar uma
mensageira para enviar uma carta... Tive a visita de Amlia
Lefrvre, a me de Raul, deJean e de Ruth, que veio
me trazer notcias de meu filhinho Charles. Penso nele a cada
instante e  ele quem me d foras para me
manter. Estou sem notcias de L. No tenho a menor idia do que vai
ser de mim, nenhuma idia do tempo que irei passar aqui. Minha nica
certeza  que em um  dia 
prximo eles viro me buscar para um
novo interrogatrio e que no sei como irei suportar as bofetadas,
os maus-tratos e a priso. Minhas companheiras so
admirveis: Odile, uma ativista de dezenove anos, que foi presa
porque distribua panfletos; Isabel, comunista, cujo marido
foi fuzilado em 21 de setembro de 42; Helena, cujo esposo foi
juntar-se  resistncia e que foi denunciada porque albergava
aviadores ingleses. Juntas, vamo-nos animando nos momentos de
depresso.
Se me acontecer alguma desgraa, cuide de Charles, que  o que
tenho no mundo de mais precioso. Perdoe-me por escrever
to pouco, mas o papel vale ouro. Tenha cuidado. Amo-a com ternura.
Que Deus a proteja.
Camille"
La, enrolada num cobertor, levantou-se lentamente e pousou o papel
sobre a cama. Seu rosto jovem exprimia ao mesmo
tempo incredulidade e horror.
- Como podemos chegar a isso? - disse em voz alta.
Parecia-lhe que as paredes do quarto se fechavam e que se tornavam
as de uma priso.
Com as costas da mo, esfregou os olhos, e acabou por tomar uma
deciso: voltar a Montillac. L, no prprio local, veria
com Mathias, com o casal Debray e a senhora Lefvre, o que poderiam
tentar para obter a libertao de Camille. Esta
deciso trouxe calma a seu esprito, mas, antes de partir, era
preciso ter uma conversa com Otto Kramer.
O toque longnquo do telefone soou. Algum respondeu. Pouco depois
batiam-lhe  porta: era Estelie que vinha dizer-lhe
que Franoise a chamava. Mais uma vez isso caiu bem.
La aceitou o convite para jantar no dia seguinte.
Depois da refeio da noite, feita na salinha, La sentada no cho
diante da lareira leu para as tias e Estelie a carta de
Camille. Nenhuma das trs velhas a interrompeu. Por fim, Lisa
enxugou com grandes gestos os olhos lacrimejantes,
Albertine bateu no peito com uma mo trmula, Estelle assoou-se
ruidosamente. Os trabalhos de tric, de tapearia ou de
remendos ficaram abandonados em seus joelhos.
La levantou-se e foi ligar o rdio.
Depois de algumas tentativas, encontrou a rdio de Londres. O
nevoeiro daquela noite no encobria as vozes. Eram vinte e
uma horas e vinte e cinco minutos, do dia 15 de janeiro de 1943.
Filho de um operrio do norte, assassinado pelos alemes em 1917,
antigo combatente da guerra em Frana, companheiro
de cativeiro de vinte e sete mrtires de Chateaubriand, fugido em
julho de 1941, depois nove meses de tortura nas prises
alems, Fernand Grenier, deputado de Saint-Denes, fala-vos...
''Franceses e francesas,
Depois de ter conhecido s prises de Fontevrault e de Clairvaux,
depois de ter vivido nove meses com Charles Michel,
Guy Mquet e os mrtires de Chateaubriand, depois de partilhar, em
Paris mesmo, o perigo dirio dos combatentes da
Resistncia, depois de ter conhecido as mesmas privaes, os mesmos
sofrimentos morais, as mesmas esperanas que o
nosso povo vencido, mas indomvel, recm-chegado em Londres,
delegado pelo comit central do Partido Comunista
Francs para levar ao general De Gaulie e ao Comit Nacional
Francs a adeso de dezenas de milhares dos nossos que,
apesar do terror, nas fbricas assim como entre os
franco-atiradores e partidrios, nas universidades e tambm nos oflags
do Reich, de Nantes a Strasbourg, de Lilie a Marselha, travam a
cada dia, com o risco de suas vidas, uma luta implacvel
contra o invasor hitieriano detestado.
Vim aqui afirmar que, no esprito do campons como do operrio, do
industrial patriota como do funcionrio, do professor
laico como do padre, no existe nenhum equvoco: est-se ou com
Vichy ou com a Frana que resiste e que combate...''
O barulho que aumentara desde h alguns instantes, tornou as
propostas do orador inaudveis.
Lisa rolava os olhos assustados.
- Ouviram!... O general De Gaulle aceita os comunistas!... Esse
homem est completamente louco. Os comunistas...
Cale-se - disse secamente Albertine. - Voc no sabe o que diz. A
Frana tem necessidade de todos os que querem
combater. Por enquanto, no so muito numerosos...
- No h razo para rejeitar seja quem for!
Calem-se, ouve-se um pouco melhor.
a imensa massa de franceses, todos aquele que lutam todos os que
resistem, todos os que esperam -  esses so a Frana
inumervel, Frana simplesmente -, esto com o general De Gaulie,
que teve o mrito, doravante histrico, de no
desesperar quando tudo parecia ruir e, com os homens da Resistncia
que pouco e pouco se vo juntando
e que continuam a se unir no seio de Frana combatente, em vista do
combate sagrado, para libertao da Ptria..."
De novo os rudos cobriam a voz de Fernand Grenier. La continuava
a procurar. Estelle aproveitou para ir buscar a
infuso da noite; Albertine ps carvo no fogo.
- Vai ser preciso economizar lenha, quase no temos mais.
Amigos da Frana, os vossos sofrimentos so terrveis, a vossa
coragem  magnfica, e grandes as vossas esperanas. Saudai
cada vitria do exrcito vermelho, cada raio destruidor da RAF,
cada tanque ou canho que sai do arsenal americano.
Continuai a resistir... Sede solidrios uns com os outros e
ajudai-vos mutuamente. Acentuai sempre a vossa ao tenaz e
herica contra o invasor! Que um imenso sopro de fraternidade, que
uma permanente coragem vos anime1
O rudo voltou, desta vez definitivamente.
As quatro mulheres beberam em silncio a bebida quente, depois
separaram-se.
No dia seguinte, La vestiu-se com o maior cuidado para o jantar da
irm. Ps um vestido de l fina, preto, drapeado nos
quadris e com um grande decote, presente de Franois Tavernier. Era
um vestido de Jacques Fath, que lhe devia ter custado
muito caro. Era a primeira vez que La o usava. Fixou nos cabelos,
puxados para cima, um minsculo adorno com um
pequeno vu, atrs do qual brilhavam seus olhos cuidadosamente
pintados. Colocou no pescoo o colar de prolas dado
por Camille e usou a inevitvel capa de raposa de Albertine. Por
sorte, meias de costura impecavelmente reta, outro
presente de Franois, moldavam- lhe as pernas que ela sabia bonitas
e que realadas por sapatos de salto alto lhe davam um
ar que ela julgou "louco". Foi exatamente a opinio de Lisa, que
lhe emprestou seu ltimo par de luvas em bom estado.
Tomou o metr at a Etoile.
Desde a chegada detestou o apartamento da avenida Wagram. Otto
Kramer e a irm tinham-no alugado mobiliado de um
clebre mdico que preferia o ar da Cot d'Azur ao de Paris.
Um judeu, sem dvida - disse Franoise, falando de seu
proprietrio.
Esta reflexo irritou La.
Evidentemente, isso no se parece nada com os apartamentos de
alta burguesia de Bordus, que gosta de esconder as suas riquezas.
Aqui, pelo contrrio, gosta-se de mostrar, at um pouco
demais.
-  tambm a minha opinio disse Otto Kramer, rindo -, mas tnhamos
pressa. Como est bela e elegante! Venha ver o
quarto do beb e ver como seu sobrinho est bem-tratado.
O quarto era uma grande pea, muito clara, onde encontraram
Frederic Hanke, que tentava calar, embalando talvez com
fora demais, os gritos do afilhado.
- Mas vocs no vem que esta criana est com fome? - exclamou
ele, quando entraram. - La, estou contente por tornar a
v-la. No quer tentar usar de sua autoridade de madrinha?
La pegou o beb e disse-lhe, deitando-o de novo no bero:
Agora, tenha juzo e durma.
Para espanto de todos, a criana calou-se e fechou os olhos.
- Bravo! Que autoridade!  preciso que venha mais vezes, pois nem a
me nem eu conseguimos evitar que chore.
- Falaremos disso mais tarde... Quando ele tiver recomeado! Por
enquanto, tenho um servio para lhes pedir, quero voltar
rapidamente para Montillac e meu visto para ir a Bordus j est
vencido.
La estendeu-lhe o mapa marcado com o guia hitleriano que cobria
uma grande parte de sua foto.
- Amanh lhe mandarei nova autorizao. Daqui a pouco deixar de
ser preciso, pois a linha de demarcao vai ser
suprimida em virtude da ocupao da zona sul.
- Eu sei - disse La, mais tristemente do que queria.
- Oh! Desculpe-me, no queria aborrec-la. Um dia seu pas ser de
novo livre e nossas duas naes unidas e reconciliadas.
Ela no respondeu, mas os dois oficiais alemes leram claramente em
seus olhos: Nunca.
Passaram  sala de jantar com a mesa luxuosamente posta.
- Somos s os quatro?
- Isso a aborrece? Pensamos que no teria vontade de se encontrar
na companhia de meus compatriotas.
- Agradeo-lhes, est muito bem assim.
La havia receado tanto encontrar-se no meio de oficiais alemes de
uniforme, que sentiu um real alvio a ponto de lhe
devolver seu bom humor. Tanto mais que Otto e Frederic estavam a
paisana.
- Mandei preparar tudo o que voc gosta - disse Franoise, com um
grande sorriso.
- O qu? Diga depressa.
- Ver, minha gulosa.
A refeio decorreu o melhor possvel e La a cada prato
manifestava sua gratido  irm, por todos os cuidados que teve
para lhe dar prazer: ovos recheados, guisados de carneiro com nabos
e batatas...
- Fiz isso apenas com 15 gramas de manteiga, pela receita de Eduard
Pomiane. Sabe, aquele que fez um livro indispensvel
neste momento ''Cozinha e Restries'' - disse Franoise com
orgulho.
Quanto aos clafoutis aux abricots, estavam deliciosos. La
serviu-se duas vezes.
Em nenhum momento durante o jantar falaram de guerra. S se falou
de msica, de literatura, de teatro e de cinema. Ao
caf, passaram para a sala onde ardiam as brasas da lareira.
Franoise disse  criada que ela mesma serviria o caf.
Beberam lentamente e, em silncio, olharam as chamas. Otto
levantou-se e foi para o piano que ocupava grande parte da
sala.
- Foi sobretudo por causa do piano que ns o alugamos - cochichou
Franoise, ao ouvido da irm.
Durante uma hora o tempo foi abolido. No havia mais nem franceses
nem alemes, nem vencedores e nem vencidos, apenas
a msica que os unia numa fraternidade sem fronteiras.
Longamente depois da ltima nota se extinguir, ficaram silenciosos,
temendo ter de voltar  realidade. Foi La quem rompeu
o precrio silncio, dizendo com a voz emocionada:
Obrigada, Otto, por nos ter proporcionado instantes de verdadeira
paz.
Comovido, o comandante Otto levantou-se e veio beijar-lhe a mo.
Obrigado, por ter vindo.
Agora, La podia lhe falar do que sabia sobre o assunto "Camille".
Otto Kramer no respondeu logo em seguida  questo
da jovem, absorto em sombrias reflexes. Quando, enfim, decidiu-se
falar, foi ao amigo que se dirigiu:
- Devo lhe dizer tudo?
-Ya.
- No vamos esconder que eu e Frederic estamos muito inquietos por
causa da senhora d'Argilat. Ela foi, como sabe, presa
por denncia, acusada de servir de agente de ligao entre o marido
e seu tio, padre Delmas, ambos na Resistncia,
procurados pela polcia francesa e pela Gestapo. A senhora
d'Argilat foi encontrada de posse de panfletos chamando os
jovens para se juntarem aos "maquis". Isso era suficiente para a
prenderem. Alm disso, Dohse suspeita que ela pertena
ao mesmo grupo de Laurent d'Argilat...
-  completamente absurdo Camille s se interessa pelo filho e no
compreende nada disso. Alm do mais sua sade no 
boa e est sem notcias de Laurent h meses.
- La, no nos tome por imbecis. Quando eu estava em Langon, foi s
dezenas que recebemos denncias a respeito da
senhora d'Argilar e de voc. Frederic e eu destrumos muitas,
embora algumas fossem muito exatas. Quando se tratava de
passar o correio de uma zona para outra, ns fechamos os olhos. Mas
agora as coisas so mais graves, fatos atribudos 
senhora d'Argilat so passveis, se forem provados, de pena de
morte. Sua amiga  um peo entre as mos de Dohse, do
qual ele quer se servir, na esperaa de que Laurent d'Argilat e os
do seu grupo cometam uma imprudncia para salv-la. Por
sorte ele no parece crer que ela conhea realmente a atividade do
marido, nem que saiba onde ele se encontra... Nessas
condies, ele se mostra prudente durante os interrogatrios. Mais
ainda desde que sabe dos laos familiares que unem seu
tio Luc Delmas ao nosso pas.
O rosto torturado de Sarah Mulstein perpassou-lhe os olhos.
- Eu sei o que seus amigos da Gestapo fazem sofrer queles que
interrogam e de que maneira tratam seus prisioneiros.
- Sou o primeiro a deplor-lo. Mas voc devia ignor-lo. Para sua
tranqilidade futura, eu lhe suplico que se esquea.
La levantou-se, furiosa.
- Esquecer!... Tem a coragem de me dizer que esquea o que os seus
fazem sofrer diariamente homens, mulheres e crianas.
Sabia que Guy Mquet tinha dezessete anos quando o fuzilaram e os
de Souges, em setembro ltimo, assassinados porque
fora cometido um atentado em Paris, sabe que ao todo eram setenta?
E aquela velha judia amiga das minhas tias que
embarcaram para um de seus campos e que dizia chorando: "Senhores
dever haver um engano, eu sou francesa, o meu
marido foi morto na guerra de 14 e meu filho est prisioneiro
porque lutou pela Frana".
Franoise, com os olhos cheios de lgrimas, agarrou-lhe o brao.
- Cale-se, peo-lhe.
- No me toque! Deixe-me!
- La, eu a compreendo, mas  a guerra, nem voc nem eu podemos
fazer nada. Tudo o que puder fazer que no seja contra
a minha honra de soldado, prometo faz-lo pela senhora d'Argilat.
Mas, para sua segurana e dos seus, suplico-lhe para
no repetir em pblico o que disse aqui.
- Pode me jurar que o que vou lhe confiar a respeito da deteno de
Camille no forte de H, no ser utilizado contra ela?
Otto Kramer pensou uns instantes antes de responder.
- Tem minha palavra.
- Poderei falar-lhe a ss?
Franoise levantou-se.
Venha, Frederic, veja bem que incomodamos.
Como ela podia ser irritante com sua falsa arrogncia. J em
pequena era de uma susceptibilidade que sempre horrorizara
La e da qual o prprio pai zombava.
- O que tenho para dizer no me diz respeito,  por isso que
penso...
- Voc no precisa se justificar - interrompeu a irm, ixando a
sala, seguida por Frederic.
- Meu pobre amigo, no sei como pode suport-la.
- Parem de brigar como duas garotas ele respondeu. - Sente- se
diante de mim.
- Pois bem disse ela-, recebi uma carta de Camille. Deixaram- na
vrios dias trancada num poro, onde ela nem mesmo
podia ficar em p. Foi por trs vezes interrogada por Dohse. No
obtendo nada dela, mandou que a jogassem numa cela
infectada, de onde saiu doente. O que far ele na prxima vez? Os
guardas de Bouscat no tm boa reputao. Diz-se em
Bordus que, certos dias, os gritos atravessam as paredes dos
pores. Peo-lhe para agir de maneira a que Camille escape
das mos dessa gente.
- Desprezo tanto como voc "essa gente". No Exrcito no gostamos
dos da Gestapo. Infelizmente ela est cada vez mais
poderosa e o seu poder judicial estende-se igualmente sobre ns.
Acredite-me, a Frana  um dos pases ocupados que
menos sofre. Quanto  senhora d'Argilat, no estava ao corrente do
tratamento que lhe fizeram sofrer. Portanto, mentiram-
me quando me afirmaram que ela estava sendo bem tratada. Dohse deve
estar convencido de que ela tem informaes
importantes para que, apesar de nossas relaes, ele a detenha
nessas condies. No vai ser nada fcil faz-lo largar a
presa.
- Mas asseguro-lhe que ele est enganado. Camille no est a par
das atividades de Laurent!
- Ela lhe disse?
- No, mas ns vivemos juntas e se ela tivesse notcias de Laurent
eu seria a primeira a saber.
- Eu no quero mago-la, La, mas quando se faz parte de uma
atividade clandestina no se vai gritar aos quatro ventos.
Embora os resistentes, como voc os chama, sejam de uma imprudncia
de que ns somos freqentemente os primeiros a
se admirar.
- No acredito em nada disso, Camille sabia muito bem que podia ter
confiana em mim e que eu estava pronta...
La parou de repente.
- No tenha medo, continue. Eu no posso censur-la, sei que no
lugar deles teria feito o mesmo que seu tio e o marido da
sua amiga, teria continuado a combater. Dito isto, meu dever e o
dos soldados alemes engajados nessa guerra  o de
impedi-los. Isso tambm voc deve compreender. Quando prendemos e
fuzilamos os que colocam bombas, executamos os
refns, aprisionamos quem distribui panfletos, aqueles que escondem
aviadores ingleses ou que se comunicam com Londres
com a ajuda de emissores clandestinos, , apesar do armistcio, a
guerra que continua. Disso no tenho de que me
envergonhar. Mas, quando a Gestapo interroga brutalmente os
supostos resistentes e as mulheres, tenho vergonha. Embora
a maior parte do tempo ela deixe essa sinistra funo aos da
Gestapo francesa. Sabe que, quando estava em Langon,
duzentos agentes franceses inscritos reforaram as fileiras da
Gestapo e dos grupos auxiliares. Desde a reunio do chefe da
Gestapo em Bordus, Dohse, e os comissrios da brigada Poinsot, em
abril de 41, seus compatriotas fizeram um bom
trabalho, para no dizer zelo.
- Cale-se.
- Isto  apenas uma parte da triste realidade. Acredita que ns
foramos muito as mos dos governadores, dos prefeitos,
dos juzes, dos policiais da Frana? Eles obedecem ordens do chefe
do Estado francs, o marechal Ptain, que lhes pedira,
assim como a todos os franceses, para colaborar conosco. So eles
que esto na legalidade. Vosso marechal chegou ao poder
por um golpe de Estado, que eu saiba.
- A honra era continuar a guerra.
- Com qu? Esqueceu a derrota do exrcito francs, consumada em
poucos dias?
La voltou a cabea e reviu na estrada de Orlans, aqueles grupos
de soldados sujos, barbudos, depenados, jogando fora
suas armas para correrem mais rpido, pilhando as casas
abandonadas, puxando os civis para fora de seus carros...
- Voltando  senhora d'Argilat, vou jogar com o pouco de poder que
tenho a seu favor,  tudo o que posso lhe prometer. Se
conseguir faz-la sair do forte de H, procure um jeito de que ela
fique tranqila porque ser vigiada ainda mais atentamente
que antes de sua priso. Se no conseguir, no s terei perdido
todo o crdito, mas minha interveno me far, com certeza,
ser novamente enviado  frente do Leste. No  por mim que eu temo
essa eventualidade, mas por Franoise e
por meu filho. No gostaria de os deixar ss aqui, antes de poder
regularizar nossa situao.
La levantou-se.
- Obrigada.
Dirigiu-se para a porta da sala e disse:
- Franoise! Franoise! Frederic! Podem vir.
Est louca, gritando assim, vai acordar Pierre!
No dia seguinte, La no s teve seu visto renovado, mas tambm um
lugar marcado em primeira classe no trem de
Bordus, que partia dois dias depois. Empregou esses dois dias indo
ao cinema e ao teatro com Franoise, e consolando as
tias entristecidas com sua partida. Deixou com Albertine uma
mensagem para Franois Tavernier. Se ele passasse pela rua
da Universidade para saber notcias suas.
Deixou Paris sem saudade.

Captulo 13

Ao CHEGAR  estao de Saint-Jean, em Bordus, La teve a surpresa
de avistar Mathias na plataforma. Viera esper-la.
Ela o viu logo, antes mesmo do trem parar. Parecia maior, mais
forte, e tinha a cabea quase raspada. Sentiu no mesmo
instante alegria e um mal-estar indefinido.
Ele precipitou-se para lhe pegar a mala, beijou-a nas faces,
balanando-se  sua frente como se no soubesse por onde
comear, como se medisse o tempo passado, depois conduziu-a at o
trem de Langon. Quando estavam instalados em seu
compartimento, ele tomou-lhe a mo, que La retirou.
Por que teriam seus olhos perdido aquele fulgor malicioso?
- Eu queria ser o primeiro a lhe anunciar uma boa notcia: a
senhora Camilie deixou forte de H.
- Ela est em casa?
Mathias tinha um ar um tanto constrangido.
- No. Ela foi transferida para o campo de Mrignac...
-   isso que voc chama de boa notcia?
- Sim, porque no campo de Mrignac circula-se mais livremente, os
guardas so franceses e eu conheo o diretor.
- Tanto faz para mim que voc conhea ou no o diretor, o que eu
quero  que Camille seja libertada.
- Tenha pacincia, estamos nos ocupando disso,  uma questo de
dias. Acredite-me, para arranc-la de Dohse no foi fcil
e foi preciso negociar.
- Negociar? Quem? Voc... Voc conhece esse sujo?
- Sujo  um pouco forte. Ele faz o seu trabalho para manter a ordem
numa cidade como Bordus, onde fervilham agentes
ingleses, terroristas, comunistas e patifes, que s querem
desencadear a luta.
Ela o fuzilou com o olhar.
- Sabe bem o que est dizendo? ela sibilou entre os dentes, para
que os vizinhos no a ouvissem.
- Estou vendo que voc e Camille no mudam de atitude, se continuam
a lanar olhares para o lado da Resistncia, vocs
sero executadas. E eu no quero que voc seja executada.
La encolheu os ombros no banco. Estava impressionada por aquela
paixo ingnua e brutal de Mathias, mas aterrada com
a idia do que ele poderia fazer. Tal como o via ali, era capaz de
tudo para lhe agradar e com certeza para trair. Que fazia ele
com os alemes? Preferiu mudar depressa de assunto. Falou das
vinhas e da propriedade e acabou por fingir que adormecia.
Na estao reencontrou com prazer a bicicleta azul que Mathias lhe
trouxera junto com a sua. Apesar de um ventinho frio
que soprava na encosta dos domnios de Prioulette. La chegara
antes que ele s cancelas brancas que marcavam a entrada
da propriedade. Por um instante escutou, esperando ouvir a voz do
pai.
Um jantar estava a sua espera na grande cozinha de lajes de pedra.
Na lareira escurecida, ardia uma chama de ramos de
videira que fazia brilhar o cobre das caarolas e das bacias
penduradas nas paredes caiadas de branco. Na mesa comprida
recoberta por uma toalha azul impermevel, estava posta a loua dos
dias de festa. A primeira coisa que La notou ao
entrar foi que haviam disposto os mveis em volta da lareira.
Seguindo seu olhar, Ruth explicou:
- No tnhamos carvo suficiente, nem lenha para aquecer outro
compartimento. Aqui aproveitamos o calor do fogo que
acendemos para fazer as refeies e,  noite, para o prazer de
nossos olhos, jogamos uma braada de sarmentos na lareira.
Com esse frio, a cozinha tornou-se o nico lugar agradvel da casa.
H dias em que no nos resignamos em ir para nossos
quartos. As camas esto enregeladas, apesar das chaleiras. Eu,
ainda v; na Alscia, o frio  muito mais cortante do que aqui
e fui educada duramente, mas sua irm e sua tia sofrem muito. Seus
ps e suas mos esto cobertos de frieiras. Eu s as
tenho nas mos, mas  por lavar com gua quase gelada.
Pobre Ruth, de governanta, de professora, de dama de companhia,
tinha-se tornado, com a mesma bondade, o mesmo
desejo de ser til, a criada de toda a casa. Como outrora, La
agarrou-se em seu pescoo.
- Meu lindo sol, minha pequenina... Minha selvagenzinha... Estou
feliz por estar de volta. Montillac sem voc j no 
Montillac. Lembra-se do que seu pobre pai dizia?
La fez que no com a cabea.
- Ele dizia que voc era o gnio da casa, que, sem voc, ela no
existiria da mesma maneira e que perderia a alma se a
deixasse para sempre.
- Isso no vai acontecer, Ruth, e o meu pai o sabia. H aqui, nesta
terra, entre estas paredes, qualquer coisa que faz parte de
mim, tal como os braos, minha cabea ou meu corao e sem os quais
no posso viver. Voc v, cada vez que deixo a casa,
receio no voltar, e, cada vez que volto, sobe em mim uma
felicidade e uma fora que sempre me surpreendem.
- Isso  amor, minha pequena.
Bernadette Bouchardeau juntara-se a elas. Instalaram-se  mesa para
comer o feijo seco e um frango que Fayard lhes dera.
La contou as notcias de Paris, e Ruth a sua priso com Camille e
Laure.
La no conseguia desfazer-se daquela m impresso que sentira
desde a estao de Saint-Jean. No conseguia encontrar-se
de novo em Montillac. Aquela grande casa fria no era realmente a
sua. J estava farta do frio e da fome: desejava o vero, o
sol e as frutas... Laure crescera muito, era agora uma mulher.
Charles andava por toda a parte - parecia-se com a me, a
mesma boca e os mesmos olhos... La tinha a impresso de que tudo
decorrera sem ela saber, quase s suas costas. Apesar
de reencontrar os gestos de todos os dias, os seus hbitos,
Montillac escapava-lhe. Haviam mudado os mveis, Ruth
parecia menos ativa, mais envelhecida...
No exato momento em que a governanta pegava o pequeno Charles para
lev-lo a dormir, a porta abriu-se inteiramente.
Um homem, com bigodes cados, um barrete enfiado na cabea at as
sobrancelhas, uma sacola na mo, vestindo uma
japona, avanou pelo limiar da porta.
- Feche depressa que o calor sai todo - disse Bernadette
Bouchardeau.
O homem obedeceu.
- Quem  o senhor? Que quer? - perguntou ela. -J  noite, no so
horas de ir  casa de ningum.
O homem no respondia nada, olhava em volta como algum que quer
reencontrar um lugar familiar.
La levantou-se com o corao palpitante.
- Mas, ento, meu senhor no me responde: quem ?
- Cale-se minha tia. Seja bem-vindo, Laurent.
Houve um instante de pnico. Todos queriam cumprimentar Laurent ao
mesmo tempo e apert-lo ao peito. Ruth queria  viva fora pr-lhe o
filho nos braos. O  pequeno 
berrava de terror
perante aquele grande bigodudo que no conhecia...
Laurent acalmou-os.
- Sejam discretas. Preferia que Fayard e Mathias no acorressem aos
seus gritos.
Sentou-se  mesa e comeu um pouco, seu olhar no cessava de ir de
La para Charles, a quem tinham concedido um alvar e
que brincava no cho.
Tavernier preveniu-me de que La devia chegar esta noite. Espero
que esteja aqui com a aprovao das autoridades e que
possa fazer uma visita a Camille. Queria lhe entregar uma mensagem
para ela... Tenho um encontro importante em relao a
ela, amanh em Bordus.
Bernadette Bouchardeau procurava nos armrios qualquer coisa para
comer. Custou a Laurent persuadi-la de que no tinha
fome. Colocou- se de quatro no cho e Charles aceitou sem discutir
aquele novo companheiro de brincadeira. Deixou-se
mesmo levar at acama e lhe prometeu brincar de esconde-esconde no
dia seguinte...
Por fim, quando todos se recolheram, La e Laurent encontraram-se
apertados um ao outro no banquinho de pedra que
fazia parte da lareira, La sentia-se feliz. Rindo, fazia festas no
bigode de Laurent, passando-lhe a mo pelo peito. Tornara-
se duro como uma pedra. Passou- lhe o polegar pelas rugas que agora
existiam no canto de seus olhos.
- Voc envelheceu.
- Voc tambm. Mas est ainda mais bonita. Agora, tens o ar de uma
verdadeira dama. At Tavernier percebeu isso. -
Durante horas falaram do que tinha sido as suas vidas desde sua
separao.
Procurados pelos homens de Lcussan, Adrien e Laurent foram
obrigados a deixar Toulouse e a se refugiarem no Limousin,
dormindo ao acaso nos celeiros ou nos palheiros em casa de
resistentes ou de simpatizantes. A zona estava sob as ordens
de um tal Raul, antigo professor comunista, que passara 
clandestinidade desde fevereiro de 1941, procurado pelos
homens do comissrio Combes, depois pela Gestapo. No fim de dois
meses de vida errante, Adrien optava por voltar
clandestinamente a Bordus, onde pensava poder fazer melhor
trabalho que nos bosques. Laurent, por sua vez, ficara para
dar instruo militar aos jovens. Juntos, tinham atacado as cmaras
e feito cobrana para recuperar bilhetes de alimentao,
indispensveis  sua sobrevivncia, carimbos oficiais, carteiras de
identidade sem uso e dinheiro.
- Com a guerra, tornei-me bandido de estradas!
No entanto, no era comunista e, bem depressa, divergncias bem
profundas tinham surgido entre ele e os responsveis
clandestinos do partido. Pretendia cada vez mais seriamente voltar
a Toulouse para tentar que o enviassem a Londres,
depois para a Africa do norte para combater. Refletia sobre tais
propsitos quando soube da priso de Camille e da sua
deteno no forte de H. Nessa mesma noite, deixou os resistentes
de Limoges e entrou em contato em Toulouse, com o
seu antigo grupo. A tinham-lhe arranjado um encontro com
Grand-Clment.
- O segurador de meu pai! - exclamou La.
O mesmo que se tornara O chefe da organizao civil e militar da
regio de Bordus, o que no deixara de surpreender
Laurent tanto mais que em 40, Grand-Clment no escondera suas
simpatias pelo governo de Vichy. Mas, entre os
resistentes, ele no era o nico a ter confiado no marechal Ptain.
Em Toulouse tinham dito a Laurent para ir ao caf
Bertrand e perguntar por David que, em agosto de 42, descera de
pra- quedas, vindo de Londres, perto de Chatearoux.
Laurent devia-se apresentar com o pseudnimo de Lucius. David seria
prevenido da sua prxima chegada por uma
mensagem da rdio Londres. O encontro seria no dia seguinte.
La mostrou-lhe a carta de Camille, que ele leu com uma emoo que
no lhe fez sentir nenhum cime. Contou-lhe sua
conversa com Otto Kramer e suas promessas. Curiosamente no lhe
contou a volta de Mathias, nem do que ele lhe tinha
dito sobre suas novas relaes. Contentou-se em lhe contar que
Camille se encontrava agora no campo de Mrignac.
- Amanh  o dia de visita e eu vou l. Escreva-lhe se quiser, eu
tratarei de lhe entregar a carta.
- No, isso no posso aceitar,  perigoso demais.
Escreve, mesmo assim, se perceber que somos muito vigiadas
guardo-a. Vou buscar papel e tinta.
Quando voltou, ele sentara-se  mesa.
Suavemente, ela pousou a mo em seu ombro.
- No se inquiete.
Ele ergueu os olhos em sua direo, abraou-a e pousou a cabea em
seu ventre. Durante muito tempo ficaram assim,
imveis.
La caiu em si.
- Vou me deitar. Ruth preparou sua cama no quarto de meu pai,
espero que no esteja muito frio, ela ps l dois sacos de
gua quente. A que horas quer se levantar amanh?
- No muito cedo, o meu encontro  s trs horas da tarde.
- Ento durma bem. At amanh disse ela, beijando-o como uma irm.
- La... La... No tenha medo...  apenas um pesadelo...
Laurent havia despertado em sobressalto com os gritos e os gemidos
que vinham do quarto da moa. Correra. Com o
pesadelo habitual, sentada na cama, em lgrimas, ela repelia os
assaltos do homem que ela havia matado em Orlans. Por
um refinamento do destino, o homem agora tinha um companheiro:
Masuy, o torturador de Sarah, que avanava para ela
arrastando uma banheira cheia de imundcies, de onde surgiam
serpentes.
La despertou molhada de suor e viu na leve claridade do candeeiro
o rosto de Laurent.
- Peo-lhe, venha para perto de mim, tenho medo.
Logo que ele a apertou contra si, ela voltou a adormecer como uma
criana.
La convenceu Laurent a no descer daquele andar enquanto ela no
se certificasse de que Fayard e a mulher no estivessem
por ali. De fato, o que temia era a perspiccia de Mathias. E tinha
razo. Na vspera, por discrio, o jovem se eclipsara
logo depois de colocar as bobagens de La em seu quarto, e no
voltara a aparecer.
Quando ela entrou na cozinha, ele estava l, conversando com Ruth,
que acabava seu almoo. La beijou a velha governanta
e seu amigo de infncia.
Est com timo aspecto - disse-lhe. - Tem um ar descansado, apesar
da hora tardia em que se deitou.
Ela ps-se logo na defensiva.
- Deito-me  hora que me agrada.
- No se zangue, dizia por dizer.
La ficou aliviada.
- Dormi muito mal, tive pesadelos horrveis.
- Esta noite vou lhe dar um ch da tlia - disse Ruth, sempre
eficaz.
- Voc bem sabe que a tlia me enerva, desde pequena...
- Sim, sim,  verdade, confundo-a com Franoise. A voc faz bem o
de flor de laranjeira. Quer que lhe prepare uma torrada?
No, obrigada, eu mesma fao.
- H um pouco de caf em cima do fogo.
Obrigada, Ruth.
Enquanto falava cortando uma grossa fatia de po duro e depois de
pic-lo com o garfo, colocou os pedaos diante das
brasas da lareira.
Tambm quer uma? - perguntou a Mathias.
- No, obrigado, j almocei. Toma, trouxe-lhe manteiga.
- Mas isso  sua rao de um ms!
No se inquiete. Sei onde arranj-la.
Sentado  sua frente, olhava-a comer.
De repente, o rosto de La se entristeceu.
- O que voc tem?
- Penso em Camille, no tenho nada para lhe levar, a no ser uns
doces e alguma roupa.
- Eu pensei nisso. Tenho para ela um cesto cheio de coisas boas.
- Com manteiga?
Com manteiga, acar, docinhos, chourios, empadas e at sabo.
- Voc  formidvel!
Eu sei - disse ele, orgulhoso.
La deu uma gargalhada.
O campo abre s duas horas,  preciso tomar o trem das onze, mas
voc no tem muito tempo.
Ela olhou para o relgio da lareira.
- Subo para me preparar, venha buscar-me daqui a meia hora. Logo
que ele saiu, preparou uma bandeja para Laurent, que se
extasiou ao ver a manteiga.
O tempo era pouco para combinar um encontro em Bordus, tanto mais
que Laurent no sabia a que horas poderia ver
Grand-Clment. Decidiram, portanto, despedir-se. Quando La estava
pronta para partir, abraou-o.
- Seja prudente e no corra riscos inteis.
Ela teve um leve encolher de ombros fatalista e saiu. A carta para
Camille estava escondida na meia direita.

Captulo 14

A MOZINHA COM LUVAS remendadas apertava com fora o pesado cesto,
enquanto os ps, calados com botas de
solas de madeira, trotavam na lama do caminho rodeado de arame
farpado, que conduzia ao campo de Mrignac. Uma
multido, mulheres na maioria, fazia fila, esperando que a porta se
abrisse. Todos tremiam nos velhos agasalhos,
silenciosos, de cabea baixa, como se sentissem vergonha de estar
ali. De repente, um mesmo movimento os anima; alm,
fora aberto um dos batentes da grande porta de madeira, coberta de
arame farpado. Endireitam-se os corpos... Os coraes
palpitam mais depressa. La muda o cesto de brao. A coluna avana
lentamente, cada qual prepara seus papis. Uma
velhinha, cheia de embrulhos, deixa cair os seus. Ningum tem um
gesto para ajudar. Por fim, chega sua vez. Lastima ter
dito a Mathias para deix-la sozinha. Depois de olhar para sua
carteira de identidade, o guarda a deixa passar, enquanto um
outro lhe faz sinal para entrar na barraca junto da entrada. Ali,
os guardas examinam sobre a mesa o contedo das carteiras,
cestos, sacos ou embrulhos, anotam o nome do visitante e do
visitado. Atrs de uma cortina suja uma vistoria mais ntima:
para as mulheres,  uma guarda que est encarregada da inspeo.
La encolhe-se sob as mos que apalpam seu casaco e seu
corpo por baixo do vestido.
- Tire suas meias.
La fecha os olhos para esconder a alegria que sente. Que bela
idia tivera ao retirar a carta no lavabo do trem. Calmamente
estende as meias  mulher que as apalpa.
- No me leve a mal. Sabe bem que h quem esconda as cartas nas
meias - disse ela, ao entreg-las. - Pode sair.
Volta a pegar o cesto. No tirou as luvas. A carta estava escondida
na mo esquerda. D alguns passos no cho barrento
sem ver nada 
sua volta, no ousando acreditar em seu xito. Algum, empurrando-
a, fez com que voltasse  realidade.
Assim, ento  isso o campo de Mrignac, de que tanto se fala na
regio, a reserva de refns: uma dzia de barracas de
madeira com teto de zinco, ondulados, rodeados de arame e de torres
de vigia. Alguns dos detidos erravam livremente. Uma
barraca tinha sido transformada em parlatrio: um cantinho para
mulheres, um maior para os homens, aquecida por um
fogo de lenha que se encontrava no centro da sala. La parou 
entrada.
- Saia da porta, por Deus! - berrou a voz de um homem.
La entra, empurrada por um guarda que a fecha atrs dela.
A quem procura, minha pequena?
- A senhora d'Argilat - murmura ela.
- Vai chegar, no tenha pressa. Foram cham-la na enfermaria.
Na enfermaria! Camille, ento, continua doente!
-La!... Oh!... La!...
Aquele corpo frgil, aquele rosto plido to emagrecido, aqueles
cabelos descorados, aquelas mos escaldantes, aqueles
olhos diziam toda a alegria que sentia ao v-la... Aqueles beijos
que lhe cobriram as faces. Aquelas lgrimas que lhe
molhavam e vinham se misturar com as dela...
- Como est Charles?
- Est bom - respondeu La. - Tenho notcias de Laurent - murmurou.
Sente contra si o corpo frgil vacilar. Com a ajuda de uma das
prisioneiras, estende-a no banco.
- Doente como est, devia ter ficado deitada.
- No, no - murmurou Camilie, erguendo-se -, no  nada -
continuou ela, por causa do guarda que se aproximava.
A jovem mal olha para o contedo do cesto, mas embrulha-se com ar
encantado numa grande xale de l tricotado por Ruth.
 o momento que La escolhe para lhe entregar a carta.
-  de Laurent.
Camille cora e aperta, tremendo, o papel amarrotado.
- Oh! Obrigada.
Tosse. La pe-lhe a mo na testa. Est escaldante.
- Est com febre. Foi uma loucura levantar-se.
- No brigue comigo. As visitas so proibidas na enfermaria e no
poderia v-la. Sobretudo, no diga a Laurent que estou
doente.
- O mdico a viu?
- Sim, veio aqui ontem. Passa uma vez por semana. Fale-me de Paris,
de tuas tias, de Franoise e do beb.  bonito?
La fala de mil coisas. Camille est radiante.
Quando o tempo de visita acabou, tm a impresso de no terem dito
nada.
Camilie faz La lhe prometer que voltar e explode em soluos.
- Tenho medo de no agentar disse ela.
De braos cados, vazio o cesto, La afasta-se do campo com um
nico pensamento: tir-la dali.
Mathias, de bicicleta, pra a seu lado.
- Senhorita, posso lev-la para algum lugar?
Tinha vindo busc-la! Era simptico, porque os trens entre Bordus
e Mrignac eram raros, mas aquilo no lhe convinha:
ela queria, discretamente ir ao caf Bertrand, no cais de
Chartrons.
Pode me levar at a casa de tio Luc?
- Claro. Vai demorar-se muito?
- No sei, uma hora ou duas, talvez. Encontramo-nos s seis horas
no caf perto do Grand-Thatre.
- Como quiser.
La instalou-se de lado na bicicleta, quase confortavelmente, entre
os braos de Mathias.
Quando rodavam, falaram de Camille, do seu estado de sade. O jovem
reafirmou que ela no ficaria muito mais tempo e
que Rousseau, o diretor do campo, havia lhe prometido velar por ela
para que tivesse um pouco de conforto. Um mal-estar
inexplicvel impedia La de lhe fazer as perguntas que lhe
queimavam a lngua.
Deixou-a na alameda de Chartres, diante da casa do tio. Entrou no
prdio e esperou alguns instantes no vasto trio de
mrmore branco, depois voltou a sair. Mathias havia desaparecido.
Rapidamente, dirigiu- se para os cais de Chartrons, que
era perto.
Exceto por algumas figuras sombrias, encolhidas pela chuvinha
gelada que comeara a cair, o cais estava deserto. La
diminura o passo para no se arriscar a passar diante do caf
Bertrand sem o ver. Sua entrada no interrompeu os
jogadores de cartas, instalados numa das mesas. Avanou sob o olhar
bonacho de um criado gorducho, com a barriga
envolta pelo avental azul dos homens do vinho. Alm dele e dos
jogadores, o caf estava vazio, O homenzinho passou para
o outro lado do balco.
- Que quer tomar, senhorita?
- Queria ver David - disse ela, num sopro.
- Aquele rosto aberto tornou-se grave.
- Deve estar enganada, aqui no h nenhum David.
- Tenho certeza que sim, um de meus amigos tinha um encontro com
ele esta tarde.
 possvel, mas no sei de nada.
Um cansao imenso invadiu La que, vendo que no conseguia nada do
homem, instalou-se  mesa.
- D-me um caf, se faz favor.
A mistura que lhe trouxeram era infecta, mas estava quente. O
patro desapareceu na sala dos fundos.
Uns segundos depois, Laurent estava de p, junto dela. Voc 
doida, que faz aqui?
- Estava  sua espera.
Venha, no fique aqui.
Sem responder, ela o seguia  sala detrs do bar. No havia
janelas, apenas uma cama desfeita, uma mesa de madeira clara,
um armrio normando e cadeiras de bar. Dois homens em p, olhavam
para ela.
 mesmo ela - disse Laurent, empurrando-a  sua frente. - Podem ter
confiana. Fortunat e eu prprio j a utilizamos vrias
vezes.
- Mas por que foi que ela veio aqui?  terrivelmente perigoso.
Aqueles dois comearam a irrit-la com os seus ares inquisidores. E
que Fortunar queria falar Laurent? Ela no conhecia
ningum com aquele nome. Eram ridculos, os trs, com os seus modos
conspiradores. De repente, o mais baixo dos
desconhecidos sorriu-lhe.
- Deixe-a, no v que lhe d medo?
Medo!... Enfim, se lhe causava prazer tom-la por uma mulher fraca.
O pequeno moreno que lhe havia falado perguntou-lhe:
- Por que pediu para ver David?
- Eu no sabia que Lau...
- No diga nomes.
- Eu sabia que meu amigo tinha um encontro com ele.
- Quem lhe disse?
La deu um suspiro, aborrecida.
- Evidentemente que foi ele.
-  verdade? - perguntou ele, num tom seco, voltando-se para
Laurent.
- Sim.
- No v que cometeu uma grande imprudncia? E julgo que teve razo
- disse ele pondo-se a rir. - Desculpe-me, senhorita,
por este interrogatrio. Deixe que me apresente: Aristide e aqui
est David. E voc, como devemos chamar?
La deu por si respondendo sem pensar:
- Exuprance.
- Exuprance... - disse Aristide. -  um nome engraado; soa como
"esperana",  uma boa escolha.
Laurent olhou-a com um sorriso cmplice. Ele sabia de onde lhe
vinha aquele nome: juntos, tinham contemplado a
"Santinha" no relicrio da baslica de Verdelais.
- Vi Camille e consegui lhe entregar sua carta.
- Como est ela?
La resolveu esquecer sua promessa.
- Est doente,  preciso faz-la sair depressa.
Laurent apoiou-se ao espaldar da cadeira sem deixar transparecer
seu cuidado.
- Aristide acha que  muito arriscado procurar Grand-Clment. No
tem confiana.
- Mas faz mal - exclamou David, que at ali no havia dito nada.
- Eu conheo Grand-Clment.. Juntos reparamos e instalamos novos
campos para pra-quedistas e arranjamos onde esconder mais armas.
 um homem seguro, que tem toda a confiana do O.C.M. No sei
o que Aristide tem contra ele, nunca o quis encontrar.
- Escute, David, no vamos discutir de novo por causa do seu grande
homem. Ele talvez seja "seguro", como voc diz, mas
fala demais e leva uma vida demasiado vistosa e negoceia muito.
Toda a gente aqui sabe que o Grand-Clment  um chefe da
Resistncia. No compreendo o que lhes deu em Paris, para nomear um
fantoche daqueles para responsvel da regio B2.
Em Bordus, s a Gestapo  que no sabe.
- Voc exagera! Cada um tem sua maneira de combater.
- Eu sei que talvez seja injusto, mas h qualquer coisa que me diz
que esse oficial da marinha, antigo monrquico, ntimo do
coronel Rocque, ir nos pregar uma pea.
- Voc e seu dom de dupla viso.
La assistia, divertida, quela troca de pontos de vista sobre o
"segurador do pai". Tentava lembrar-se da impresso que lhe
causara em seu primeiro e nico encontro. Revia um homem alto, com
boa presena, do gnero de homem de negcios,
como se apreciava em Bordus, nada de extraordinrio.
- E se eu fosse v-lo?
Trs pares de olhos fixaram-na.
- Eu j tratei de negcios com ele.
- Como? perguntou Aristide.
La contou como ela havia se encarregado de lhe entregar uns
documentos num envelope com os contratos de seguros do
pai.
Aristide escutou-a sem dizer nada. No era talvez m idia, era
preciso ver.
- Quando est marcado o encontro?
- Amanh, em casa dele, uma hora antes do toque de recolher.
- Pode-se desmarc-lo - disse David. - Se for preciso encarregome
disso.
- De acordo, cancele - disse Aristide.
- Eu devia voltar para Montillac esta noite. Tenho de telefonar,
seno ficaro preocupados. Tenho tambm de encontrar um
amigo com quem voltaria a Langon.
- No h muito tempo. Algum vai telefonar do correio,  sua
famlia. Quanto a seu amigo, arranja-se uma razo. Um dos
nossos vai segui-los de longe at o ptio de Verdun e espera por
voc para se assegurar de sua proteo. Far uma pergunta
ao Grand-Clment: "A O.C.M. est de acordo em ajudar a senhora
d'Argilat a fugir?".
Desde alguns instantes La, visivelmente, no ouvia: refletia
rapidamente.
-  absurdo. Se eu falar assim, Grand-Clment, que, como vocs
dizem, fala demais, saber que os ajudo e tambm serei
suspeita. Alm disso, se desse certo a fuga de Camille, ela seria
obrigada a se esconder at o fim da guerra. Ora, isso no 
desejvel, dado o seu estado e por causa do filho.
-  verdade! - disse Aristide. - Que prope?
- Ir v-lo em meu nome suplicar-lhe que faa algo por humanidade.
- Mas ele sabe que voc est metida na Resistncia, uma vez que j
lhe transmitiu documentos - disse David.
- J pensei nisso. Vou fazer o papel de uma boba que no percebeu a
importncia de sua incumbncia.
Aristide no pensou muito. O bom senso da proposta o seduziu.
- Creio que ela tem razo. David, avise Tte-de-pioche para a
seguir discretamente, assim que ela sair. Exuprance, no deve
voltar aqui. Seria perigoso demais.
- David deixou o aposento.
- Vou me desincumbir disso.
- No sei se devo deix-la se arriscar por minha causa - disse
Laurent.
- No  por voc, mas por Camille.
O mais engraado  que ela era sincera e que percebera que, desde
aquela fuga dramtica pelas estradas do xodo, nunca
mais deixaria de se sentir responsvel pela jovem mulher.
Sem dizer nada, Laurent abraou-a.
David voltou.
Tte-de-pioche a espera l fora. Se, quando sair de casa do
GrandClment, alguma coisa correr mal, ponha este leno na
cabea em vez do chapu. Ele compreender e estar pronto para
intervir. Ir segui-la at que lhe faa sinal, pondo os dedos
sobre a boca, para lhe indicar que est em segurana. Compreendeu
tudo?
Claro que sim. No  to complicado.
Espero por voc, na praa Gambetta, no Rgent, a partir do
meio-dia.
O patro, por sua vez, entrou.
- Tudo corre bem, ela pode sair.
La fez um pequeno gesto cumprimentando-os e saiu, passando diante
do homem do caf, que disse:
No me leve a mal, senhorita, mas h ordens.
Como resposta, La lhe deu o seu sorriso mais bonito.
L fora era quase noite, luzes mortias escapavam-se por debaixo
das portas, mas no havia luz nas janelas nem nas
vitrines. Os candeeiros estavam apagados. Estava frio e mido.
Felizmente o ptio de Verdun no era longe da plataforma
dos Chartrons.
Em frente ao nmero 34 estacionavam alguns carros e gente vestida
com elegncia entrava. La hesitou. Decerto no era o
melhor momento de ver Grand-Clment. Tanto pior. Estava ali, tinha
de entrar. Tocou.
Uma criada abriu a porta e afastou-se para deix-la passar sem lhe
perguntar nada.
- Voc aqui, querida amiga?...
La voltou-se e reconheceu logo aquele que temia no reconhecer.
Tambm ele a reconhecera.
Que quer?
- Preciso de lhe falar.
- No  o momento, espero amigos, volte amanh.
- No,  uma questo de vida ou morte - disse ela, forando
dramaticamente -, s o senhor pode me ajudar.
Grand-Clment deu um sorrizinho satisfeito.
- Acredite, senhorita, que no desejo outra coisa seno ajudar uma
pessoa encantadora, mas o momento  mal escolhido.
- Peo-lhe, eu direi rapidamente do que se trata.
- Est bem, venha ao meu escritrio. Minha querida - disse ele a
uma mulher jovem que caminhava para eles -, so s alguns
instantes, receba os convidados por mim.
Mandou-a entrar no escritrio que ela j conhecia. Ali, tentou
seduzi- lo, comov-lo e convenc-lo.
No fim da entrevista, ele prometeu que uma pessoa to calorosamente
recomendada seria libertada brevemente.
- Brevemente no, imediatamente.
- Como anda depressa. Ao ouvi-la pode-se acreditar que os alemes
s esperam uma ordem minha para soltar seus
prisioneiros.
- Tenho certeza de que vai conseguir.
- Volte a procurar-me amanh s quatro horas, dir-lhe-ei o que
hover - concluiu ele levantando-se.
A entrada, um homem bastante grande, tirava o casaco, ajudado pela
criada.
- Tio Luc!
La, o que faz aqui? Julgava-a em Paris, em casa de suas tias. Eu
vim pedir ao senhor Grand-Clment para me ajudar a tirar
Camille d'Argilat do campo de Mrignac.
- Conhece esta senhorita?
 filha de meu irmo Pierre, que morreu no ano passado. A senhora
d'Argilat  uma de suas amigas. Moram juntas perto de
Langon com uma de minhas irms, desde que o marido dessa senhora
desapareceu. Conheo-a bem. E uma pessoa
excelente. Se puder fazer qualquer coisa por ela, eu lhe serei
grato.
Caro mestre, prometi  sua sobrinha fazer todo o possvel.
- Eu lhe agradeo muito.
- At  vista, tio Luc.
- Onde vai? No volta esta noite para Montillac? J no h trens e
daqui a pouco  o toque de recolher. Se quiser pode
dormir em minha casa.
Agradeo-lhe, tio, mas tenho um encontro com alguns amigos.
- Como quiser. Vai tudo bem em Montillac? Vai sim. At  vista. At
logo, caro senhor.
- At logo, senhorita, at amanh. Espero ter boas notcias para
lhe dar.
J estava escuro, La no havia tirado o chapu. Agora era preciso
saber se Mathias ainda estava no caf do Grand-Thatre.
Ele estava. Furioso.
De onde voc vem? Por que me armou esta cilada? Voc no esteve na
casa de seu tio, ningum a viu l! Onde esteve?
Eu lhe explico.
- Ei! Amorzinhos, eu vou fechar! Daqui a dez minutos  o toque de
recolher.
- Est bem! Est bem, j vamos. Voc no perde nada por esperar.
No gosto que zombem de mim.
- Sinto muito, senhor, mas est fechado.
O homem que estava  porta, com as mos enfiadas nos bolsos do
impermevel, no tirava os olhos de La. Era Tte-de-
pioche, ela o havia esquecido. Fez-lhe o sinal combinado. Ele
partiu, dizendo:
- Adeus, companhia.
- Onde vamos? - perguntou, logo que saram para a chuva e para o
frio.
- Explique-me onde esteve enquanto eu fiquei plantado esperando.
- Mais tarde lhe digo. Agora, estou gelada e morro de fome.
- Ruth e sua irm devem estar preocupadas!
- J foram avisadas. Sabe onde poderemos ir?
Sua pergunta ficou sem resposta. Caminharam por alguns instantes em
silncio, atravessaram a praa de Quinconces que
parecia um buraco negro. O rapaz tirou do bolso uma lmpada
eltrica que entregou a La. Contornaram os sacos de areia
das caladas de Tourny e chegaram a uma ruela prxima da igreja.
Uma escada estreita, ngreme e escorregadia, subia at uma porta
envidraada, onde estava escrito em letras grandes
"OTEL", o "h" havia desaparecido, deixando trao de seu contorno.
Mathias, que no largara a bicicleta, empurrou a porta,
fazendo tilintar durante muito tempo os tubos de cobre do
carrilho. O local estava mal iluminado, cheirava a urina de gato
e a sopa de cebola, e ainda por cima o odor aucarado de um perfume
barato.
- Cheira mal aqui - disse La, em voz baixa.
Mathias encolheu os ombros.
- Quem est a? - disse uma voz rouca.
A ponta incandescente de um cigarro brilhou no fundo do aposento.
- Sou eu, senhora Ginette. Guardou-me o quarto?
- Ah!  voc, rapaz. Est com sorte, podia t-lo alugado dez vezes,
mas eu disse c pra mim: " pena que um rapago
daqueles fique ao relento". Est acompanhado?
Da sombra surgiu a mulher mais gorda que La j vira. Em sua
caranronha excessivamente pintada, luziam dois olhinhos
inteligentes e maus, que escorriam rmel, enfiados na gordura. O
corpo disforme, envolvido num roupo de veludo pudo,
avanou para eles, arrastando os ps calados com chinelos moles.
La recuou como uma criana amedrontada.
- Dona Ginette,  a minha amiga de infncia de quem j lhe falei.
- Eh! caipira, voc no tinha dito que essa tipa era to biruta e
no com esse ar de molenga. Com uma puta dessas voc deve
esticar o elsrico freqentemente.
- Senhora Ginette!
- Qual qu, senhora Ginette. Eu tenho o direito de dizer o que
quero, em minha casa. Palavra de honra, parece um
apaixonado. Eu no vou envergonhar a sua donzela. Apesar dessa
carapua, custa a crer que j no tenha perdido a
argolinha. N verdade, gracinha? No  a uma mulher calibrada como
eu, que se contam vantagens.
La abria os olhos diante dessa avalanche de palavres que nem
conpreendia, ditos com um sotaque bordelense, do
Mriadeck, dos mais acentuados.
Senhora Ginette, peo-lhe!...
- Qual senhora Ginette! Pede o qu, seu tarado? Com um plo do cu
voc faz o freio de uma carroa. Eu sou brava e voc
vai me fazer bufar. Eu lhe dou os parabns por sua donzela, e no
lhe digo o contrrio. No sei o que me detm para no te
enfiar o reio na bunda. Carranca! Voc me chateia...
- Mathias, se fssemos embora, esta senhora parece no querer nos
receber...
- Que bela fala tem esta linda pomba! "Parece que esta senhora no
quer nos receber..." No  isso, meu corao. Mas tem
um preguioso que me toma por besta, que some sem dizer nada e
volta na mesma com a bicicleta, e com a amiga de
infncia. Quer brincar de dndi agora que no tem com que pagar o
que deve. Se quer dormir aqui, filho da pura,  preciso
pagar, se no fora!
- Tome, senhora, o que trago comigo. Chegar? - perguntou La,
friamente, tirando umas notas da carteira.
A gorda contou-as e enfiou-as no roupo.
- Podemos dizer que voc  sortudo. J conhece o caminho.
- Sim, obrigado.
Mathias apertou o interruptor. Uma luz frouxa vinda de uma nica
lmpada revelou um longo corredor para o qual ele
empurrou La.
- Ei! Fedelho, esqueceu a bicicleta.
Ele voltou atrs, para peg-la e a trouxe no ombro.
O quarto era o retrato do resto: sinistro e gelado. Com os nervos 
flor da pele, La ps-se a chorar em p no meio do
quarto, desamparada. Mathias podia suportar tudo, menos v-la
chorar. Pegou-a no colo. Ela o repeliu.
- No me toque.
Estendeu-se na cama, tirou as botas e cobriu-se com o pesado
edredon azul, que parecia de luxo e de um asseio espantosos
nesse lugar miservel.
- Eu j volto.
Ela ergueu-se inquieta; ele no iria deix-la ali, sozinha naquele
lugar asqueroso com aquela mulher gorda que lhe causava
medo.
- No tenha medo. Vou buscar o que comer. Demoro dez minutos.
Durante sua ausncia, La deixou-se ficar escondida debaixo do
edredon.
Vai sufocar debaixo disso - disse ele, descobrindo-a. A sopa est a
espera e vai esfriar. Se a senhora quer fazer o favor, est
servida.
Era de no acreditar! Onde teria ele ido buscar aquela mesa de
rodinhas coberta por uma toalha impecvel, com vincos
marcados, sobre o qual estavam talheres de prata, dignos de um
hotel de luxo. Uma garrafa de Margaux reclinada num cesto
junto de um prato com pezinhos brancos, um frango frio, uma
salada, creme de chocolate e uma grande sopeira de onde
escapava um cheirinho de alho.
La no conseguia acreditar! Aquele rapaz, que julgava conhecer de
cr, era cada vez mais misterioso. Era talvez a nica
pessoa que podia, depois do toque de recolher, encontrar em Bordus
uma refeio que no teria afastado nenhuma mulher
honesta de antes da guerra.
- Donde vem isso tudo?
- No  daqui, em todo caso. Tenho um cupincha que  cozinheiro de
um restaurante aqui perto. Pode comer sem medo, o
melhor de Bordus est ali.
- Deve ser caro demais. Pensei que voc no tinha dinheiro!
-  verdade, mas tenho crdito. Vamos para a mesa. Deixe de chatear
e venha comer.
La engoliu uma colher e afastou o prato.
Por que foi para a Alemanha?
- Isso lhe importa? Voc no suporta que eu esteja do lado do mais
forte. Bem que eu percebo, que desde que voltou de
Paris procura me evitar... Voc no imagina que sero Laurent
d'Argilat ou Adrien Delmas que faro a lei. Julga que vamos
nos deixar esmagar pelos comunistas sem dizer nada?
- Mas nem Laurent nem o tio Adrien so comunistas!
- Talvez, mas so terroristas como eles...
- Est completamente louco, meu pobre Mathias... Voc acha normal
que se torturem as pessoas?
-   escria judia que se tortura.
- Escria judia! Camille?
- Ela s devia de ter prestado ateno e no se casar com qualquer
um!
- Voc vai ver, safado!... Voc nem sempre disse isso.
Ele estendeu a mo.
- Se me tocar, no precisar mais pr os ps em Montillac. Nunca
mais.
Ele empalideceu. Ali, j no estava a amiga de infncia, mas a
patroa da propriedade que seu pai e ele cuidavam. Era a
primeira vez que La lhe falava naquele tom. Um operrio! Um
criado! Eis o que ele era. Ela o havia tratado como as
marquesas e as princesas tratavam seus pagens.
- Voc esquece, minha pobre pequena, que o "seu" Montillac est
hipotecado e que, se o meu pai e eu o deixarmos ir abaixo,
s lhe resta vend-lo barato.
-  vergonhoso o que est dizendo. Pensei que gostasse tanto da
terra como eu.
- No se gosta por muito tempo do que no nos pertence.
Agarrou-lhe os pulsos com uma mo, deitou-a no leito e sentou-se
sobre suas pernas para imobiliz-la. Com a outra mo
livre, desabotoou a braguilha e exps o sexo.
- No, Mathias. Pare.
No vai querer que acredite que j no gosta disto!
Levantou-lhe a roupa, arrancou-lhe as calcinhas. La debateu-se,
encolheu-se e cuspiu-lhe no rosto, fechou as pernas... Ele
esbofeteou-a com toda a fora. Seu lbio partiu-se e comeou a
sangrar. Ela grita... Ele abre-lhe as pernas e deita sobre ela.
La olha-o horrorizada. Sente-se mal, como nunca sentira, um medo
horrvel invade. As lgrimas molham o travesseiro.
- Pare Mathias... Pare! Estou mal.
- Escute bem! Agora voc vai parar de ser pretensiosa. Tenho tudo o
que  preciso para fazer com que a enjaulem! As cartas
que distribua, os recadinhos na bicicleta azul... Eu sei de tudo.
Tenho muitos amigos na Gestapo. Voc me pertence.
Portanto, vai ter muito juzo. Vou voltar para a Alemanha at que
se acabe com esta escria e depois voltarei
tranqilamente. Voc se casa comigo e seremos os senhores de
Montillac... Sou paciente.
Deixou-se cair com todo o seu peso sobre ela, procurando sua boca,
seu sexo vasculhando-lhe o ventre. La cerrou os
dentes, todo o corpo tremendo.
- Amo-a, La, amo-a.
Gozou nela e deixou-se cair.
Um longo momento depois, desprendeu-se. Em seu sexo havia sangue.
La puxou o endredon sobre o corpo dolorido e ficou prostrada.
Ele acariciou-lhe o rosto; ela o repeliu secamente com a mo. Ele
olhou-a demoradamente sem dizer nada. Ela adormeceu ou
fingiu que dormia. E ele apagou a luz.

Captulo 15

LA FOI A PRIMEIRA a acordar, com uma dor terrvel no ventre.
Parecia estar um belo dia, um raio de sol
tentava penetrar no quarto atravs das cortinas, de um tecido
ordinrio avermelhado, revelando um horrvel
papel com grandes flores azuis e vermelhas, desbotado e rasgado em
alguns lugares. Um grande espelho
defronte da cama revelava-lhe sua imagem e a de Mathias adormecido.
Levantou-se. Seu relgio marcava onze horas. Onze horas! Com um
grande
esforo conseguiu levantar-se.
Tremendo de frio, no quarto gelado, enfiou as botas e o casaco.
Mathias virou-se na cama. Ela ficou por uns
instantes imvel, depois procurou sua bolsa debaixo da cama.
Tropeou na mesa sobre a qual os copos e os
pratos tilintaram. Mathias continuava dormindo.
No fundo do corredor, um homem magricela, amarelado, com uma ponta
de ugam apagada no canto da boca,
varria vagarosamente.
Fora, o cu azul havia substitudo a garoa da vspera. Havia no ar
como que um perfume de primavera que se
infiltrava nas ruas sem alegria. As doze badaladas soaram em
Notre-Dame. La ps-se a correr ao longo da rua
Montesquieu. Sempre correndo, atravessou a praa da Intendance,
teve de parar para deixar passar um bonde
e chegou ofegante diante do Regent. Era a hora do aperitivo, o
terrao estava cheio. Muitas mesas ocupadas
por oficiais alemes.
David devia estar louco ao lhe marcar um encontro ali! Ele no
estava no terrao. La resignou-se a entrar no
estabelecimento. Logo em seguida, viu-o num banco, lendo La Petite
Gironde. Tinha um ar rejuvenescido e
feliz.
- J sabe da novidade?
Ela negou com um gesto de cabea.
- Ontem, a rdio Londres anunciou que Leningrado fora libertada. 
Eu e Aristide, quase choramos quando ouvimos Jacques Duchesne
anunciar com voz emocionada. Voc percebe! Eles
agentaram dezesseis meses... No est com um ar muito contente...
- No  isso, mas tenho uma enxaqueca terrvel...  uma grande
novidade.
Ele olhou-a mais atentamente.
-  verdade que seu aspecto est pior do que ontem. No teve
problemas?
- No, tudo foi bem.
- E o Grand-Clment?
- Prometeu-me fazer tudo o que lhe fosse possvel. Marcou-me um
encontro em casa dele hoje s quatro horas.
- Perfeito. Direi ao Tte-de-pioche para estar l. No se esquea,
se qualquer coisa no correr bem, ponha o leno.
- A senhorita quer beber alguma coisa?
- Sim... No... Nem sei.
-J comeu esta manh?
- No, no tenho fome. D-me um refresco de morango e uma aspirina,
se tiver.
- Vou ver, senhorita.
Um grupo de jovens entrou rindo com grande alvoroo. Perto dela,
La sentiu David se retesar. Aqueles rapazes tinham, no
entanto, um ar inofensivo.
O garom voltou com o pedido e dois comprimidos num pires.
- Tem sorte, a patroa ainda tinha isto na bolsa.
- Agradea-lhe por mim.
- Quanto devo?
- Um refresco de morango e um copo de vinho branco... Seis francos,
senhor, sem servio.
- Vamos! Apresse-se, temos que escapar.
La engoliu os comprimidos e seguiu David. L fora deu-lhe o brao
e arrastou-a  rua Judaique.
- Por que samos to depressa?... Por causa daqueles rapazes?
- Sim.
- Por qu?
- Espero, por seu bem, que nunca mais os torne a ver. So os homens
do comissrio Poinsot.
- Aqueles? Pareciam estudantes!
- Estudantes engraados! Sabem manejar melhor o porrete do que a
lngua francesa. So perigosos, brutamontes sem
escrpulos que torturam e matam tanto por prazer como por dinheiro.
- Por que marcou encontro num lugar daqueles?
- Por que  ainda no meio do inimigo que se est mais em segurana.
Ns vamos separar-nos ali. O que pretende fazer
enquanto espera a hora de ir ao Grand-Clment?
- Vou caminhar um pouco, o ar me faz bem. Depois irei ao cinema. 
-  boa idia. V ao Olmpia, ver Les Visitears da Soir,
de Carn.
No  mau, apesar de o fim ser um pouco falho.
-J o vi em Paris. Que farei quando deixar Grand-Clment? 
- Ir para a estao de Saint-Jean tomar o seu trem. Diante do
quiosque de jornais, uma mulher com um guia de vinhos na mo ir
abordla, dizendo:
"O trem de Paris est atrasado
hoje", e voc responde:
"Parece-me que no". Conte-lhe o que se passou antes de tomar o
trem de Langon.
-  se por uma ou outra razo eu no puder estar na estao?
- Viremos a saber por Tte-de-pioche, que nunca deixar de a
seguir. Mas as ordens so que volte para casa o mais depressa
possvel.
- As ordens? - disse La, franzindo as sobrancelhas.
- Sim, quer queira quer no, agora pertence ao grupo e tem de
obedecer, no seu interesse e no nosso. Aristide  muito
exigente nisso.
- Onde est Lau... Lucius?
- Num lugar seguro nas Landes. Logo ter notcias dele. At logo,
Exuprance. Good luck.
- At logo, David.
- Sua amiga ser solta amanh.
La nem queria acreditar. Estava brincando, no era possvel!
- Como isso?
- A Gestapo chegou  concluso de que a senhora d'Argilat no sabia
nada das atividades do marido e que ignorava o
endereo onde ele se encontrava. A senhorita, por acaso, no
saberia?
O inesperado da pergunta quase a fez se trair. Como escondeu a
palidez que a angstia estampava em seu rosto e pde
responder com uma voz perfeitamente inocente?
- Eu? No, no o tornei a ver desde o enterro do meu pai.
Enganado ou no, Grand-Clment nada deixou transparecer.
- Ora, a est um homem prudente como gostamos entre ns.
- Entre ns?
- Sim, na Resistncia.
- Mas  muito perigoso - disse ela, com um misto de medo e de
admirao to bem-feito, que seu interlocutor aprovou com
jactncia.
- Muito, mas a libertao do pas tem esse preo.
La, que comeava a estar farta de se fingir de idiota e se sentia
pouco  vontade em frente daquele homem que ela no
discernia, perguntou-lhe:
- A que horas  que a senhora d' Argilat deve sair?
- No final da manh.  preciso providenciar um carro porque ela
est muito enfraquecida pela doena. Tomei a liberdade de
falar a seu tio, o senhor Delmas, que me disse para pr seu carro 
sua disposio, para acompanhar a senhora d'Argilat at
em casa.
- Fez bem, agradeo-lhe muito por tudo. Mas como  que conseguiu?
- Para falar verdade, pouco fiz. Quando falei ao diretor do campo
de Mrignac, ele disse-me que recebera ordens para soltar
a senhora d'Argilat e uma dzia de presas, por razes familiares.
Seria verdade? Em todo o caso era admissvel. La contentou-se com
aquela explicao e deixou Grand-Clment, que lhe
disse:
- Espero voltar a v-la em circunstncias mais agradveis.
Se no fosse a lembrana da noite como uma grande bola preta no
ventre, teria danado de alegria na calada de Verdun.
Deixava-se acariciar pelo ltimo raio de sol naquela bela tarde de
inverno. Decidiu ir at a casa de tio Luc Delmas para se
lavar enfim, e acabar com aquela impresso de imundcie... E, pela
primeira vez naquele dia, refletiu sobre o que havia
acontecido.
O Mathias de sua infncia e de sua adolescncia estava morto num
hotel srdido de uma prostituta imunda. Nunca teria
perdo. O que no conseguia perceber era o grau de realidade das
ameaas de Mathias. Ela o sabia capaz de tudo, mas
ignorava a extenso exata de seu poder sobre ela. No podia pensar
em expuls-lo de Montillac enquanto no soubesse a
verdadeira situao da propriedade e as revelaes que ele poderia
fazer  Gestapo...
Estava calor na sala de jantar do doutor Delmas e a refeio
servida pela velha e fiel cozinheira era to inspida como antes
da guerra.
Entre tio Luc e seu primo Philippe, que, por fim, acabara seu curso
de direito, para substituir o seu pai no escritrio, La
sentia-se cada vez menos  vontade.
-  uma sorte o meu pai ser amigo do governador, sem isso, a
senhora d'Argilat tinha fortes razes para passar muitos
meses na priso.
- Ento voc acha normal, voc, um advogado, que se ponha na priso
algum que nada fez?
- Ela talvez no tenha feito nada, mas o marido est, e muito bem,
sendo procurado pela polcia.
- Qual polcia? A francesa ou a alem?
- Voc bem sabe que aqui as polcias colaboram.
E difcil ignor-lo...
- Meus filhos, no discutam. Voc no tem razo, La, de adotar
essa atitude. Aqui, em Bordus, ns apenas seguimos as
diretrizes do chefe do governo. Qualquer outra conduta seria
contrria aos interesses do nosso pas. Pela escolha que fez, o
marechal Ptain preservou a Frana da desordem e da anarquia
comunista, sem contar as milhares de vidas humanas
poupadas...
- Tio Luc, o senhor esquece que aqui as vidas humanas, como diz,
no pensam muito, e que dezenas de refns foram
executados.
-  a triste conseqncia de atos de vandalismo cometidos por
irresponsveis pagos por Moscou e Londres...
- Meu tio! Como ousa dizer isso quando homens como tio Adrien e
Laurent d'Argilat...
Mestre Delmas levantou-se to bruscamente, que a pesada cadeira de
castanho caiu. Com um gesto de clera atirou o
guardanapo sobre a mesa.
- Eu no quero ouvir falar de meu irmo. Para mim, morreu, j tinha
dito. Quanto a Laurent D'Argilat, no compreendo o
que lhe aconteceu; era, no entanto, um bom oficial. Boa-noite, voc
me tirou o apetite.
LucDelmas saiu, batendo a porta. La esvaziou seu copo de vinho.
-  maldoso p-lo neste estado. No vai dormir esta noite.
- Isso no lhe far mal, um pouco de insnia. Poder refletir no
que far depois da guerra, quando os alemes a perderem.
- Minha pobre pequena! Amanh no  a vspera, voc faria melhor em
se ocupar de seus namorados em vez de se meter
em negcios de homens.
- Meu pobre Philippe! Ser sempre to estpido? Incapaz de ver o
mundo de outra maneira, seno atravs dos olhos de seu
pai. Pierrot compreendeu. Preferiu escapulir.
Foi a vez do primo se levantar, repentinamente plido.
- Felizmente voc no falou de meu irmo diante de meu pai, seno
eu a teria posto fora.
La encolheu os ombros e perguntou:
- Onde est ele? Tm tido notcias dele?
- Est preso na Espanha.
- Preso?...
- Sim, e ele no roubou. Papai quase morreu quando achou em seu
quarto um bilhete anunciando a sua inteno de ir para
Africa do norte, alistar-se.
- Evidentemente no teria sido voc a fazer uma coisa dessas.
- Voc pode gabar se quiser. Se no fosse o mau exemplo de tio
Adrien, nunca o rapaz teria partido. Felizmente, ele foi
preso antes de poder ir para Marrocos...
- Felizmente!...
- Sim, papai tem amigos advogados de Madrid, que lhe prometeram
repatri-lo.
- Ele voltar a fugir.
- Isso me surpreender. No se sai facilmente de um colgio de
jesutas, sobretudo se o pai insiste na necessidade de
preservar uma alma em perigo.
- Os grandes meios!
- Indispensveis nos tempos de hoje, minha querida. Voc faria
melhor em tomar como exemplo o filho do seu feitor.
- Mathias?
- Sim, o filho de Fayard que, apesar da sua origem, se comporta
melhor do que os rapazes do nosso meio.
- Ah, isso! Por se comportar bem, comporta-se muito bem! Voc 
ridculo, meu pobre velho, parece-me ouvir tia
Bernadette: "Os jovens deste tempo". Voc e os seus semelhantes so
uns sobreviventes, uns dinossauros...
- Dinossauros ou no, enquanto esperamos,  graas  gente como ns
que o pas se mantm de p.
- Voc acha que  estar de p viver esmagado pelas botas alems e
lamber-lhes as solas?
- Estou vendo que ouve com ateno os pobres tipos da rdio Londres
que, bem protegidos na sua ilha, chamam 
subverso os vadios comunizantes do nosso infeliz pas.
- Voc esquece os bombardeios dirios na Inglaterra.
- Nunca sero demais contra esses malandros ingleses.
- Voc, um homem de Bordus, falando assim dos nossos queridos
primos!
- Voc no tem graa, cretina.
Era, de novo, a mesma incompreenso, as mesmas discusses as mesmas
injrias desde a infncia.
La quase o deixou ali plantado para ir deitar-se, mas o que ele
dissera sobre Mathias inquietava-a.
- Que queria dizer quando falou de Mathias?
- Simplesmente que sua estada na Alemanha lhe ps chumbo no crebro
e que, em vez de passar o tempo olhando para
voc com olhos morrendo de amor, tornou-se um homem com quem se
pode contar.
- Que quer dizer com isso?
-  muito complicado explicar, voc ver. E tarde. Tenho de estar
amanh no tribunal. Boa-noite. O seu quarto  o de
Corinne. No esquea de apagar a luz antes de subir.
- Boa-noite.
La ficou muito tempo sonhadora, encostada  mesa com o queixo nas
mos, perguntando-se, com inquietao cada vez
maior, o que Philippe teria para dizer a respeito de Mathias.
Na manh seguinte, o doutor Delmas e La foram ao campo de Mrignac
buscar Camille. A pobre senhora estava to fraca
que um guarda teve de traz-la at o carro do advogado. Uma vez
cumpridas todas as formalidades administrativas,
deixaram, por fim, o campo, sob os olhares amorfos dos raros
prisioneiros que perambulavam sob uma chuvinha mida e
fria.
Meio deitada no banco traseiro do automvel, Camille olhava e via
abrir-se,  sua frente, o porto de arame farpado,
enfraquecida demais para sentir alegria.

Captulo 16

CamilleMAL TEVE foras para abraar o filho, a febre a enfraquecera
e fa zendo- perder a conscincia de
tudo o que a rodeava. O doutor Blanchard
diagnosticou uma congesto pulmonar e uma comoo cerebral. Durante
trs semanas esteve entre a vida e a morte. Uma de cada vez: Ruth,
Laure e
La, ficavam  sua cabeceira desesperando-se de ver ceder aquela
febre que
queimava aquele pobre corpo, cada vez mais descarnado. O mdico,
que
vinha todos os dias, arrancava seus
velhos cabelos brancos, chegando mesmo
a se perguntar se a novena de Bernadette Bouchardeau junto da
Virgem de
 Verdelais no teria mais chance de solapar a doena do que os seus
remdios o que era o cmulo para um
velho descrente como ele.
No meio de fevereiro, a febre cedeu de repente e, nos dias
seguintes, Camille recuperou pouco a pouco sua
lucidez. Mas estava to fraca, que no conseguia alimentar-se
sozinha e Ruth teve de aliment-la como a um
beb. Falar causava-lhe tambm um grande esforo. Enfim, nos
primeiros dias de maro o doutor Blanchard
declarou-a fora de perigo e viu-a com emoo levar  boca uma
colher de sopa. Por fim, conseguiu ler as cartas
de Laurent e os fragmentos de seu dirio que puderam chegar at
ela. Isso deu-lhe foras de novo. Guardava-
os preciosamente em sua bolsa de costura que nunca largava.
Nem uma nica vez, durante essa longa doena, La deixou Montillac.
Nunca soube nada do que Laurent dizia;
e nunca mais teve nenhum sinal de Mathias. Teria voltado para a
Alemanha? O casal Fayard estava cada vez
mais distante, fazendo sua obrigao sem dizer nada aos habitantes
do "castelo", apenas o bom-dia e a boa-
noite, quando, por acaso, se encontravam.
No fim de maro puderam instalar Camille ao sol, sentada numa
chaise-longue, coberta por
uma manta. Havia
recuperado um pouco
de peso, mas sua magreza e sua fraqueza eram assustadoras. Ruth a
carregava e a trazia de volta do jardim sem esforo.
O dinheiro era cada vez mais raro em Montillac. La e Laure foram
ver o notrio do pai em Cadillac. Ele aconselhou-as a
vender um pouco de terra, no lhes escondendo que lhes seria
difcil, porque no se vendia nada naquele momento, ou ento
a baixo preo.
- No poderamos hipotecar os pinheiros? - perguntou Laure.
- Suas propriedades esto amplamente hipotecadas. No sei se posso
deix-las comprometer ainda mais os seus bens.
- Se tivssemos outras solues, no estaramos aqui pedindo-lhe
conselho - exclamou La.
- Eu sei, minha filha, eu sei. Em nome da amizade que me unia aos
seus pais, poderei adiantar-lhes algum dinheiro que me
devolvero quando a sucesso de seu pai estiver feita.
La ia recusar, mas Laure disse logo:
- Muito obrigada, senhor Rigaud, aceitamos com gratido.
- Levarei o dinheiro a Montillac na prxima quinta-feira, com
alguns papis para assinar. No se esqueam de que, se
quiserem vender ou hipotecar,  preciso uma autorizao de sua irm
mais velha e de seu tioLuc, que  o tutor de Laure.
- , na verdade, indispensvel?
- Sim, absolutamente, Laure ainda  menor.
Enquanto pedalavam de volta, La teve a impresso de que um
ciclista, que ela j havia percebido vagamente na ida, vinha
atrs delas. No era a primeira vez, desde a libertao de Camille,
que tinha a impresso de ser vigiada.
- Pare - disse ela  irm.
Admirada, Laure obedeceu e desceu da bicicleta.
- Que h?
- Vamos sentar um pouco, estou cansada.
Sentaram-se na erva, no acostamento da estrada. O ciclista passou
sem olhar para ela. Era jovem e bem-vestido. Seu rosto
lembrava vagamente qualquer coisa a La.
-J viu alguma vez este rapaz? - perguntou  irm.
- Sim, no correio de Langon, quando mandei uma encomenda para tia
Albertine, estava logo atrs de mim...
-  lhe falou?
- No, sorriu-me. Ontem, tambm, quando passei por ele em
Verdelais. Mas...
Laure olhou para a irm com uma expresso inquieta.
- Voc no est pensando?...
- Sim. Eu tambm j vi esse rosto em alguma parte.  a primeira vez
que saio da propriedade desde que trouxe Camille de
Bordus... J sei! Lembro-me agora! Foi no Regent, estava com um
bando de rapazes da sua idade, muito barulhentos.
- Talvez esteja em frias aqui na regio.
- Em frias? No ms de maro?
- E por que no? Daqui a pouco  Pscoa.
- No acredito. Ser preciso prestar muita ateno.   mau, amanh
tinha intenso de ir a Role.
- Por qu?
- No posso lhe dizer, mas  preciso que me ajude.
Laure olhou para a irm sem dizer nada. Desde o dia em que a
Gestapo a levara com Ruth e Camilie e que ouvira os
policiais dizerem rindo que tinham meios de fazer falar fosse quem
fosse, seu ardor por Ptain ficara terrivelmente abalado.
Estava pronta a ajudar a irm a passar a linha de demarcao.
- Farei o que me disser.
As duas irms entraram rindo no aougue Saint-Macaire, depois de
colocarem as bicicletas no passeio contguo  loja. O
aougueiro, cujo filho era afilhado de sua me, acolheu-as com
grande demonstrao de
amizade. -
- Olhe, as pequenas Delmas! E raro v-las juntas, minhas lindas.
Depois, em voz baixa, embora s estivessem os trs.
- Arranjei aqui um bom pedao para dona Camille, isso vai-lhe
dar foras. Ela est melhor?
- Um pouquinho, obrigada, Robert. Sem voc, nunca se comeria
carne em Montillac. Vamos poder reembols-lo. O notrio vai-nos
adiantar dinheiro.
- No se preocupe com isso, senhorita La, veremos depois quando
esta puta de guerra acabar. Eu tenho pouco, mas
bastante para fazer uma sopa forte. Mas, por exemplo, hoje
precisava de algumas senhas.
- Voc tem senhas, Laure?
- Tenho...
 - Laure segredou  irm:
- Acabo de v-lo. Agora no vem sozinho, um outro rapaz o
acompanha.
- Robert, olhe discretamente para a rua. Conhece aqueles rapazes
que esto ao lado da loja de ervas?
O homem do aougue avanou at a porta, limpando as mos no
avental.
No. Mas j os vi rodando por a. Eles no tm um ar muito
catlico, esto muito bem-vestidos para os dias de hoje.
- Laure? Sabe o que deve fazer. Robert, posso sair pelos fundos?
- Claro, senhorita La. Vamos deix-los criar raiz, aqueles
tratantes. De onde esto no podem ver o quintal.
La desceu a toda velocidade a rua ngreme por detrs da igreja,
passou diante das grutas, tomou o caminho que beirava a
Garonne e voltou  estrada da Role, em Gaillard, pouco antes de
Saint-Pierre d' Aurilac.
Ao chegar ao posto de guarda da linha de demarcao, encontrou a
cancela aberta. No entanto, parou e desceu da bicicleta.
Um velho soldado alemo saiu da barraca.
- Ah! A moa da bicicleta azul, muito tempo no vejo passar aqui.
No precisa parar, passagem livre agora. Boa viagem.
Era verdade, pensou ela, voltando a subir na bicicleta, tinha me
esquecido que desde o fim de fevereiro j no existia linha
de demarcao entre as duas zonas.
Foi para acalmar a ansiedade de Camilie e a sua, que La decidiu ir
a Role perguntar ao casal Debray se havia notcias de
Laurent, e se podiam fazer-lhe chegar uma mensagem. Ruth, para quem
contara sobre o receio de estarem sendo vigiados
em Montillac, havia tentado dissuadi-la de ir a La Role, dizendo
que era perigoso no apenas para ela, mas para as pessoas
que ela ia ver. La respondera que sabia disso muito bem, mas que
no podia ficar mais tempo sem saber da sorte de
Laurent. Resignada, a velha gorvernanta vira partir as "suas" duas
filhas com uma apreenso que no podia dominar.
La percorreu a grande encosta at a vila. Na ponte cruzou com trs
camionetas pretas, e outras duas militares, de onde
soldados alemes lhe fizeram sinais. Este encontro impressionou-a.
Subiu a rampa empurrando a bicicleta, sentindo um
mal-estar cada vez maior. Ao atravessar o largo Gabriel-Chaique, um
grupo de pessoas, que parecia em grande agitao,
calou-se  sua passagem. Ela s se afastara por uns metros quando
um homem a ultrapassou, dizendo sem a olhar:
- V ao largo de Saint-Pierre, depois ao nmero 1, na rua de
Glaciere. Entre e espere por mim.
Havia uma tal autoridade na voz daquele desconhecido atarracado,
com roupa de trabalho e um bon da marinha que, sem
refletir, La dirigiu-se para a rua Numa-Ducros. Na rua de Glaciere
a cancela estava
 aberta. Ela entrou. Ainda no tinham decorrido cinco minutos
quando o homem do bon entrou, por sua vez.
-  do castelo de Montillac, perto de Saint-Maixant?
- Sou.
- O que veio fazer em La Role?
Que tinha ele que se meter?
- No tem nada com isso.
- No seja agressiva. Estou tentando evitar-lhe aborrecimentos.
 Que aborrecimentos?
- De ser presa pelos alemes, por exemplo.
La sentiu o medo minar-lhe a coragem. Balbuciou:
- Por que iriam me prender?
- Acabam de prender dois dos meus amigos que voc conhece.
- Os Debray?
- Sim. Ei! Pequena! No v desmaiar.
Agarrou-a por um brao e a fz sentar-se no degrau.
- Simone - disse ele -, traga depressa um copo de gua.
A porta diante da qual La estava sentada abriu-se e uma mulher
nova, com uma blusa xadrez azul, apareceu com um copo
de gua na mo.
- O que acontece, Jacques? -
-  para a senhorita, que no se sente bem.  uma amiga dos Debray.
- Ah! Pobrezinha!... Tome, beba.
Com as mos tremendo, pegou o copo. A garganta apertada no lhe
deixava passar a gua.
- Que aconteceu? - conseguiu ela balbuciar com dificuldade.
- No fique a - disse Simone -, entre em casa.
Com amizade, ajudou La a levantar-se. A pea em que entraram era
uma grande cozinha, onde no fogo fervia uma sopa de
repolho. Sentaram-se nos bancos em volta da mesa.
- Que aconteceu? - perguntou de novo La, com voz mais firme.
- Devem ter sido denunciados. Esta madrugada, uns vinte soldados
alemes e uns patifes de uns civis franceses cercaram a
casa. Um amigo que ia para a vinha escondeu-se e viu tudo. Com a
ajuda de um porta-voz, um dos civis disse-lhes para
sarem, seno dava ordem para disparar. Houve um momento de
silncio; depois, vindo do interior da casa, ouviram-se dois
tiros. Ento os boches comearam a disparar como loucos. Quando,
por fim, pararam, tudo estava cheio de fumaa azul.
Dois civis, de pistola em punho, entraram na casa. Saram muito
depressa, trazendo pelos ombros o corpo da senhora
Debray. A pobre mulher estava de camisola, com seus longos cabelos
grisalhos cheios de
sangue arrastando-se pelo cho. Encostaram-na a uma rvore, depois
voltaram para a casa. Quando reapareceram,
sustentavam pelos sovacos o senhor Debray que ainda se defendia, O
seu rosto desaparecia sob o sangue. Puseram-no ao
lado da mulher. Segundo o tal homem no era agradvel de ver. Ele
deve ter disparado uma bala na boca, depois de ter
disparado contra a mulher. Alm disso, falhara.
- Que horror! Por qu?
- Era da casa deles que seguiam as mensagens para Londres. Na
semana passada nos enviaram por pra-quedas material de
rdio de primeira qualidade. O pianista chegou no dia seguinte de
trem.
- Ele tambm foi preso?
No. Ele no morava l. Logo que se soube o que acontecera
levaram-no para os lados de Duras, para o bosque.
- E depois?
- Os civis e alguns soldados vasculharam a casa. Jogaram pela
janela o material de rdio, livros e mveis. Um dos civis
voltou a sair correndo e levantou brutalmente o senhor Debray, que
se deitara sobre o corpo da mulher. Meu companheiro
disse-me que do lugar onde estava via bem os ombros do infeliz
tremerem com os soluos. O outro comeou a sacudir o
ferido como um bruto, gritando:
- A lista!... Onde est ela?... Voc vai falar, velhote.
Da boca estourada no saia nenhum som.
- O patife deitou-o no cho e comeou a dar-lhe pontaps. O mais
horrvel, parece,  que o senhor Debray no fazia o
menor gesto para se defender, como se estivesse esperando um golpe
mortal. Quando ele levantou a cabea os alemes
atiraram os dois corpos para uma das camionetas.
"Eles deviam ir numa daquelas que h pouco me ultrapassaram e onde
os soldados estavam rindo", pensou La, enjoada.
- Houve ordens em alemo e, pouco depois, as chamas saram das
janelas. Aproveitando a fumaa que vinha em sua direo
e o escondia, meu companheiro fugiu e veio me prevenir. Ns dois
fomos avisar os camaradas.
Bateram  porta, que se abriu a um policial.
Paralisada, La viu-o avanar.
- No tenha medo, senhorita. Ele  um dos nossos.
- Albert,  a sobrinha do dominicano, ia para casa dos Debray. Voc
se lembra, eles nos falaram dela.
- Escapou de boa. Eles deixaram l homens que impedem a populao
de se aproximar, e que prendem aqueles que lhes
parecem suspeitos. At mesmo prenderam Manoel, o empregado dos
Rosier. Felizmente 
o prefeito veio ao local do incndio e o garantiu, e como ele no
est ao corrente de nada, o fez de boa f.
- Tem certeza de que o senhor Debray morreu?
- Segundo meus colegas, penso que sim. De qualquer maneira, mijava
tanto sangue que, sem cuidados, deve ter-se
esvaziado. Mas, mesmo assim, os amigos no dormiro em casa durante
alguns dias. Pai Terrvel, posso lhe dizer uma
coisa?
- Os dois homens saram.
Teve sorte que o Terrvel a tenha reconhecido disse Simone.
- Quem  o Terrvel? - perguntou La.
-  marceneiro, um tipo formidvel. Foi ele quem trouxe o posto
emissor para casa dos Debray.
- Voc tambm  da Resistncia?
Simone deu uma gargalhada.
- Isso  um palavro. Com algumas mulheres daqui e da regio,
passamos mensagens, s vezes armas, escondemos os
aviadores ou as crianas judias. Prepara-se a sopa para os que
chegam no meio da noite de pra-quedas.
- No tem medo?
- No, no pensamos nisso e depois, com homens como Albert Rigoulet
e Terrvel, sentimo-nos em segurana.
- Mesmo depois do que acaba de acontecer?
- Isso,  a fatalidade. Todos os que tm postos emissores em casa
sabem o que arriscam, e os Debray sabiam-no melhor do
que ningum. O que me espanta  que gente to crente como eles
tenham querido suicidar-se.
- No tinham escolha - disseJacques, o Terrvel, que acabava de
entrar. - O senhor Debray no teria falado sob tortura, disso
tenho certeza, mas no suportaria ver a mulher sofrer. Se Deus
existe, tenho certeza de que o perdoa. Diga-me, Simone,
pode nos dar qualquer coisa para beber?
-  verdade, aquela desgraa me fez esquecer as boas maneiras.
Tirou de um armrio uma garrafa de vinho, j aberta, e quatro
copos.
- Bastam trs, Rigoulet deve ter ido encontrar a guarda.
Simone serviu o vinho e, tocando os copos, beberam em silncio.
Terrvel pousou o copo, estalando a lngua contra o cu
da boca.
- Ainda  o seu vinho de Pied-de-Bouc?
- Sim, mas  um vinho so.
- Senhorita, agora que j sabe quem somos, quer dizer-me o que ia
fazer na casa dos Debray e se eles estavam avisados de
sua visita?
- No, eles no sabiam de nada. Eu vinha lhes perguntar se tinham
notcias de um amigo e se poderiam encontr-lo.
- Que amigo?
La hesitou. Que nome lhe deveria dar?
- Laurent d'Argilat.
- Conheo-o.
- Sabe onde ele est?
- Sei.
- Leve-me at l.
- Isso assim no  possvel, mas posso entregar-lhe um recado.
- Diga-lhe que a mulher est melhor, mas ainda muito fraca; que a
casa est vigiada e que me d notcias.
- A mensagem ser transmitida. Diz que sua casa est vigiada, tem
certeza de que no foi seguida?
- Completamente segura. Mas tenho de voltar e no devo demorar- me
muito.
- Quer, por sua vez, transmitir uma mensagem?
- Que mensagem?
- Em Saint-Pierre d'Aurillac, ver, no longe da igreja, um caf
com uma bela parreira. Pergunte por Lafourcade e dir-lhe-o
onde o encontrar. Quando estiver com ele, diga-lhe: "O co dos
Hostens est bom"
- "O co dos Hostens est bom?".
- Ele sabe o que isso quer dizer. Que no se esquea de avisar os
de Bane.
- "O co dos Hostens est bom." Compreendi.
- Obrigado, senhorita, faz-nos um grande favor. Se tiver qualquer
coisa para lhe dizer, no tem nenhum nome de guerra?
- Exuprance.
- Como a santa de Verdelais. A primeira vez que ouvi esse nome, foi
na boca do seu tio.
- Do tio Adrien? Como est ele?
- Muito bem.  ele quem levanta o moral dos jovens e sempre
acompanha os que querem passar para Espanha.
- Sabe se o meu primo Lucien est com ele?
- Lulu? O atirador de bombas?  claro que sim.
- Peo-lhe, diga ao meu tio que preciso v-lo.  muito importante.
- Eu lhe direi. Mas agora v embora. Simone vai acompanh-la at a
sada da vila. Seja prudente. Se qualquer coisa correr
mal, mande-me um bilhete  marcenaria dizendo: "As portas fecham
mal" e logo a ajudaremos. Adeus.
Quando La entrou pelos fundos da cozinha de Albert, em
SaintMacaire, soava uma hora da tarde no relgio da torre. O
homem do
aougue e a mulher Mireille, o ajudante e Laure, estavam instalados
na frente de uma perna de carneiro que lhe deu gua na
boca.
- Bravo! Parece-me que no se aborreceram por aqui, sem mim.
- Estavmos  sua espera - disse Laure, mostrando o talher diante
de um lugar vazio.
- Os outros repararam na minha ausncia?
- No, eu sa para buscar o po com Mireille e, ao passar diante
deles, eu a agradeci em voz muito alta por terem nos
convidado para almoar. Eles seguiram-nos de longe. Depois,
puseram-se  espreita por turnos. Viu seus amigos?
As lgrimas que conseguira reter at ali, deslizaram por suas
faces. Mireille, a mulher de Robert, levantou-se e apertou-a
contra si. Este gesto maternal redobrou o pranto de La.
Atrapalhado, comovido, o aougueiro andava em volta das duas
mulheres.
- Santo Deus, o que aconteceu? Que lhe fizeram, pequena?
- Nada... mas... Esta manh vieram prender os meus amigos... Eles
morreram...
- Mortos!
- Ambos?
Um pouco mais calma, mas sempre chorando, La contou-lhes o que se
passara. Um longo silncio pesado seguiu-se ao
final de sua narrao. Robert assoou-se com fora. Seu rosto,
habitualmente corado, empalidecera. Seu enorme punho bateu
na mesa, fazendo tilintar copos e pratos.
-  preciso que um dia esses filhos da puta paguem por tudo isso.
Senhorita La, peo que no se meta nisso. Os seus
amigos, isso  outra coisa, o filho tinha sido morto, eles no
tinham nada a perder. Mas a senhorita, a senhorita Laure e a
senhora Camille so muito jovens, deixe os velhos como eu, que no
foram capazes de os deter em quarenta, tentarem fazer
qualquer coisa.
- Patro, ns tambm temos alguma coisa a dizer. E Jeannot? Ele foi
para a Resistncia?
-  verdade, mas vocs.., vocs so homens.
- Sempre a mesma lenga-lenga - exclamou Mireille -' no  por que
se usa espingarda que se arrisca menos que vocs, ns, as
mulheres. At me d dor de barriga!
- No se enerve, no era isso que queria dizer.
- Mas disse, mesmo assim! Que uma mulher  menos que um homem que
s serve para pr as fraldas nas crianas, estar na
loja, cozinhar, lavar o cho e lhe fazer carinho de quando em
quando. Mas isso no impede que, quando se trata de
esconder suas armas ou seus ingleses, voc e seus companheiros
assim mesmo apelam para as mulheres.
Foi graas quela briga conjugal que La teve a confirmao de que
Robert trabalhava para a Resistncia. Achou isso um tal
conforto que teve fome de novo.
- Vocs so ambos espantosos, mas a carne vai esfriar e  uma pena.
- Isso  que  falar bem - disse o homem. - Deixar-nos morrer de
fome no d vida aos desgraados. Mas juro que havemos
de nos vingar.
Trs dias mais tarde, La recebeu uma carta de Franois Tavernier.
Evidentemente, o envelope tinha sido aberto pela
polcia e depois colado de novo. Ela foi ler no escritrio,
deliciando-se com cada palavra escrita na letra grande e inclinada
de Franois.
"La, minha linda,
No pode me acusar de no pensar em voc, visto que me decidi a
perder alguns dos meus preciosos minutos para lhe
escrever. Queria simplesmente felicit-la pelo seu forte sentido de
negcios. Tive a felicidade de beber ontem  noite, em
Paris, em casa de Otto Abetz, uma garrafa do vinho de Montillac.
Uma verdadeira maravilha de simplicidade e de
franqueza, com verdadeiro carter e um malicioso gostinho
adocicado. Esse vinho se parece com voc, como um irmo, e
lhe agradeo de t-lo comprado. Se continuar assim, vai se tornar
uma mulher de negcios esmagada de trabalho e de
responsabilidades, presa ad vitam aetemam s vinhas. Essa sua
imagem agrada-me.
Logo que me canse de beber de longe, no perderei a ocasio de ir
beber na fonte. Seja ajuizada e prudente. Ternamente a
abrao.
"P.S. J sei dos Debray."
Franois.''
Esta carta breve paralisou La. Como  que o vinho de Montillac
teria chegado a Paris? Como podia ter sido
servido  mesa de Otto Abetz? Pensou logo em Mathias e em Fayard.
Como teriam eles ousado? Sentiu- se
humilhada, tratada como colaboracionista...
Em pnico, com a idia de se defrontar com Fayard, concedeu-se o
prazo de uma carta. Escreveu logo a
Franois para lhe pedir pormenores e conselhos. Aproveitou para
encher longas pginas onde lhe dava
noticias de todos e de cada um, no deixando de lhe fazer notar a
que ponto era lacnico...
Como prometera, o notrio trouxe, na quinta-feira seguinte, uma
importante soma com a qual La pagou a
Fayard o que lhe era devido,
sem fazer nenhuma aluso ao seu comrcio. Sem uma palavra, ele
arrecadou o dinheiro.
Sentada  escrivaninha do pai, contemplou as encostas plantadas de
vinha verde e tenra, aquele prado onde corria atrs de
Mathias com grandes gritos e com quem, na estao dos fenos, ela
brincava, escondendo-se nos tneis perfumados, antes
de subir na alta carroa cheia de ervas secas, onde se deixava
embalar, com as mos na nuca, os olhos muito abertos para o
azul do cu, no qual voltejavam as andorinhas, ao ritmo do passo
dos dois bois, Larouet e Caoubet. Ela nunca podia evocar
esses momentos calmos da sua infncia, nos quais Mathias tomara
parte, sem sentir uma tristeza e um desnimo que a
prostravam por muitas horas...
Decidira mergulhar nas contas, para tentar ver claro e compreender
como  que Fayard podia desviar as garrafas em seu
proveito. Franois no respondera a sua carta. Os nmeros
danavam-lhe diante dos olhos. Como poderia ela medir-se com
Fayard, habituado a esses pequenos grficos, desde quantos anos?
Como encontrar a falha na contabilidade? Cansava-se em
clculos inteis e ningum da casa podia ajud-la porque decidira
guardar secretamente a revelao de Franois.
Cada vez que se achava sozinha, um surdo terror a invadia com a
idia de que Mathias a tinha prisioneira. Quanto mais
silencioso ficava, mais medo lhe causava.
Estava muito escura aquela noite de abril. Chovera durante todo o
dia e um vento frio, vindo do norte, agitava os ramos dos
pltanos da grande alameda. Sentadas na cozinha diante de um fogo
de sarmentos. Laure e La, com uma mesinha entre
ambas, jogavam cartas, Ruth remendava, Camille tricotava,
Bernadette Bouchardeau subira, para se deitar. S a luz da
lareira iluminava a sala, dando s trs mulheres o ar de
pertencerem a um quadro de Georges de la Tour. O assobio da
tempestade, o crepitar dai chamas, o barulho das agulhas, o riso
das jogadoras, intensificavam a impresso de calma e de
bem-estar familiar. A guerra parecia longe.
Uma corrente de ar fez Camille estremecer. Pousou o tric nos
joelhos e cruzou o xale  sua volta. Seus olhos dirigiram-se
para a porta. Estava ligeiramente entreaberta; o vento, decerto.
Apesar de sua fraqueza, levantou-se para fech-la. J
estendia a mo para o trinco quando a porta se abriu brutalmente,
machucando-lhe os dedos. Junto da lareira, suas
companheiras ficaram imveis. Um homem de roupas molhadas, que
sustinha um outro, entrou, empurrando a porta com o
p.
- Depressa... ajude-me.
- Camilie, saia da, sente-se, voc est atrapalhando. Ruth e
Laure, ajudem-nos!
Com a ajuda das mulheres, o homem estendeu o camarada na mesa.
Depois, habituado ao local, acendeu a luz.
- Lucien - exclamaram, ao mesmo tempo, La e Laure.
- Ele perdeu muito sangue. Ruth, v buscar os remdios.
- Sim, padre.
- Tio Adrien!
- Minhas queridas, no  hora para nos enternecermos. La, 
preciso ir a Verdelais buscar o doutor Blanchard.
- Mas no se pode telefonar?
- No, desconfio do telefone.
- Est bem, ento vou.
- Passe por Bellevue, no quero que os Fayard desconfiem de nada.
Vi luz na casa deles.
Uma hora depois, La trazia o mdico, resmugando contra o "bendito
tempo".
- Flix, fale mal de Deus em outra vez, agora cuide do rapazinho.
O doutor Blanchard tirou o velho impermevel e aproximou-se de
Lucien, cujas mos estavam envolvidas em ataduras
ensangentadas. Com gestos sbrios retirou aquele curativo
precrio.
- Meu Deus! Quem fez tal coisa?
- Uma bomba.
- Que fazia ele com uma bomba?
- Estava preparando-a.
- Esta razo, que decerto lhe pareceu boa, ps fim s perguntas do
mdico. Ele ocupou-se em fazer um exame dos
ferimentos.
-  preciso lev-lo ao hospital.
- Isso no  possvel. Eles avisaro a polcia e a Gestapo.
- A mo direita est perdida, temos de amput-la.
Por baixo da sujeira e da lama que cobriam o seu rosto, Adrien
Delmas empalideceu.
- Tem certeza?
- Veja,  uma pasta de sangue.
- Pobre pequeno! Vou chamar a me.
- No, Ruth! Sobretudo, isso no. Minha irm vai gritar, chorar,
acordar os vizinhos. Flix, vamos ajud-lo, diga-nos o que 
preciso fazer.
- Mas no  questo de eu amputar este rapaz. A ltima vez que
amputei algum foi num bom hospital em 17. Sou um
mdico de provncia, no sou cirurgio.
- Eu sei, mas no temos escolha. Se a Gestapo o encontra, vai
tortur-lo at que denuncie seus companheiros, matando-o
em seguida.
Blanchard olhou aqueles que o rodeava, amigos de sempre, depois
olhou o rapaz, que vira crescer e que perdia seu sangue.
- De acordo. Pea ao seu bom Deus que as minhas velhas mos no
tremam. Mande ferver gua. Foi sorte ter trazido o meu
estojo grande. Espero que os meus bisturis no estejam
enferrujados. Ruth, Adrien e La, vocs vo me ajudar. Camilie, v
se deitar, no pode ficar em p. Laure, cuide dela.
La teria dado tudo no mundo para no ficar ali. Foi, no entanto,
sem tremer, que aplicou um tampo de clorofrmio no
nariz do primo.
Nunca mais esqueceria o barulho da serra cortando o osso.
Durante a operao, uma vez ou duas, Lucien gemeu.
Quando o doutor Blanchard fixou a ltima atadura, o jovem, de vinte
anos, tinha perdido a mo direita e dois dedos da
esquerda.
No dia seguinte, acordou por volta do meio-dia e viu os rostos
inquietos da me, do tio e do doutor Blanchard, debruados
sobre ele e sorriu-lhes dizendo:
- Tinha-me esquecido o que era uma boa cama.
Bernadette Bouchardeau voltou a cabea para esconder as lgrimas.
Ao amanhecer havia surpreendido a todos pela calma
com que recebera a notcia da amputao de seu filho.
Todos esperavam gritos e desmaios. S as lgrimas correram, e ela
disse apenas:
- Graas a Deus! Est vivo!
Lucien teve um gesto para me.
- Mame!...
- No se mexa, meu rapaz. Voc perdeu muito sangue. Precisa de
repouso absoluto - disse o doutor Blanchard.
-  a minha mo, era muito grave, doutor?
Todos baixaram a cabea. Um gemido escapou  me.
- Por que no dizem nada?
Como estava pesada aquela mo enfaixada, que ele tentava levantar.
Que forma esquisita ela tinha, assim envolvida.
Em p, atrs da porta, La recebeu como uma punhalada o grito de
Lucien. Era aquele que toda a noite havia martelado em
sua cabea:
- No!... No!... No!... No! No!

Captulo 17

NO QUARTO DAS CRIANAS, Adrien Delmas andava de um lado para outro,
mergulhado no mais profundo desespero
que um padre possa conhecer: j no tinha f. Desde o incio da
guerra, lutava contra a dvida. Antes de entrar para a
clandestinidade, havia falado sobre isso a seu confessor, que o
aconselhara a aceitar esta provao enviada por Deus para
provar sua f. Por amor e pelo servio de Deus, o dominicano estava
pronto a aceitar todos os sofrimentos, mas agora se
sentia farto de suas oraes estreis, cujas palavras lhe pareciam
privadas de seu sentido original. Tudo isso lhe parecia de
uma confusa ingenuidade, e os homens que tinham dado a prpria vida
a servio de um logro lhe pareciam loucos ou seres
nocivos, espiritualmente desonestos. Em sua desolao, esquecia os
seus mestres, essas grandes inteligncias catlicas, aos
ps das quais a sua havia evoludo. Lanados s urtigas, os Pascal,
os Abade de Ranc, os Agostinhos, os So Joo da
Cruz, as Tereza d'Avila, os Chateaubriand, os Bossuet e outros
servidores da igreja. Todos estavam enganados, todos o
enganaram. Que podiam as suas vs palavras contra o desespero de
uma criana mutilada? Que poderia ele responder 
censura muda de uma me? O que acontecera quelas doces palavras
que to bem soubera prodigalizar aos moribundos e
aos feridos da Revoluo Espanhola? Ele era como a figueira estril
do evangelho: seca e sem frutos. De que lhe valia existir,
se sua existncia no trazia nenhum reconforto? Por sua culpa,
Lucien ficara estropiado para sempre. Porque fora realmente
por sua causa que o garoto entrara na Resistncia. Se tivesse se
contentado em ficar no convento da rua de Saint-Gnes,
como lhe ordenara seu superior, em vez de brincar de padre
resistente, seu sobrinho nunca teria ido procur-lo.
Ele sabia tambm que isso poderia ser falso, que seu engajamento em
nada influenciara Lucien. Eles haviam conversado
longamente durant
interminveis noites de inverno, passadas na fazenda que servia de
abrigo aos rapazes da Resistncia. No incio, eram
menos de uma dezena, mas, pouco a pouco, aqueles que no queriam
partir para o S.T.O. vinham procur-lo. Agora eram
uns trinta jovens, por quem se tornara responsvel. No era apenas
o chefe militar incontestvel do pequeno grupo, mas o
seu sustentculo moral.
Nunca, em nenhum momento, os resistentes haviam percebido seu
sofrimento espiritual. Poucos, alis, dentre eles, sabiam
que era padre. Todos admiravam sua prudncia, seu senso de
organizao clandestina e o relativo conforto em que os fazia
viver. Graas a seu perfeito conhecimento da regio, do terreno e
dos habitantes, tinha sempre sabido em que portas bater
para conseguir ajuda, dinheiro e alimento. Uns de seus amigos de
colgio, franco-maom e ntavel de La Role, havia, com a
ajuda de outros maons, criado uma rede de contatos regulares com
os meios manicos ingleses e tinha feito vir, em pra-
quedas, vveres, armas e vesturio. Os trabalhos cotidianos, a
proteo, as aes contra as cobranas, as prefeituras, a
sabotagem das linhas clandestinas, a busca de documentos falsos, a
passagem para Espanha de famlias judias, tudo isso
ocupava suficientemente as suas horas do dia e de parte da noite.
Mas, durante a noite, durante a noite interminvel,
desgastava-se lendo os Evangelhos, tentando o dilogo com esse Deus
que lhe fugia. Pela manh, mergulhava num curto
sono povoado de smbolos demonacos sados da imaginao da Idade
Mdia, ou das torturas refinadas dignas de
umJardin des Supplices, de Octave Mirbeau, que haviam perturbado
sua piedosa adolescncia. Emergia desse breve
entorpecimento, fatigado e cheio de tristeza. Com esse regime, seu
rosto estava cavado por profundas rugas, seus cabelos
embranqueceram, e sua roupa danava no corpo. O doutor Blanchard,
diante de tal mudana, ficara inquieto com sua sade.
Adrien o havia feito se calar, rindo. Que iria fazer agora com
Lucien? Impossvel deix-lo por muito tempo em Montillac,
seria muito perigoso. Lev-lo para o campo? No antes de trs ou
quatro meses. Mand-lo para Espanha? Possvel, mas
difcil. Muitos dos que tentavam passar, eram detidos, nesses
ltimos tempos. Era preciso contatar o padre Bertrand, de
Toulouse, que mantinha ligao com os frades suos.
Bateram  porta.
- Sou eu, tio Adrien.
- Entre. Perdoe-me ter invadido os seus domnios. Vem muito aqui?
La sorriu.
- Cada vez menos. Cresci muito, voc sabe.
- Eu sei.
-  voc, tio Adrien,  porque est infeliz que veio aqui? Com a
mo, ela reteve um gesto negativo e continuou:
- No tente me dizer o contrrio, eu o vejo bem. Eu o conheo.
Desde pequena que olho para voc. J no tem no olhar
aquela chama que nos atraa a todos para voc, que nos fazia querer
se parecer com voc...
- Voc  dura!
- - Talvez, mas voc no gostaria que lhe falasse de outra
maneira...
 horrvel o que aconteceu a Lucien, mas a culpa no  sua. Lucien
tinha escolhido; Laurent, Camille e eu tambm
escolhemos.
Voc no me vai dizer que, para si, no influi nada. Foi, no
entanto, eu quem a enviou a Paris.
E epto? No me aconteceu nada.
-  preciso no tentar o destino. Vi muitos rapazes e moas da sua
idade morrerem na Espanha e agora aqui. Abandone
tudo isso.
- No,  tarde demais. Sabe qual  o meu nome de guerra?
- Exuprance!
- Sim, como a santinha de que tanto gostava, lembra-se? Foi por sua
causa que, por minha vez, tambm a amei.
- Com tal proteo, no se arrisca nada.
Adrien no pde deixar de sorrir. Ela no valia de muito, a
proteo de uma santinha cuja existncia a prpria igreja ainda
questionava.
- Pretende ficar muito tempo em Montillac?
- No, seria muito perigoso para vocs. J a presena de Lucien as
compromete. Logo que esteja melhor partir.
- Mas onde ir ele? Que far? Agora  um enfermo.
O dominicano ergueu a cabea.
- Pensava nisso quando voc entrou.
- Tia Bernadette diz que seja para onde for que ele v, ela ir
tambm.
- S faltava isso. A minha querida irm na Resistncia!
- O que achou de Camille?
- No a achei muito mal.  uma mulher corajosa. Sou da opinio do
Flix. Ficar boa.
- Se Laurent a viesse ver, estou convencida de que se curaria num
instante.
Adrien olhou-a com uma surpresa divertida.
- Ora, ora, j no est apaixonada por ele?
O rosto de La enrubesceu.
- Isso no tem nada a ver.
- Voc no deve voltar a pensar nele,  um homem casado, pai de
famlia e gosta da mulher.
O movimento de humor da sobrinha no lhe escapou. Sempre to
esquiva a lies de moral, segundo vejo. No se inquiete,
no quero importun-la com isso, mas simplesmente coloc-la ao
abrigo de eventuais desiluses. Algum que parece
interessar-se muito por sua pessoa falou-me a seu respeito h algum
tempo.
- Quem?
No adivinha?
No estava com vontade de brincar de adivinhao.
- No.
Franois Tavernier.
Como no havia pensado nele? De novo um rubor lhe cobriu o rosto.
- Diga depressa, tio, quando  que falou com ele?
- H quinze dias, pelo telefone em Bordus.
- Onde estava?
Em Paris.
- Por que o chamou? O que disse de mim? Ele no respondeu  minha
carta.
- Vejo que est muito impaciente. Pensei que no o suportava. Por
favor.
- Apenas coisas banais. Pediu-me notcias suas e da famlia... Foi
tudo?
- No, ele tentar vir v-la depois da Pscoa.
- Depois da Pscoa! Ainda falta tanto!
- Que impacincia! Estamos em 10 de abril e a Pscoa  em 25.
La sentia-se to desamparada e perturbada que renunciou a lhe
falar de Mathias.
O rodar de um carro nas pedras da calada, portas se fechando e
vozes de homem petrificaram-os instantaneamente.
- V ver depressa. Se for a Gestapo, estamos perdidos.
La precipitou-se para o corredor e olhou pela janela que dava para
a entrada. No! No podia ser verdade; que viria ele ali
fazer? Abriu a janela e gritou, esforando-se por parecer alegre.
- Vou j!
Correndo, voltou para o quarto das crianas.
- No  a Gestapo, mas talvez no seja melhor. Vou para o quarto de
Lucien disse Adrien, levantando-se.
Antes de descer, La passou pelo quarto de Camille e explicou-lhe
rapidamente o que estava acontecendo.
Embaixo, Ruth havia mandado os visitantes entrarem na sala.
- La, que prazer em rev-la neste cenrio!
- Raphael Mahl! Que agradvel surpresa!
- Minha querida! ... Eu bem sabia que ficaria contente ao ver o
velho amigo.
Fervia de raiva, mas esforou-se por sorrir. Era preciso a todo
preo que ele no notasse seu medo. Um dos trs jovens que
o acompanhavam olhava o retrato de sua me, pintado porJacques
Emilie Blanche. Quando se voltou, as unhas de La
cravavam-se na palma da mo. Tentou dominar seu pavor.
O jovem que agora se encontrava  sua frente era o que ela havia
notado em Cadillac e em Saint-Macaire. Com
desenvoltura, aproximou- se dele.
- Bom-dia, senhor,  da regio? Tenho impresso de j o ter
encontrado.
O rapaz denunciou visivelmente o golpe.
-  muito possvel, senhorita, meus avs so de Langon.
- Foi talvez a que eu o vi, na cmara, num dia de compras. Como se
chama?
- Maurice Fiaux.
La afastou-se dele e dirigiu-se a Raphael, a quem deu o brao,
levando-o para o jardim.
- Venha, para eu lhe mostrar Montillac. Enquanto isso, vai me
contar que bons ventos o trazem.
- Voc sabe que eu tinha certos probleminhas com pessoas que voc
conhece. Tive de me resolver a partir, o ar de Paris no
me era favorvel. Lembrei-me dos momentos agradveis passados em
Bordus, em junho de 40, das minhas relaes com a
imprensa local, da Espanha no muito longe. Assim, pensei: por que
no Bordus? Devo confessar- lhe que at ontem no
pensava em voc. Estava com estes encantadores rapazes, no Regent,
bebendo alguma coisa antes do jantar, quando um dos
seus camaradas chegou. Na conversa, o nome da sua propriedade foi
citado. E perguntei se era mesmo a propriedade da
famlia Delmas, e responderam-me que sim. Foi assim que eu soube,
que aquele jovem era seu amigo de infncia e que voc
estava em Montillac. Emiti o desejo de v-la e seu amigo props me
trazer at aqui. Eis porque aqui estou.
Veio com Mathias.
- Sim, ele foi abraar os pais. No se aborrece que eu tenha
aceitado seu convite?
- De maneira nenhuma. Tenho de lhe agradecer de dar-me esse
prazer...
- Que lindo lugar, minha querida! Se habitasse aqui, nunca mais
quereria deix-lo. Que calma!... Que harmonia entre o cu e a
terra!... Sinto que aqui poderia escrever obras-primas.
Debruado no terrao, Raphael Mahl contemplava a paisagem que as
videiras demarcavam com linhas negras e regulares.
Poderia dizer que isto foi desenhado com lpis e rgua, de to
regular.
Veio cedo demais. Daqui a uma, duas ou trs semanas, a vinha ficar
como que prateada, depois torna-se verde plido,
depois ter flores... Olhe, aqui est Laure. Raphael, apresento-lhe
minha irm mais nova.
Bom-dia, senhorita. Agora fico conhecendo todas as graas de
Montillac.
Laure deu uma gargalhada, o que aborreceu La.
Camille est com Mathias. Pedi a Fayard para abrir o tonel para que
nossos visitantes possam degustar nosso vinho.
- Fez bem. Venha, vamos provar o clebre Chateau Montillac - disse
ela, amvel, tentando esconder a angstia que a invadia
ao ouvir o nome de Mathias.
Ento ele tinha ousado voltar.
Os trs jovens os seguiram em silncio. Na adega, encontraram
Camille, Mathias e o pai. La foi beijar Mathias como se
nada tivesse acontecido entre eles, fingindo no notar a brusca
contrao de sua boca.
- Voc exagera, poderia ter vindo nos visitar mais cedo.
- La tem razo - disse Camille. Eu queria agradecer sua
participao na minha libertao.
No tive nenhuma influncia nisso, fiz pouca coisa.
- No diga isso, sem voc talvez ainda estivesse l.
- A senhora partiu no momento em que aquilo ficou confortvel.
Agora h duchas disse um dos amigos de Mathias.
At que  interessante - disse La secamente. - E para quando  o
salo de cabeleireiros e a sala de cinema?
O rapaz corou, enquanto os camaradas escarneceram. Raphael
disfarou.
- Vamos, crianas, experimentar esse vinho.
Fayard desvirou os copos postos numa prancha coberta com papel
branco e, cerimoniosamente, serviu o vinho.
- A garrafa s tem dois anos, mas os senhores vo me dizer o que
acham.
- At em Paris se regalam com ele! - lanou La.
Fayard no se deu por achado.
Quando todos j estavam servidos, em silncio, cada um levou o seu
copo  boca.
J estavam no terceiro copo, quando La, aproximando-se de Mathias,
lhe disse:
- Venha, vamos sair. Quero lhe falar.
Depois da frescura e odor do vinho, que impregnavam o solo, a terra
batida e as paredes, a doura do ar e o perfume dos
primeiros lilases fizeram La sorrir.
Saiu, seguida por Mathias. Voltou-se bruscamente e, ofegante,
perguntou-lhe:
- Pensei que tivesse voltado para a Alemanha.
- Mudei de opinio. Tenho o que fazer aqui.
- Por que me trouxe Mahl e seus amigos? Eu no quero mais ver voc.
- Pensei que lhe daria prazer. Parecia conhec-la to bem!
La encolheu os ombros.
-  os outros tambm me conheciam?
- O carro era deles e propuseram nos trazer.
Eu no os acho muito simpticos.
- Tanto pior. A mim me convm. E voc deveria fazer o mesmo.
- O que faz com eles?
Trabalhamos juntos.
Que queria ele dizer? Se o que ela temia era verdade, Mathias no
podia ''trabalhar'' com eles, como dizia. Era preciso no
permitir que o pnico se manifestasse e tinha de se mostrar calma,
despreocupada. A vida de Adrien e de Lucien dependia
disso. Quem sabe se Raphael no teria feito negcio com a Gestapo,
em Paris, para tentar reencontrar Sarah? Deu-lhe o
brao e com o tom mais natural e o seu melhor sorriso, perguntou:
- Conte: o que voc faz?
Ele se contraiu contra aquele corpo, do qual s o pensamento j o
fazia tremer. Diante daqueles olhos cndidos que se
erguiam para ele, voltou a cabea com ar constrangido.
- Negcios.
- Espero, por voc, que no sejam os mesmos de Raphael. Ficaria
aborrecida se fosse procurado por trfico no mercado
negro - disse ela, conservando o sorriso.
No tema por mim. No h nenhuma comparao entre esse seu amigo
bicha e eu. Serei o intermedirio entre os vinhateiros
e os negociantes de vinhos de Munique, de Berlim e de Hamburgo.
Voc sabe como os alemes gostam dos nossos vinhos.
Alis, a maior parte dos oficiais superiores alemes que esto na
Gironde tinham negcios antes da guerra com os grandes
proprietrios. Eu estabeleo as relaes entre os pequenos
proprietrios e os comerciantes alemes.
E isso vai bem?
- Muito bem. Os negcios so negcios e as pessoas continuam a
beber do bom vinho, com guerra ou sem guerra.
Eu o probo, Mathias, de vender uma nica garrafa de Montillac.
Nunca!
La no conseguira se conter. A palavra estalou sonora. Eles
encontraram-se de novo num face a face hostil. Ambos
plidos, observaram- se tal como gatos prontos a saltar.
Bom Deus! Como ela era bela, aquela gara, naquela irritao que
lhe arfava as narinas e fazia acelerar o corao. Estava
indeciso entre o desejo de lhe bater ou de a abraar.
Quando nos casarmos, venderei o vinho a quem eu quiser.
Raphael, saindo a adega, gesticulava em sua direo... Berrava,
cambaleando:
- La, este vinho  uma maravilha! No posso continuar, j estou
embriagado.
Caro Raphael! Ela_o teria abraado. Ele se aproximou.
- No acredito.  preciso muito mais para lhe subir  cabea.
- No creia nisso, minha boa amiga. Envelhecemos. Veja, um exemplo:
antes da guerra. podia comer fosse o que fosse, puf!,
nada me fazia mal. Agora, um prato mais temperado, um almoo um
pouco regado demais, e fico com uns quilos a mais.
Olhe para mim, para o meu talhe!... Eu sei que a isto se chama
punhados de amor!... Mas, mesmo assim!...  uma pena,
no voltar a ter a linha de rapaz.
La no pde deixar de rir ao v-lo afastar o casaco para mostrar
os estragos.
- Ria, ria, mas ver... Por agora, orgulha-se de seus seios firmes,
do ventre reto e de seu lindo traseiro... Mas espere alguns
anos e trs ou quatro filhos... Depois falaremos.
- No entanto, no quer que eu o lastime por ter uns quilos a mais.
Quando a maioria dos franceses apertam o cinto! Faa
como eles: coma nabos.
- Puf!... Quer me matar?
Que homem engraado! La chegou a esquecer que espcie de homem era
Raphael Mahl.
- Diante de um peloto de execuo ainda seria capaz de gracejar e
de me fazer rir.
Os olhos de Raphael voltaram a ter aquela expresso de doura um
tanto triste.
- No poderia me fazer melhor elogio; rir ou fazer rir diante da
morte. Prometo que irei me lembrar, amiguinha.
E continuou, reencontrando a faceta de alegria, e levando-a 
parte:
Tem notcias ao nosso amigo Tavernier? Eis um homem que me intriga.
Tanto dizem que est com a Alemanha, como est
com Londres. Que pensa disso?
- Vamos, seja razovel. Franois Tavernier estava em Paris na
ltima vez que o vi, depois desapareceu completamente.
Estou aqui, afastada de tudo e tenho trabalho demais para me
interessar por um aventureiro. Mas o que  que o interessa!...
Deixe-me!
No me tome por imbecil, minha querida, voc estaria errada. Julga
que no reparei que ele estava apaixonado por voc e
que suas relaes no eram platnicas?
- No compreendo o que quer dizer.
- Julga que me esqueci da pea indecente que ele me pregou?
- Talvez salvando-lhe a vida.
- Isso  possvel. Mas no gosto de ser tratado dessa maneira.
- Vamos, Raphael, no seja to susceptvel.
Sem perceberem, tinham-se afastado de casa e caminhavam na vereda
que conduzia a Bellevue, entre as vinhas. Os outros
no os haviam acompanhado.
Mahl parou, olhou  sua volta, e de repente, com um ar cansado e
envelhecido, disse:
- Como deve ser bom viver aqui! Como este lugar me parece propcio
 inspirao! Nunca terei um lugar semelhante, nunca
conhecerei essa felicidade; escrever em paz comigo mesmo e com a
natureza que me rodeia. Porque ser que sou conduzido
pelas foras do mal que me afastam do meu eu profundo, do esforo
criador? O esforo  tudo, mesmo se o esforo no
conduz a nada. Tudo  produtivo e, no entanto, imediatamente
estril. Isso no importa. H sempre uma alegria no esforo.
Ah! Falta-me suficiente entusiasmo para ser um grande escritor. A
maior parte do tempo, os escritores so uns entusiastas
que se opem ao servio dos indiferentes. Fala-se como se quer,
escreve-se como se ...
Que desespero naquele homem aparentemente ftil, pouco honesto e
sem escrpulos! Como sempre La percebeu aquele
sofrimento de no ser grande escritor como ele sonhava, e sentiu
por ele uma ternura que no conseguia esconder.
Olhe estes campos, estes bosques! Mesmo que o homem e sua obra
desapaream de uma s vez, a terra continuar como
se nada tivesse acontecido. A inutilidade do homem parece-me
flagrante, em vista do Infinito. Intil e medocre. Um dia
escreverei o "Elogio da Mediocridade", talvez j lhe tenha dito.
Passo o meu tenpo a contar os livros
que no escrevo. Bom assunto, no acha? A no ser que eu faa uma
antologia dos horrores cometidos pelo homem.
Assunto inesgotvel. Mas a glria do homem,  de ter extrado a
beleza do horror... Uma das razes que-mais me
impediram de acreditar em Deus, um Deus bom, atento, conhecedor
absoluto de todos ns, sou eu mesmo. Eu digo que, se
Deus fosse tudo isso, no permitiria que eu existisse, nem
sobretudo que eu fosse como sou. Por vezes meu corpo inteiro
est inchado de lgrimas, que os meus olhos no conseguem esgotar e
das quais no sei como me esvaziar.
Chorava ao dizer isso, e o espetculo era completamente
insuportvel.
- Voc me despreza, no  assim? E tem razo. Nunca me desprezar
tanto como me desprezo a mim mesmo... Prefiro o
desprezo  sua compaixo. Entremos, os meus amigos vo se perguntar
o que estamos conspirando.
Por que veio, Raphael?
Antes de responder, tirou o leno e limpou os olhos.
-J lhe disse, tive desejo de v-la.
- A outra razo.
- Talvez. Saberia? Que  feito de nossa amiga Sarah?
La se retraiu.
- No!... No me leve a mal, no estou aqui para me informar sobre
ela, pergunto-lhe simplesmente se tem notcias de
algum de quem tanto gosto.
- No sei de nada.
- Esperamos que tenha escapado. Est completamente segura de seu
amigo Mathias Fayard?
''Aqui estamos", pensou ela.
- Tanto como voc.
-  tem razo - disse ele, sem pestanejar. - Os seus amigos esto
persuadidos de que voc trabalha para a Resistncia. Eu
lhes afirmei o contrrio. No penso que tenham acreditado.
- Por que me conta isso?
Porque gosto de voc e sentiria muito se lhe acontecesse qualquer
coisa.
A simplicidade com que dissera isso tinha o acento da sinceridade.
La deu-lhe o brao.
Raphael, tudo nesse momento  complicado. Sinto-me aqui to s
entre Camille doente, a minha tia queixosa, a minha irm
que se aborrece e os Fayard que esperam o momento de me tomar
Montillac; s tenho Ruth, que sinto verdadeiramente
slida.
- Tem a sua famlia em Bordus.
Quero v-los o mnimo possvel.
E o seu tio padre?
La largou-lhe o brao.
- Voc decerto j sabe que ele desapareceu e que  procurado pela
Gestapo.
-  verdade, tinha esquecido!... Perdoe-me. Julguei avist-lo pouco
depois de minha chegada a Bordus, ele estava mudado
e, depois, a ausncia do hbito...
Quando me falou nele a primeira vez j o conhecia?
- Havia assistido s suas pregaes da Quaresma em Notre-Dame.
Gostei muito do modo como falava da Graa e da
devoo  Virgem. Nessa poca eu desejei lhe ser apresentado, mas a
coisa no se fez. Lastimei muito.
- Ento, ele no o conhece?
-Jo.
-  pena, uma pessoa como voc o teria interessado.
- Quem sabe, se no nos encontraremos ainda um dia... A vida  to
estranha.
- Gosto demais dele, faz-me muita falta. Nunca mais o vi depois do
enterro de meu pai.
- Falaram-me em Bordus desse enterro. Estranho no, que a Gestapo
no tenha prendido o marido de sua amiga?
- Foi por causa de meu tio Luc.
E verdade que as posies tomadas por mestre Delmas, o casamento da
filha com um alto oficial alemo, o prximo
casamento de sua irm com o comandante Kramer, cria laos com os
ocupantes, que devem valer.
Tenho muita vergonha!
- A est uma coisa que  preciso no repetir diante de ouvidos
indiscretos.
- O que voc no vai hesitar em fazer, suponho.
- Minha pobre amiga, voc sempre se engana a meu respeito. Voc
sabe que o fao por interesse. Qual seria o meu, ao
denunciar a sua simpatia? Toda a gente sabe. Ainda se escondesse
ingleses ou resistentes! ... Mas no  o caso. Porque no 
o caso, no  verdade?
La desatou a rir.
- Sabe bem que voc seria a ltima pessoa a quem eu diria.
- E teria razo.
Chegaram de braos dados, rindo, ao ptio da casa onde se
encontravam Camille, Laure, Mathias e os trs rapazes.
- Ah! Aqui esto - disse um deles. - Estvamos sem saber para onde
tinha ido. Temos que ir, porque esto  nossa espera.
 verdade, onde eu estava com a cabea! Havia-me esquecido
completamente. La, obrigado pela sua acolhida. Se vier a
Bordus no deixe de me ver. Estou no Majestic, na rua
Esprit-des-lois. E muito agradvel, h belos mveis antigos.
- Fica muito tempo em Bordus?
- Isso depende de ver se consigo colocar alguns artigos na Petite
Gironde ou no Ia France, seno...
- Seno...
Raphael Mahl no respondeu. Beijou a mo de Camilie e beijou Laure
nas duas faces. Os jovens saudaram polidamente. As
trs mulheres beijaram Mathias.
Durante a noite, Adrien Delmas deixou Montillac, depois de indicar
a La que as armas estavam escondidas numa das
capelas do Calvrio de Verdelais; a da stima estab,
levantando-se a laje fendida,  direita da entrada.
No v busc-las seno em caso de absoluta necessidade e urgncia.
H l dez espingardas e vinte pistolas de que voc deve
saber se servir.
Assim espero.
- Perfeito. H tambm granadas e uma metralhadora. No as toque.
Quando voltar?
- Logo que Flix lhe diga que se pode transportar Lucien sem
perigo. Enquanto espera, redobre a prudncia. A visita de hoje
 das mais inquietantes, tanto mais que o inimigo est aqui.
Inimigo?
- Sim, o pai Fayard. Ele conhece cada recanto da propriedade e
circula por toda parte sem que se note, de tal maneira que
faz parte da paisagem. Quanto aos trs rapazes que vinham com
Mathias so todos nossos conhecidos. Um deles foi
mesmo condenado  morte e ser certamente executado dentro em
breve.
- Que fez ele?
- Denncias, roubos, violaes, torturas e assassinatos de todos os
tipos. Eu sei que ele abateu um judeu, com as suas
prprias mos, para roubar. Conhecia o desgraado desde a infncia.
- Fala como voc mesmo o conhecesse...
- A me dele era criada de todo o servio em casa de um amigo meu,
mdico de Bouscat. Como o pequeno no tinha pai,
meu amigo ocupou-se dele, mas s teve desiluses. A chegada dos
alemes, ele foi imediatamente oferecer seus servios na
rua do Chapeau-Rouge em troca de slida remunerao. Primeiro,
guarda-costas, pouco a pouco subiu de categoria junto a
seus empregadores. Atualmente, Poinsot, Dohse
e Luther utilizam-no... Mostrou-se suficientemente eficaz na noite
de 19 para 20 de outubro, no decorrer da operao que
devia "purgar a regio de qualquer presena de judeus
estrangeiros". Com ajuda da polcia, participou na priso de setenta e
trs judeus, homens, mulheres e crianas, que, na maioria, foram
deportados. Ele aproveitou para assaltar os velhos na casa
de quem a me fora empregada. Fez um bom trabalho... A tal ponto
que foi felicitado pelo comandante Luther em pessoa
na sua bela casa da avenida Mdoc, 224, que se tornou a casa do
marechal Ptain, exatamente em frente ao nmero 197,
onde Camille conheceu os seus mtodos, O maroto teve audcia, ao
sair dessa entrevista, de vir ver a me e de zombar do
medo dos judeus que fez levantar da cama... Meu amigo esteve
prestes a mat-lo como um animal malvolo. Louco de
clera, contentou-se em expuls-lo de casa com pontaps no
traseiro. Uma vez fora, o garoto jurou que o mataria.
Aconselhei meu amigo a deixar Bordus e ele recusou dizendo que o
seu lugar era aqui... Foi em casa dele que eu encontrei o
chefe do F.T.P. que, por estranha coincidncia, morava a seiscentos
metros da sede da Gestapo. O Bouscat  uma espcie
de placa giratria tanto da represso como da Resistncia...
- Ele  qual dos trs?
- Maurice Fiaux.
No  possvel! Ao v-lo no tem ar de um bruto.
-  isso que o torna perigoso; tem ar de to boa pessoa e  um
bonito rapaz.
- E Mathias est sabendo de tudo isso?
- No. E ainda um recruta novo e eles desconfiam. S lhe faro
confidncias depois de o porem  prova.
- Que quer dizer com isso?
- Quando ele denunciar, torturar ou executar algum. Ele j
comeou... Mais umas semanas e ser um autntico patife.
Irrecupervel.
- Como voc mudou, tio Adrien! ... Antes, diria para eu rezar...
Que mesmo as piores criaturas tinham uma parte de
inocncia que estava adormecida, e agora... Diria que no acredita
em mais nada mesmo, nem em Deus.
- Cada palavra de La era como um golpe de machado na alma dolorosa
do dominicano. Voltou-se de costas para a sobrinha,
verificou o bom funcionamento de sua arma, enfiou at aos olhos o
barrete basco, pegou uma pequena mala de papelo
prensado, com sua roupa, livros e algumas provises, e dirigiu-se
para a porta.
La teve um pequeno gesto completamente inesperado da parte de
algum que j no tinha f, deixou-se cair aos ps do tio,
dizendo-lhe:
Abenoe-me.
Adrien hesitou um segundo, depois fez o que lhe pedia.
Quando os seus dedos traaram por cima da cabea daquela filha
querida o sinal da cruz, uma grande paz se fez nele.
Ergueu La e a abraou.
- Obrigado - murmurou, afastando-se na noite.

Captulo 18

CONVIDEI MAURICE FIAUX para almoar.
Espantada, La deixou cair a caarola do leite que segurava.
- Oh! Que desastrada que voc ! - exclamou Laure. - Todo esse
leite bom perdido.
Um par de tapas voltou-lhe o rosto para o lado. Nos olhos azuis de
Laure, a mais nova das jovens Delmas, apareceram
lgrimas, e disse  irm, mais com surpresa do que com raiva:
- O que aconteceu?... Est louca?... Machucou-me muito.
- ]e vou continuar se no desistir desse almoo.
Tenho o direito de convidar quem eu quiser!
- No!
- E por qu? Voc no  a nica proprietria de Montillac, que eu
saiba!
- Voc sabe quem  Maurice Fiaux?
- Sei muito bem que ns julgamos que ele estava nos espiando por
causa das histrias da Resistncia, mas no  nada disso.
- Que quer dizer?
Laure baixou a cabea, limpou os olhos resmungando, com os cinco
dedos de La marcados na face.
Era a mim que ele seguia.
- A ti?
Sim, a mim!... No  s voc que agrada aos rapazes. J no sou a
garotinha de antes da guerra. Cresci.
- Vamos ficar calmas. Que voc agrade aos rapazes, no duvido. Mas
mesmo assim no acreditou no que ele lhe contou?...
Voc o reviu?
- Sim, esta manh, em Langon.  simptico, divertido, bem-educado.
Est de frias em casa dos avs... Depois da Pscoa,
volta para Bordus. Tem de trabalhar para ajudar a me.
La ergueu os olhos ao cu.
 muito comovente,!... E que faz esse bom rapaz?
No sei... No compreendi muito bem... Tem negcios.
- Negcios! Eis uma palavra cmoda para encobrir seja l o que for.
Eu vou lhe dizer quais so os negcios de quem o seu
belo corao se ocupa: trabalha para a Gestapo.
- No acredito!
- Tambm no queria acreditar... Foi tio Adrien quem me disse. Ele
torturou e matou vrias pessoas. Convidando-o, voc
caiu no lao e nos faz correr graves perigos. J pensou em
Lucien?... No que aconteceria se ele o descobrisse?
Laure empalidecera, fazendo sobressair as marcas do rosto. Ficara
em p, de braos cados, apoiada contra o fogo,
bestificada demais para perceber que a abundncia de suas lgrimas
havia molhado seu vestido branco. La teve pena dela e
ps-lhe a mo no ombro. Aquele gesto transformou o choro em grandes
soluos de criana.
- Eu no sabia!...
- Laure, La, que aconteceu? Que se passa? - perguntou Camille, que
acabava de entrar.
- Esta tontinha convidou Maurice Fiaux para almoar amanh. Oh! Meu
Deus!...
Durante alguns instantes s se ouviram os soluos de Laure e o
tictac do relgio. Camille foi a primeira a reagir.
- No serve de nada nos lamentarmos. Temos de arranjar uma soluo.
Eu disse-lhe para anular o convite.
Tudo menos isso! Ele perceberia que duvidamos dele. Pelo contrrio,
o convite deve se manter. Cabe a ns mostrar-lhe que
se engana a nosso respeito.
- Voc se esqueceu de Lucien!
No,  exatamente nele que penso. Tem de sair daqui.
- Mas ele est longe de estar curado.
- Eu sei.
- Ento?
- Venha. Tenho uma idia. Laure, amanh  preciso fazer como se
nada houvesse, como se acreditasse que esse rapaz 
apresentvel - disse Camilie, levando La.
- Est bem - balbuciou a pobre pequena.
As duas moas saram de casa pelo lado norte.
- Vamos dar um passeio pelas vinhas. A, estaremos certas de que
ningum nos ouve.
Andaram em silncio, Camille apoiando-se no brao de La. O sol de
abril envolvia o campo com sua luz picante, dando  
vinha e  casa de Sidonie, s rvores ainda pouco verdejantes do
calvrio, um relevo espantoso e a impresso de que 
bastaria estender a mo para toc-las. 
Como  que esta paz que sobe da terra no se comunica aos homens?
disse Camille, diminuindo o passo. 
- Qual  sua idia? 
- Esconder Lucien no celeiro de Sidonie. 
No celeiro de Sidonie! 
- Sim, podemos confiar nela, detesta os alemes. 
-  perto demais de Montillac! 
- Justamente. Nunca eles pensaro que se pode esconder algum to
perto. 
La refletiu. 
- Talvez voc tenha razo. Se fosse outra pessoa que no Sidonie,
eu diria que o dio aos alemes no  razo suficiente
para confiarmos nela. Mas tratando-se de Sidonie...
- Vamos v-la. Deve estar em casa, porque vejo fumaa na chamin.
Da casa de Sidonie, dominava-se toda plancie, certos
dias, a velha
mulher at julgava que se via o mar.
Como habitualmente, acolheu as visitantes com alegria,
oferecendo-lhes o inevitvel licor de cassir de fabricao caseira e
que no se podia recusar.
- Eh! Senhora Camille. At d gosto v-la to valente. E voc,
senhorita La, no est com boa cara. Estava doente, pois vi
o doutor Blanchard entrar por duas vezes em Montillac?
Da soleira de sua porta, nada do que se passava na propriedade,
onde servira durante tantos anos, podia lhe escapar.
- No, Sidonie, era para Lucien.
- Pobre pequeno! Mas eu pensei que ele estivesse na Resistncia...
Ele foi gravemente ferido. Agora est melhor mas no
pode ficar
em Montillac, seria muito perigoso para ele, que ainda est muito
fraco para voltar para o campo imediatamente. Ns
viemos lhe pedir se voc aceitaria escond-lo durante alguns dias
em seu celeiro.
Como se precisasse pedir!...
- Mas isso pode ser grave para voc, se os alemes vierem a saber.
- Nisso nem se fala. Quando  que o trazem?
- Esta noite.
Muito bem. Quem vai saber onde ele est?
- Se pudermos evitar de dizer  me dele, s ns trs.
- Ele pode andar?
Penso que sim, mas vai ser preciso passar o cipreste grande, onde o
caminho no  to bom.
- Eu irei ao seu encontro. Espero por vocs na terceira ala da
vinha, que vem da horta.
La acabou o seu copo de licor e disse, beijando-a:
- Obrigada, Sidonie.
- No h de qu, pequena... Voc no acredita que eu deixaria
apanhar, por aqueles porcos boches, o filho da famlia do
senhor Pierre?
No caminho de volta, La e Camille no disseram nada.
Ao chegarem  casa, Camille disse:
- Nem uma palavra a Laure sobre esta nossa visita.
- Como pode acreditar que Laure fosse dizer onde Lucien est
escondido?
- Desconfio sempre de uma moa apaixonada.
La olhou-a sem compreender.
- No vai pensar...
-  preciso prever tudo. Laure anda aborrecida. Seus amigos esto
em Bordus, ns no vemos ningum.  normal que ela
seja sensvel  corte de um rapaz.
Mas ele se serve dela.
- Provavelmente. Compete-nos convenc-la... Vou lhe falar. A noite
estava escura, um vento morno soprava de Landes.
Trs silhuetas avanavam ao longo da alameda dos ciprestes.
- Est bem, querido? No lhe di muito, meu amor? - murmurou uma
voz ansiosa.
No, mezinha... Tudo bem.
- Psiu! Calem-se... Tenho a impresso de que vem gente. - Todos se
imobilizaram.
O barulho de passos batendo nas pedras e esmagando a urze, se fazia
ouvir pelo caminho que bordejava as vinhas, por
baixo da alameda.
- Depressa, abaixem-se!
Os passos afastaram-se, regulares e calmos.
- Lucien, La, quem era?
- Fayard, de vez em quando ele faz rondas para ver se est tudo
bem. Mas no gosto disso.
- Por que no est com seu cachorro? - perguntou Lucien, em
voz baixa. -
- Sim, na verdade...  curioso. Decerto tem medo que o co faa
muito barulho ao avistar qualquer caa.
- No faam tanto barulho! Ele vai acabar ouvindo.
Ficaram imveis por alguns instantes, depois entraram na vinha.
- Ah! Aqui esto! Comeava a ficar aflita. Senhora Bernadette, no
devia ter vindo.
- No tenha medo. Saberei calar-me.
- Eu compreendo senhora Bernadette, eu compreendo...
- Vamos nos apressar, estou cansado - disse Lucien, avanando
sustentado pela me e pela prima.
Caminharam um momento em silncio.
- Sidonie, agradeo-lhe por querer esconder meu filho em sua casa.
-  normal, senhora Bernadette. Avisei o doutor Blanchard que
Lucien est agora em Beilevue. Ele passar por aqui
amanh, para cuidar do meu reumatismo.
- Ai! Meu Deus!... - exclamou Bernadette Bouchardeau.
Lucien estava quase caindo.
- Sente-se mal, meu filho?
- No, mezinha... No. As minhas mos dem-me muito e  tudo.
- Chegaremos logo.
Na mesa da modesta sala comum da casa, Sidonie tinha disposto uma
refeio que eles comeram  luz de vela. Um pouco
reconfortado com aquele vinho, Lucien levantou-se.
- Me, agora deve ir embora e prometa no voltar aqui enquanto
Sidonie ou o doutor Blanchard no a avisarem.
- Mas, meu filho!...
- Me, se eles me prendem, vo me torturar e eu denunciarei os meus
camaradas... J sofri tanto, sofro ainda tanto que no
poderei suportar novos sofrimentos. Compreende?
Bernadette Bouchardeau chorava de cabea baixa, torcendo entre os
dedos o seu leno mido.
- Farei como quiser.
- Obrigado. Eu sabia que podia contar com a senhora disse ele,
enlaando-a entre as mos envoltas em enormes ataduras
brancas.
- No se preocupe, dona Bernadette, eu velarei por ele como se
fosse meu filho.
- No precisa que o ajude a subir para o celeiro? - perguntou La.
- No, obrigado. At logo, cuide-se.
- At logo, Lucien - disse ela, abraando-o.
L fora, uma chuva miudinha comeara a cair. Estava muito escuro e
as duas mulheres torciam os ps nas valetas. At
Montillac, no trocaram nenhuma palavra. Sempre em silncio,
abraaram-se ao p da escada que conduzia aos quartos. Como se
carregasse um pesado fardo, Bernadette 
Bouchardeau subiu lentamente a escada.
La fechou a porta  chave e empurrou o slido trinco. Inspecionou,
na sala, se as janelas estavam bem fechadas. Aqueles
gestos cotidianos, completados no escuro, fizeram-na sorrir: "Todas
as noites, fao as mesmas coisas que meu pai: verificar
se as janelas e as portas esto bem fechadas. Era intil ir ao
escritrio, visto que j havia passado por l antes de ir a
Beilevue. Mas!... Ora! Esqueci de apagar a luz".
-Oh!
Instalados confortavelmente, um e outro, de cada lado da lareira
onde as brasas acabavam de se consumir, Camille e
Franois Tavernier conversavam calmamente.
Petrificada, La ficou no umbral da porta.
De um salto, Franois estava junto dela, machucando-a de tanto que
a apertava contra si. Ele estava ali... Ele viera... J no
tinha medo, ele iria proteg-la. -
- Bem, vou deix-los.  bom ver como La est feliz por v-lo -
disse Camille, levantando-se.
Continuando com La abraada, Franois pegou a mo de Camille e a
beijou.
- Obrigado, senhora d'Argilat, por me fazer companhia, apesar de
to cansada.
- Ruth preparou-lhe o quarto dos passarinhos, La vai lhe mostrar.
Boa-noite.
Eles devoravam-se com os olhos, incrdulos, no imaginando sentir
tanto prazer na contemplao um do outro. Com a
grande mo, ele desenhava-lhe os contornos do rosto, do pescoo e
dos lbios, La deixava-o fazer, atenta  voluptuosidade
que nascia sob aquela ligeira carcia. Por fim, as bocas uniram-se.
O profundo beijo os fazia tremer. Lentamente as mos,
belas e sbias, retiraram suas roupas... Ela acariciava a nuca
curvada, enquanto ele enrolava suas meias. Ela apoiava-se em
seu ombro abandonando-lhe o p. Logo estava nua. Esplendidamente
nua. Seu corpo, iluminado pelas ltimas chamas das
brasas, dava, apesar da sua graciosidade, uma impresso de fora
selvagem, de poder, frgil e ao mesmo tempo
indestrutvel. Aos seus ps, com a cabea erguida, ele olhava-a
fascinado. La ergueu-o e, por sua vez, despiuo. Mas seus
dedos por demais impacientes eram desajeitados. Sorrindo docemente,
ele afastou-os, num instante estava nu, nada
constrangido por seu sexo hirto. Levantou-a e levou-a para o velho
sof, onde tantas vezes, garota, seu pai a consolava de
seus desgostos. No espao de um instante, o cheiro do couro e o seu
contato fizeram-na voltar ao tempo
de sua infncia. A imagem de seu pai surgiu por detrs das
plpebras fechadas. Brutalmente abriu os olhos. Debruado
sobre ela, Franois murmurava o seu nome.
- Vem - disse ela.
Muito tempo fizeram amor, o desejo sempre renovado. De madrugada,
cansados, com o sexo dolorido, abraaram-se num
sono curto.
Os primeiros clares da manh os despertaram.
Titubeantes, rindo muito, vestiram-se.
La empurrou Franois para o quarto dos passarinhos, que se
oferecia aos amigos e fechou a porta atrs deles. Arrancaram
a roupa e precipitaram-se para a cama sob o edredon de cetim de
ouro desbotado. Agarrados um ao outro, voltaram a
dormir imediatamente.
- La, acorde... Mas onde est ela?
Laure bateu a uma porta.
- Bom-dia, Camille, desculpe, mas viu La, daqui a pouco  meio-
dia e Maurice no vai demorar.
- Bom-dia, Laure. No, ainda no a vi. Ela deve estar com certeza
no jardim ou na horta.
- No, j fui l. Ela no deve estar longe porque sua bicicleta
est ali... Ela talvez estej a com o amigo que chegou ontem 
noite ... Tu no achas esquisito essa gente que chega em plena
noite sem avisar?...
- O senhor Tavernier foi sempre original...
- Oh! Desculpe, esqueci-me dos meus ovos com creme no forno...
Logo que ela partiu, Camille bateu  porta do quarto dos
passarinhos.
- Senhor Tavernier  preciso levantar-se,  meio-dia.
- Obrigado, senhora d'Argilat, vou levantar-me... Meu amor acorde.
La abriu os olhos e voltou a dormir.
- Estou com sono...
- Minha querida,  preciso levantar-se,  meio-dia.
- Meio-dia!
De um salto, ps-se de p.
- Depressa, depressa, no temos um minuto a perder. O convidado de
Laure vai chegar.
- Esperar um pouco.
- Oh! No. Prefiro que ele no espere. Mas voc? No pode ficar
aqui.
- Mas por qu? Tem vergonha de mim? - disse ele, derrubando-
a na cama. -
- No se finja de idiota.  muito importante. Onde est minha
saia?... No encontro uma meia... E os meus sapatos...
Ajude-me.
- Tome, encontrei isso.
Ela arrancou-lhe das mos a combinao.
Vista-se depressa, eu vou mudar de roupa e volto j. Ele tentou
agarr-la, mas, rpida, ela lhe escapou.
Quando voltou ao quarto, vestida com o conjunto de l azul que
pertencera  me, e que Ruth havia reformado, com os
cabelos levantados, deixando sua nuca  mostra, Franois, de barba
feita, acabava de dar o n na gravata.
- Como voc est bonita!
Vestiu o palet.
- Como est elegante!... Por pouco vo pensar que se veste em
Londres.
- No irei levar a provocao to longe. Mas ainda existem
excelentes alfaiates em Paris, basta poder pagar. Fale-me agora
do convidado cuja vinda a pe fora de si.
Rapidamente contou-lhe o que soubera pelo tio e o que ouvira sobre
o bando de Maurice Fiaux. Falou-lhe tambm de
Mathias e da visita de Raphael Mahl.
- Esse homem ainda vive? - interrompeu Franois.
- Est mais vivo do que nunca... Mas Maurice Fiaux, o convidado de
Laure,  o pior de todos. Eis por que penso que 
melhor que ele no o encontre, compreende?
O barulho de uma corrida na escada e uns chamados os separaram. La
entreabriu a porta.
-J vou.
- Diga para pr mais um lugar.
- Mas...
Faa o que lhe peo.
- Laure?
- Sim!
- Lembrou-se de pr mais um lugar para o senhor Tavernier?
- Evidentemente!
La voltou a fechar a porta.
Mas est louco! ... Se ele adivinhasse?...
- Adivinhasse o qu?
- Que  da Resistncia.
- Bah!...
La bateu o p.
- Acabo por me aborrecer! Como quer que o apresente?...
- Diga que sou um homem de negcios parisiense, que faz uma visita
a um colega de Bordus e que aproveitei para vir v-la.
Mas quando ele rever Raphael...
- No se preocupe com Raphael, ele  sobretudo perigoso para si
mesmo. Venha, meu amor, estou com vontade de ver com
que se parece um gestapista francs de Bordus...
No final da escada toparam com Laure.
- Ele acaba de chegar... La, no posso acreditar em tudo o que me
disse...
- Irmzinha,  a verdade. No se esquea de que sua vida e a nossa
dependem de sua atitude.
- Sim - disse ela. - Onde est Lucien? Camille disse-me que ele foi
embora ontem.
- Eu no sei. Uns amigos vieram busc-lo. Vamos encontrar seu
convidado... Ah! Apresento-lhe um amigo de Paris,
Franois Tavernier.
- Bom-dia, senhorita!
- Bom-dia, senhor!
Juntos, entraram na sala onde j estavam Bernadette Bouchardeau,
Camille e Ruth, que enchia os copos com o vinho
branco doce de Montillac.
- At que enfim, aqui est - exclamou Bernadette com um tom
fingidamente descontrado. - lamos beber sem vocs.
- Franois, deixe-me que lhe apresente um dos amigos de Laure, o
senhor Fiaux, Maurice... No se importe que o chame
Maurice?... Apresento-lhe o senhor Tavernier, um velho amigo
parisiense, que nos deu o prazer de sua visita por ocasio
de sua viagem a Bordus.
- Bom-dia, senhor.  seu o jipe que vi ali?
- Sim... Se quiser... O meu correspondente em Bordus emprestou- me
para vir at aqui.
- Negoceia vinhos, senhor?
- Ocupo-me de tudo o que houver para vender, do vinho aos metais,
passando por tecidos e raes alimentares.
- No tem muita dificuldade em fazer suas provises?
- No, tenho as melhores relaes nos meios governamentais. Em
Vichy, vou almoar com Pierre Lavai e em Paris.., com
algumas facilidades... Sabe o que quero dizer?... Pode-se fazer
muitos bons negcios.
Maurice Fiaux terminou seu drinque com ar sonhador. Franois notou,
divertido, que o vinho de Montiliac era bem melhor
em Montiilac do que em Paris.
- Para a mesa - disse Laure, com ar preocupado. O meu sufl vai
baixar.
Esse almoo!... Nunca La, a gulosa, teria pensado que uma refeio
lhe parecesse to demorada. Mal conseguia comer seu frango, e
deixara mesmo um bom pedao no prato. Em contrapartida,
bebera muito. Maurice Fiaux tambm.
Habilmente, Tavernier o havia feito falar sobre si mesmo e do que
fazia. Primeiro com prudncia, depois, com a ajuda do
vinho, o jovem havia se mostrado, falando do seu trabalho na
prefeitura.
Verifico se o endereo dos judeus que devem ser presos est
correto.., que os membros da famlia esto todos ali.  um
trabalho de confiana, porque alguns dos policiais encarregados
dessa misso deixam fugir alguns - disse ele, com nfase.
La quase que gritou quando sentiu um p tocar o seu. Era Franois
que dizia, sorrindo:
- Essa conscincia profissional honra-o. Ah! Se todos os rapazes
fossem como voc.., a Frana, com a ajuda da Alemanha,
voltaria a ser um grande pas.
- No precisamos ser muitos. Um punhado de homens determinados
bastar para eliminar essa escria judia.
Voc sabe para onde os levam? - perguntou Laure com voz doce.
- Para Drancy, eu creio, depois de l para os campos de
concentrao da Alemanha, mas poderiam tambm mand-los para
o inferno, que isso me seria completamente indiferente.
- Eas crianas tambm trabalham por l? - havia murmurado Camille.
No, minha senhora, por humanidade no as separamos das mes.
Quando ele falou em "escria judia", La havia revisto o rosto
queimado e o corpo torturado de Sarah, e voltado a ouvir a
voz rouca com leve sotaque: "os nazis querem nos matar a todos...
mulheres e tambm crianas".
Com alvio, viu-o levantar-se.
- Desculpem-me, tenho de ir embora, esto  minha espera... para
negcios - disse ele, com leve cinismo.
Saudou-os a todos efusivamente. Laure o acompanhara at o carro.
Ningum havia dito nada at a volta de Laure, que se
lanou nos braos de Ruth.
- Nunca mais quero v-lo... Nunca mais quero v-lo - soluava ela.
Camille, La e Franois haviam descido lentamente at o terrao,
onde, em silncio, deixaram o ar mido e perfumado de
abril tentar expulsar seus negros pensamentos.
 tarde, o doutor Blanchard passou para dar notcias de Lucien. O
rapaz estava o melhor que era possvel. Mas chamou
La  parte.
- Raul e Jean Lefvre entregaram-me esta carta para voc.
Um raio de alegria desanuviou o lindo rosto de La.
- Raul e Jean!... O senhor os viu?
- Sim.
- Como esto eles?
- Muito bem. Se quiser v-los, venha  minha casa na hora de
consultas.
La abriu a carta e leu:
"Rainha do nosso corao, a sua lembrana nos ajuda a viver.
Sab-la to prxima de ns nos deixa loucos e no resistimos
ao desejo de contempl-la. Venha logo, ns a esperamos com
pacincia e angstia. Seus escravos devotados
J. e R."
Ela sorriu.
- Uma boa notcia? - perguntou Franois Tavernier.
- Lembra-se daquele rapaz que estava  minha espera na igreja de
Saint-Eustache? Com a Petite Gironde no brao?
- Jean Lefevre?
- Sim, esta carta  dele e do irmo. Estou to contente!... Tinha
tanto medo de que Raul tivesse sido morto ou ferido
durante a fuga.
- Tem certeza de que  a letra dele?
-  no s a sua letra, mas o doutor Blanchard disse-me que eles
esto em casa e que eu poderia ir l v-los amanh.
- No v!
- Por qu?
- No sei. H qualquer coisa que me faz desconfiar.
-  normal que eles gostem de me ver... A fora de freqentar gente
como os seus amigos de Paris, v traidores e malandros
em toda a parte.
- Talvez tenha razo. Vamos dar uma volta ao famoso Calvrio onde
brincava quando era pequena.
La corou ao pensar no jogo muito menos infantil que brincava com
Mathias numa das capelas.
Franois reparou nisso.
- Diga-me, marota, brincou l de outra coisa alm de esconde-
esconde?
- Vamos pelo pinheiral, assim evitaremos Beilevue.
Quando estavam sob as rvores, ao abrigo dos olhares, os dois
amantes enlaaram-se e desceram lentamente as ladeiras do
Calvrio, parando em cada uma das estaes da Via Sacra para olhar
as capelas de pedra.
Diante da stima estao, La no disse nada. Chegaram  vereda
estreita que rodeava o cemitrio. A porta estava aberta e
eles entraram. Fazia muito tempo que La no ia at o tmulo de
seus pais, e sentiu- se culpada. Maso tmulo no parecia
abandonado. Belos ciclames brancos, como sua me tanto gostava,
estavam pousados na pedra. S Ruth podia ter o culto
das recordaes e da amizade.
O peso da ausncia inclinou-a para o cho procurando em vo as
palavras de uma prece.
Um tiro estalou.
- Isso vem da praa - exclamou La, levantando-se.
Correu atravs dos tmulos, escorregando no cascalho das ladeiras
mais ngremes e esburacadas. Seu movimento fora to
rpido que surpreendeu seu companheiro.
- La... espere por mim.
Sem se voltar, continuou sua corrida, atravessou o porto e desceu
as escadas que desembocavam na igreja de Verdelais. Ali
parou. Tudo estava calmo, calmo demais. A praa estava deserta, o
que no era habitual quela hora do dia.
No momento emque Tavernier a alcanou e agarrou seu brao, ouviu-se
uma outra detonao.
- A Gestapo - murmurou ele, indicando os dois carros negros parados
diante da mercearia da senhorita Biancou.
O trote de um cavalo e o rodar de uma carroa foram ouvidos.
Franois empurrou La contra a parede.
-  o carro do doutor Blanchard...
- Tem certeza?
- Toda a gente aqui conhece a charrete do doutor Blanchard.
- Meu Deus!...
No momento em que ele se levantava, o carro passava a trote
ligeiro.
- Doutor!... Doutor!...
O carro continuou seu caminho, deu a volta no fundo do largo e veio
colocar-se diante da casa vizinha da mercearia. No
mesmo instante, as quatro portas de um dos carros abriram-se. Trs
homens bem- vestidos saram de metralhadora em
punho. Um oficial alemo saiu por sua vez sem se apressar e
dirigiu-se ao doutor Blanchard, que acabava de prender o
cavalo  tlia, como de costume.
Lentamente, Franois obrigou La a recuar... Subiram as escadas que
conduziam  pracinha onde se encontrava o
monumento aos mortos. Ali, estenderam-se de barriga na areia. De
onde estavam, dominavam a praa e a cena de que foram
espectadores impotentes; as folhas novas das tlias ainda no
escondiam as fachadas das casas.
O tempo parecia suspenso no n das rdeas de couro ao lado da
rvore... Quando verificou que estava slido, o velho
mdico voltou-se.
A fala do oficial chegava-lhe confusa, Os gestos do doutor
Blanchard pareciam indicar que ele nada sabia. Com certeza ele
no respondia como devia, porque os dois homens lanaram-se sobre
ele e bateram- lhe com as coronhas das armas.
La queria saltar, mas Franois manteve-a no cho...
Ento tudo se passou rapidamente. Tiros partiram da casa do mdico.
Um jovem saiu, com as mos crispadas no peito, deu
alguns passos e caiu dobrado sobre si mesmo, perto do amigo do
padre Adrien, cujos cabelos brancos estavam empapados
de sangue.
-Jean!... - gemeu La.
Um prolongado grito de mulher fez-se ouvir. Era a criada do mdico
que, vendo o patro ferido, corria para ele. Um homem
a seguia, com os braos levantados, tambm ferido no rosto.
- Raul!...
Dois civis armados tentaram empurrar a criada. Ela agachou-se
gritando para aquele que durante toda a vida havia servido e
amado. Um horrvel pontap a fez largar a presa... Ela voltou 
carga. Um tiro estourou por detrs dela. O pesado corpo
caiu. O homem que havia atirado usava um chapu.
- No!...
A areia abafou o grito de La.
O do doutor Blanchard chegou at eles, terrvel.
- Marie!...
Atirou-se para socorr-la. Uma pancada na nuca derrubou-o. Dois
homens levantaram-no e levaram-no para um dos carros.
Fizeram a mesma coisa a Jean. No segundo carro empurraram Raul. As
portas bateram, os automveis arrancaram,
levantando uma nuvem de p. Tomaram a direo de Saint-Maixant. Uma
camioneta cheia de soldados alemes surgiu e
seguiu-os. Todas as precaues tinham sido tomadas. O p recaiu
suavemente sobre o corpo da criada. O cavalo no se
movera.
Ainda estendidos na areia do largo do monumento aos mortos,
Tavernier sustentava La, que vomitava. O negociante de
medalhas, mesmo em frente do monumento, acorreu at eles, com os
olhos rolando em todos os sentidos.
- Vocs viram?... Vocs viram?...
Os aldees comeavam a aproximar-se.
- A senhorita est ferida?
No, pode buscar um pouco de gua?
- Sim, com certeza...
Ele voltou com um balde trazido do cemitrio, que encheu de gua na
bomba. Encostada a uma rvore, La no vomitava
mais. Seu rosto salpicado de areia e de lgrimas estava
irreconhecvel.
- Vocs viram?... Vocs viram?... - continuava a perguntar o
comerciante, colocando o balde perto deles.
Depois partiu correndo para casa do doutor Blanchard. Franois
molhou o leno na gua e lavou a pobre figura.
- Estou com sede.
Das mos fez uma concha que ela sorveu avidamente por trs vezes.
- Por que no fez nada?... Deixamo-los prender e matar  nossa
vista...
- No podamos fazer nada... Acalme-se.
- No quero me acalmar. Pelo contrrio, quero gritar.., lutar.
- Por agora, a melhor maneira de lutar  retomar o seu sangue frio.
- Se tivssemos armas...
- Mas no as tnhamos e ramos dois contra dez, talvez vinte.
Armados ou no, ns no tnhamos nenhuma possibilidade
de os salvar, mas a certeza de desencadear uma carnificina e de
sermos presos.
La, com o rosto coberto de lgrimas, batia cada vez com mais fora
com a cabea contra o tronco da rvore.
- Talvez... Mas teramos feito qualquer coisa.
- Basta! Vai se machucar. Pense antes em avisar aqueles que podem
ser presos. Os seus amigos arriscam-se a falar. A regra
nmero um da clandestinidade  de desaparecer quando algum membro
do grupo  preso...
Como que picada por uma vespa, ela se levantou.
- Lucien! Depressa.
Sem um olhar para a praa que se enchera de gente, La correu pelo
caminho do Calvrio. Sempre correndo, chegou  stima
estao e entrou na capela, com Franois no seu encalo.
- Ajude-me! Levante esta pedra quebrada.
Franois obedeceu. Debaixo da pedra rachada, escondiam-se
espingardas, revlveres, metralhadoras, uma pistola-
metralhadora, granadas e munies, envolvidas numa lona.
- Que arsenal! - disse ele, com um assobio de admirao, pegando
numa metralhadora. - So Stens, muito bons para o
combate a curta distncia, mas terrivelmente perigosos nas mos de
um desajeitado. Que est fazendo?
- Voc est vendo. Pego os fuzis.
- Deixe isso! No pretende levar essas armas para Montillac em
pleno dia.
-Mas...
- No hmas, ponha uma granada em cada um dos bolsos, eu levo dois
revlveres e trs pacotes de balas. Se for necessrio,
voltarei para buscar o resto esta noite... Vamos recolocar a pedra.
Depois de terem coberto cuidadosamente as armas, fecharam o
esconderijo. Com alguns ramos, Franois apagou o trao da
sua passagem. Quando acabou, tomou La nos braos e beijou-a.
- No  ocasio para isso. Deixe-me.
- Cale-se, pareceu-me ouvir barulho...
Em p,  entrada da capela, deviam ser um belo alvo.
- Vamos embora, devo ter-me enganado.
A sua volta, a colina cheia de capelas parecia deserta. Mas como
saber?... Em cada uma delas algum poderia estar
escondido, observando.
Foram at os ps das trs gigantescas cruzes que dominavam o
panorama. Olhando os dois ladres, Franois disse, como se
falasse para si mesmo:
- Sempre me perguntei se valia mais ser crucificado com pregos ou
atado...
Aborrecida, La afastou-se dele.
- No seria melhor deixar para mais tarde esse tipo de reflexes?
Ao sair do bosque do Calvrio, passadas as antigas minas, a
propriedade de Montillac estendia-se diante de seus olhos.
Sem terem combinado, pararam.
- Tudo tem um ar normal... Que pensa? - perguntou La.
- Como posso saber?... Eles talvez nos esperem l em casa. Vou na
frente.
- No. No quero!... Venha - disse ela, voltando a partir. - Vou
passar por Believue. Se houver qualquer coisa de anormal,
Sidonie saber.
- Sidonie? No  em sua casa que est escondido o seu primo Lucien?
- Quem lhe disse isso?
- A senhora d 'Argilat.
Bela, a cachorra de Sidonie, veio ao seu encontro, saltando e
latindo.
Quando entraram em casa, Sidonie colocou na mesa uma velha
espingarda de caa.
- Bem me parecia, pelo latido do co, que era voc, mas qualquer
coisa no som de sua voz me dizia que no vinha s.
-  um amigo. No percebeu nada de particular nos lados de
Montillac?
- No, a no ser o convidado desta manh. Este senhor?
- No. Ele chegou esta noite quando eu estava aqui.
-  curioso porque no ouvi nada... Diga-me, voc chorou?
- Oh! Sidonie! - disse ela, lanando-se ao pescoo da velha.
- Minha pequenininha. O que houve?
- Eles mataram Mame.., e... prenderam o doutor Blanchard...
- Meu Deus!
-E Raul... ejean...
- Senhora, no h tempo a perder,  preciso que Lucien saia de sua
casa, no est mais em segurana.
Sidonie empurrou suavemente La e deixou-se cair numa cadeira, de
narinas arquejantes e respirao ofegante, apoiando
uma mo no peito. Com a outra, apontou o armrio. Franois
compreendeu. Abriu o mvel e encontrou numa prateleira um
frasco em que estava escrito:
dez gotas em caso de se sentir mal...
- Traga-me gua.
La pegou num cntaro que estava no cho e derramou gua num copo,
que estendeu a Franois.
- Beba - disse ele, forando os lbios da doente.
L fora, Bela arranhava a porta uivando.
- Ela ir morrer?
- No, olhe... Parece menos aflita. Que barulho  este?
Um alapo acima de suas cabeas rodou entre duas traves. Lucien! -
gritou La.
- V buscar a escada que est l fora.
Deixe, que eu vou - disse Franois Tavernier.
Logo estava de volta e apoiou a escada contra a abertura. Sem a
ajuda das mos, Lucien desceu.
Ouvi tudo.  amigo de meu tio Adrien, no  verdade?
- Sim. Est melhor, minha senhora? Devia deitar-se.
Sidonie deixou-se levar para a cama que estava na sala, e Franois
deitou-a com precauo.
- Muito obrigada, senhor. Muito obrigada... Agora cuidem do rapaz.
Lucien aproximou-se e beijou-lhe a testa.
- Nunca esquecerei, Sidonie. Obrigado por tudo.
- Ande, ande, v embora...
- Por enquanto no.  preciso esperar pela noite. Com La vamos a
Montillac buscar o carro e chamar o mdico.
- Se  para mim, no vale a pena... Perguntem s  senhorita Ruth
se no quer vir passar a noite aqui.
- Como quiser, minha senhora.
- Voltem depressa. Tenho a impresso de estar numa cilada sem
nenhum meio de me defender - disse Lucien, mostrando os
cotos.
H dez minutos andavam sem dizer nada, perscrutando a estrada mal
iluminada pelos faris pontilhados de azul.
- Onde me leva?
- Para a casa de uns amigos, em Saint-Pierre d'Aurillac - respondeu
La.
- Eles fazem parte da Resistncia?
- Sim.
- Um amigo marinheiro e o irmo... Onde estamos? No vejo nada...
Penso que estamos em Gaillard... Sim,  isso, vamos
chegar logo.
Saram da aldeia e rodaram por alguns instantes no campo. De
repente apareceram mais casas.
- Paramos na pracinha atrs da igreja. O caf Lafourcade  do outro
lado da estrada, em frente ao monumento aos mortos.
Espere-me, volto j.
Alguns minutos depois ela j estava de volta.
- Apressem-se, eles nos esperam.
Atravessaram a estrada e subiram os dois degraus do caf na entrada
de uma ruela. Na sala mal iluminada, distinguiram
mesas de madeira e cadeiras. Uma mulher de uns cinqenta anos,
vestida de preto, aproximou-se.
- Entrem, meus filhos, sejam bem-vindos. Oh! O pobrezinho! O que
lhe aconteceu?
- Ao manipular explosivos perdi a mo.
- Que desgraa! Venha sentar-se. Jeannot, sirva uma bebida.
Num copo grosso, o vinho tinto e espesso tinha um gosto de pedra,
deixando os lbios manchados.
Os dois irmos, Jeannot e Maxime, devoravam com os olhos a linda
jovem sentada no canto da mesa, que bebia o vinho de
seu pai.
Franois Tavernier contou o que acontecera em Verdelais.
- Ns soubemos por um garoto de l que serve de correio... Vocs os
conheciam bem, penso eu, senhorita?
La baixou a cabea incapaz de impedir que as lgrimas rolassem.
- Sim... Conhecia-os desde pequenos. Foi o doutor Blanchard que me
ps neste mundo e... Raul e Jean os meus maiores
amigos de antes da guerra... No compreendo...
- Foram trados. Logo que o doutor Blanchard partiu para fazer
visitas, um carro chegou, onde havia um oficial alemo e
trs civis. Uma
camioneta cheia de soldados estava escondida mais embaixo... 
intil lhe dizer que toda a gente se trancou em casa.
Depois chegou um outro carro conduzido por um rapaz. Tocou  porta
do mdico. Vieram abrir e no se sabe o que
aconteceu. As pessoas ouviram dois tiros.
- Ns tambm ouvimos.
- Sabem o que aconteceu depois.
- Para onde os levaram? - perguntou La.
Maxime virou a cabea e foi o irmo quem respondeu:
- Foram para Bouscat, a sede da Gestapo.
- Os trs?
Sim.
- Mas eles estavam feridos!
- Essa escria pouco se importa... Os feridos deixam-os morrer
num canto.
- No se pode tentar nada? Por enquanto, no.
-Oh!...
Exuprance, no perca a coragem, um dia eles pagaro por tudo isto
- disse Maxime. - Enquanto espera, vamos esconder o
ferido, cuidar dele e conseguir pass-lo para a Africa do Norte.
- Vocs vo ter muita despesa. Tomem este dinheiro.
- Senhor disse a me -, ns no fazemos isso por dinheiro.
- Eu sei, senhora Lafourcade, o que vocs fazem no tem preo. Mas
o caminho-de-ferro e o mdico tm... Exuprance...
seria imprudente ficar mais tempo.
Ele tem razo. Vo-se embora antes do toque de recolher. Franois
inclinou-se diante da senhora Lafourcade.
- Senhora, d-me a honra de beij-la?
A honra  minha - disse ela, rindo e dando-lhe sonoros beijos.
- Tome bem conta dele disse La, beijando-a por sua vez.
- No receie nada, est em boas mos.
Jeannot foi ver se o caminho estava livre e acompanhou-os at o
carro.
Encolhida junto de Franois, La no conseguia dormir.
Continuamente desfilavam  sua frente as cenas sangrentas daquela
tarde. Arrependia-se de no ter pensado nas armas. Algum os havia
trado... Quem podia estar ao corrente dos irmos
Lefvre em casa do doutor Blanchard?... Ela mesma s o soubera uma
hora antes do drama. Que dissera Maurice Fiaux?
Esperam-me para negcios". Apesar do chapu ela estava certa de que
ele abatera Marie e ferira Jean no ventre. Era ento
esse o "negcio" de que falara com ar to satisfeito. Um assassino,
tinha dito Adrien. Era um assassino que havia deitado os olhos
sobre sua irmzinha... Era absolutamente preciso
afastar Laure de Montillac; La adivinhava que, apesar de advertida
sobre quem era Maurice Fiaux, estava subjugada por
ele. Depois do alemo, o da Gestapo...
o seu pai iria se virar no tmulo. Enfim, adormeceu.
- La... La... No tenha medo. Ainda estou aqui. Ainda o pesadelo?
- Sim. Eles me perseguem sempre em Orlans em chamas... eu chamo..,
e ningum vem.., eles so cada vez mais numerosos
a querer me matar e desta vez... Maurice Fiaux est com eles... Era
ele... No  verdade?
- Sim, penso que sim.
- Como se pode matar com tanta indiferena? No acha isso estranho?
- Estranho? No. Eu vi na Espanha e agora na Frana muitos homens
capazes disso.
- E voc seria capaz?
- Se fosse preciso.
-J o fez?
A rpida crispao que transformou o rosto de seu amante no lhe
escapou.
- Sim, quando foi necessrio.
- Com a mesma indiferena?
- Indiferena?... No, determinao, sim. Mesmo voc, quando...
- No era a mesma coisa!... Ele iria nos matar... Eu no tinha
escolha!
- Estou de acordo, mas, se voltasse a acontecer, tornaria a
faz-lo, sabendo agora que matar, em certos casos e para certas
pessoas,  muito fcil. -
- Que est dizendo?  horrvel... Compara-me a esse assassino.
- Tem de reconhecer que, se tivesse hoje mesmo possibilidades de o
matar, o faria.
La refletiu.
- Sim.
- E obedeceria a um sentimento de vingana, enquanto que Fiaux o
fez com a pureza da indiferena.
-  absurdo.
- Concordo. A esta hora da noite, estou pronto a dizer seja o que
for de tanto sono.
-  divertido, s pensa em dormir!
- Eu vou lhe mostrar se s penso em dormir!
Camille havia levantado trs vezes para dar de beber ao pequeno
Charles, que h dois dias estava com febre.
"Um grande resfriado", diagnosticara na vspera o doutor Blanchard.
Agora estava dormindo. Ela no se cansava de olhar
para ele, to vulnervel em seu abandono. Em criana, Laurent devia
ter a mesma expresso, os mesmos cabelos loiros, a
mesma fragilidade. Quando voltaria a v-lo? Durante a doena, cada
vez que acordava, Camille havia esperado v-lo  sua
cabeceira.
Andava de um lado para outro, tentando com esse movimento esconder
a sua angstia e pensar em outra coisa... No dia
seguinte iria avisar Bernadette Bouchardeau da partida do filho.
Previa gritos, lgrimas, e os receava. Como gostaria de
poupar esse desgosto quela mulher um tanto ignorante. La lhe
pedira, e Camille no sabia lhe recusar nada. "Gosto tanto
dela como de Charles", dizia-se por vezes. Mulher racional, no
compreendia muito bem a violncia dessa ligao. "Gosto
de v-la viver,  mais intenso do que eu mesma viver. Tenho mais
medo por ela do que por Laurent, talvez porque seja
mulher e porque adivinho melhor o mal que lhe podem fazer,
sobretudo depois da priso na Gestapo e da cela do forte de
H. Quando no est em Montillac receio o pior. Franois Tavernier
 como eu, tem medo de perd-la.''
A pancada de uma pedra nas persianas da janela, contra a qual
apoiava a cabea, arrancou-a desses pensamentos. Apagou a
lamparina que estava junto da cama do filho, voltou  janela,
abriu-a e afastou ligeiramente as persianas. Em baixo, no ptio,
a silhueta de um homem.
- Camille - sussurrou o desconhecido.
Essa voz... Era ele! Todo o seu mal-estar desapareceu.
Precipitou-se para a porta, desceu as escadas quase voando,
atravessou o escuro da sala de jantar, abriu a porta e empurrou os
grandes batentes da entrada. Laurent atirou-se em seus
braos.
Pela primeira vez desde h mais ou menos trs anos que Laurent
d'Argilat e Franois Tavernier se encontravam frente a
frente. Este encontro perturbou La, mais do que ela teria
imaginado. Ver os dois homens juntos parecia-lhe de repente
chocante. Laurent, com sua barba, os cabelos muito compridos e as
roupas disformes, parecia um vagabundo ao lado de
Franois, elegante demais em seu terno de bom feitio. Era Laurent
quem agora parecia um aventureiro. " o cmulo",
pensou La.
Falavam em voz baixa, a um canto do quarto das crianas, que La
fechara a chave. De comum acordo, Camille e ela haviam
decidido que Bernadette e Laure no seriam informadas de sua
presena em Montillac.
O tempo estava sinistro e frio. Um verdadeiro tempo de Sexta-feira
Santa. 
- Onde est Charles? - perguntou La. 
- Est brincando com Laure - respondeu Camille. - Se tivesse visto
a cara engraada que ele fez quando o pai o levantou nos 
braos! Desta vez o reconheceu. 
Os dois homens voltaram. 
- Ns estivemos pensando no que fazer, Tavernier e eu. Estou
perfeitamente de acordo com ele; vocs tm de deixar 
Montillac durante um tempo e levar Laure. 
- E Charles? - perguntou Camille. 
- Tambm, evidentemente. 
- Concordo com vocs, mas para onde ir? 
- A Paris. 
- A Paris!... - disseram elas ao mesmo tempo. 
- Sim,  ainda l que h menos perigo para vocs; por um lado por
causa de Franoise, por outro, por causa de Tavernier 
que pode organizar uma espcie de vigilncia  sua volta. 
- Mas voc, Laurent, para onde vai? - perguntou La. 
- Eu parto novamente esta noite. Um avio vir buscar-me para me
levar a Londres e depois para a Africa do Norte. 
Camille estremeceu. 
- Voc vai se deixar matar - soluou ela. 
- Arrisco do mesmo modo ficando aqui. Tenho at mais possibilidade
de viver se partir. 
- Ento.., v. 
La sentara-se no meio dos almofades, de sobrancelhas franzidas. 
- Um sorriso, v l, querida amiga, seno vou pensar que continua
apaixonada por este heri romntico - segredou Franois. 
- Deixe-me em paz! 
- Pare de demonstrar descontentamento, podero notar. 
- Que me importa! 
- No seja infantil, a situao se presta a isso. Est ouvindo?...
Bem. V telefonar s senhoras Montpleynet... 
- Para qu? 
- ... para lhes pedir que as recebam durante algum tempo... 
- As trs! Mais o beb? 
- Sim. J amanh. Se a Gestapo no vier antes prender a todos,
partiremos para Bordus, onde tomarei o trem com vocs 
para Paris. 
- Mas Laure talvez no queira partir. 
-  preciso convenc-la.  sobretudo ela que  preciso afastar de
Montillac. No deve rever Fiaux. 
- Compreendo... Vou telefonar. 
- Diga s suas tias que Camille precisa consultar um especialista e
que voc a acompanhar devido ao seu estado de sade. 
- E Laure? 
- Diga que ela se aborrece, o que no  mentira. 
- Em Paris, ns nos veremos? 
- Tanto quanto possvel, meu corao. 
- Bem, vou telefonar. Acompanha-me? 
- No, ainda tenho qualquer coisa a dizer a Laurent antes de ir
para Bordus. 
- Vai agora a Bordus? 
- Sim, vou tentar obter notcias dos seus amigos e cuidar das
passagens de trem. 
Durante o resto do dia, La teve de vigiar Laure. Ela no parava de
chorar, encolhida numa das poltronas da sala. 
- Mas, enfim, porque est chorando? 
Essa pergunta redobrou-lhe as lgrimas e ficou sem resposta. 
Franois Tavernier havia telefonado para dizer que s voltaria na
manh seguinte e que elas deviam estar prontas para 
partir. Ruth, avisada, havia aprovado a partida e convencido Laure
da necessidade disso. 
- No se preocupe com nada - dissera a La -, eu olharei por
tudo... Sidonie vai-se instalar aqui at que se restabelea. 
Promete que vai me escrever sempre, que vai me deixar a par de
tudo? 
Bernadette Eouchardeau, toda entregue ao desgosto de ter de novo
perdido o filho, no fizera nenhum comentrio. As dez 
horas, Laurent desprendera-se dos braos de Camille e depois de um
ltimo beijo na testa do filho adormecido, sara na 
noite,. com a mochila cheia de roupa lavada. La o acompanhara at
a estrada, passando pelo caminho sob o terrao para 
evitar a casa dos Fayard. Do fosso, surgira um homem que lhes
acendeu a lanterna em pleno rosto. 
-  voc mesmo - disse, apagando-a. - Apressemo-nos, o avio no
espera. 
Do bosque, tirou duas bicicletas. Laurent beijou a fronte de La. 
- Cuide bem de voc e deles - recomendara, afastando os braos que
tentavam ret-lo.

Captulo 19

CENTO E NOVENTA E CINCO MORTOS!... Os bombardeios aliados tinham
feito cento e noventa e cinco 
mortos em Bordus, no dia 17 de maio de 1943. 
Com que satisfao Hrold Paquis, da Rdio Paris, tinha dito e
repetido aquilo. Os quarteires da estao 
tinham sofrido, os trens circulavam mal. "Felizmente, pensou
egoisticamente La, ns partimos a tempo." 
Que confuso! Naquele sbado da vspera de Pscoa, uma multido
carregada de embrulhos, de cestos, de 
crianas, tomava de assalto os trens que partiam para Paris. Como
Franois Tavernier conseguira ter 
compartimento de primeira classe s para eles? Aquilo parecia
milagre, visto que mesmo os corredores de 
primeira estavam apinhados. Camille se recusara a acompanh-los ao
vago-restaurante, tomando como 
pretexto o pequeno Charles. 
Ao entrarem no vago, La arrependeu-se de no ter ficado no
compartimento comendo o que Ruth lhes havia 
preparado. Os comensais, na maioria, eram oficiais ou soldados
alemes, e homens e mulheres, de aspecto 
muito prspero. 
Muitas cabeas se viraram  entrada de duas moas bonitas.
Mostraram as senhas ao chefe de mesa para 
comerem uma das piores refeies da guerra. Franois rira diante do
desapontamento de La, Laure 
praticamente havia deixado tudo no prato, sob o olhar esfomeado de
um jovem soldado... 
O prazer de rever Albertine, Lisa, Franoise e seu beb devolveu a
Laure uma parte de seu bom humor. 
La achou as tias e Esteile envelhecidas e cansadas. Desde que
chegaram, Franois viera jantar uma nica vez 
na rua da Universidade, partindo logo em seguida  refeio. 
Por carta, Ruth lhes comunicara o suicdio do doutor Blanchard.
Como o senhor e a senhora Debray, no hesitara em se 
matar para no falar. Jean e Raul Lefvre estavam no forte de H.
Tinham sido torturados. 
Foi no carro que os levou a Bordus que Franois Tavernier lhes
contara o que soubera quanto a seu destino. Haviam sido 
levados para o nmero 197, da estrada de Mdoc, e interrogados o
mais brutalmente possvel, mesmo Jean, cujo ferimento 
no peito j o fazia sofrer. 
Recusando-se a falar, tinham sido atirados para o poro e
brutalmente espancados. Os carrascos tiveram de parar para no 
os matar. Tinham autorizado o doutor Blanchard a cuidar de Jean.
Conseguira extrair a bala que parecia no ter provocado 
grandes danos. Foi  noite que ele se suicidara, com a ajuda de uma
cpsula de cianeto, fato que Tavernier soubera dias mais 
tarde. 
Laure nunca mais falou em Maurice Fiaux. 
Nas vitrinas da livraria Galhimard, no bairro Raspail, s havia
alguns volumes desbotados. La folheou um livro de pginas 
amarelas, cujo autor nada lhe dizia. O mesmo vendedor do incio da
guerra aproximou- se. Usava calas de golfe e uns 
sapatos de solas grossas de borracha. 
- No leve esse livro, senhorita, no vale nada. 
- No tenho nada para ler e no sei o que comprar... Como  que as
prateleiras esto quase vazias? 
- Neste momento vende-se seja o que for. Vendeu-se quase toda a
totalidade do nosso estoque. No conseguimos novo 
fornecimento. 
- Mas por qu? 
- Porque os franceses voltaram a ler. Que quer que eles faam? O
cinema no  possvel todos os dias, portanto lem. 
- Lem o qu? 
- Tudo o que h: Homero, Rabelais, Spinoza, os padres da igreja, eu
sei l?... Mas tenho qualquer coisa para voc. Ns 
reservamos as novidades para os nossos antigos e bons clientes. Que
diria do ltimo romance de Marcel Aym? 
- Decididamente voc gosta desse autor. 
- Muito. Olhe, eu o dou embrulhado para que outras pessoas no o
vejam. 
- Qual  seu ttulo? 
- Le Passe-Muraille. 
Voltou a sair, aconchegando o precioso embrulho ao peito. Enfim,
tinha uma boa noite em perspectiva. Tudo o que havia 
na biblioteca das tias j fora lido e relido. Nunca La se
aborrecera tanto em Paris, 
entre Camille, que consagrava todo o seu tempo ao filho, as tias
que s falavam de abastecimento, Laure, que passava os 
dias e por vezes as noites em casa de Franoise, corria os bares e
os sales de ch, Estelle, que se queixava cada vez mais 
das pernas!... 
Montillac lhe fazia falta. Temia que durante sua ausncia Fayard
aprontasse das suas, apesar de Ruth e de Sidonie. Julho se 
aproximava e La no tinha a menor inteno de passar o vero ali.
Abafar-se. O que deveria ser do ms de agosto. Se ao 
menos Franois Tavernier se ocupasse em distra-la... Mas no! Esse
senhor havia desaparecido. onde estaria ele? 
Com seus amigos em Londres ou com os de Berlim? Seria difcil que
algum informasse. 
Os homens voltavam-se ao passar por aquela jovem bonita, num
gracioso vestido azul-marinho 
de bolas vermelhas, que deixava a mostra as pernas com os ps
calados em sandlias de salto 
alto, brancas com solas duplas, presente de Franois. Toda entregue
a seus pensamentos 
mrbidos, no reparava em nada. 
Na rua da Universidade La pousou o livro na mesa da entrada, junto
de um chapu. As tias 
estavam com visita. 
- At que enfim, chegou! H mais de uma hora que o senhor Tavernier
a espera. 
Reprimiu o desejo de correr e de se atirar em seus braos. 
- Bom-dia, pensei que estivesse morto. 
- La! 
- Deixe, minha senhora,  apenas uma gracinha. Este humor faz parte
de seu encanto. 
- Senhor Tavernier,  muito indulgente com esta criana. 
- Tia Lisa, j no sou criana e pouco me importa a indulgncia do
senhor Tavernier. 
- Que modos! O ar de Paris no lhe faz bem. 
No, aborreo-me. 
-  bem o que eu receava. Vou lev-la a dar uma volta pelo campo. 
- A esta hora?! Mas daqui a pouco so cinco horas. 
- No  muito longe...  a quinze minutos. 
- E chama a isso campo?... A quinze minutos daqui? 
- Vai ver,  um lugar selvagem e maravilhoso que pouca gente
conhece. 
Foi preciso muito mais de quinze minutos para chegarem onde
Tavernier queria. Ele praguejava, seguindo pelas ruas de 
Bagneux, de Fontenay, Aux-Roses, de Seaux e de Bourg-la-Reine.
Parou diante do letreiro de Chtenay-Malabry e 
consultou um mapa. 
- Rua Chateaubriand, rua de Loup-Pendu... Ah! Aqui est, rua de
Valle-aux-Loups,  por aqui. 
- Vai, por fim, dizer-me onde vamos? 
- Comprar rvores... 
- Comprar rvores! 
Sim, prometeram-me uma estaca de uma rvore plantada por
Chateaubriand. 
- Que vai fazer com a rvore? 
- No  para mim. Um de meus amigos alemes, apaixonado por
literatura francesa e grande admirador de Chateaubriand, 
pediu-me se era possvel encontrar essa muda. 
- Voc est louco! 
- Telefonei ao doutor Savoureux, que mora na antiga propriedade do
grande escritor. Ele disse-me que no era eu o primeiro 
a fazer tal pedido e que, nesse momento, tinha um bonito e pequeno
exemplar. 
- No tem mais nada a fazer alm de procurar rvores para os seus
amigos alemes? - perguntou La, com todo o desprezo 
de que era capaz. 
- O meu amigo no  um alemo qualquer e essa muda no  de
qualquer rvore. Percebe... O broto de uma rvore plantada 
com amor por Chateaubriand. 
- Tenho a impresso de ouvir Raphael Mahl. Tambm ele me falou de
Chateaubriand com lgrimas na voz e deu-me at um 
livro do seu grande homem... 
- La Vie de Ranc? 
- Como  que adivinhou? 
- No  muito difcil conhecendo um pouco Raphael Mahl... J o leu?
- Tentei... Mas achei muito cansativo. A vida de um monge imundo do
sculo XVII. 
- Cale-se, infeliz! Entramos nas terras do autor dos Martys, cujo
fantasma arrisca-se a deixar seu rochedo de Saint-Malo 
para vir lhe puxar as orelhas por ter ousado blasfemar. 
Caminhavam numa larga alameda em rampa, bordejada por altas rvores
que impediam de ver o cu. Pelos vidros abertos 
entrava um ar quente e mido. 
 -  sinistro este seu lugar. Como se chama? 
- La Valle-aux-Loups. 
-  bem o que eu disse, parece uma encruzilhada digna dos romances
de Ann Radcliffe. 
- Leu os romances de Radcliffe?... - falou ele, com tal espanto que
La ficou envergonhada. 
- Pensa que  o nico que sabe ler? Minha me adorava os romances
ingleses dessa poca, ela os leu todos e eu tambm. 
Sem dvida deve achar essa literatura muito sentimental... Feminina
demais. 
- Que mpeto! ... No imaginava que apreciasse tanto os romances do
gnero. Conhece os autores alemes dessa poca? 
Tenho alguns interessantes e posso lhe emprestar, se quiser. 
- No, muito obrigada. 
Chegaram diante de uma casa coberta de vinha virgem e de hera presa
a uma grande construo que parecia caserna ou 
hospital. Uma mulher os esperava  porta de entrada. 
- Bom-dia.  o senhor Tavernier? 
- Sim, minha senhora. Bom-dia. 
- Eu sou a senhora Savoureux. Meu marido est desolado por ter sido
chamado a Paris e encarregou-me de os receber, 
pedindo que o desculpassem. 
- Que desagradvel! 
- Acredite que ele estava desolado, mas no podia fazer de outra
maneira. Se quiser fazer entrar, senhorita... 
- Perdoe-me.., senhorita Delmas. 
-  muito bonita, senhorita, O meu marido ainda vai lastimar por
estar ausente. 
La sorriu e entrou. 
Era a casa do grande escritor! O interior dava a sensao de
fragilidade. Tinha a impresso de que as paredes no podiam 
suportar o peso dos quadros, que o cho se ia desmoronar debaixo do
peso dos mveis. 
- Que esperava encontrar? - perguntou Franois, que havia reparado
bem sua expresso desiludida. 
- No sei... Qualquer coisa mais imponente... Esta sala podia ser
em Montillac... Oh! Franois! Viu esta grama, estas 
rvores!... 
-  bonito, no , senhorita? Meu marido e eu dedicamo-nos a manter
este local no estado em que ele gostaria de v-lo... Se 
quiserem, logo daremos a volta pelo parque e lhes mostrarei as
rvores plantadas por suas mos. Senhor Tavernier, quer vir 
comigo? Desculpe, senhorita. No demoramos muito. 
Sobre uma mesa repleta de papis, um volume encadernado em couro
cheio de marcadores de papel branco atraiu seu olhar. 
La pegou-o. "Mmoires d'Outre Tombe", e foi sentar-se num degrau
em frente da sala, diante do grande espao vazio e 
verde, enquadrado pelas rvores altas, e abriu o livro. 
"Valle-aux-Loups, perto de Aulnay, neste 4 de outubro de 1811..."
"A terra devia comear a cheirar a outono", pensou 
ela, antes de prosseguir 
a leitura. "Este lugar agrada-me, e substitui para mim os campos
paternos, paguei-o com o produto dos meus sonhos 
e de minhas viglias;  ao grande deserto de Atala que devo o
pequeno deserto de Aulnay: e, para poder criar este refgio, 
no despojei como o colono americano, o ndio das Flridas.
Consagrei-me s minhas rvores; dirigi- lhes elegias, sonetos e 
odes. No h uma s entre elas que eu no tenha cuidado com as
minhas mos, que no tenha livrado do bicho preso  raiz, 
da lagarta colada s folhas; conheo-as todas pelos seus nomes,
como minhas crianas, so a minha famlia, no tenho outra, 
e espero morrer no meio dela." 
"Eu podia dizer a mesma coisa de Montillac. A minha verdadeira
famlia  essa terra, so aquelas rvores, as vinhas, os 
prados. Tal como ele, conheo o nome das minhas rvores e sei
curar-lhes as doenas. Quando voltar, plantarei um cedro 
em memria deste dia." 
- La, onde est? 
- Aqui. 
- Desculpe-me. No demorei demais? Que estava lendo? 
Sem responder, estendeu-lhe o livro. 
- A est uma leitura que eu no teria recomendado, depois do que
disse de Vie de Ranc. 
- Mas no  a mesma coisa, aqui ele conta a sua infncia, fala
desse lugar com um tal amor... Ele morreu aqui, como tanto 
desejava? 
- No! Minha bela ignorante, Chateaubriand no teve tempo de se
refugiar na sombra das rvores que havia plantado. 
Precisou vender a Valle-aux-Loups, "comprada no tempo de
Bonaparte, vendida no dos Bourbons", e sua biblioteca, 
ficando s com um pequeno Homero. Ele sofreu tanto com a perda
deste lugar que jurou nunca mais possuir uma nica 
rvore. 
A noite estava magnfica e eles voltavam pelo bosque para a casa
que parecia perdida no meio de tanto verde. 
- No passemos por a - disse a senhora Savoureux a La, que ia a
frente. 
- Por qu? O caminho no me parece mau. 
- No  por isso, mas aproximou-nos do local dos fuzilados. 
O local dos fuzilados? - disse La, parando. 
- Nessa direo, do outro lado do muro, nos bosques, os alemes
fuzilaram refns... Ainda ouo os tiros. Desde ento, nem 
eu nem meu marido vamos para esse lado do parque. 
Voltaram para casa em silncio e, pouco depois, Franois Tavernier
despedia-se da senhora Savoureux, levando no brao a 
preciosa muda. 
Muito tempo rodaram pelas ruas calmas da periferia. Homens jogavam
a bola, mulheres tricotavam nos degraus da porta, 
enquanto as crianas corriam, gritando. O ar cheirava a fuligem, a
sopa e a erva cortada. 
Gargalhadas e vozes chegavam at eles das portas abertas dos cafs.
No espao de alguns segundos, uma cano de Edith 
Piaf os acompanhou, a roupa secava nos jardins, os ces dormiam no
meio das ruas porque a guerra lhes fizera esquecer a 
existncia de automveis. S se levantavam no ltimo momento com um
olhar desdenhoso. Era a hora de depois de jantar e 
cada um se deixava sem fazer nada, sonhando e olhando o cu. Pouco
a pouco as esplanadas cediam lugar aos prdios os 
cafs eram cada vez mais numerosos. A msica saa dos rdios pelas
janelas abertas e ressoavam de parede em parede. 
Jovens de bicicleta atravessaram  sua frente. Agora, a calma quase
campestre havia desaparecido, fervilhando com a 
aproximao da cidade. A porta de Orlans, os grandes cartazes
brancos com letras gticas pretas relembravam brutalmente 
a presena dos alemes. Desde que haviam sado da Valle-aux-Loups
no trocaram mais de dez palavras. 
- Onde quer jantar? - perguntou-lhe com doura. 
Recebeu o desalento de seu olhar como uma bofetada. Parou junto do
passeio e aconchegou-a a si. 
- Eu sei no que est pensando, meu amor, esquea tudo isso por
algum tempo. Nem o seu medo nem as suas lgrimas faro 
voltar os mortos... Tire da sua linda cabea essas idias de
vingana, o tempo ainda no chegou... Chore, minha pequenina... 
Prefiro ver as suas lgrimas a essa dor muda, diante da qual me
sinto desarmado. No pode calcular o que eu daria para v-
la alegre e despreocupada... para que fosse, enfim, feliz. La, 
to forte, to corajosa, no pode deixar-se abater. Encoraje-
se, tem foras para resistir a tudo isso. 
La deixava-se embalar por aquela voz persuasiva e quente. Que lhe
importava que ele se enganasse se ela no era nem forte 
nem corajosa, mas uma moa fraca lanada na tormenta, levada para
longe de seus sonhos, diante de um mundo novo que 
ela no compreendia, mas de onde libertava instintos to violentos
que varriam todas as fraquezas. Desde a mortandade do 
bombardeio de Orlans, La compreendera o poder de vida que existia
nela e sabia que era capaz de matar, se fosse preciso. 
Mas ali chorando nos braos daquele homem, ela s queria ser a
criana que se consola. 
- Agora est melhor?... Vamos, assoe-se. 
La assoou-se com a discrio de um velho padre. 
- Como  que consegue ficar ainda mais bonita com os olhos
vermelhos e o seu ar abatido? 
Ela deu um grande suspiro e disse com um sorriso: 
- Estou com fome. 
Franois Tavernier deu uma de suas gargalhadas. 
- Enquanto sentir fome, no me preocuparei com voc. Temos de nos
apressar se quisermos estar em casa antes do 
recolher. Quer ir at meus amigos da rua de Saint-Jacques? 
- Oh! Sim... Gosto tanto de Marthe como de sua cozinha. 
Na rua Saint-Jacques havia muita gente, mas o quarto de dormir, a
sala de jantar improvisada para os amigos, estava livre. 
Marthe e a nora fizeram enormes exclamaes ao v-los. 
- Senhor Franois! Senhorita La, que prazer em rev-los! 
- Tem notcias de seu filho? - 
Marthe olhou em volta como se temesse que algum estivesse
escondido atrs das caarolas brilhantes pendurada nas 
paredes, e murmurou: 
- Est na Resistncia em Dordogne. Parece que  duro, mas sempre
vale mais do que trabalhar para a Alemanha. 
Como era costume, apesar das restries o jantar foi excelente. 
- Eles mandam-me as conservas em conta-gotas. 
La tinha bebido um pouco mais, riu imaginando as pernas e as asas
dos gansos ou dos patos saindo, uma a uma, de um 
conta-gotas. Para ouvir mais vezes o seu riso, Tavernier teria
feito as palhaadas mais grotescas, inventado todas as 
anedotas divertidas. Em sua presena, sentia-se de novo um garoto
divertido. Ps-se a contar as ltimas piadas da moda, os 
ditos atribudos a Sacha Guitry, mestre do humor francs, muito
apreciado pelos ocupantes. E La ria.., ria. 
- D gosto ver a alegria da juventude - disse Marthe Andrieu ao
trazer a sobremesa. 
Abraados, foram os ltimos a deixar o restaurante clandestino. A
rua de Saint-Jacques estava escura e deserta. Um 
perfume de rosas vindo do Luxembourg chegava at eles. La deitou a
cabea para trs e fechou os olhos para saborear 
melhor aquele perfume fugaz. Havia tanto abandono em sua atitude
que as mos de Tavernier perderam-se em seu decote, 
sob sua saia. Ela se deixou ficar, confiante. Quando os dedos
atingiram seu sexo, mido, ela fechou os olhos. 
Sem dizer nada a La, Franois Tavernier enviou uma grande soma a
Ruth, que lhe permitia pagar o salrio dos Fayard e 
dos cinco trabalhadores agrcolas que regularmente faziam a
manuteno das vinhas. A honesta governanta havia de incio 
recusado, mas Franois mostrouse convincente, afirmando que isso
permitiria a La descansar dos cuidados 
imediatos ligados a Montillac. Tinha tambm emprestado dinheiro a
Laurent, dizendo-lhe que lhe retribuiria depois 
da guerra. 
Todos os dias Camille levava para passear o seu rapazinho nas
Tuillenes ou ao Luxembourg, acompanhada por vezes de 
Franoise com o beb. Por duas ou trs vezes, Otto Kramer viera
encontr-las e a cada vez Camille se afastara pretextando 
uma compra a fazer ou um encontro. A viso de um uniforme alemo a
deixava doente. No caso do comandante Kramer, 
ainda pior: com receio de ofender Franoise ela no podia
recusar-se a apertar a mo do oficial. Cheio de tato ele 
compreendera e no voltara mais a se encontrar com Franoise quando
sabia que 
ela estava com Camille. - 
Ela soubera pela rdio de Londres que Laurent havia chegado 
Africa do Norte. 
Desde a sua visita a Valle-aux-Loups, La estava mais alegre, mais
descontrada. Mergulhada nas Mmories d'Outre 
Tombe, ela s falava em Chateaubriand, o que muito divertia
Franois, que vinha quase todos os dias  rua da 
Universidade. 
Quanto a Laure, estava irreconhecvel. Vestida na moda, fumava
abertamente, cigarros ingleses, freqentava o Pam-Pam e o 
Colise e danava nos bailes clandestinos ao ritmo de Alex Combelle
e de Django Reinhart, cujos discos logo usados 
rodavam nos gramofones dos cursos de dana e dos bares swing que
era bom freqentar. 
Desde h algum tempo, graas a ela o cotidiano havia melhorado. Um
dia manteiga, no dia seguinte caf ou acar, ou 
batatas. Onde ela encontrava dinheiro? Quando se sabia que o quilo
de manteiga, no mercado negro era de 350 francos e o 
caf de 1000 e a 2000 francos. As perguntas das tias, respondia: 
- Fao negcios. Ponho em contato quem quer comprar meias de seda e
tem manteiga para pagar, e aquele que procura cem 
quilos de manteiga tem vinte pares de meia. Eu recebo uma comisso,
 simples. 
Laure, decidida a continuar seus estudos, tinha perguntado s
senhoras Montpleynet se aceitavam que continuasse l. Est 
claro que aceitaram. 
A jovem apresentara La a seus novos amigos. Eles eram divertidos,
cnicos, mal-educados e... muito jovens. O mais velho 
tinha dois anos menos do que La e os pais eram mdicos,
professores, advogados ou comerciantes ricos. O pequeno grupo 
a acolhera bem por a acharem muito bonita. Com eles ela
reencontrara a despreocupao. No se podia falar de guerra, era 
um assunto "tabu", Hitler, De Gaulie, a Gestapo, a Resistncia,
nada sabiam, no era nada com eles. A culpa era dos pais, 
eles que se safassem.  preciso dizer que eles tinham a inteno 
os pobres velhos, de moralizar, sobre seus casacos grande demais,
as calas muito curtas, os cabelos at o pescoo os 
ombros cados ou exageradamente largos, as meias com riscas, os
sapatos grossos mal engraxados e o indispensvel guarda-
chuva que nunca abriam, enquanto estavam prontos, eles, a fazer
fosse o que fosse por um mao de cigarro ou meias de 
seda. Haviam perdido a guerra e a face, no tinham mais nada a
dizer sobretudo da grandeza da Frana ou da Alemanha, 
segundo os casos. A voz de Maurice Schumann era-lhes indiferente
tal como a de Phillipp Henriot, ex-deputado da direita 
liberal de Libourne, adversrio de sempre do partido comunista,
transformado depois da invaso da Rssia pela Alemanha, 
em porta-voz dos defensores da civilizao crist face ao
comunismo. Nos Campos Elseos, em SaintGermain de Prs, 
ignoravam soberbamente o ocupante, nunca se afastando quando se
encontravam na passagem de algum deles: no existiam. 
Por sorte, at aquela altura, sua pouca idade valera a indulgncia
dos soldados. 
A guerra exacerbara em Lisa de Montpleynet a necessidade de ser
informada de tudo: do recuo das tropas alems na 
Rssia, do fechar de algumas estaes de metr, do nmero de mortos
do ltimo bombardeio aliado, do aumento do preo 
da manteiga, da ltima cano da moda, como da nomeao pelo comit
francs da Resistncia nacional do novo 
governador-geral da A.O.R., da demisso de Mussolini, do prximo
desembarque ou do testemunho de um polons lido 
por Jacques Duchesne na emisso "Os Franceses Falam aos Franceses",
sobre o massacre de judeus - testemunho que iria 
obsec-la e em cujo horror recusou-se a acreditar at o fim. 
". .. O campo situa-se a quinze quilmetros ao sul da cidade de
Belzec. Est rodeado por um muro que segue a 
linha frrea, a uma distncia de dez metros. Uma estreita passagem,
de menos de um metro de largura, 
conduz do campo  via frrea. Por volta das dez horas da manh um
trem de mercadorias parou ao longo do 
campo. Nesse momento os guardas que se encontravam na extremidade
oposta ao campo puseram-se a 
atirar para o ar e a mandar os judeus subirem no trem. 
"Assim criaram pnico nos prisioneiros para os impedir de ter
qualquer hesitao ou resistncia de sua 
parte. Os judeus, empurrados para apassagem estreita de que falei,
precipitam-se empurrando- se para o 
primeiro vago de mercadorias parado no incio da passagem. Era um
vago normal, daqueles que tem a 
indicao "6 cavalos ou 36 homens". O cho estava coberto por uma 
espessa camada de cal viva de cinco centmetros de espessura; mas
os judeus, na sua pressa e no seu pavor, no a viam. 
Subiu assim uma centena para o vago at que foi completamente
impossvel fazer entrar outros. No vago mantinham-se 
em p, apertados uns contra os outros. Os guardas agarrando, ento,
os judeus com os braos, atiravam-nos para os 
vages por cima das cabeas dos outros; sua tarefa tornava-se fcil
devido ao terror dos prisioneiros, enlouquecidos 
pelas pancadas que lhes davam nas costas. Os carrascos jogaram
assim mais uns trinta por cima dos outros homens, e 
mulheres; era um espetculo horrvel; muitas mulheres quebraram o
pescoo. Pode-se imaginar o horror da cena. Cento 
e trinta pessoas foram assim lanadas para o primeiro vago. As
portas metlicas foram em seguida fechadas e 
trancadas. O trem avanou um pouco. 
"O vago seguinte foi posto em posio, e a mesma cena se repetiu.
Contei ao todo cinqenta e um vages onde se 
empilharam os seis mil prisioneiros do campo. Uma vez o campo vazio
e os vages cheios, o trem partiu. 
"Parou num local em pleno campo a uns quarenta quilmetros do campo
de concentrao. Os vages ficaram ali 
hermeticamente fechados durante seis ou sete dias. Quando o bando
de coveiros abriu as portas os ocupantes estavam 
todos mortos, e geralmente em estado de putrefao avanado. Morrem
asfixiados. Uma das propriedades da cal fresca , 
de fato, soltar vapores de cloro quando se acha em contato com
gua. As pessoas amontoadas nos vages tem 
evidentemente de fazer as suas necessidades. Disso resulta
imediatamente uma reao qumica. Os judeus ficam, 
ento, imediatamente asfixiados pelos vapores do cloro, enquanto a
cal fresca lhes roe os ps at os ossos." 
-  horrvel - exclamou La, tampando os ouvidos. 
- Como  que Deus permite tais coisas? - disse com um espanto to
flagrante a boa Esteile que em outras 
circunstncias teria sido cmico. 
- Como  que um polons da Resistncia pode vestir o uniforme dos
carrascos, e ser o espectador impassvel 
dessa condenao  morte? 
- murmurou Albertine, falando consigo mesma. 
- Ele disse que era para levar ao mundo civilizado uma prova
irrefutvel - balbuciara Laure. 
- Eu no compreendo muito bem o porqu da cal fresca disse La -,
no fim de seis ou sete dias eles estariam 
mesmo asfixiados. 
O locutor da Rdio de Londres continuou: 
algumas pessoas talvez pensem que a Frana goza de um regime
privilegiado, alguns pensaro ainda que 
nunca se viu isso em nosso solo. A organizao de tais massacres. 
"No entanto, basta recordarmos o regime que sofreram osjudeus
empilhados no campo de Drancy ou de 
Compigne, ou mesmo em Vlodrome d'Hiver. Basta lembrar as cenas
lancinantes passadas sobretudo em 
Lyon, quando as mulheres judias eram arrancadas aos filhos,
fechadas nos trens sem sequer poderem dizer 
adeus s suas famlias. Basta lembrar o silncio que se seguiu 
priso de to grande nmero de judeus, 
para compreender que nenhum pas escapou. Que foifeito de todos
esses homens e mulheres, de todos esses 
velhos e por vezes crianas? Partiram tambm eles "para o Leste",
segundo o eufemismo usado pelos 
alemes?  preciso que cada funcionrio francs encarregado de se
ocupar das questes judias 
compreenda que executando as ordens que recebe, torna-se cmplice
de um crime e ajuda os carrascos 
alemes de Lvow ou de Varsvia." 
O silncio que se seguiu provava a vergonha e o horror que todas
sentiam. 
- Parece propaganda antialem - dissera La quando pde falar 
-; nenhum povo  capaz de cometer tais abominaes. 
- Lembre-se do doutor Blanchard, de Jean e de Raul - Laure lhe
respondera. 
- No  a mesma coisa. De um lado eles prendem as pessoas que os
combatem, do outro os homens, mulheres e crianas, 
que a seus olhos s tm a culpa de terem nascido... E a que h
qualquer coisa que eu no compreendo. Por qu? 
- Porque so judeus, evidentemente. 
-  acha isso uma razo suficiente para ser enviado para campos de
concentrao e ser assassinado? 
- No, claro que no. 
- Quem os impedir amanh de matar todos os ruivos porque so
ruivos, todos os corcundas porque so corcundas e todos 
os velhos porque so velhos? 
- Minhas queridas filhas, estamos nas mos de Deus - declarou Lisa.
- Um Deus judeu, neste momento ele no deve ser muito ouvido 
- resmungou La, para grande escndalo das tias. 
Lisa e Estelie no confessavam, mas davam muito mais crdito s
informaes da Rdio-Paris que s da Rdio-Londres, to 
cansativas de se ouvir por causa da interferncia. 
Apesar de proibio de venda dos aparelhos de rdio, as senhoras
Montpleynet tinham oferecido um a Esteile pelos vinte e 
cinco anos de bons e leais servios na casa. Desde ento, em sua
cozinha ela no perdia por nada desse mundo a crnica 
cotidiana de Jean-Hrold Paquis, exatamente antes do stimo boletim
das vinte horas. 
Embora as patroas lhe tivessem dito e redito que ele era pago pela
Alemanha, que as imprecaes contra os comunistas, os 
judeus e os gaulistas eram odiosas e a sua m-f total, ela no
podia impedir-se de estar "toda convencida", quando a voz 
frentica terminava seu editorial dizendo: "A Inglaterra, como
Cartago, ser destruda". Toda a gente sabia que esses 
discursos eram discretamente inspirados pelo ocupante, mas muitos
ouvintes ficavam perturbados quando ele explodia 
contra a "ameaa comunista" ou explorava habilmente os bombardeios
aliados. 
Se Esteile tinha uma fraqueza por Paquis, Lisa o sentia por
Phillippe Henriot que "falava to bem", e que era to "culto". 
Ah! Aquela voz espantosa, grave, cheia, cuidada, conduzida com uma
arte extraordinria, que se infla e zomba em acessos 
de suficincia pequeno- burguesa, um verdadeiro talento literrio
que faltara a Paris, e uma propriedade de termos que 
lembra seu latinista. "O ex-deputado de Libourne tem o sentido da
inventiva e das imagens que se chocam as imaginaes, 
tanto no campo como nos meios parisienses, com que cinismo e arte
ele remexe a ferida nas chagas dos vencidos! E 
testemunha esta aloucao pronunciada em 4 de julho de 1943 por
aquele que muitos consideravam seu diretor de 
conscincia: 
"Nossos compatriotas de gaulismo e dos seus derivados continuam
para mim um tema sempre novo de 
admirao e de surpresa. Cada um sabe que eles so os nicos
mantenedores de um patriotismo que no 
transige. Tm o monoplio do sentido da dignidade francesa (...). 
"A Alemanha ocupa a Frana depois de uma vitria total. Eu no
esqueo que esses senhores dizem que 
nunca foram vencidos, que o marechal no devia ter assinado o
armistcio, Deixemos essas opinies 
ridculas na boca de gente que em sua loucura de 1940, entre a
Garonne e os Pirineus, estremeciam s com a 
idia de que a Alemanha recusasse esse armistcio que hoje
repudiam. No h mais tropas, nem armas, nem 
avies; os alemes em Angoulme e em Valence; fugitivos militares e
civis, pelas estradas, a angstia por 
toda a parte... Era nesse momento que se deveriam ter-se levantado
certas vozes que depois nunca mais 
se ouviram. Nossos valentes tardios so malsucedidos ao levantar a
voz hoje. Com surpreendente ilogismo, alis. 
"Por que, enfim, essa gente, que acha intolervel a ocupao de seu
pas por um adversrio que os venceu, acha 
reconfortante a invaso do seu Imprio pelos povos que lhes havia
prometido ajuda e agora limitam-se em explor-lo? 
Por que ser to revoltante a seus olhos ver a Alemanha, sua
inimiga, retirar dos nossos recursos o que lhe  necessrio, 
e por que ser que esfregam as mos, vendo a Inglaterra e a
Amrica, suas amigas, apropriarem- se do nosso 
abastecimento norte-africano? (...). 
"Ento, j no compreendo. Sofro com o destino de meu pas. Sofro
como todo vencido sofre com a derrota. Mas, pelo 
menos, por penoso que seja, aprovao..,  normal, Mas vocs que
aceitam de um pretenso amigo, aquilo que o vencedor 
nunca nos imps, no se sentem um pouco constrangidos? (...). 
"Assim,  um americano quem arbitra os conflitos entre os chefes
franceses;  o rei da Inglaterra que vem tomar posse da 
nova colnia da Coroa; Churchii e Roosevelt recusam-se a reconhecer
a soberania francesa numa terra francesa; nesse 4 
de julho, festa da Independncia americana e que recorda a ajuda
que a Frana deu  Amrica para expulsar a Inglaterra, 
os dois velhos rivais se acham de acordo para nos reduzir 
escravido, os franceses esto ali to privados de liberdade, 
que nenhuma voz se levantou entre eles para protestar contra os
assassinatos areos dos seus compatriotas da metrpole 
(...). 
"Ora, esses senhores nos declaram indignos, porque, resolvidos a
dar ao nosso pas, no mundo, um lugar que deve 
merecer, no comeamos por negar a derrota. Mas, senhores, aceitam
da parte dos seus amigos um destino cem vezes 
mais humilhante do que aquele que nos  imposto pelo vencedor.
Tratam-nos como vencidos, e os tratam como criados.  
verdade que, se os alemes nos venceram, os anglo-saxes
ludibriaram-nos. E isso que lhes d direito sobre vocs. 
Porque ser derrotado s prova que se era mais fraco; ser
ludibriado, isso prova que se era mais imbecil. Pode-se ter pena 
de um fraco; no se tem pena de um imbecil. 
"Continuem, pois, a pasmar diante de seus ocupantes; beijem a mo
dos que os demitem e os expulsam; digam obrigado a 
cada pontap que de Londres ou de Washington reduz a nada um
general, que nunca deveria ter sado daqui... Mas peam 
aos seus senhores que queriam conservar por algum tempo ainda os
grandes primeiros papis. Porque ns ainda no 
vimos tudo. De 
Gaulle e Girand vo beber o vinho da Arglia mesa de George 
VI. Trocam por telegrama congratulaes com Stlin (..). 
"A derrota militar no passava de uma provao que, segundo a
opinio do prprio vencedor, deixava a 
honra intacta. L,  a honra, que os homens que se pretendem seus
guardies comercializam.'' 
Estas palestras semanais punham Lisa fora de si e era preciso toda
fora de persuaso da irm para lhe demonstrar que, se 
Phillippe Henriot podia falar do "ocupante provisrio" com essa
aparente liberdade, era de acordo com esses mesmos 
ocupantes e que no seria cmplice dos ''terroristas'' ou
"gaulistas'' recusar-se a acreditar no que franceses sob vigilncia e 
profundamente pr-nazis diziam dos outros franceses que no haviam
aceitado a derrota de seu pas. Depois de horas de 
discusses, Lisa concordava at o prximo discurso de Phillippe
Henriot. Felizmente a influncia de Albertine 
Montpleynet era mais forte do que a voz que pregava submisso na
Rdio-Paris. "Rdio-Paris mente, Rdio-Paris mente, 
Rdio-Paris  alem." Dizia-se em voz baixa. 
Como a maioria dos franceses, Lisa submetia-se  tirania do rdio
ainda novo e misterioso. Essas vozes que vinham no se 
sabe de onde e sussurravam ora conselhos culinrios, recomendaes
diversas, informaes do mundo inteiro ou, ento, 
ralhavam, injuriavam, profetizavam, elogiavam, entorpeciam de tal
maneira os crebros, podiam tambm facilmente 
imprimir-lhes o dio ou a esperana. Os ouvintes, em suas
poltronas, escutavam essas vozes com a mesma devoo que 
Joana d'Arc escutava as suas. 
La, Laure e Camille no escapavam a essa intoxicao pelas ondas.
Apesar da desaprovao de Lisa e de Estelle, que 
temiam as denncias dos vizinhos mal intencionados, La e Camille
escutavam Londres quase todos os dias e Laure, as 
ltimas novidades da moda. 
Mas nenhuma tomava por certo o que ouvia em uma ou outra estao,
assemelhando-se assim a muitos rapazes e moas de 
sua idade.

Captulo 20

A VERDADEIRA SIMPATIA que unia Franois Tavernier e Camille
d'Argilat transformara-se numa cumplicidade que La 
no tolerava. No que sentisse cimes de Camille, achando-a muito
pouco atraente para ser uma rival, mas no suportava 
ver-se excluda de certas conversas interrompidas com a sua
presena. Que significavam aqueles segredinhos? La pensou 
ter a resposta, no dia em que, saindo de seu carrinho, ao voltar do
passeio, o pequeno Charles trazia fechado na mo um 
pedacinho de papel. La retirou-lhe com doura e abriu-o: era um
pedao do Liberation, jornal clandestino gaulista. Que 
fazia aquilo nas mos do pequeno? A criana, querendo descer,
agitava-se em seus braos. Ia coloc-la no cho quando lhe 
pareceu que as calinhas tinham um som estranho. Rapidamente,
desabotoou as cuecas... 
Com precipitao apanhou os jornais e, agarrando Charles por um
brao, levou-o para o quarto. Arfante, como se tivesse 
corrido, La deixou-se cair por cima da cama; o garoto subiu para
junto dela e acariciou-lhe os cabelos. 
- A sua me  doida, completamente doida! E se fosse Franoise que
descobrisse este pedao de jornal... Est 
compreendendo?... Era caso para mandar deportar toda a gente, e
voc tambm - disse ela, pegando-o e abraando-o. - 
- Ah! Charles est com voc.  bonito descobri-los flertando -
disse Camille, ao entrar. 
- Trata-se mesmo de um flerte! ... Feche a porta. Quando penso que
voc ousou met-lo nisto tudo! 
- No compreendo. Que quer dizer? 
- No compreende? Acha ento normal meter este gnero de fraldas
num beb? - disse ela, mostrando o embrulho dos 
jornais. 
- Como conseguiu encontr-los? No entanto,  um bom esconderijo,
no acha? 
Que atrevimento! La nunca imaginara Camille capaz de tal audcia. 
- Bom esconderijo!... Mas podia ter feito com que o matassem! 
A jovem me empalideceu. 
- Mas... ele no tinha culpa nenhuma. 
- Claro! E ento? 
Retrospectivamente, Camille teve medo. Sentou-se por sua vez na
cama e apertou o filho contra si. 
- Pelo menos, podia ter-me deixado a par. A senhora quer brincar
sozinha de herona. J pensou na inquietao de Laurent 
se soubesse que voc distribui jornais clandestinos? 
- Ele sabe. 
- Como sabe? 
- Foi por ele que entrei em contato com o grupo. 
Incrdula, La fitava-a. 
- No acredito. 
- E, no entanto,  verdade. Ele precisava de algum seguro. E,
naturalmente, pensou em mim. 
-  idiota, voc tem um filho. Era a mim que ele deveria ter vindo.
- Ele pensou que talvez voc j tivesse muito o que fazer. 
- Desde que estou aqui no tenho nenhum contato com os de l e
sinto-me muito bem. No quero ser presa como o Raul e 
oJean, ou morrer como o dr. Blanchard ou diante de um peloto de
execuo. Peo-lhe no traga mais jornais clandestinos 
para c. Passa gente demais por este apartamento. 
- O que aconteceu hoje foi excepcional. Normalmente entrego-os
logo. 
- Por que no o fez hoje? 
- Meu contato no apareceu ao encontro. No me atrevia a joglos na
lixeira. 
-  Franois? 
- O qu, Franois? 
Camille mentia mal. A sua resposta soava falso, mas La fez de
conta que acreditou. Ela ia jantar com Tavernier e se 
prometeu que iria pr tudo s claras. Agora, o mais importante era
o vestido que usaria naquela noite. 
Tomada por um frenesi de prazer, La queria divertir-se, deixar de
pensar nos amigos mortos ou desaparecidos, nos que 
combatiam ou que colaboravam. Nenhum acontecimento particular
influenciara sua deciso, simplesmente um cansao, um 
grande desejo de viver, de futilidade. Seria o exemplo de suas duas
irms que viviam o presente? O amor 
para Franoise entre o amante e o filho, a msica americana para
Laure entre um negcio de mercado negro e um flerte? 
Franois havia se mostrado um pouco surpreso com essa mudana que,
secretamente, o aliviava. Desde que a conhecera, 
vivia com receio. Quando viu a que ponto ela estava comprometida
com a Resistncia em sua provncia, a vigilncia de que 
Montillac e seus habitantes eram alvo, a atitude de Mathias, a
visita de Raphael Mahl, a priso de seus amigos, ele 
tivera medo. Foi por isso que precipitou aquela partida para Paris.
Desastradamente ele fora obrigado a ausentar-se durante 
um ms. Agora de volta por alguns dias, iria enfim poder ocupar-se
dela. Tavernier sentia imenso prazer em v-la viver. 
Desde seu primeiro encontro sua personalidade e sua beleza
tinham-se afirmado. "O gnero de mulher de se fugir 
imediatamente quando se teme desgostos." Pelo visto, ele no os
teme, pois vai em frente. Como hoje, em que aceitara lev-
la para cear no Maxim's depois de ter recusado, sem encontrar outro
pretexto a no ser que: 
A cozinha no  mais to boa e est cheio de alemes. 
- Para mim tanto faz - respondeu ela. - Quero ir a um lugar onde as
pessoas tenham ar de se divertir. 
E nada a fizera desistir. Eis porque La, sem se preocupar mais com
os jornais clandestinos de Camille, preparava-se para 
esse jantar. Graas a Laure, comprara um magnfico vestido de
mousseline de um belo vermelho-escuro. Consultadas as tias 
e Franoise, tinham decretado que s podia ser um vestido de grande
costureiro: Chanel ou Fath. O que, devido ao preo 
relativamente baixo, parecia impossvel. Uma grande echarpe preta e
sandlias de noite pouco usadas completavam a 
elegante toalete. 
- Voc est magnfica! - exclamou Camille que a ajudara a vestirse.
Os homens s tero olhos para voc. 
La pegou um dos jornais clandestinos. 
Por que quer isso? - perguntou Camille. 
- Para fazer uma brincadeira. Enfiar o Liberation entre o Matin,
Paris Soir, L'Oeuvre, La Berbe, Le Piroli e os Noveux 
Temps. Quero ver a cara daqueles senhores quando lhe carem em
cima. 
Camille sorriu. 
- Voc est louca! 
- Por favor!  preciso que se sintam ameaados at mesmo nos locais
onde se julgam mais em segurana. E o Maxim's  um 
desses locais. 
- No acompreendo. Julguei que voc no queria mais falar a esse
respeito. 
- E ento? Posso mudar de opinio... 
La acabava de colocar o jornal numa bolsinha de camura, quando
Franois Tavernier entrou, muito elegante. Mas parecia 
preocupado. 
- Voc insiste mesmo em jantar no Maxim's? 
- Mais do que tudo. 
- Ento - suspirou ele -, vamos l... 
- No parece mesmo que vamos para a morte? 
Ele a olhou com ar estranho, vagamente divertido. 
- A morte est l como em toda a parte. Mas no se pode arranjar
local mais horrvel para morrer. 
No  nada engraado... 
- Eu no pretendia ser engraado... Est com um lindo vestido. No
se notar o sangue. 
- Franois, pare com isso. Vai estragar-lhe o prazer. 
- Deixe, Camille.  preciso mais do que o humor negro do nosso
amigo para me enervar. 
- Tem razo. No se deixe influenciar. Tenho a certeza de que
passaremos uma bela noite. Boa noite, Camille. Beije por 
mim o pequeno Charles. 
- Boa noite. Divirtam-se muito. 
Fora, um carro e um motorista os esperavam. 
 entrada do bar do clebre restaurante, jornais dirios e semanais
estavam espetados em longas hastes de bambu, 
penduradas num quadro de madeira escura. Alguns cavalheiros
confortavelmente instalados diante de um copo folheavam 
as publicaes do dia. La retirou o seu jornal clandestino,
desdobrou-o com cuidado e displicentemente o colocou no 
ltimo nmero de Je Suis Pertout, entre os artigos de Robert
Brasilach, de Franois Vinneuil (Lucien Rebatt), Alain 
Laubreaux, de Claude Jantet e de Georges Blond. Depois de um olhar
satisfeito  sua volta, juntou-se a Franois Tavernier, 
que a esperava  mesa. Um oficial alemo afastou-se  sua passagem,
enquanto Albert a conduzia com solicitude. 
- Esta mesa lhe convm, senhor Tavernier? 
- Perfeitamente, Albert. 
La sentou-se calmamente com ar feliz e um pequeno sorriso nos
lbios. Tem o ar de um gatinho que bebeu leite escondido 
ou de uma 
garota que pregou uma pea. 
- Eu? - disse ela, com um ar de perfeita inocncia, que o deixou
com uma vaga inquietao. - Estou simplesmente encantada 
por estar aqui. Voc tambm, no ? Deve haver aqui uma poro de
amigos seus. Ou estou enganada? 
O matre trouxe o champanhe que lhe fora pedido. 
- Bebamos  sua beleza. 
- Caro amigo, permita-me que faa a mesma sade  senhorita? 
La reconheceu imediatamente o homem que j havia encontrado num
restaurante em companhia de Franois. Hoje, j no 
trazia o casaco de tweed desmazelado, mas um smoking polvilhado,
aqui e ali, pela cinza do charuto que fumava. 
Impossvel escapar. Franois levantou a taa com um sorriso
glacial. 
- Senhor Tavernier, minha mulher est persuadida de que o senhor
foge dela. 
- Como pode a senhora Szkolnikoff pensar uma coisa dessas? 
- Nunca mais apareceu para jantar em minha casa. 
- Esperava um convite oficial. 
Szkolnikoff deu uma gargalhada. 
- Nos dias de hoje, tudo se passa sem cerimnias. Espero-o amanh
s sete horas com a senhorita,  claro... Ela  
encantadora. 
- Creio que no ser fcil liberar-me. 
O sorriso do senhor Michel desapareceu instantaneamente. 
- Estou certo de que conseguir. Conto com o senhor. Sem falta...
s sete horas, nmero dezenove da rua de Presbourg. 
Voltando a sorrir disse: 
- Helena vai ficar contente! At amanh. 
Sob a mesa, Frnois cerrava os punhos com fora. 
A mulher do seu amigo  interessante, olhe, ela est lhe fazendo um
sinalzinho. 
Coberta de jias, Helena Szkolnikoff agitava a mo carregada de
anis em sua direo. 
Acabe com isso de dizer que aquele porco  meu amigo disse ele num
tom contido, agitando os dedos por sua vez. 
- Ele talvez, mas a mulher no!... 
Espero que no v recomear! 
- Quem est com eles? 
- O capito Engelke e a amante. 
- A amiga da bela Helena? Mas, veja, fique  vontade. No vai
estragar a minha noite com essa cara feia. No  minha culpa 
se encontramos pessoas que voc no quer ver. 
Diante de seu ar, La temeu que ele se esquecesse do lugar onde
estavam e lhe desse um par de bofetadas. Prudente, ela 
recuou com a voz mais meiga. 
- No vamos discutir. Sinto-me to bem. Quer beber? 
Ele pegou a taa de champanhe e a esvaziou. Um garom apressou- 
se a ench-la novamente. Muitos homens e mulheres olhavam em sua
direo, encantados pela juventude e pela beleza de 
La, assim como por sua naturalidade e pelo despojamento de seu
traje. Nenhuma jia, apenas o brilho dos seus ombros 
generosamente descobertos. Uma bela moa, que exibia com elegncia
um deslumbrante vestido de noite branco, olhava-a 
mais do que os outros com ar ao mesmo tempo cmplice e divertido.
Seu rosto no era desconhecido para La. 
- Quem ? 
- orinne Luchaire. 
 bonita e simptica. Com quem est? 
- Com o pai Jean Luchaire e jornalistas. 
- Voc a conhece? 
- No. 
-  pena, agrada-me muito. 
Com desenvoltura, La voltou-se. 
- A senhora j escolheu? - perguntou o garom. 
- Eu queria qualquer coisa, desde que muito caro. 
Esta resposta infantil trouxe um sorriso ao rosto endurecido de
Tavernier. 
- Coma caviar. No sei muito bem como eles o conseguem, mas tm
sempre. 
- Muito bem, vou comer caviar. 
- Nesse momento s temos ocietre ou svruga. 
- Qual  o mais caro? 
O maitre teve um ligeiro movimento indicando que estava chocado com
a pergunta. Respondeu com uma voz ligeiramente 
reprovadora. 
- O ocietre, senhor. 
- Ento, v pelo ocietre. Eu como a mesma coisa. 
- Est bem, senhor, e depois?... 
- Queria peixe - disse La. - 
- Ns temos linguado, dourado e salmo cozido com azedas.  muito
bom, muito fino, permito-me aconselh-lo  senhorita. 
- D-me um linguado. 
- Est bem senhorita. E o senhor?... 
- Eu vou provar o seu salmo. 
- O senhor no se vai arrepender. 
- Diga ao encarregado dos vinhos que continuamos no champanhe.
Concorda? 
- Sim, senhor. 
Da entrada chegava-lhes, abafado, o barulho de vozes, depois um
velho senhor de barbicha parecido com Alphonse de 
Chateaubriand 
entrou, agitando uma pgina de jornal e foi sentar-se  mesa de
Jean e Luchaire. O jornalista devia estar lhe perguntando a 
razo de seu enervamento. O outro lhe respondia encolerizado.
Pedaos de frases chegavam at eles. 
- . . .corja de terroristas.., esto em toda a parte comunistas e
gaulistas.., parecidos ou iguais... escria vermelha.., todos 
fuzilados... sem piedade... este farrapo de papel.., jornais
convenientes.., uma vergonha... 
Tentaram acalm-lo. O velhote levantou-se e estendeu a folha a um
homem gordo muito digno. 
- Tome, olhe se no acredita. 
O homem gordo virava e tornava a virar o impresso, sem compreender.
- O que o senhor tem a  um jornal gaulista, deixado por uma mo
criminosa entre publicaes honestas. 
- Jacques - gritou com voz histrica a companheira do gordo -,
largue isso 
Completamente atordoado, deixou cair o jornal que, graciosamente,
s voltas, foi cair junto aos ps do capito Engelke. 
Todas as conversas pararam. Imperturbvel, a orquestra continuava a
tocar uma valsa lenta. La mal conseguia reter o riso. 
Olhava com desprezo aquela gente, que um minuto antes do escndalo
era s sorrisos, desenvoltura, conversando com os 
oficiais alemes e que, agora, mostrava os seus verdadeiros rostos,
onde a covardia se misturava com a fraqueza. Era 
repugnante. Lentamente fruindo, sem dvida, da expectativa ansiosa
da assemblia, Engelke pegou o jornal. 
- Liberation - disse ele em voz alta. Leu algumas linhas,
indiferente  tenso que reinava na sala. 
- Muito interessante. Conhecem? - disse ele, estendendo-o a Michel
Szkolnikoff. 
De onde estava, La via tremer a mo do homem de negcios. A msica
parou. 
- Quer dar-me de beber? - disse ela, com uma voz risonha, que
explodiu no silncio. 
Todos se voltaram como que picados por uma abelha. Corinne Luchaire
olhava-a divertida. Dando uma gargalhada, ergueu o 
copo em sua direo. La, com ar de triunfo, levantou o seu por sua
vez, inclinando a cabea. 
A insolncia das duas jovens distendeu a atmosfera e outros risos
se ouviram. Engelke, como bom jogador, juntou o seu, 
para grande alvio de Szkolnikoff. 
- Estas moas so encantadoras, todo o esprito de Paris - disse o
capito das SS, fazendo uma bola com o jornal. 
Franois Tavernier mal podia conter o prprio riso. 
- Foi voc quem pregou esta maldosa pea ao pobre velho? -
perguntou ele. 
- No sei o que quer dizer. - 
-  um monstrinho, mas agrada-me assim.  terrivelmente imprudente
o que acaba de fazer. Vai-se para a priso por menos 
do que isto. Pronto, a est o seu caviar. 
Respeitosamente o mattre, assistido por dois garons, serviu ele
mesmo os preciosos gros, mergulhados no gelo das taas 
de prata. 
Sem inibies, La regalou-se com expresses to gulosas que
qualquer um, exceto Tavernier, se sentiria envergonhado. 
Pelo contrrio, esta afirmao da sensualidade da moa o excitava e
divertia. 
- Minha putinha - disse ele, afetuosamente, provando tambm uma
farta colherada de caviar. 
O sentido daquela injria amigvel no escapou a La. Ela gostava
da perturbao que seus gestos normalmente lhe 
causavam, da ironia da qual ele raramente desistia. Junto dele
sentia-se ao mesmo tempo inquieta e segura, mas, sobretudo, 
livre. Era apenas uma expresso, mas muito forte. Em sua
proximidade ela no sentia os constrangimentos do prprio sexo, 
mas antes uma exaltao de sua feminilidade como valor em si, e no
como objeto de submisso ou de clculo. Ele podia 
ouvir tudo, sabia melhor do que ela o que lhe convinha. Havia
naquele homem indefinvel, um cdigo de honra particular, e, 
no entanto, rigoroso. La adivinhava sua grande tolerncia em
relao  escolha dos outros, mesmo que no a partilhasse e, 
se fosse o caso, a combatesse. "Ele no tem dio", pensou ela. Isso
lembrava-lhe as conversas entre o pai e o tio Adrien. 
Este ltimo dizia, ao falar da guerra da Espanha: 
"Vi tantas vezes as conseqncias do dio, num campo e no outro,
que corri o risco de, por minha vez, ser vtima e odiar 
todos os homens. Depois, vi em seus crimes a marca do demnio e os
lastimei, carrascos e vtimas confundidos". - 
Quando La ainda era criana, ficara muito impressionada por aquela
"marca do demnio", sinal indestrutvel, que tornava 
os homens irremediavelmente maus. Havia em Franois a mesma
indulgncia desiludida do dominicano. Indulgncia que no 
partilhava, sentindo mesmo em relao a alguns o desejo de os
destruir com requintes de crueldade. Mas ali, ainda, 
embebida pela luz rsea dos abajures, repleta de boa comida e de
champanhe, queria apenas viver o momento presente, e, 
agora, s desejava que aquele homem ali a sua frente a apertasse em
seus braos. 
- Vamos danar? 
- Como resistir a um apelo to langoroso? - disse ele,
levantando-se. 
Ao passar pela mesa do capito Engelke, Tavernier saudou com a
cabea Helene Szkolnikoff que lhe retribuiu o gesto. 
La abandonou-se totalmente nos braos do amante e mais do que um,
ao v-los, sentiu um arrepio de sensualidade. 
Fora, o silncio era total. A lua iluminava suavemente o obelisco
da praa da Concorde. Apesar do toque de recolher, La 
insistiu em voltar a p. Do jardim das Tuileries e dos
Champs-Elyses, chegava-lhes o perfume noturno das flores e da 
grama. Um pssaro noturno piou, um outro lhe respondeu. Lentamente
atravessaram a grande praa vazia, onde seus 
passos ressoavam tranqilos. Na ponte, em frente da Cmara dos
Deputados, atravessada pelo V da propaganda alem, 
pararam para ver correr o Sena, larga faixa ondulada, quase imvel
entre suas margens de pedras. O cheiro da gua subiu at 
eles. 
Apoiados ao parapeito, de lbios colados, corpos inebriados,
abandonando-se  ilusria proteo da noite, deixavam-se 
levar pela onda de seus desejos. 
Balanaram-se por muito tempo sobre o rio to cantado. Os deuses
estavam com eles: nenhuma patrulha, nenhum veculo 
inimigo veio perturbar sua felicidade. 
Na manh seguinte, La contou a Camille como havia introduzido o
jornal clandestino entre os destinados  clientela do 
Maxim's. Camille rira tanto com a descrio das caras dos clientes,
que nem teve coragem para censur-la. 
- Tia Bernadette telefonou ontem para lhe dizer que Lucien chegou
bem e que sua sade era a melhor possvel. Os policiais 
reconduziram Pierrot para a casa do doutor Delmas. Parece que ele
quer mandlo para um colgio muito rgido, sob a 
direo de jesutas. 
- Eu sei, meu primo Philippe me havia dito. Pobre Pierrot! ... Tia
Bernadette lhe falou de Raul e de Jean? 
- Sim, a me deles no tem nenhuma notcia. Alugou um pequeno
apartamento em Bordus e vai todos os dias ao forte H. 
Mas recusaram-lhe o direito de os visitar. Ela nem mesmo tem
certeza de que eles estejam no forte. Espera muito de seus 
esforos junto ao prefeito. Ele lhe prometeu informar-se sobre o
destino de seus filhos e intervir junto s autoridades 
ocupantes. 
- Teria feito melhor em procurar diretamente os responsveis
alemes, em vez de um homem que recebe ordens de Vichy. 
- Sim. Talvez...  to complicado, o prefeito certamente acredita
que age com lealdade... 
- Lealdade? Em relao a quem? 
- No sei...  um funcionrio. 
- Um funcionrio! ... Que contabiliza cuidadosamente o nmero de
judeus deportados, sem esquecer as crianas. 
- Eu sei. Quando estava no campo de Mrignac as mulheres s falavam
disso. Onde estaro agora? 
Ficaram tristemente silenciosas. 
- Mas eu j lhe disse que no quero ir. 
- La, ainda uma vez, no posso fazer de outro modo e peo-lhe o
favor de me acompanhar. 
- Ver mais uma vez essas caras de canalhas, de ladres, de
assassinos me d vontade de vomitar. No suportarei. 
- Muito bem. Se no quer fazer por mim faa por voc. 
- Que quer dizer? 
- Qqe as atividades do seu tio e de alguns de seus amigos so
conhecidas desses senhores. Na Gestapo gostariam muito de a 
interrogar... 
- Tinha-me dito... 
- Isso foi alguns meses atrs. A situao evolui a cada dia e no
ficarei surpreso se num dia desses eu mesmo no for 
molestado. 
- Por qu? 
- Porque suspeitam que eu no seja to correto em relao a eles. 
- Franois?... No tente dizer-me que vai ser preso! - exclamou
La, empalidecendo de angstia. 
- Minha querida, teria pena de mim? 
- Deixe de brincadeira. Bem sabe... 
- O que  que eu sei? 
- Nada!  irritante... Vou com voc. 
Ele a puxou para si. Ela sentiu seu corpo duro e tenso, seus
msculos sob os dedos. Quase machucava de to forte que 
abraava. 
- Obrigado. Vendo-a, meu amor, pelo menos assim espero, pensaro
que no me iria lanar assim na boca do lobo se tivesse 
qualquer relao com a Resistncia. 
- E se eles pensarem o contrrio? 
- Ento seria melhor rezar e desaparecer rapidamente. 
- Como quer que eu me vista? 
- Muito simplesmente. No quero que se parea com aquelas galinhas
de luxo. Ponha aquele vestido longo muito simples 
que estava arrumando no outro dia. Ele j est pronto, agora? 
- Sim, graas a Camille, que me ajudou a fazer a bainha. No sou
muito jeitosa em costura. Vou me preparar, no me 
demoro muito. 
- Olhe, ponha estas orqudeas. 
- So magnficas! Obrigada. 
- Soberba!... Est soberba! No  verdade, Helena? 
- A senhorita  encantadora, apesar da simplicidade de seu vestido.
Por que  que no usa jias, minha querida? 
- Porque no as tenho, minha senhora. 
- Como? Uma moa bonita como voc... Mas o que est pensando, caro
Tavernier? No est nos seus hbitos mostrar-se 
avarento com as mulheres. Devia ter vergonha. 
- Tem razo. Terei necessidade dos seus conselhos, seu gosto  to
perfeito. 
-  verdade. Amanh recebo um joalheiro da rua da Paix que deseja
me apresentar alguns modelos. Venha... Ser bem-
vindo... - murmurou ela, com uma voz clida. - Mas! Que tem?... 
- Nada. Uma dor no brao. Nada de grave, lembrana de um antigo
ferimento. 
A chegada de novos convidados obrigou a dona da casa a deix-los. 
- Oh! Fritz... D-me tanto prazer v-lo em nossa casa. 
-  sempre uma felicidade para mim vir  sua casa. Atrevi-me a
trazer comigo o general Oberg, que guardou uma lembrana 
emocionada do admirvel jantar que voc e Michel deram em honra do
meu amigo, o Reichsfhrer SS, Heinrich Himmler. 
Oberg cumprimentou, batendo os calcanhares. 
- Minha senhora. 
- Seja bem-vindo, general. 
- La olhava em volta sem procurar dissimular seu espanto. 
- Por que me deu um belisco h pouco? 
 espantoso!... Devo estar sonhando... O que diz?... Ah!, sim...
Voc poderia evitar fazer galanteios quela mulher diante 
de mim. 
Franois Tavernier deu uma grande gargalhada e tirou duas taas de
champanhe da bandeja que o garom lhe estendia. 
- Bebo  sua sade. Est irresistvel. 
 La rodou a taa entre os dedos durante momentos, sonhadora.
Depois esvaziou-a de uma s vez. 
- Rpido, d-me outra. 
Ele estendeu outra taa. 
- Na verdade  um local muito bem freqentado. S falta Raphael
Mahl. Olhe quem est ali. 
Na sala massacrante de tanto luxo, atravancada de mveis preciosos,
de quadros de mestres, com o cho coberto por 
magnficos tapetes antigos, pesados cortinados de seda, uma fauna
espantosa ali estava reunida. Lindas e vistosas 
mulheres, pintadas demais, vergadas sob o peso de jias caras,
oficiais alemes, muito dignos e empertigados em seus 
uniformes negros ou verdes, dois ou trs bonitos rapazes,
excentricamente vestidos com cara de vagabundo ou de gigol, 
homens de negcios com aspecto florescente, indivduos de aspecto
suspeito apesar do smoking, cujo casaco fazia papo, e, 
andando de um lado para outro, falando com volubilidade, Michel
Szkolnikoff, que parecia no ter tirado o smoking desde a 
vspera, de tal forma o tinha amarrotado. Naquele momento
conversava com um homenzinho de cabelos escuros, 
cuidadosamente penteados com brilhantina. Ambos fumavam dois
grandes charutos. O homenzinho voltou-se e pousou 
seu olhar esverdeado em La, que teve um movimento de recuo. 
- Quem ? - perguntou Tavernier. 
- Masuy - murmurou ela. 
As articulaes das mos de Franois embranqueceram. Mas foi com
voz calma que disse: 
- Ah!  ele? No o conhecia. Corresponde exatamente ao que eu
imaginava. 
- Estou com medo. Ele vem em nossa direo. 
- No se preocupe. 
- Querida senhorita Delmas! Que surpresa e que prazer em v-la
aqui! Pensei que tivesse deixado Paris. Tornou a ver o 
nosso amigo Mahl?... Sabe que ele me pregou uma enorme pea? 
- No. Eu parti rapidamente... No tornei a v-lo. 
- Disseram-me que ele estava na regio de Bordus. Voc  dessa
regio, se no me engano? 
- Sim... 
- Quando o rever, diga-lhe que penso nele. Quanto a voc,
senhorita, se puder ser-lhe til, no hesite. Conhece meu 
endereo. Infelizmente, se quiser vender qualquer coisa, vai ser
difcil. Como certamente deve saber, os escritrios de 
vendas fecharam, enfim.., quase... 
- Senhora, est servida. 
O anncio do jantar poupou a La fazer as apresentaes. 
A mesa brilhava com os cristais e as pratarias. Os pratos mais
requintados sucediam-se, os melhores vinhos corriam em 
abundncia. A maioria dos convivas no comia, devorava. A
sobremesa, foi o frenesi: cestos repletos de frutos, bandejas de 
prata carregadas de doces os mais diver sos 
sorvetes, cremes foram chegando em procisso sob aplausos. Sentada
no lugar de honra, isto , ao lado de Peggy, o 
cozinho querido de Szkolnikoff que, de guardanapo ao pescoo,
comia de todos os pratos, servido cerimoniosamente pelo 
matre, La esquecera seu receio, de tal forma se aborrecia. Todos
os dias o animal almoava  mesa de seu dono na 
companhia das pessoas que se esforavam por lhe fazer a corte para
agradar a seu faustuoso anfitrio. 
A princpio aquela vizinhana desagradara a La, mas bem logo se
felicitou por isso; a cadela, pelo menos, no a obrigava a 
conversar. O que j no acontecia com o outro vizinho, um dndi que
s falava do corte de roupas, dos bares da moda e 
das dificuldades de se arranjar cigarros ingleses... 
Sentado  esquerda da dona da casa, Franois Tavernier no tirava
os olhos de La e respondia por monosslabos a Helena 
Szkolnikoff, 
que acabou por perceber. - 
- Bem, meu caro, eu o estou achando muito distrado.  aquela
pequena que lhe vira a cabea? Ela no  nada m, mas lhe 
falta classe. 
Esta ltima observao trouxe um sorriso furtivo aos lbios de seu
interlocutor. 
- Ela ainda  to nova. 
- Oh! Nem tanto assim - disse ela, com um muxoxo, voltando-se para
o vizinho  direita, o general Oberg. 
As pessoas presentes s falavam de compras e de vendas. Era quem
propunha as mais importantes quantidades das 
mercadorias mais diversas: 
cobre, chumbo, trigo, conhaque, sedas, ouro, quadros, livros
raros... Um industrial de Roubaix propunha fornecer de uma 
s vez cinqenta mil metros de l tecida "como antes da guerra"...
Um belga, era metros de pano de toldo... Uma alsaciana, 
perfumes, um fabricante de malhas de Trouyes toda sua produo de
meias de seda, "como habitualmente", um homem das 
Antilhas dois vages de gruyre... Michel Szkolnikoff enumerava os
hotis de que se tornara proprietrio na Cte d'Azur: 
o Savoy, o Ruhl e o Plazza, em Nice, em Cannes, o Martinez, o
Bristol e o Majestic; sem contar os imveis, as casas, as 
sociedades, as usinas, que havia comprado. Falava de seu castelo de
Aisne, em Az, em Sane-et-Loire, no qual as 
suntuosas arrumaes tinham terminado recentemente. Claro que todos
os seus amigos seriam bem recebidos l. 
La, apesar de sua gulodice, no tinha comido praticamente nada.
Esperava pelo final do jantar com uma impacincia cada 
vez maior que seu vizinho notou. 
- Tenho a impresso de que est aborrecida. Se voc quiser, depois,
levo-a a um cabar como nunca viu. Est de acordo? 
- No, obrigada, j chega por hoje. 
- Oh! Entendo! Tem medo de que as pessoas de l se paream com
estas. No h perigo, estamos entre adolescentes. L 
no entra ningum com mais de vinte e trs anos. E podemos ouvir os
ltimos discos americanos. 
- Pensei que fosse proibido. 
-  proibido, mas nos ajeitamos. Sou eu quem forneo os discos e os
cigarros. Em casa de Szkolnikoff, estou certo de 
encontrar algum que tenha esta mercadoria de que necessito. E voc
o que faz?  amante de quem? 
- Minha - disse uma voz por detrs dele. 
O rapaz estremeceu e levantou-se precipitadamente. 
- Desculpe-me, senhor, eu no sabia. 
- No tem importncia. Voc vem, minha cocota? 
La, corada e furiosa, levantou-se tambm. 
- Quem lhe deu licena para me chamar assim? 
- Por que no deu um tapa naquele grosso quando ele a tratou como
cocota? 
- Fiquei to admirada que nem pensei. 
- A culpa  minha. Fiz mal em traz-la a um lugar freqentado por
tal gente. Desculpe-me, isso no se repetir. 
- Pensei que minha presena era indispensvel. 
- No ao ponto de faz-la suportar tal companhia. Eu, por vezes,
esqueo que eles de fato s servem para verem 
fenmenos engendrados pela guerra. 
- Mas o fato de eu ter vindo foi de alguma utilidade? 
- - Sim, isso tranqiliza Szkolnikoff, ver-me com uma linda jovem. 
 mais de acordo com a idia que ele faz de mim. Quando se est 
"em negcios", uma bela mulher afirma o homem...  to estpido 
como isso... 
- Podemos ir embora logo? 
- Sim, depois do caf que  servido no salo. Eu direi que s teve
licena at a meia-noite. 
- E eles vo acreditar? 
- Eu lhes disse que era uma moa de boa famlia, que vivia em casa
de suas tias, duas senhoritas das mais respeitveis. 
Freqentar algum decente os valoriza. 
Pouco depois despediam-se dos donos da casa. 
- No se esquea amanh de manh... As onze horas - disse Helena,
estendendo a mo para que Franois a beijasse. 
- At amanh, querida amiga, e muito obrigado pela deliciosa
recepo. 
- Vai v-la amanh? - perguntou La, ao entrar no carro. 
- Sim, para comprar jias. 
Mas eu no quero jias. 
- Com o tempo lhes parecer suspeito que a mulher por quem estou
apaixonado no tenha jias. 
- Mas isso me  indiferente. Voc quer me ver me pavoneando como
aquelas velhas cobertas de pedras, umas maiores do 
que as outras? 
- No exageremos, uma bela jia nunca enfeiou uma linda mulher.
Diante da Cmara dos Deputados, uma patrulha mandou-
os parar. 
No mesmo instante dispararam as sirenes de um alarme. O oficial,
depois de ter dado uma olhada em seus ausweis, 
aconselhou-os a procurarem o abrigo mais prximo. O boulevard
Saint-Germain, deserto a alguns instantes, encheu-se de 
sombras correndo para as estaes do metr que serviam de abrigo.
La preferiu voltar  rua da Universidade. No trio do 
prdio encontraram as senhoras de Montpleynet, Camille e o
filhinho, Laure e Estelle em robe de chambre. Ao longe, as 
primeiras bombas comearam a cair. 
-  do lado de Bologne disse o vizinho do terceiro andar. 
Sentados no cho ou nos bancos, cada um esperava meio adormecido o
fim do alarme. Encostada em Franois, La deixava-
se acariciar na semi-obscuridade. O final do alerta interrompeu
aquele prazer. 
No por muito tempo. Albertine ofereceu a Tavernier a hospitalidade
do div da sala, que ele aceitou reconhecido. Quando 
todo mundo se deitou, foi ter com La, que se atirou em seus braos
com uma solicitude sedutora. Ele correspondeu como 
se deve. 
O sol j ia alto quando Franois voltou para o div, onde adormeceu
num profundo sono. Naquela noite no houve mais 
que umas vinte pessoas mortas pelos bombardeios aliados. No dia 14
de julho, um bombardeio nas imediaes de Paris 
causara uma centena de mortos. Na Rdio, Jean Haold Paquis entrava
em xtase. 
La tinha a impresso de ser prisioneira da cidade superaquecida
pelo vero. Franois fora obrigado, novamente, a deixar 
Paris. Cada vez ela suportava menos suas ausncias. 
Duas ou trs vezes por semana, com ou sem Camille, ela levava a
propaganda, os jornais clandestinos ou documentos 
falsos aos endereos indicados por mensageiros, que raramente eram
os mesmos. Para escapar a eventuais perseguies, 
logo se tornou mestra em se confundir com a multido de um grande
magazine ou em perder-se entre os passageiros do 
metr, utilizando-o, ou melhor, tomando o primeiro ou o ltimo
vago para com o olhar verificar se era ou no seguida, 
e, quando tinha dvidas, saltar do vago no ltimo momento. No
entanto preferia circular de bicicleta, apesar do perigo de 
ser interpelada por jovens galanteadores. - 
Um dia, na estao do pera, foi empurrada por um rapaz sobre o
qual as portas do vago se fecharam imediatamente. Do 
outro lado do vidro dois homens corriam mostrando o punho. O metr
ganhou velocidade e eles desapareceram aos olhos 
dos passageiros. No compartimento, cada um fazia como se nada
houvesse. La olhou para o rapaz e teve de se conter com 
toda a fora para no gritar. Contra ela, plido, cansado,
cheirando a suor e medo, Pierrot, o seu primo Pierrot, tremia. O 
metr j diminua de velocidade e entrava na estao de Chausse
d'Antin. Ali era preciso descer. Quando o metr parou, 
ela agarrou na mo do primo e arrastou-o. Surpreendido ainda, ele
esboou um gesto de resistncia quando enfim a 
reconheceu. 
- Voc! 
- No corra, d-me o brao, vamos entrar nas galerias Lafayette.
Seguem-no h quanto tempo? 
- No sei. J tentaram me pegar no Chtelet. 
- Voc lhes escapou por duas vezes... Para algum que no conhece o
metr no  nada mau. Desde quando est em Paris? 
- Desde ontem  noite, tentava ir para a casa de suas tias. 
- Pensei que estivesse num colgio de jesutas. 
- Estava, mas escapei. No quero esperar pelo fim da guerra sem
fazer nada... 
- Cuidado, no fale to alto! Seu pai vai ficar louco de raiva. 
- No me preocupo. Ele e meu irmo enojam-me, completamente sujeito
ao velho e  bota dos boches. 
- Que pensa fazer? 
- No sei. Como o colgio era perto de Paris, pensei em voc. As
aluses de meu pai fizeram-me compreender que voc 
tinha relaes com a_Resistncia... 
-  dizer demais. Para isso  melhor ver tio Adrien. 
- Tambm pensei nisso, mas ningum sabe, ou no quis dizer onde ele
est. 
- Que vou fazer com voc?... Tenho uma idia. 
Sempre andando, saram das galerias Lafayette e dirigiram-se para a
estao do metr Havre-Caumartin. Estava um calor 
assustadore foi com alvio que saram na Etoile e desceram os
Champs-Elyses a p. 
- Felizmente est corretamente vestido. 
- Meu pai quis renovar meu guarda-roupa. 
- Uma sorte. Vai fazer boa figura entre os amigos de Laure. 
Naquela bela tarde de vero, parisienses e ocupantes circulavam
pelas esplanadas dos cafs, fingindo ignorarem-se. Pierrot 
e La entraram no Pam-Pam. Na cava do piano bar, uns vinte jovens,
rapazes e moas, de olhar vago, marcavam o 
compasso com os dedos ou com os ps em volta do pianista.
Pacientemente esperaram o final do trecho. La avanou para 
o pequeno grupo. 
- Voc aqui! Isto promete - disse um lindo rapazinho, beijando-a. 
- Bom dia, Roger. Tudo bem? No viu Laure? 
- O que voc quer? - disse uma voz, emergindo da penumbra de um
banco que o grupo chamava o canto dos apaixonados. 
Laure levantou-se manchada de batom. 
- Limpe-se - disse a irm, estendendo-lhe o leno. Obrigada. 
- Olhe quem veio comigo. 
- Pierrot! - exclamou ela, correndo para o primo. 
Este olhou-a com tal espanto que fez rir todo o bando. 
- Laure?... 
- Sou eu mesma. 
- No a teria reconhecido - disse Pierrot, beijando-a. 
La puxou a irm  parte e explicou-lhe a situao. 
- Tio Luc deve estar furioso - disse ela, rindo muito. 
- Compreendeu bem o que deve fazer: vocs vm todos as oito horas 
rua da Universidade, rindo e fazendo a algazarra de 
costume. Se vigiam a casa, no prestaro ateno em vocs. Eu vou
voltar agora para previnir tia Albertine e ver se tudo 
est bem. Se qualquer coisa correr mal, abrirei de par em par as
janelas da sala, o que quer dizer meia-volta. 
- . . .e irei  casa de Roger. Compreendido. 
Tudo deu certo e Camille conseguiu arranjar documentos falsos com o
nome de Philippe Dorieux, estudante, natural de 
Libourne. Devia ir at Poitiers: a ficaria a cargo de um grupo da
regio. O encontro estava combinado diante da entrada de 
Notre-Dame-la-Grande, no dia de feira, e a senha era: "Voc conhece
a igreja de Saint-Radegonde?", ao que Pierrot deveria 
responder: "No, mas conheo Saint-Hilaire". 
Era a quarta vez numa semana que Paris era despertada pelas sirenes
e que os habitantes se encontravam nos pores ou no 
metr. Farta, La recusou-se a deixar seu quarto, apesar das
advertncias dos jornais e das rdios. Dia a dia, muita gente se 
deixava matar por ter se recusado a descer aos abrigos. 
Estava um ar pesado, a tempestade que ameaara cair durante todo 
o dia havia se afastado. La foi at a janela, seguindo com um
olhar 
indiferente os raios luminosos que vasculhavam o cu em busca dos 
avies, dos quais se ouvia um zumbido surdo. Subitamente, odiou os 
prdios altos que lhe escondiam o cu, no porque a privassem de um
eventual espetculo, mas porque limitavam seu espao como os muros 
de uma priso. 
- Vou explodir - murmurou. 
Ento, reviu os grandes espaos que rodeavam Montillac, o mar alm 
do horizonte, o silncio habitado das noites, o perfume poderoso da
terra aquecida, quando grossos pingos de chuva libertam um a um os 
perfumes. La fechou os olhos com volpia.
Trs dias depois tomava o trem para Bordus. Uma semana mais tar de
Camille e o filho foram ao seu encontro.

Captulo 21

 FAZIA MUITO CALOR. Todos
os dias, quando o sol comeava a baixar Camille
e La pegavam suas bicicletas, e, abrigadas sob grandes 
chapus de palha, desciam para se banhar na Garonne, em frente a 
Langon. Charles fazia parte do grupo e sentia-se completamente
seguro em seu banco de vime, atrs de sua "tia" La. 
Camille era a encarregada do cesto da merenda, da garrafa de
limonada bem fresca, das 
toalhas e dos livros. 
As duas jovens, igualmente boas nadadoras, gostavam de competir 
para ver quem chegava mais depressa ao outro lado do rio. Algumas 
vezes complicavam a brincadeira. Era preciso mergulhar, apanhar uma
pedra, ficar mais tempo possvel debaixo da gua, ou contornar os
pilares da ponte, onde a corrente era perigosa. Na 
disputa era sempre La 
quem ganhava, debaixo da gua era Camille. Charles nadava como um 
cachorrinho. Era todos os dias um teatro para o tirar da
brincadeira. 
Depois do banho, deitavam-se ao sol, trocavam poucas palavras, em 
perfeito bem-estar. Era preciso que os gritos persistentes da
criana as 
- tirassem daquela sonolncia. Tudo estava calmo, fora o grito das
gaivotas o canto das andorinhas, o riso dos garotos que 
abafava, por vezes 
o barulho do trem passando sobre o viaduto prximo. Era um barulho 
familiar e repousante. 
Sem que houvessem combinado, desde a volta, no tinham evocado a
Resistncia, nem a partida de Pierrot, tomado ao 
encargo do grupo. Aqueles dias de sol,  beira-rio, eram como um
parntesis, que uma 
e outra desejavam prolongar. As notcias de Laurent, que por fim 
juntara-se ao coronel Leclerc e se exercitava duramente em
Sabratha, 
eram boas. Quanto a Franois, mandara avisar que viria por alguns
dias 
em setembro. Adrien circulava entre Toulouse e Bordus, levando a 
sua ajuda onde era necessrio; Lucien, encaminhado para a Sua,
no 
falava de seu horrvel ferimento; Jean e Raul continuavam presos no
forte H, mas a me podia v-los a cada quinze dias, 
seu moral estava  toda prova. No voltaram a ver Mathias que,
segundo os pais, tornara- se um "senhor". La estava 
apreensiva com aquele reencontro, Ruth, Sindonie e mesmo Bernadette
haviam feito um bom trabalho durante sua ausncia, 
dificultando Fayard, que voltara  carga. Desejava mais do que
nunca recuperar a propriedade. Ruth lhe dissera que, se 
voltasse a falar nisso, o mandaria embora. A vindima anunciava-se
boa e a guerra logo terminaria. 
Apoiada nos cotovelos, La seguia maquinalmente com os olhos um
nadador que acabava de mergulhar na margem de 
Langon. Suas braadas eram leves e rpidas. Chegou  margem e
deixou-se cair no longe de onde elas estavam. Ficou 
imvel por uns instantes, depois, lenta- mente, levantou-se. 
De uma s vez, o cu escureceu e La sentiu frio. 
- Bom dia - disse Maurice Fiaux. 
Camille estremeceu. Com apreenso, levantou a cabea. 
- Bom dia - disseram ambas com uma voz inexpressiva. 
- Que belo vero, no  verdade? Vocs vm sempre aqui? Eu,  a
primeira vez este ano... Tenho tanto trabalho em 
Bordus, nem imaginam.... Quando  que voltaram? Fui duas vezes a
Montillac, mas no havia ningum... Os passarinhos 
fugiram... 
- Estivemos em Paris, em casa das minhas tias. 
- Eu sei - disse ele, secamente. 
Camille voltou a cabea. 
- Laure no voltou com vocs - disse ele, mais meigo. 
- Preferiu ficar em Paris. E mais divertido para ela. Laure nunca
gostou do campo e sempre se aborreceu em Montillac - 
disse La. 
- Compreendo-a. Mas podia ter ido para Bordus, para casa do seu
tio, Mestre Delmas. Um homem notvel, que tem 
muitos amigos e relaes... 
- Mas  um pouco rigoroso e sempre com a mania das convenincias,
decerto no lhe daria tanta liberdade como ela tem em 
Paris. 
- Sabe, La, os costumes mudaram muito h algum tempo, mesmo em
Bordus. Tornou-se uma cidade onde nos divertimos. 
Devia ir at l dar uma volta, isso levantaria o moral do seu amigo
Raphael Mahl... 
- Ele continua l?... Por que est de moral baixo? 
- Oh, voc o conhece.... Apaixonou-se por um vadio de Mriadec, que
o engana, que lhe bate e lhe tira todo o dinheiro. E, 
assim, fez grandes tolices... 
- Quais?... 
Foi um pouco longe demais nos seus negcios duvidosos. A polcia o
tem em mira. Isso no seria muito grave se ele no 
tentasse nos enganar. 
La no pde reter um sorriso. Terrvel Raphael. 
- Isso a faz rir? Realmente no h de qu. Eu pouco me importo, em
seu lugar teria feito igual, teria tentado o golpe, valia 
bem a pena, mas no  essa a opinio dos meus camaradas. Eles
queriam abat-lo... A muito custo os convenci de que ainda 
nos poderia ser til, fazendo- nos alguns favores para salvar a
pele. 
- Mas  ignbil - exclamou Camille. 
- Que quer, minha senhora,  a guerra. Mahl conhece o papel de
certas personagens na Resistncia, a ajuda que do aos 
terroristas e aos judeus. No caso do Terrvel, foi-nos de muita
utilidade. 
- O caso do Terrvel? 
- No est sabendo?... Todos falam nisso por aqui. A Gestapo
conseguiu um golpe na rede de La Reole. Primeiro o capito 
Gaucher, preso na estao, transportando um rdio emissor na mala,
alguns dias depois, em 19 de agsto, Adois... Isso no 
lhe diz nada? 
-Jo. 
E o nome de guerra de um carpinteiro de La Reole... 
La enfiava as unhas na terra para no gritar. Esforava-se por
perguntar: 
- Que relao tem Raphael Mahl e um carpinteiro de Reole? Nosso
amigo no est interessado em trabalhos manuais. 
- No, mas interessa-se pelos franco-maons. 
- No sabia. 
- Foi Beckmann, adjunto do doutor Hans Luther, o chefe do K.D.S. de
Bordus, encarregado da vigilncia dos eclesisticos 
e dos francomaons, que teve a idia de o empregar, quando soube
que ele fazia parte de uma loja em Paris. Ele fora expulso 
antes da guerra por desfalque, mas manteve suas relaes com alguns
irmos. Da suas relaes com a loja de La Reole. O 
que lhe permitiu conhecer as atividades de Jacques, o Terrvel, o
carpinteiro. 
- Raphael o denunciou?... 
- Nem era preciso, alguns j o haviam feito antes dele. 
- Foram presas mais algumas pessoas? 
- Sim, j me esqueci de seus nomes. Se isso a interessa posso me
informar. 
- Eu dizia isso por dizer. 
- Foram fuzilados? - perguntou Camille. 
- No, eles podem fornecer-nos uma quantidade de informaes 
sobre o grupo, cuja misso  o pra-quedismo, o esconderijo de
armas, os documentos falsos, a centralizao das 
informaes, a organizao do alojamento dos judeus e dos
refratrios ao S.T.O. 
- Onde esto? 
- Na priso de Saint-Michel, em Toulouse. 
H dois dias que essas prises tinham sido efetuadas e elas s o
souberam pela boca daquele pequeno malandro. Ao mesmo 
tempo, voltaram-se para esconder seu desgosto. 
Soavam sete horas no campanrio de Langon. 
- Santo Deus, vou chegar atrasado... Adeus... Passarei para v-las
qualquer desses dias. 
Alguns pingos de gua as salpicaram quando ele mergulhou. Elas no
se moveram. 
- Mezinha! Mezinha! Posso ir tomar banho com aquele senhor? 
Camille agarrou seu pequenino e apertou-o contra si. Ele protestou:
- Voc me machuca... 
Ela beijou-lhe as faces rosadas. 
- Oh! Meu querido... Pode ir tomar banho... 
Sem terem dito nada uma  outra, no dia seguinte ao do encontro com
Maurice Fiaux e nos dias seguintes, no saram de 
Montillac. Para elas o vero e os banhos no Garonne tinham
terminado. Como fulminadas, ficaram muito tempo sem poder 
falar do que tinham sabido e entregavam-se ao trabalho na horta:
era preciso apanhar as batatas, colher o feijo verde, regar, 
revolver a terra. 
 noite, depois do jantar, La errava atravs das vinhas quela
hora em que o sol envolve de vermelho e ouro os campos 
bordaleses. Amava de todo o corao esta terra rica, onde a mo do
homem estava sempre presente, com uma felicidade, 
harmonia e equilbrio que a encantavam cada vez mais. Desde aquele
encontro maldito, tudo perdera o encanto. Errava 
pelos caminhos, procurando lugares que acalmassem aquele pnico que
invadia em ondas o seu esprito torturado. Mas 
todos tinham perdido a sua magia. Nem o calvrio de Verdelais, nem
o casebre de Gerbette, meio enfiado na terra, nem a 
Groix de Borde, de onde se dominava toda a regio, nem a igreja da
Saint-Macaire, com sua Virgem dos marinheiros, lhe 
conseguiam dar paz, Extenuava-se em longos percursos de bicicleta
em lugares onde ningum conhecia, para os lados de 
Langoiran, Targon, ou na outra margem, Villandraur, Bazas... nada
resultava. Constantemente a voz do agente da Gestapo, 
cuja imagem se confundia com a de Mathias, insinuava-se em seu
crebro: 
- No caso do Terrvel, ele nos foi muito til... Adois... Isso no
lhe diz nada?...  o nome de um marceneiro de La Reole... 
Embora Maurice Fiaux tivesse deixado perceber que Raphael no tinha
denunciado Jacques, o Terrvel, La no podia 
deixar de pensar que ele no era inocente nessa priso. Tal como
no tinha estado na de Sarah Mulstein. No conseguia 
dominar o medo abjecto que dela se apoderava e a cobria de suor,
dando-lhe nuseas e cortando-lhe as pernas. Na prxima 
vez seria ela quem ele entregaria  Gestapo. Ele sabia ou
adivinhara coisas suficientes para envi-la aos pores do Mdoc, 
ou para as celas do forte de H. Talvez mesmo para a frente de um
peloto de execuo. La via as espingardas apontadas... 
ouvia-se suplicando aos carrascos... 
Foi nesse estado que Franois Tavernier a encontrou. Mesmo o
cansao da vindimas no havia conseguido adormecer seu 
terror. 
Enlaados, La e Franois viam nascer o sol sobre a campina
dourada, apenas avermelhada por leves toques. 
H cinco dias, cada manh, levantavam-se, cansados e felizes,
admirando com a mesma exaltao incrdula essas promessas 
de felicidade que emergiam com a madrugada. Acabado o medo imundo,
a presena de um homem, suas carcias, o haviam 
expulsado. Em seus braos, ela ria dos Raphael Mahl, dos Maurice
Fiaux, da Gestapo. La colhia no prazer novas foras. 
A guerra levara todos os preconceitos. Mesmo Bernadette Bouchardeau
no se espantava que La partilhasse seu quarto 
com um homem que no era seu marido. Era verdade que a atitude da
moa no lhe deixava nenhuma escolha. Pelo seu ar 
todos compreenderam que ela no aceitaria o menor palpite. Todos o
tinham tomado por dito. 
Diante daquela manh de outono que se levantava to bela, Tavernier
adiava o momento de anunciar a La sua prxima 
partida. Preocupava-se com a idia de deix-la s. Sabia que a
Gestapo andava na pista do padre Adrien Delmas. O 
dominicano acabava de escapar por um triz em Toulouse dos homens
lanados em seu encalo. Cedo ou tarde Dohse 
enviaria os seus agentes para a interrogarem, como fazia com os
parentes mais prximos dos supostos pertencentes  
Resistncia. Fora necessrio uma sorte inacreditvel e um feixe de
protees sutis, para que isso ainda no tivesse 
acontecido. Alm disso, a presena de Camille d'Argilat em
Montillac, anteriormente presa por causa do marido, os laos 
existentes entre o doutor Blanchard e os habitantes do castelo,
deviam obrigatoriamente conduzir o chefe da Gestapo de 
Bordus a querer ouvi-la. 
Na vspera, Tavernier entregara s duas moas documentos falsos
que, dissera, podiam lhes ser teis e aconselhado 
imperativamente estabeleceram contato com Franoise com quem ele
faria ligaes regularmente. Insistiu para que se 
mantivessem  distncia da Resistncia. Elas j deviam estar sob
vigilncia. Impunha-se a mais completa prudncia. E ainda 
acrescentou que seria bom que elas tivessem armas, com a condio
de arranjarem um lugar seguro onde escond-las. 
A noite, anunciou sua partida. 
Por orgulho, La nada dissera a Franois sobre as dificuldades
crescentes que ameaavam a propriedade, nem a atitude de 
Mathias e a sua convico de que, para salvar Montillac ela no
teria outra escolha seno casar-se com ele. Diante de seu 
silncio, ele pensou que o dinheiro do notrio e o que entregara a
Ruth na primavera eram suficientes. Para no feri-la, no 
voltou a falar nisso. 
Confortavelmente aquecidos, abrigados sob um grande guarda- chuva,
deram um ltimo passeio atravs das vinhas, depois 
de terem cumprimentado Sidonie em Bellevue. De volta a Montillac,
apressaram o passo para escapar das rajadas de vento 
e da chuva fina e fria que parecia penetrar em toda a parte. 
A casa esmagava-se sob as pesadas nuvens negras que percorriam o
cu, to ameaadoras que o corao de La contraiu-se. 
O mau tempo viera cedo demais naquele ano. Tudo anunciava um incio
de inverno precoce e rigoroso. 
Uma mancha vermelha agitava-se no verde do relvado, depois veio na
sua direo, tomando pouco a pouco a forma de uma 
criana que corria. Era Charles que, escapando  vigilncia da me,
vinha at eles com toda a velocidade que suas pequenas 
pernas permitiam. Atirou-se nos braos de La rindo. 
- Quase voc me derruba, maroto - exclamou, girando com ele sob a
chuva. 
O riso e os gritos do garotinho pareceram a Franois completamente
descabidos sob aquele cu sinistro e ao mesmo tempo 
pareciam dizer: 
olhem, a vida continua. Sim.., a vida devia continuar. Hoje chovia,
mas amanh... Como eram belos, os dois, mesmo La 
havia recuperado seu riso de criana! 
La tinha a impresso de que a chuva no cessara desde a partida de
Franois. No estava frio, mas todo o campo parecia 
banhado duma nvoa mida e pegajosa que apodrecia a vinha. 
Sentada  secretria do pai, para se distrair dos seus trabalhos de
contabilidad 
que eram para ela um autntico suplcio, recopiou as palavras de
uma cano de Pierre Dac, difundida pela 
Rdio-Londres na noite de 5 de dezembro, e que Mireille, a mulher
de Albert, o aougueiro de Saint-Macaire, 
copiara em estenografia e depois transcrevera antes de dar  sua
jovem amiga. Quando ela acabou, La 
levantou-se e contou na melodia de Lili Marlene. 
 fora de ouvir esta cano 
Tive o desejo, ditado pela razo 
De ir simplesmente uma noite 
A fim de ver 
E de saber 
O que diz Lii Mariene, 
O que diz Lii Mariene. 
- H, Diga-me, minha bela, porque esse ar sonhador? 
Por que h nos seus olhos esse brilho embaado? 
- J no h para mim felicidade, 
E a desgraa 
Est no meu corao... 
Disse Liii Marlene, 
Disse Liii Marlene. 
- Vejamos, j no tem confiana no seu fhrer? E/e no  para voc
o grande senhor 
- O triunfo que ele nos prometeu, 
Ainda o espero 
H trs anos e meio, 
Disse Liii Marlene, 
Disse Liii Mariene. 
- No est mais feliz por pertencer 
A grande Alemanha e orgulhosa de seu futuro? 
- Eu sei que todo o Reich 
Est bombardeado 
Pelos alidados 
Disse Liii Marlene, 
Disse Liii Marlene. 
- Ignora ento o invencvel muro 
Que a sua Wehrmacht ergue por toda a parte? 
- Sei que o solo da Rssia 
Est todo vermelho 
De sangue nazi 
Disse Liii Marlene, 
Disse Liii Marlene. 
A vitria enfim coroando as suas bandeiras 
Sobre a cruz gamada resplandecer brevemente 
- Eu sei que na minha alma desolada 
Nao h mais esperana 
Estamos perdidos 
Disse Lili Marlene, 
Disse Lili Marlene. 
- Bravo! - disse Camille, aplaudindo. 
- No a ouvi entrar. 
- Estava toda entregue  sua cano. Logo poder martelar Suzy
Solidor em sua prpria terra. 
- Estava pensando nisso. Que h de novo? 
- Nada. Continua chovendo... Voc verificou as contas do senhor
Fayard? 
- Sim, mas no vejo nada de anormal ou ento no compreendo nada. 
- Pergunte ao senhor Rabier. 
- O contador do meu pai... Mas est completamente gag. Lembra- se
no ano passado de todos os erros que cometeu nas 
declaraes fiscais, e o tempo que perdi com o tesoureiro de
Langon, que no queria saber de nada. 
- No poderamos utilizar, durante um tempo, um contador de
Bordus? 
- No tenho dinheiro!... Olhe para este monte de faturas... Eu no
tenho nenhum centavo para pag-las. O banco j chamou 
duas vezes desde o incio da semana. 
Desolada, La deixou-se cair numa cadeira atrs da secretria.
Camille aproximou-se dela e acariciou seus cabelos. 
- Se soubesse como me sinto infeliz por no poder fazer nada por
voc... 
- Por favor, no fale. 
As duas mulheres ficaram silenciosas por um momento. 
- J pensou nos presentes de Natal? - perguntou La, levantando a
cabea. 
- J. Mas este Natal ser mais pobre do que os outros. Ruth
encontrou no sto um velho carro com pedais... 
-  meu! - exclamou La, num tom possessivo. 
Camille no se conteve e riu. 
- Voc no quer d-lo a Charles? 
-  claro que sim - disse ela, por sua vez, rindo e corando um
pouco. 
- Ruth comprou tinta vermelha para pint-lo. 
Bateram  porta. Era Albert, o aougueiro de Saint-Macaire, com o
rosto desfeito, ofegante. 
- O que aconteceu? - gritaram juntas La e Camille. 
Ele demorou algum tempo para responder, tentando ganhar flego. 
- Seu filho? - perguntou Camille. 
Ele fez que no com a cabea. 
- Ento o qu?... Fale. 
- Prenderam o padre Delmas. 
- Oh! Meu Deus - fez Camille, apoiando-se contra a biblioteca. Um
grande frio se apoderou de La. 
- Como soube? 
- Esta manh, muito cedo, um camarada, professor perto de La Role,
que pertencia ao grupo Buckmaster, veio ao aougue 
para me prevenir e pediu-me para avis-las. 
- Como ele soube? 
- Por um guarda de La Role que as vira com o pai Terrvel. Segundo
ele, a Gestapo desconhece a importncia.de sua presa. 
Seu tio foi detido por acaso em Bordus durante uma batida. Talvez
o tivessem liberado se no encontrassem em seu poder 
documentos de identidade em branco. Foi um dos policiais que o
prendeu que avisou seu colega de La Role, porque 
pertencem ao mesmo grupo. 
- Se um policial o reconheceu, outros podem faz-lo e denunci-lo. 
- Ele mudou muito, fisicamente, mas  o risco. Logo que soubermos
onde ele se encontra, tentaremos faz-lo fugir. Daqui 
at l, temos de pedir ao cu que ele no fale. Mesmo esta noite
iremos mudar as armas escondidas nos secadores do tabaco 
de Bane e na Belle-Assise; os irmos Lafoucade viro nos ajudar. 
- Podemos ajud-lo? 
- Sim, temos dois pilotos ingleses que devem partir novamente
dentro de dois dias. J no esto em segurana em Viot. 
Podem escond-los? 
- Estaro mais seguros aqui? - perguntou Camille. - Temos todas as
razes para desconfiarmos de Fayard. 
- Dona Camille, temos de correr esse risco. Esta noite viro
trazlos, passando por Bellevue. Eu, enquanto isso, me farei 
convidar por 
Fayard para beber um copo com o meu querido e velho amigo. Est bem
assim? 
- Muito bem, Albert. Vamos p-lo no quartinho perto do escritrio.
Ningum vai l, serve como quarto de despejo.  no 
andar trreo, o que  prtico, se tiverem de sair de casa
rapidamente - disse La. 
- Obrigado. Se notarem qualquer coisa de suspeito, chamem-me em
Saint-Macaire, dizendo: "Sua carne estava bem dura 
hoje", eu compreenderei e ficaremos com nossos ingleses. 
- Como saberemos sobre tio Adrien? 
O homem encolheu os ombros. 
- Desde a priso de Grand-Clment, no ms de agosto, depois de sua
libertao, muitos dos nossos foram presos. 
Perdemos os nossos informantes do campo de Mrignac e do forte de
H. Temos de ser muito prudentes com os novos 
recrutas. Por agora a nica ligao que nos resta  o policial de
Bordus. Logo que saiba qualquer coisa falar a La Role. 
- E se eu fosse a Bordus? - disse La. 
- Tudo menos isso!  o bastante uma pessoa da mesma famlia estar
presa. 
- O doutor Delmas talvez pudesse intervir - disse Camille. 
 um colaboracionista, no far nada pelo irmo. Lembre-se do que
ele me disse: para ele, Adrien morreu.

Captulo 22

- VEJA, SOMOS BONS PRNCIPES... Voc escolhe os direitos comuns, ou
os polticos... Entenda, por isso, os comunistas,
os sabotadores e outros terroristas. 
- Pensei que todos estivessem misturados, sem distino. 
- No incio era assim, depois comearam a ver que os pequenos
rufies do porto, os pequenos traficantes do mercado 
negro, podiam nos ser teis. Ento, para que no se deixassem
contaminar pelos vermelhos e pelos gaulistas - foi uma idia 
de Poinsot -, deixamos alguns  parte e os injetamos nas celas dos
polticos quando temos necessidade de saber coisas.  
uma loucura o que se diz  noite numa cela onde seis ou sete homens
esto fechados... Voc nem imagina... 
Imagino muito bem. Nada disso  muito convidativo... No tem outra
para me propr? 
- Logo enviaremos judeus para a Alemanha... Se voc quiser juntar-
se a eles; no se sentir deslocado entre judeus... 
Isso tambm no me agrada... No fazem o meu gnero as viagens sem
volta. 
- Ento, decida-se. 
- No poderei ter uma cela s para mim? 
-  o que mais quer?... Com forrao, telefone e banheiro? 
- Ah! Sim, isso me agradaria muito. 
- Chega de zombar de ns... O patro  bom demais... Por mim,
seriam duas balas na nuca, ou no eu... Viciado como voc , 
talvez gostasse.. 
- Meu gosto por grossos calibres no chega a tanto. 
Um grande murro de direita jogou Raphael Mahl contra os arquivos
metlicos do escritrio, onde os seus antigos camaradas 
o interrogavam desde a manh, acabando por lhe transformar os
lbios numa ferida. O mais encarniado era Maurice Fiaux, 
que lhe batia como se tivesse 
contas pessoais a ajustar. Curiosamente, Raphael, que se sabia
covarde, suportara bem aquele mau bocado. No tinham 
feito mo leve, os seus amiguinhos da Gestapo. S Mathias Fayard
no participara daquela tourada. Ele era engraado... 
Desde h algum tempo, o belo Mathias Fayard, sombrio, irrascvel,
achava sempre boas desculpas para no participar das 
prises e sobretudo dos interrogatrios. Raphael Mahl ergueu-se com
custo... No era o momento para se debruar sobre 
os estados de alma do companheiro de infncia de La. La... Era um
pouco por causa dela que estava levando toda a culpa. 
Desmaiou. 
Os solavancos do carro o fizeram voltar a si. Um soldado alemo
dirigia, com um oficial ao lado. Atrs, outro soldado e 
Maurice Fiaux enquadravam-no. Justo em frente ao impressionante
porto do forte de H, o vendedor de livros, onde ainda 
na vspera ele estivera, fechava sua loja. 
Entregaram-no aos guardas alemes. Maurice Fiaux partiu sem se
voltar. Para as formalidades do registro, conduziram-no 
ao primeiro andar. Na sala, onde o fizeram entrar, uma balaustrada
separava o recm- chegado dos funcionrios 
encarregados de o receber. Textos em francs espanhol e alemo
convidavam o recm-chegado a conservar-se em frente da 
parede e a no falar. Por detrs desta clausura, trs grandes mesas
e uns armrios guarneciam a sala. 
De uma sala vizinha chegava o crepitar das mquinas de escrever.
Esse barulho montono, provocou em Raphael um tdio 
profundo, ele sempre detestara o ambiente dos -escritrios; j
quando estava em Gallimard evitava cuidadosamente o 
secretariado. "A burocracia me persegue", pensou. Por detrs da
balaustrada, os empregados militares aplicavam-se a fazer 
letra gtica. Raphael, que apesar dos avisos voltara a cabea,
estremeceu ao lembrar-se das aulas de caligrafia no colgio 
daqueles bons padres e das reguadas que choviam sobre os seus
dedos. Nunca conseguira escrever o seu nome, nem o ttulo 
do dever do dia em bela letra redonda, como os professores exigiam.
Um empregado levantou-se e pediu-lhe os documentos, com um ar
adormecido. Nem pareceu reparar no estado de sua 
figura. 
- O senhor tem dinheiro? 
O guarda, que nunca o deixara, empurrou-o para a balaustrada.
Raphael inclinou a cabea. 
- Precisa me entregar tudo, assim como as jias, o relgio e a
gravata. Tudo isso lhe ser devolvido quando sair, senhor. 
Num impresso inscreveu com cuidado a identidade do novo preso,
contou o dinheiro que trazia na carteira e anotou o total. 
- Um relgio de ouro com pulseira de ouro... Um anel de ouro com um
diamante... 
- Ponha: grande diamante. 
- Com grande diamante... Uma corrente de ouro, um cordo e uma
medalha de ouro... 
Raphael sentiu uma fisgada no corao ao depositar a medalha. Era a
do seu batismo, e, estranhamente, a conservava. 
Gostava de lembrar- se de certas cenas de sua infncia mimada,
entre uma av um pouco louca que ele adorava e um tio 
extravagante, mas encantador. 
- A gravata. 
Custou a desfazer o n encharcado de sangue. O empregado colocou
tudo num saco de papel e estendeu-lhe a ficha 
assinada. 
A porta abriu-se e trs homens, ainda em pior estado do que ele,
foram brutalmente empurrados para a sala... Um deles, 
com as mos massacradas, olhos fechados pelos golpes, avanava como
cego. Ouviu- se um dos sargentos dizer em alemo: 
- Trazemos terroristas. Explodiram a viatura de um oficial. Um dos
dois deve ser ingls... Quando o interrogaram, tudo o 
que sabia dizer era: "Vo  merda, boches, vo tomar no cu". 
Raphael no pde deixar de sorrir. 
- O tenente, que compreende ingls. no gostou disso e quis
interrog-lo pessoalmente. 
- Ele respondeu? 
- No, quando no gritava, zombava. 
Aquele ingls era cada vez mais simptico a Mahl. Devia ser um belo
rapaz em tempos normais, isso se adivinhava apesar 
dos olhos fechados, do rosto disforme e dos lbios intumescidos. 
- Ele tem documentos? 
- No, tudo o que trazia consigo  isto. 
O sargento alemo jogou na tbua a fotografia de uma jovem muito
bonita. Raphael deu um suspiro profundo. "Mais um 
heterossexual", pensou, voltando-se. 
O ingls e um dos prisioneiros no deviam ter mais que vinte anos,
sendo o outro muito mais velho. Longos cabelos e um 
vasto bigode grisalho, naquele momento ensangentado, com profundas
rugas na testa e no rosto at os lbios. No fosse o 
seu olhar, poderiam tom-lo por um campons de Lot-et-Garonne. Um
dos olhos permanecia fechado. "Eles devem ter 
recebido ordens para nos vazar os olhos e nos cegar", raciocinou
Raphael. 
- Vamos, venham... Apressem-se... Acabou. 
O guarda, que no o deixara, empurrou-o para a porta.
- Seu nome? - perguntou o empregado ao falso campons. 
- Alain Darderme. 
Raphael Mahl parou. Aquela voz o fazia recordar qualquer coisa. O
soldado alemo pousou-lhe a mo no ombro. 
- Avance! 
Levaram-no para uma sala vizinha, parecida com a outra, onde lhe
perguntaram se ele era comunista, franco-maom, 
resistente ou gaullista. A todas as perguntas ele respondeu no.
Seria ele judeu?... Sim, metade. Pela me? No, pelo pai. 
Aparentemente satisfeito com sua resposta, o empregado, to
parecido com o outro que chegava a ser divertido, deu-lhe 
uma ficha preenchida, dizendo-lhe com seu terrvel sotaque: 
- At logo, senhor. 
Empurrado pelo guarda, Raphael Mahl teve de descer uma escada em
caracol com degraus irregulares. Sempre empurrado, 
quase correndo, atravessou a sala dos guardas e seguiu por um
estreito corredor de teto muito alto, para o qual davam doze 
portas. Eram as celas de "acolhimento:', O guarda abriu a de nmero
5 e jogou, com uma brutalidade intil, o detento em 
sua cela. 
Muito tempo Mahl ficou de p, a cabea baixa. Quando a levantou,
olhou  sua volta e desatou a rir. Aquele riso arrancou-
lhe um grito de dor: havia se esquecido de seu queixo inchado e dos
lbios partidos. 
A estreiteza do quarto, um metro e trinta, pouco mais ou menos, o
fazia parecer mais alto. Duas camas de madeira 
sobrepostas, com uns colches manchados, desprendiam um odor de
palha bolorenta e de vmito. 
Raphael estendeu-se na cama de baixo, enrolou-se na coberta e
adormeceu, pensando: "Ento, eles conseguiram apanh-
lo...". 
Durante dois dias, Raphael Mahl s teve para se alimentar gua com
gosto da ferrugem de seu cntaro. "Com este regime, 
vou recuperar a linha", pensou ele. 
No terceiro dia, vieram busc-lo s seis da manh. 
- Fora. 
O guarda conduziu-o a uma espcie de corpo de guarda onde teve de
se despir completamente. A sua frente esvaziaram 
seus bolsos, depois devolveram-lhe a roupa e os sapatos,
dizendo-lhe para se vestir. Nada... J no tinha nada... Nem 
documentos, nem dinheiro, nem bloco de anotaes, nem o menor
pedao de lpis. Deram-lhe um cobertor rasgado, uma 
tigela destinada a sua toalete, e, para comer, um prato amassado e
uma colher de estanho, sem esquecer o recibo dos 
objetos confiscados e um pequeno carto com o nmero da sua
matrcula e o de sua cela, assim como sua profisso. Agora 
era o nmero 9793. 
Seguido pelo guarda, Raphael Mahl, levando os seus magros bens,
desembocou num vasto vestbulo oval. A primeira coisa 
que notou foi um enorme fogo que se encontrava no centro e cuja
chamin saa pela vidraa que iluminava a entrada. Em 
trs andares, as celas rodeavam-no com suas portas grossas e
sombrias, distantes de dois em dois metros, trazendo um 
grande nmero em letras pretas e uma tabuleta onde estavam
inscritos, com etiquetas de cores diferentes, vermelhas, 
verdes, amarelas, as matrculas dos prisioneiros fechados no
interior. Todas tinham uma fresta com grades. 
Pare! 
O guarda imobilizara-se diante do nmero 85. Um outro guarda abriu
a porta com uma chave imponente. Estava muito 
escuro, de cada lado da cela, os homens estavam dispostos em fila
militar. Eram seis, Raphael Mahl seria o stimo. Logo 
que a porta se fechou, eles correram para ele. 
- Eh! Meu pobre velho, eles o trataram porcamente, os safados... 
- Eu me chamo Loc Kradec, sou breto... de Pon-Aven... Sou
marinheiro. E voc? 
- Eu sou espanhol... Meu nome  Fernando Rodriguez. 
- Eu... sou Ded Desmotte, de Bordus. 
- George Rigal, tambm sou de Bordus, estudante. 
- Marcel Rigaux... Sou operrio das docas do porto. 
- Doutor Lemaire, mdico em Libourne. Deixe-me examin-lo... No me
parece grave. 
Todos, excluindo o mdico, no deviam ter quarenta anos, eram
jovens, muito jovens. 
- Raphael Mahl, escritor e jornalista de Paris. 
- Estamos bem servidos, um escritor... Poder nos contar histrias 
- disse Dede, com voz gutural. 
Encantado em conhec-lo, venha, coloque suas coisas aqui - disse o
mdico, mostrando-lhe um pequeno reduto junto da 
entrada. 
Eram gabinetes com o lavatrio trincado, acima do qual, sobre uma
estante, estavam postos os pratos, as colheres, o sabo, 
a pasta dentifrcia e uma grande caixa de inseticida. 
Raphael Mahl colocou seu prato e a colher ao lado dos outros. No
tinha nem pasta nem escova de dentes. 
Os prisioneiros estavam sentados nas duas camas, desocupados e
silenciosos. Aconchegaram-se para lhe dar lugar. Mahl 
olhou  sua volta. A cela, com aproximadamente dois metros e meio
de p-direito e 
cho deformado, media quatro metros por dois. Oito metros quadrados
para sete pessoas... Ao fundo, uma grade fechava 
uma espcie de postigo, tambm ele com a mesma grade das janelas e
das celas do acolhimento. 
S h duas camas? 
- Sim respondeu Rigaux , a noite ns juntamos e colocamos os
exerges no cho... J estvamos apertados os seis... 
Apertamo-nos um pouco mais. 
Raphael sorriu-lhe por estas palavras amveis. 
- Vamos, conte, quais so as novidades? - perguntou o jovem Loc. 
- Que novidades?... 
- Ora! As de l de fora, isso.., aquilo.., disse Ded Desmotte. 
- Desculpe-me no estou habituado. Que querem saber? 
- Bem... a guerra... Onde est? 
- No vai bem para os alemes... 
- Isso j se sabia - disse o espanhol. 
- Deixe-o falar. 
Ciano, o genro de Mussolini, foi executado... 
- Hurra!... 
- De Gaulle e Churchill encontraram-se em Marraqueche... 
- Hurra! 
- Os aliados desembarcaram em Anzio... 
- Hurra! 
- Berlim foi bombardeada mais de cem vezes... 
- Hurra! 
Os resistentes franceses foram executados a machadadas em Colnia. 
Um pesado silncio seguiu-se a essa informao. 
- Podemos comunic-las aos outros? 
Raphael olhou para ele, espantado. 
- Pode acreditar... Tambm temos aqui nosso rdio. Chama-se
"Rdio-Grades." 
-  como funciona? 
- Vai ver esta noite, depois das luzes apagadas. Um de cada vez,
nos colocamos perto da janela aberta e escutamos. Os do 
trreo chamam os do primeiro andar que chamam os do segundo, que
chamam os do terceiro. As paredes do ptio formam 
uma excelente caixa acstica. As novidades, nem sempre exatas, nos
vm dos recm-chegados, das raras visitas a que temos 
direito e dos camaradas que saem para o interrogatrio. Depois, h
concerto. 
- Concerto? 
- Sim... Pode acreditar, temos mesmo profissionais.  melhor do que
a Rdio-Paris. H cantores portugueses, espanhis, 
tchecos, ingleses e at h um russo. 
- E os alemes consentem? 
Sabe, eles se entediam tanto quanto ns, assim, a msica os
distrai. Eu mesmo vi um dia, pela fresta da porta, o oficial de 
guarda em vias de chorar ao ouvir um fado. Paramos quando a
sentinela d grandes pontaps nas portas. 
- So muitas sentinelas  noite? 
- No, trs sentinelas em cada andar que fazem a ronda toda a noite
e um oficial subalterno sentado  mesa em frente de 
nossa cela. 
- Voc falou de visitas... Todo mundo tem direito? 
- Em princpio, sim, dez minutos uma vez por ms, s quintas-
feiras. Voc j foi condenado? - perguntou o mdico. 
- No. 
- Ento no tem direito. S os condenados podem receber visitas, os
outros no. 
- E a correspondncia? 
ensurada,  claro. Podemos receber, mas raramente chega at aqui.
 assim comigo, no pude dar notcias  minha 
mulher... Ela nem sabe se estou vivo ou morto... 
- Aufstehen! Aufstehen! 
A sentinela da noite acompanhou a ordem com um violento pontap na
porta. Ao passar virou o boto da eletricidade no 
exterior de cada cela. A lmpada incrustada na trave difundia uma
luz fraca com rudo, os homens comearam a se levantar. 
Raphael ergueu-se tremendo, com os seus ralos cabelos em desalinho.
- O que est acontecendo? 
 a hora de levantar. Apresse-se, a luz no fica muito tempo acesa.
Por qu? - perguntou Raphael, coando-se. 
- Para nos chatear. Vamos, apresse-se. 
Mahl levantou-se resmungando, com os membros doloridos. O enxergo
colocado no cho era duro. 
- Saia para arrumarmos as camas. 
Empurrado, refugiou-se com os outros num canto, enquanto Loc e
Ded arrumavam as camas e colocavam sobre elas os 
enxerges cuidadosamente cobertos pelos cobertores. Perto da
entrada, empilharam os sobretudos, os casacos, a roupa 
trazida pela famlia, cobrindo tudo com 
uma velha colcha florida. Aquele tecido colorido tinha um no sei
qu de incongruente naquele lugar. 
No corredor, ouvia-se os funcionrios trazendo o "caf"... LoYc,
que naquele dia era o responsvel pelas arrumaes, 
colocou duas vasilhas no cho diante da porta. Todos se puseram em
posio de sentido enquanto esperavam que o oficial 
abrisse os trs ferrolhos e desse a volta na chave. Com um rpido
olhar, o alemo verificou que estavam todos ali, enquanto 
a sentinela apontava a arma para eles. Satisfeito, recuou dando
lugar a uma enorme panela trazida por dois prisioneiros. Um 
deles mergulhou uma concha na mistura e derramou-a na tijela, o
outro camarada ps ali um pedao de po j cortado. Mal 
a porta se fechou, eles estenderam as tijelas a Loc que as encheu.
Como quase sempre, ficou um resto. O responsvel do 
dia distribuiu os pedaos de po; duzentos gramas, mais ou menos,
para cada um. Era a rao do dia. Os companheiros de 
Raphael sorveram avidamente a beberagem, cujo nico mrito era o de
estar quente, depois de misturarem nela um pouco 
de po. O gosto e o cheiro eram repugnantes. 
- No incio,  muito difcil, mas vai ver.., acostuma-se - disse o
mdico a Raphael Mahl, que no conseguia engolir, apesar da 
fome que lhe comprimia o estmago. 
- Eu me acostumarei, sem dvida. Ser preciso. Mas, hoje, no
posso... Se algum de vocs quiser... 
- D a LoYc.  o mais jovem, tem sempre fome - disse o doutor
Lemaitre. 
-  sempre a ele que do as sobras... No  justo exclamou Ded. 
- Cale o bico... Vamos partilhar - disse Loc. 
Raphal Mahl nunca pensara que a vida de priso fosse to dura. E
no entanto, havia cado naquilo a que os prisioneiros 
chamavam "uma boa cela". Ele j no agentava tanta promiscuidade,
os parasitas, o frio, as brigas que estouravam a 
propsito de qualquer coisa, a sopa infecta e, sobretudo, no poder
ler nem escrever. Estava desesperado e cada vez mais 
irascvel. Se pelo menos pudesse conversar com os companheiros.
Desde a partida do estudante e do mdico, mandados 
para a Alemanha, segundo diziam, trs dias depois de sua chegada, e
substitudos por dois jovens operrios comunistas, o 
nvel das discusses baixara consideravelmente. A ingenuidade
dessas pessoas o siderava. Tinham, no conjunto, uma idia 
de guerra completamente irreal. No final de quinze dias, pediu para
falar com o comandante da priso, que contra toda a 
expectativa, concordou em receb-lo. 
Depois de o conduzirem ao chuveiro e para se barbear (luxo
espantoso!), levaram-no ao comandante. Maurice Fiaux e um de seus amigos
estavam l. 
- Farei o que quiserem, mas tirem-me daqui. 
- O senhor no est satisfeito com o servio do hotel?... Do 
conforto?... 
- No, estou muito decepcionado, farei queixa  direo. 
- Pode queixar-se, estamos aqui para ouvi-lo... No  verdade, 
Raymond? 
- Claro que sim. - 
- Sabe que est fazendo muita falta s tiazinhas de Quinconces? 
- Uma delas me dizia ontem... 
Pare com essas besteiras. Me deixar sair ou no? 
- Isso no depende s de mim... O senhor diretor tambm tem 
que opinar. No  verdade senhor diretor? 
- Naturalmente. O senhor Mahl deve, com certeza, ter ouvido muita
coisa desde que est aqui. 
- Vamos, conte... Deve ser apaixonante. 
- De acordo, mas prometam mandar-me embora antes de se servirem de
minhas informaes. 
Maurice Fiaux fez um sinal de cabea ao diretor. 
- Tem a minha palavra, senhor Mahl. Vamos ouvi-lo. 
Durante aqueles quinze dias, em sua cela e durante o passeio,
Raphael havia armazenado informaes sobre certas pessoas 
presas, especialment sobre a presena de resistentes e de pilotos
ingleses no identificado pelas autoridades alems. 
Friamente, deu o nome sob o qual 
eles estavam inscritos na priso. 
- Por acaso no teria visto o tio de sua amiga, a bela La Delmas? 
- S o vi uma vez antes da guerra em Paris, durante um sermo 
em Notre-Dame. Estava longe do plpito e depois... ele deve ter
mudado muito. 
 pena... H uma boa recompensa para quem conseguir 
prend-lo. 
- Sim,  pena. 
O diretor esfregou as mos, satisfeito. 
- Bravo, senhor Mahl. Lamento que nos deixe, faramos um belo 
trabalho juntos. 
Raphael saudou-o e levantou-se. Fiaux acompanhou-o  porta e ps 
a mo no fecho. 
- Fazendo bem as contas, o meu amigo no vai nos deixar assim, 
de repente... 
- O qu?... Mas voc prometeu. 
Raphael tentou forar a passagem. Maurice Fiaux empurrou-o seca-
mente para o meio da sala. 
- No lhe prometi coisa nenhuma. Foi o senhor diretor quem fez essa
promessa. 
- Mas voc estava de acordo!... Voc lhe fez um sinal... Eu vi... 
- Viu mal. 
Raphael deu um salto e agarrou Maurice Fiaux pelo pescoo tentando
estrangul-lo. 
- Estrume! 
Raymond sacou seu revlver e o derrubou com uma coronhada. O grande
corpo emagrecido de Mahl rolou pelo assoalho, 
onde o espancaram. 
- Basta - disse Fiaux, ofegante -, no vamos machuc-lo demais, o
chefe precisa dele. 
Fumando um cigarro e olhando para o diretor, esperaram paciente-
mente que o prisioneiro voltasse a si. 
Ao fim de dez minutos, ele levantou-se e levou a mo atrs da
cabea. Qualquer coisa quente e mida correu entre seus 
dedos. Com horror, olhou para a mo. 
- Raymond excedeu-se um pouco, mas era a nica maneira de me
largar. Por um pouco, seu malandro, me estrangulava... 
Sem mesmo ouvir a proposta. 
- Vai se foder! 
Seja bem-educado, sim? Voc no tem como ser ladino... Ou faz o que
lhe peo ou vai se achar no fundo da Polnia, a no 
ser.., que eu faa correr o boato nesta casa que foi voc quem deu
o nome dos pilotos... 
- No ousaria fazer uma coisa dessas! 
Vou me incomodar.., com um malandro que tenta me estrangular? Com
dificuldade, Raphael Mahl levantou-se e deixou-se 
cair numa cadeira. 
- O que quer que eu faa? 
Em boa hora!... Assim  que eu gosto de voc.., meigo e
compreensivo. D-lhe um cigarro... Bem... agora escute. Dohse 
pensa que talvez tenham conseguido prender, por acaso, um grande
tubaro da Resistncia, como por exemplo o padre 
Delrnas. A Gestapo de Toulouse e de Bordus daria qualquer coisa
para t-lo nas mos. Eis o que lhe proponho, volte para 
a sua cela... 
No! Por favor!... 
- Espere. Eu dizia ento: voc volta para a sua cela por trs ou
quatro dias. No passeio, vamos fazer sair sucessivamente 
todos os prisioneiros. Voc e os da sua cela faro parte de todos
os passeios. 
- Arrisco-me a que me faam perguntas. 
- No faz mal... O importante  que voc observe atentamente cada
prisioneiro. Aqui esto as fotografias dos que nos 
interessam. 
Maurice Fiaux colocou sobre a escrivaninha do diretor uns vinte
retratos, mais ou menos ntidos, mais ou menos antigos. 
Raphael Mahl reconheceu dois rostos, um dos quais Loc Kradec. Mas
no disse nada. A ltima fotografia era a de Adrien 
Delmas, sem barba e com o longo hbito dos dominicanos. "Como ele
mudou", pensou Raphael. 
Olhe-os bem... O chefe tem certeza de que alguns deles esto aqui.
Que melhor palco que uma priso? No acha?... 
Mahl no respondeu, fingindo estar muito absorvido pelas
fotografias. 
- Voc os reconhecer? 
- Se esto aqui no, h problema. 
- Eu sabia que podamos contar com voc. 
E eu? Poderei contar com vocs? Quem me diz que depois no me
deixaro apodrecer aqui? 
Compreendo. Quando estiver fora voc os entregar. 
- Sendo assim, est bem... Onde me levaro depois? 
Num primeiro momento para o campo de Mrignac, com direito a
visitas, correspondncia, encomendas e todos os livros 
que quiser. Depois poder escolher. Ou continuar conosco, ou vai
trabalhar na Alemanha, como voluntrio. 
Mas  verdadeiramente indispensvel a passagem pelo campo de
Mrignac? 
- Sim, porque  lgico. Eu lhe explico: no temos coisas
suficientes contra voc para conserv-lo no forte de H, mas como 
no temos muita confiana em voc o colocamos em observao em
Mrignac; isso, seus companheiros de cela e os outros 
podem compreender. Se eles descobrem que  um traidor, no dou
muito pela sua pele. Compreendeu? 
Raphael encolheu os ombros sem responder. 
- Voltaremos a procur-lo dentro de quatro dias. O senhor diretor
vai assinar o registro de sua sada. 
Podem levar-me  enfermaria? 
- Tudo, menos isso!... Essas marcas de golpes so a sua melhor
proteo. 
O guarda empurrou-o brutalmente e o fez cair aos ps dos
companheiros de priso, que se conservavam em sentido. 
Quando a porta se fechou todos se debruaram sobre ele. 
- Brutos!... Eles o feriram. 
Com a ajuda de uma toalha molhada Loc limpou-lhe o rosto e a
ferida da cabea. 
-  preciso mand-lo para a enfermaria... Fernando, chame o guarda.
- No vale a pena. Eles no quiseram... 
- Patifes!... 
-  pena que o doutor no esteja mais aqui. 
- Voc est inchado... Passe-me uma de suas toalhas limpas. 
Loc fez uma espcie de turbante, comprimindo a ferida e estendeu
Raphael numa das camas. 
- Obrigado - disse ele, antes de cair num sono inconsciente. 
As pancadas na porta, anunciando a hora da sopa, tiraram-no daquela
letargia. Uma terrvel dor de cabea o prostrava na 
cama srdida. 
- De p! - berrou o oficial. -  proibido ficar deitado durante o
dia. Raphael tentou obedecer e conseguiu sentar-se. Tudo 
rodava  
sua volta. 
- No v que ele est doente? 
- Ele, no doente... Ele, preguioso... De p! 
Com um esforo de que nunca se julgara capaz, ps-se de p. 
- V... Voc, no doente. 
Mal a porta se fechou, o ferido desmaiou. 
No dia seguinte, Raphael Mahl estava um pouco melhor. Levaram- no 
enfermaria, onde enfaixaram sua cabea. "Assim, 
devo parecer o Apollinaire", pensou ele ao voltar  cela. Durante a
tarde, todo o seu andar desceu para o passeio. 
Estava um belo dia, mas frio. Os detidos saltavam e gritavam como
crianas, podia-se pensar que fosse um ptio de recreio. 
Era raro ter-se direito ao passeio. Depois de alguns palavres dos
guardas, fez-se relativo silncio. No final de dez minutos, 
voltaram a entrar e Raphael no havia reconhecido ningum. 
Dois dias depois, no incio da tarde, ouviu-se gritar no corredor. 
- Fumo... Fumo... 
Aquilo queria dizer que os presos, cuja etiqueta no era nem
amarela nem vermelha, poderiam sair no vestbulo, colocar-se 
em fila indiana no patio para a sesso de "fumo". Ali em
semicrculo, de mos estendidas um sub-oficial lhes atirava um 
cigarro oferecido pela Cruz Vermelha, depois dava fogo a um
prisioneiro, que o passava aos outros. Era o momento em que 
se trocavam mensagens e notcias. 
Apoiado  parede, Raphael Mahl desfrutava com delcia o seu
cigarro. O fumo cido do tabaco preto ardia-lhe nos olhos, 
mas curiosamente acalmava-lhe as dores de cabea. Saboreando este
breve momento de descanso, sentia-se leve. 
Ao entrar no ptio, ele o viu logo. " curioso", pensou ele,
"pensei que teria uma etiqueta vermelha.'' 
Tal como ele,  parte dos outros, o falso campons fumava. Seu
rosto, cavado, retomava seu aspecto normal, ele nem 
parecia mais se ressentir de seus ferimentos. Raphael aproximou-se
dele. Seus olhares cruzaram-se... 
- Acabou-se... Acabou-se... - berrou o oficial. 
Dando avidamente uma ltima tragada, os fumantes jogaram as bitucas
num balde cheio de gua e puseram-se calmamente 
em fila. O 
fumo havia durado seis minutos. Mahl afastou-se para deixar passar
o 
falso campons. 
Depois do senhor, padre - murmurou ele. 
O outro no pode conter um estremecimento. 
Assim o que ele havia temido acabava de acontecer: fora
reconhecido. Quando no gabinete de "acolhimento" vira Raphael 
Mahl, Adrien Delmas esperou o pior. Como nada acontecera, pensou
que o escritor no o tivesse reconhecido. Mas no era 
nada disso... E ele no compreendia; por que no o denunciara, j
que havia denunciado os outros, tanto em Paris como em 
Bordus? Como aqueles dois comunistas da Resistncia e aqueles
pilotos ingleses, que tinham sido arrancados de suas celas 
e conduzidos ao nmero 197 da estrada do Mdoc, para serem
interrogados por Dohse e os seus esbirros. Por que lhe teria 
feito compreender que o reconhecera? 
Seria por simpatia?... Para avis-lo de um perigo?... Ou pura e
simplesmente para que ele se trasse?... Esta ltima 
eventualidade parecia-lhe a mais plausvel. Durante a sesso de
fumo, recebera uma mensagem dizendo-lhe que seria 
transferido para o campo de Mrignac, e que dali organizariam sua
fuga. O padre Delmas no dormiu durante toda a noite. 
Raphael Mahl tambm no dormiu. Alm de suas dores de cabea,
sentia-se devorado pelos parasitas, e coava-se at 
sangrar. Apesar disso, estava de bom humor: logo iria sair.
Concordara em ficar no campo de Mrignac durante algum 
tempo. Mas isso no o preocupava muito, conhecia o local e o
diretor, ele se sairia dessa. 
LoYc resmungava durante o sono. 
Raphael estava triste por causa do garoto, tanto mais que sempre se
mostrara amvel com ele, mesmo afetuoso. Mas no 
tinha escolha. Alm do mais, estava convencido de que no fora por
acaso que a fotografia do jovem marinheiro fora 
colocada no meio das outras. 
Dois dias depois vieram procur-lo. Nessa noite, LoYc Kradec era 
igualmente levado para Bouscat, na estrada do Mdoc. Como os outros
se espantaram por to magra caada, Raphael Mahl 
disse que j lhes havia entregue na primeira vez todos aqueles que
poderiam lhes interessar. Alm do breto, no 
reconhecera mais ningum. No disse nada sobre o padre Delmas. 
No campo de Mrignac, Rousseau, o diretor, colocou-o nos escritos,
isto , nos resgistros de entradas e de sadas do 
campo, porque o sargento francs encarregado desse trabalho estava
sobrecarregado. Por especial favor, foi autorizado a 
ficar ali at a noite. 
A barraca da recepo era uma das nicas mais ou menos aquecidas.
Raphael Mahl, depois de terminar seu trabalho, 
arrastava uma cadeira para o canto mais afastado dos guardas
barulhentos e faladores, e mergulhava na leitura dos livros 
dados por Maurice Fiaux. Por um acaso extraordinrio, aquele
pequeno crpula tinha escolhido alguns dos seus autores 
favoritos: as "Memories", de Pepys, que fora um de seus livros de
cabeceira. Que alegria t-lo de novo consigo! O querido 
Stendhal ali estava com "Lucien Leuwen'' e Balzac com ''Illusons
Perdues'', e Rouseau e suas ''Confessions''... "Les 
Travailleurs de la Mer'' e "Quatre-Vingt-Treize" do pai Hugo. S
lhe faltava Chateaubriand para que sua felicidade fosse 
completa. Mas ele estava presente no esprito e no corao! ...
Esperava com impacincia o atlas e a Bblia que pedira a 
Fiaux, assim como um pequeno bloco para anotar os planos de um
romance que ia amadurecendo. Logo que sasse dali faria 
retratos no estilo de La Bruyre. Via-se muito bem classificando-os
por tipo; gente da sociedade, da moda, do espetculo, 
dos livros, da poltica, dos negcios e da Igreja... Era uma boa
idia, quando que lhe dessem o bloco, poderia aprofund-la. 
Ser um grande escritor! Reconhecido e amado por todos!... Via-se
como Prmio Nobel da Literatura, elegante e sedutor em 
sua farda acadmica... Pediria a Jean Cocteau para desenhar o punho
e a bainha de sua espada: era uma ocasio de se 
reconciliar com o querido Jeannott. Encerradas as boates, o lcool,
os rapazes fceis demais. 
Seu destino amoroso era bem singular. Nunca lhe resistiram, nunca o
repeliram, mas nunca o amaram. Cada vez que 
desejara, ele soubera encantar, at que viessem deitar-se a seu
lado; possura beijos e corpos, por vezes fizera suspirar de 
prazer, mas nunca escutara ao ouvido o canto infantil e ingnuo do
amor cego. Fascinara, mas no fora amado. Quando ia 
embora, o encanto se rompia. Algum que ele amara apaixonadamente o
abandonara depois de seis meses de intimidade, 
dizendo- lhe com ar sonhador: "No fundo, voc  insubstituvel".
Esse fora seu elogio. Tanto amor reprimido subia-lhe ao 
corao. Talvez devesse isso 
 amargura secreta e terrvel que o corroa, e que muita
frivolidade que no conseguira distrair. Hoje tudo estava acabado e 
iria se consagrar  sua obra. Logo que sasse, encontraria um local
belo e calmo, propcio  criao. Imediatamente pensou 
em Montillac... Via-se meditando atravs das vinhas ou no
terrao... Por que no escrever a La? Aquela pequena tinha 
bastante corao para no lhe recusar hospitalidade. De resto, bem
a merecia. Uma palavra dele e o querido tio dominicano 
e resistente seria preso... Raphael no compreendia muito bem
porque no denunciara aquele homem que, pensando bem, 
ele no conhecia. Afinal, a culpa era dos outros... No apreciara
nem um pouco os mtodos de Maurice Fiaux e de seus 
companheiros... Que se arranjassem sem ele. Tinha ali uma cartada
que poderia usar no momento oportuno. Ele sabia das 
atividades do dominicano, coisas que o comissrio Poisont e a
Gestapo ignoravam. Ver-se-ia no momento oportuno. 
Enquanto esperava, iria escrever a La para lhe pedir livros e
vveres e para visitlo se pudesse. 
Foi despertado dos seus devaneios pela chegada de novos
prisioneiros. Levantou-se para escrever o registro das entradas. 
O guarda de servio lhe estendia um a um os documentos de
identidade dos detidos. Moreau Pierre, habitante de Langon... 
Largade Jacques, habitante de Bordus... Dardenne Alain, habitante
de Dax... Raphael Mahl levantou a cabea. Os olhares 
dos dois homens cruzaram-se. Nem um s msculo de seu rosto se
contraiu. 
O seguinte. 
Raphael continuou seu trabalho. 
Dias mais tarde, Maurice Fiaux veio lhe fazer uma visita, com a
Bblia e o atlas que pedira. 
Tome, tambm lhe trouxe um cachimbo e tabaco. Os cigarros so
difceis de encontrar neste momento... 
Obrigado. 
- Como tem passado? 
- No muito mal. Comeo a estar um pouco farto da intimidade com
gente do povo: tem todos os nossos defitos, sem as 
nossas qualidades. 
- Voc esquece que a minha me era empregada domstica? 
- Talvez, mas foio patro quem o educou. Tem gostos fora de sua
condio, e est absolutamente certo. O povo francs me 
enoja, sua falta de curiosidade, sua estupidez, seu esprito de
reivindicao, desabrocham aqui como certas flores no 
estrume. S se fala do povo para coroar as virtudes que nos faltam.
 absurdo, ele no tem nem essas virtudes nem as 
nossas qualidades. Em contrapartida tem quase todos 
os nossos defeitos. Acredite-me, h pouca diferena entre um criado
de lavoura e a vaca que ele cuida. 
Isso  que  falar bem. Notou alguma coisa de interessante desde
que est aqui? 
- Nada mais do que voc j sabe. Faz-se grande trfico de pacotes e
todos os dias chegam cartas clandestinas, graas  
cumplicidade dos guardas. Certos detentos se ausentam durante
algumas horas do dia para verem a mulher ou uma 
amiguinha. 
- Sim, tudo isso ns sabemos... Mas no teve conhecimento de
relaes com redes de resistncia ou da presena de 
resistentes? 
- O campo  grande e eu ainda no tive ocasio de entrar em todas
as barracas. Para facilitar o meu trabalho, voc deveria me 
trazer mais livros. Eu poderei alug-los, o que me daria uma boa
razo suplementar para entrar nos alojamentos. 
- No  m idia... Vou falar com Poisont para ver se ele concorda,
e todas as semanas lhe enviarei uma quantidade de livros 
velhos. 
- Nada de coisas complicadas, o nvel no  elevado. Aproveite para
mandar uma ou duas roupas de l e um bom par de 
meias, morro de frio. E um salsicho, doces secos e conhaque tambm
seriam bem recebidos. 
- Ah! Primeiro  preciso ganhar isso tudo. A cada informao, uma
guloseima ou uma coisa de l. Est bem assim? O que 
acha? 
- Est bem... Est bem... Como vocs so avarentos. 
- No somos avarentos, apenas prudentes. Abra os olhos e os
ouvidos. Correm rumores nos lares e nos sales de que 
prendemos uma figura importante da Resistncia. 
- Quem? 
- Vai saber!... Pusemos informantes por toda a parte e nenhum
voltou com uma boa informao. 
- Talvez seja algum da regio! 
- O chefe no sabe nada, mas no acredita nisso. Se fosse algum
conhecido, como o padre Deirnas, h muito tempo que o 
teriam denunciado. 
Sem dvida. 
- Bem, isto no  nada, fala-se, fala-se, entretanto o trabalho
fica por fazer. Sade, e at breve. Ah! J me esquecia: no sei o 
que acontece comigo, esqueo tudo... Cansao talvez... Sabe, o
marinheiro que estava na sua cela? 
- Loc? 
- Sim, o pobre no resistiu ao interrogatrio... Um fraco... Ao fim
de trs dias o garoto morreu sem ter falado; tome nota, se 
quer a minha opinio, ele no devia ter nada para dizer... Imagine
s o bur burinh 
que isso causou no forte de H! Eles berravam, os malandros,
berravam.., com tanta fora que o diretor teve de chamar 
reforos. Os mais excitados foram fechados nas latrinas; os
crceres j no eram suficientes. Imagine se eles adivinhassem 
que foi voc quem o entregou... No gostaria de estar em seu lugar.
Nem um trao do rosto de Raphael Mahl se contraiu enquanto Maurice
Fiaux falava. A custa de um grande esforo que o 
cobria de suor, apesar do frio, conteve-se para no se atirar ao
pequeno crpula, sentindo que era exatamente isso que ele 
queria. 
- Eu tambm no gostaria de estar na sua pele. 
Mahl voltou-lhe as costas e dirigiu-se para o acampamento. 
Durante o dia era proibido deitar-se nas camas, sob pena de
sanes. Sob o olhar reprovdor de seus companheiros, 
sentados ao fogo ou jogando as cartas no cho sobre uma coberta,
ele estendeu-se e fechou os olhos. 
Adrien Delmas fechou lentamente o livro que estava lendo, tirou os
culos e levantou-se da cadeira, dirigindo-se para o 
homem deitado, movido por um impulso repentino. 
Com as pernas agitadas por leves sobressaltos, Raphael apertava os
lados da cama, com o peito oprimido, o rosto plido 
marcado por manchas vermelhas. O dominicano aproximou-se. 
Da cama vinha um cheiro azedo, o mesmo que exalavam certos
condenados  morte na Espanha, na vspera de serem 
executados: era o cheiro do medo. Que lhe teriam dito? De que o
teriam ameaado para que ele se encontrasse naquele 
estado? Desde h oito dias que partilhavam a mesma barraca e nunca
o padre Adrien o vira assim. 
- Est doente?... Precisa de alguma coisa? 
- No - fez com a cabea, abrindo os olhos, que voltou a fechar
imediatamente. 
Que ele desaparea! ... Mais uma palavra e chamaria o guarda
pedindo-lhe para ir buscar o diretor para denunci-lo. Sua vida 
ou sua morte dependiam s dele. Este pensamento provocou-lhe uma
ligeira ereo. J havia notado que, cada vez que 
possua um poder destruidor sobre algum, seu sexo intumescia.
Curiosamente, ainda que profundamente perverso, nunca 
tentava explorar esse fantasma e sempre tinha considerado essa
tenso de seu sexo com um desinteresse divertido. 
Mal se aproveitara por cinco ou seis vezes do receio que inspirava
nos jovens rapazes que estreavam nas boates de 
Montmartre, para os obrigar a se sujeitarem a seus caprichos, que
lhe pareciam de grande banalidade. Uma vez, no 
seminrio, onde passara alguns anos, havia obrigado um seminarista
mais jovem do que ele a chup-lo em troca 
de seu silncio sobre as leituras proibidas. Nessa poca, sentia
pelas pessoas da igreja uma mistura de atrao e repulsa, a 
ponto de querer em tudo tentar desvi-las de suas vocaes, com
palavras e atos to dissimulados que o padre superior 
levou anos para descobrir a sua astcia, antes de expuls-lo. Esse
superior parecia-se muito com Adrien Delmas no 
tempo em que ele pregava em Notre-Dame: a mesma estatura, grande,
forte, com um olhar que parecia ver dentro das 
almas, uma bela voz e mos grandes... Raphael sentia a presena do
dominicano. Mas, Santo Deus! Que desaparea... 
- Posso ajud-lo? 
- Deixe-me em paz! - gritou ele. 
Aquele grito suspendeu as conversas. Sem dar ateno, Adrien
continuou em voz baixa: 
- Creio que sei o que o preocupa... No lhe direi nada, do que se
poderia dizer em tais circunstncias... No lhe direi nada 
exceto que, faa o que fizer, eu o perdoarei, e que na dvida que
me oprime rezarei por voc. 
Raphael ergueu-se e agarrou o falso campons pelo colarinho da
camisa e soprou-lhe no rosto: 
- Cale o bico, frade sujo... As suas oraes e seu perdo pode
enfiar no cu. 
- Contenha-se, todo mundo est nos olhando. 
- Que nos olhem, se quiserem, esses fodidos, esses esfarrapados! 
- Cale-se, seno vai passar por maus momentos. 
- Que venham... Venham, minhas gracinhas... Venham ver o Raphael...
e os fodo inteirinhos... 
Dois dentre eles se ergueram. Raphael no viu levantar-se o punho
que lhe acertou o nariz, nem quem o espancou. Quando 
voltou a si, o dominicano acabava de limpar seu rosto. 
- Voc ainda? disse, com voz cansada. 
- Descanse, vo lev-lo  enfermaria. 
- Ser mesmo necessrio?... Desculpem-me, fui grotesco agora h
pouco... Tinha recebido uma m notcia. 
Na briga, Raphael Mahl quebrou o nariz e teve um ombro deslocado;
foi na enfermaria que Maurice Fiaux veio v-lo 
acompanhado por Mathias Fayard. Os dois traziam um embrulho de
livros. 
- Aqui esto os seus livros. 
- Obrigado. 
- Rousseau contou-me que lhe quebraram a cara e por pouco no o
fizeram engolir sua certido de nascimento. 
- No  preciso exagerar. 
- O que soube de novo? 
- Pouca coisa. No acampamento 3 introduziram rdio e escutam
Londres todas as noites. Os comunistas do campo 
organizaram-se e fazem circular um jornal clandestino. 
- Conseguiu apanhar algum? 
- Sim. Aqui no bolso do meu casaco. 
Fiaux tirou do bolso uma folha, mal copiada, que leu rapidamente. 
- Sempre as mesmas besteiras... Nada mais? 
- No, no topei com nenhum resistente, nada a no ser tipos sem
importncia. E do lado do forte de H que vocs deviam 
procurar. 
- Tem certeza de que no nos esconde nada? O patro pensa que voc
no nos diz tudo. 
- Que interesse eu teria em esconder alguma coisa a partir do
momento em que aceitei colaborar com vocs. No posso lhes 
inventar um pseudochefe da Resistncia. 
- No entanto as suspeitas continuam. Voc vai ter companhia: Marccl
Rigaux e Fernando Rodriguez... Isso no lhe diz 
nada?... Vocs partilharam a mesma cela no forte de H... 
Raphael estremeceu. 
- No me deixem aqui, rapazes. 
Fiaux fingiu no ouvir. Os visitantes partiram logo. Mathias no
havia pronunciado nenhuma palavra. Estava na hora da 
sopa, e j era noite. 
Mahl voltou para o seu acampamento. 
As primeiras pessoas que viu foram Rigaux e Rodriguez. Rigaux veio
em sua direo. 
- Viva, Mahl, no pensvamos encontr-lo aqui. 
A porta abriu-se brutalmente. O diretor do campo entrou acompanhado
de Dohse e de uma dzia de soldados que 
apontaram as armas para os prisioneiros. 
- Senhores, o tenente Dohse quer lhes falar. 
Obrigado, senhor diretor. Senhores, vou dizer-lhes rapidamente as
coisas. Sabemos que um perigoso terrorista est 
escondido entre vocs.  seu dever desmascar-lo, no  verdade?
Sem o qu, seremos obrigados a levar refns. Espero ter-
me feito compreender. Tm trs dias. Passado esse prazo,
fuzilaremos cinco refns de dois em dois dias. Boa noite e... bom 
apetite, senhores. 
Um espesso silncio caiu sobre a assistncia depois da partida dos
alemes e de Rousseau. Foi interrompido pela chegada 
da cantina ambulante. Pela primeira vez no houve algazarra em
volta dos encarregados de servir a sopa. Ningum 
comentou a sua qualidade, nem zombou
 de sua composio. Cada um comeu em silncio no seu canto. No
final da refeio, Marcel Rigaux e Fernando 
Rodriguez reuniram  sua volta certo nmero de detentos. 
Raphael no tirava os olhos de Adrien. Ele sabia que um combate
terrvel se travava no esprito do dominicano: deveria 
entregar-se para evitar a execuo de refns inocentes? Entregar-se
com o risco de falar sob tortura? Mahl sabia que, se 
fosse ele, no se moveria; a sua pele era mais importante do que a
dos miserveis fechados com ele. Que arrebentem. Alis, 
para que serviam eles?... Podia-se perguntar isso. 
Os olhares dos dois homens cruzaram-se. "No diga nada", ordenava o
de Raphael. "Denuncie-me", implorava o de Adrien. 
O escritor levantou-se e encaminhou-se para ele. Uma perna
atravessada  sua frente e o fez tropear... Um pontap no 
queixo levantou-o e um outro no traseiro f-lo escorregar de
barriga na ala central... A cabea bateu no tabique rugoso, 
arranhando a testa... Rodriguez agarrou-o por um brao... Raphael
berrou... A dor do ombro deslocado era 'como um ferro 
em brasa... 
- Cale a boca, maricas! 
-  fofinho como uma amante! 
Um pontap no estmago dobrou-o em dois... 
- Senhores, meus senhores... Parem... 
- Voc, velho, no se meta nisso. 
- Por que lhe batem? Tenho o direito de saber. 
- De acordo - disse Marcel Rigaux -, vamos lhe dizer por qu. Vamos
sangr-lo como a um porco. Estvamos na mesma cela 
no forte de H... tnhamos um companheiro... um marinheiro.., um
breto... Loc ele se chamava. Pergunte a este estrume 
como era o pequeno LoYc! 
Graas a ele a priso parecia-nos menos dura.., sempre bem
humorado, com uma cano nos lbios e com isso... 
Os olhos de Rigaux estavam cheios de lgrimas. Sem se deter, o seu
punho partiu e esborrachou o nariz quebrado de 
Mahl... Um 'jato de sangue salpicou o dominicano. 
Rigaux continuou: 
- Tinha o corao nas mos... Partilhava tudo... Consolava-nos...
tratava-nos... Ele.., aquele.., o que voc quer proteger... o 
pequeno  que o tratou.., velou por ele... e ele.., ele
entregou-o... Deu-o  Gestapo... 
Um bramido encheu a barraca. 
- Trs dias... Trs dias que eles o torturaram, no Bouscat...
Adrien Delmas olhava horrorizado o corpo caindo. 
- Na priso, ele soube coisas... mas no falou.., nada... Ele no
disse nada... e eles espetaram-lhe aquelas agulhas 
incandescentes debaixo das unhas... descarnaram-lhe as coxas e
sobre elas jogaram sal,.. com pauladas partiram-lhe as 
pernas... 
- Basta! - urrou Mahl. 
Rodriguez levantou-o pelo casaco e sacudiu-o, batendo-lhe com a
cabea contra a parede. 
- Por qu?... Por que voc fez isso? 
- Como vocs souberam? - murmurou ele. 
- Vamos lhe dizer, para mostrar que h tambm gente to asquerosa
como voc.  um de seus companheiros... Um belo 
tipo, que ao nos trazer para c nos disse que voc era informante,
que havia entregue Loc e outros, continuando aqui o seu 
trabalho de espia. 
- Mas por qu? 
- Ele pensa que voc j no lhe serve de nada... que todos aqueles
que podia denunciar j denunciou. 
Uma grande lassido tomou conta de Raphael Mahl, enquanto o desejo
de acabar com aquilo crescia. Pobres tipos... tal 
como ele, deixavam- se foder, manipular por um pequeno crpula como
Maurice Fiaux... Estava certo de que a idia partira 
dele: d-lo de pasto aos prisioneiros. Santo Maurice, era bom no
que fazia! Ele tambm no era nada mau: 
conseguira convenc-lo de que no havia dirigentes da Resistncia
no campo. Belo trabalho. Aquilo o fez sorrir. 
- Alm disso, pouco se importa com o que dizemos! 
- Estrume! 
- Patife! 
De todos os lados os golpes choviam. 
Logo no havia mais um rosto. Por vrias vezes Adrien Delmas
tentara intervir. Mas o dio ensurdecia a multido. Algum 
o socou... Quando voltou a si, sentia-se na barraca um cheiro de
carne queimada. Sobre grandes risadas e gritos um longo 
,urro subia... O dominicano levantou-se... Sentado no fogo,
mantido por dezenas de mos, Raphael Mahl grelhava... 
Enquanto com propostas obscenas alguns comentavam seu suplcio. 
- Olhem como ele se torce... Ele gosta disto! 
- Est brincando de prostituta... Escutem como ele grita! 
- Talvez fosse melhor se lhe tivssemos enfiado um ferro em brasa
no cu. 
-J imaginou um fim melhor para uma tia!... O sonho! 
- Sim... Mas como isto cheira mal,  carne de maricas! 
- No  a carne dele que exala,  a merda... Ele cagou por todos 
os lados. 
- No se preocupe... Agora acabou de cagar e de fazer cagarem. 
O horror duplicou as foras do padre Delmas. Empurrou os
torturadores e arrancou Raphael do fogo. Um pedao de 
carne ficou colada  chapa escaldante. Rolaram por entre os ps da
multido que se afastou. Houve um momento de 
silncio. Nos braos de Adrien, Raphael abriu um olho e aquilo que
fora uma boca esboou um sorriso que era uma careta. 
Naquela face macerada era horroroso. Tentou falar. Um jato de
sangue escorreu pelo queixo. 
- No diga nada. 
-  estpido demais... Tinha uma idia... para um romance... -
conseguiu articular. 
Havia admirao no espanto com que Adrien Delmas olhou aquele que
sonhara ser um grande escritor e que, s portas de 
uma morte atroz, ainda tinha foras para gracejar. 
- Diga a La... que eu... gostava muito dela... 
- Eu lhe direi. 
- Saia da para acabarmos com essa carcaa. 
-"Por favor! Deixem-no! No lhe fizeram mal o suficiente? 
- No - disse Rodriguez, arrancando-o dos braos que tentavam
proteg-lo. 
- No - continuou Fernando -,  preciso que isto sirva de exemplo a
todos alcagetes, a todos os colaboradores que esto 
neste campo e fora dele. Vamos, rapazes... acabemos com isto... 
Todos aqueles homens que se lanaram sobre ele... Aquele fervilhar
de mos em seu corpo... Aquelas caras que se 
debruavam sobre ele e que s via atravs de uma nvoa de sangue...
Era como um vapor... Aquilo lembrava-lhe os banhos 
de vapor em Amei, alto local de pornografia clandestina, onde se
procura, se apalpa, se abraa com a cumplicidade de 
todos. Terrvel local, onde os braos, as mos, tem uma viscosidade
de polvo... Uma descida aos infernos entre homens em 
cacho, sacudidos por um nico espasmo, com um nico profundo
suspiro, que parece, entre aqueles peitos apertados e 
frementes, subir das prprias entranhas da terra... Ali, as mos
desconhecidas, triturantes, sbias e detestveis, procuram 
faz-lo sofrer... e mat-lo... Logo as imagens desapareceram da sua
memria... S as cores violentas como descargas 
eltricas subsistem... O lindo verde.., o azul... o vermelho.., o
preto... Estrelas prateadas palpitam no negro... negro... negro. 
Ali, no fundo do acampamento, uma certa mo se levantou e traa o
sinal da cruz. 
Logo os homens se cansaram de bater naquela massa mole e disforme
que ainda os salpica de sangue. O cadver os enoja. 
- E se pusssemos o que resta deste porco no caixote do lixo? 
- Boa idia. 
Nessa noite, o cadver de Raphael Mahl foi jogado no depsito do
lixo e coberto de imundcies. De manhzinha, os detidos 
encarregados do oficio recolheram o corpo e o colocaram num caixo
tosco. 
Nem os guardas nem os policiais haviam reagido.

Captulo 23

DOIS DIAS APS a morte de Raphael Mahl, Adrien Delmas fugiu graas
ao seu perfeito conhecimento do lugar e dos
hbitos dos guardas.
Escondeu-se debaixo da cobertura do caminho que vinha entregar o
po para a semana, O motorista fora muito bem pago
para parar e fingir uma avaria ao p do lugar onde ele se
escondera. Uma vez fora, ele conduziu-o a Bgles, nos arredores de
Bordus, onde o esperavam Albert e La em companhia de trs jovens
resistentes armados de metralhadoras. Eles se
comprimiram todos na velha camioneta do fornecedor.
- Padre, um avio vir busc-lo esta noite - disse Albert.
- No quero partir. Devo ficar,  aqui que eu sou mais til.
- No  a opinio de Londres. Em seu lugar eu partiria. Neste
momento est terrivelmente em perigo e a sua presena na
regio  um perigo para todos ns. Padre,  preciso obedecer.
Adrien calou-se e fechou os olhos. Todos respeitaram o seu
silncio: 
ele tinha um ar to cansado! La, apertada contra ele na frente da
camioneta, pousou a cabea em seu ombro e logo 
adormeceu. 
Ela acordou quando eles atravessavam a praa, curiosamente
inclinada, de Bazas. Rodaram em seguida ao longo da catedral 
de SaintJean e desceram at os velhos lavatrios, depois rodaram
por alguns instantes na direo de Casteljalloux, 
finalmente viraram numa pequena estrada  direita e pararam 
entrada do povoado de Sauviac. De uma casa baixa  frente 
da qual ciscavam galinhas, saram um velho e sua mulher. Albert
disse-lhes algumas palavras, eles pareceram aquiescer e 
entraram em casa depois de lhes terem feito um sinal para o
seguirem. 
- Em casa dos Laforgue, padre, est em segurana. O avio vir
busc-lo esta noite s oito horas, O pai Laforgue o levar ao 
campo de aterrissagem perto de Beuve - disse Albert. 
- Eu conheo. 
- Daqui at l, descansem. Eu virei buscar La no final do dia. 
- Obrigado por tudo, Albert. Como est Mireille? 
- Bem, meu padre,  uma valente, como sabe. 
- Eu sei... Tem tido notcias de seu filho? 
- Est em Cantai com o grupo de Revanche, prximo de ChaudesAigues.
Os rapazes esto no maior bosque de Truyre.  
um bom esconderijo, difcil de atacar, sem perigo que os boches a
se arrisquem... Devo partir. No se preocupe, padre, 
antes de dois meses estar de volta. Adeus... 
- Adeus, Albert, tomar conta de La? 
- No precisa dizer-me. A filha da senhora Isabeile, para mim, 
sagrada. 
Tio e sobrinha passaram o dia juntos, entretidos familiarmente
perto do fogo. Partilharam a modesta refeio dos Laforgue, 
que eram anfitries absolutamente silenciosos. 
Adrien narrou, com palavras prudentes, o horrvel fim de Raphael
Mahl. Quando ele lhe contou que o seu ltimo 
pensamento fora para ela, La rompeu em soluos. 
- Eu tambm gostava muito dele - disse. 
O dominicano respeitou sua tristeza. Quando estava um pouco mais
calma, ela perguntou: 
- Mas por que ele no o denunciou? 
- No sei.  a pergunta que fao a mim mesmo desde aquela terrvel
noite. Por que ele no me denunciou? Voc, que o 
conhecia, no faz uma idia? 
- No... Ou ento?... Era bem do seu carter... Ele sabia que o
procuravam e at mesmo, talvez, lhe tenham pedido para 
identific-lo entre os detidos, e por esprito de contradio, ele
ter negado. 
- Mas uma pessoa no se deixa massacrar por esprito de
contradio! Raphael?... Sim. 
- Talvez, afinal. As razes de aceitar a morte so por vezes muito
estranhas. Mas o seu olhar durante o massacre!... 
Quando cruzou com o meu parecia dizer: "Voc no esperava por isto,
hein? Eu o enganei bem". 
La sentiu-se mal ao ter de se separar dos braos do tio. Era como
se o seu pai morresse uma segunda vez. 
- Passe um bom Natal, minha querida. V por mim  missa da
meia-noite e faa uma orao a Sainte Exuprance por mim. 
Abrace todos em Montillac e diga-lhes que eu rezo por eles. Que
Deus a guarde... Seja muito prudente. 
Como este Natal foi triste, apesar da alegria de Charles, diante de
seu carrinho vermelho, e os seus risos! Quanto  noite de 
31 de dezembro, pareceu-lhes interminvel. Cada uma perguntava-se
com angstia se 1944 veria, enfim, a guerra terminar. 
No dia 2 de janeiro, La teve a surpresa de ver chegar Franois
Tavernier. Seu carro estava enlameado at a capota e, a ver 
por seu rosto, ele havia guiado durante toda a noite. 
Desejou um bom ano apressadamente s moradoras, abraou o pequeno
Charles e procurou em seu bolso uma caderneta 
que lhe ofereceu. Charles estava encantado. Em seguida, conduziu
La ao escritrio. 
- Eu vim logo que recebi a mensagem do seu tio. Por que  que no
me disse nada, em relao a Mathias e ao pai? 
- Eu no queria aborrec-lo com isso. 
- Nunca me aborrece, sabe disso. Venha, eu tenho muito pouco tempo,
devo partir esta noite. 
-J?... Voc est louco! 
- O meu tempo no me pertence... Eu no devia estar aqui. 
Lafechou  chave a porta do escritrio de seu pai e atirou-se para
Franois. Fizeram amor vestidos, em silncio. Quando o 
gemido de La aumentou, quebrou-se num soluo. 
Durante um longo momento ficaram colados um ao outro. 
Franois, que o sono comeava a vencer, foi o primeiro a reagir. 
- Venha me fazer um caf. 
La dirigiu-se  cozinha para aquecer o caf e cozinhar alguns
ovos. 
Durante duas horas, ele examinou os livros de contas, as hipotecas,
as contas bancrias. Seguidamente explicou a La como 
tudo podia ser deturpado e traficado. Ele sabia que o domnio
estava virtualmente entre as mos de Fayard, mas no disse 
nada. 
- No  brilhante. Alis, precisa de um bom contador para se
desembaraar de tudo isto. Eu vou lhe arranjar um. 
- Mas no tenho dinheiro!... 
- Por favor, deixe disso. Eu cuido. Tome um cheque. Isto acalmar o
seu banqueiro por um pouco.  preciso a todo o custo 
manter Mathias  distncia durante algum tempo. O seu trabalho o
absorve, mas ele vai passar em breve  ao. Agora, meu 
amor, tenho de partir... No... peo-lhe... Nada de lgrimas,  a
lembrana de seu sorriso que eu quero levar. 
Ele levantou-se e ela o abraou uma ltima vez, passando e
repassando a mo por seu rosto mal barbeado. 
La e Franois saram, O carro estava estacionado na alameda dos 
pltanos, junto da casa. A noite comeava a cair, mergulhando a
vinha e os pinheiros na obscuridade. 
Ele iria guiar toda noite em direo a Paris, O ar estava ameno
apesar da poca, mas La tremia. A idia de ficar s com 
Camille lhe dava medo. Ele se mostrava to alegre e terno,
brincando com os nmeros, que ela no se deu conta do mal que 
lhe fazia v-lo partir. 
Colado  porta envidraada do vestbulo, o pequeno Charles com a
mo fazia grandes sinais a Franois. Tavernier virou-se 
uma ltima vez e fez-lhe a saudao militar. Charles pulava de
alegria, rindo. Atravs do vidro, no se ouvia o seu riso. 
La aconchegou o xale nos ombros. Era preciso limpar a vinha. 
Franois tomou-lhe a mo e beijou-a furtivamente, como se fosse
voltar alguns instantes mais tarde. No tinha deixado de
sorrir. Instalou- se ao volante e fechou a porta. O barulho ecoou
no silncio da tarde. Ligou o motor sem deixar de olhar
para La.
No momento de partir, atravs do vidro, disse:
- Penso que seria mais prudente se voc viesse viver comigo.
O carro rodou pela alameda, desaparecendo na noite.
La no se moveu.
FINAL DO SEGUNDO VOLUME
Este romance continua no livro O sorriso do diabo da mesma autora
